cap 09 eu até tentei

910 Palavras
REBECA Eu tentei. De verdade. Dei espaço. Me abri. Dei risada, aceitei os silêncios, fui a encontros simples, andei de mãos dadas por aí tentando acreditar que, se eu quisesse muito, o coração obedeceria. Mas ele nunca obedeceu. Ícaro era bom. Do tipo raro. Gentil, educado, me olhava com carinho, me tratava com cuidado. Mas eu não sentia aquilo que a gente sente quando o peito esbarra em outro e o mundo fica em silêncio. Não tremia a perna, não cortava a respiração, não queimava o ar. Não era amor. Era fuga. Por isso hoje, sentada com ele na calçada da praça, depois de tomar um suco e rir sem sentir, eu decidi que era hora. – Ícaro... a gente precisa conversar. Ele me olhou de lado. Não parecia surpreso. – Eu já imaginei. Fiquei em silêncio por um tempo, organizando a bagunça da cabeça. Olhei pro céu, respirei fundo e disse: – Tu é incrível. Sério. Mas eu ainda tô presa em algo que eu não consigo enterrar. E não seria justo continuar te arrastando nessa história m*l resolvida. – Você ainda ama ele? – ele perguntou, direto. Demorei dois segundos. Mas respondi com a verdade: – Sim. Ele não reclamou. Não discutiu. Só deu um sorriso triste e falou: – Obrigado por ser honesta. E... espero que ele mereça tudo que você sente. Tocou no meu braço levemente e foi embora. Sem drama. Sem escândalo. E eu? Fiquei ali. Sozinha. Com o peito leve por ter falado a verdade... Mas pesado por saber que a verdade ainda me doía. Me levantei devagar. Comecei a andar sem rumo, como se o próprio morro me guiasse. O céu tava cinza, o ar pesado. Era como se algo estivesse prestes a acontecer. Mas deixei isso pra lá e fui pra casa, pois ainda tinha que trabalhar na próxima semana – vida de gente pobre é f**a de amiga. (...) Eu acordei com o som dos tiros. Primeiro achei que era um sonho, mas o barulho seco se repetiu... uma, duas, três vezes. O peito apertou na hora. Meus olhos se abriram como se alguém tivesse gritado no meu ouvido. E aí, eu soube. Tava acontecendo alguma coisa no morro. Me levantei num pulo, os pés descalços no chão frio, coração disparado. Corri pra janela e puxei a cortina com tudo. Escuro. Só dava pra ver umas luzes acesas pelas casas. E lá no fundo... o som do caos. Gritos, latidos, passos correndo, sirenes distantes. Felipe. Meu coração já gritava o nome dele antes mesmo de eu pegar o celular. "Por favor, atende..." Liguei uma vez. Nada. Liguei de novo. Nada. Liguei mais cinco vezes. Caixa postal. Minhas mãos tremiam. A respiração vinha em ondas curtas, descompassadas. Eu andava pelo quarto igual uma maluca, os pensamentos correndo mais rápido que as batidas do meu peito. Eu sabia que ele andava mais calado ultimamente, que tava tentando se afastar, mas também sabia... ele nunca conseguia sair totalmente. E se ele tava lá? E se um tiro desses pegou nele? O desespero começou a me consumir por dentro. Eu senti a garganta fechar, uma vontade absurda de gritar, de sair correndo morro abaixo perguntando por ele. Mas eu tava presa ali. Como sempre. Presa entre o medo e o amor. Entre a raiva de tudo isso e o medo de perder ele de vez. Comecei a digitar: Mensagem on "Felipe, me responde, por favor." "Você tá bem?" "Diz que cê tá vivo." "Não faz isso comigo..." Mensagem off As mensagens iam, mas não voltavam. Nenhum azul. Nenhum "gravando áudio". Nenhuma maldita notificação. Eu queria quebrar tudo. Joguei o celular na cama com raiva. Me sentei no chão, encostada na parede, abracei os joelhos e senti as lágrimas queimando meu rosto. – Por que você foi? Por que hoje? Minha voz saiu rouca, quase inaudível. O quarto estava escuro, mas dentro de mim tava mais ainda. E por mais que eu soubesse que amar o Felipe era perigoso, eu nunca tinha sentido esse tipo de medo. O medo real de perder. De verdade. Rezei. Coisa que eu quase nunca fazia. Mas ali, naquele momento, não me restava mais nada. Só a fé e a saudade. – Deus... se ele tiver bem, se ele só estiver escondido... me mostra. Eu juro que vou agradecer todos os dias. Só não deixa ele morrer. Por favor... A noite passou devagar. Cada segundo era uma tortura. Os tiros cessaram em algum momento, mas minha cabeça ainda ecoava o som deles. Não consegui fechar os olhos. Nem respirar direito. Só fiquei ali, encarando a tela do celular como se ela fosse me trazer respostas. Quando o céu começou a clarear, eu ainda tava acordada, os olhos inchados, o coração exausto de tanto bater. E foi aí que ele vibrou. E era ele. Veneno Mensagem de áudio Eu tremi inteira. Apertei o play com o dedo suando frio. "Tô bem. Não sai de casa. A gente precisa conversar." A voz dele. Rouca. Viva. Respirando. Eu desabei. As lágrimas finalmente vieram com força. Me curvei na cama e chorei. Chorei como uma criança que reencontra a mãe depois de se perder. Chorei de medo, de raiva, de amor, de tudo junto. Apertei o travesseiro contra o peito. Ainda tinha o cheiro dele. Ainda parecia que ele tava aqui. E então eu soube. Era ele. Sempre foi. Mesmo com todo o risco. Mesmo com toda a dor. Mesmo se for a minha perdição.
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