cap 08 invasão

1098 Palavras
REBECA Já fazia dias que eu tentava me convencer de que tava tudo bem. Ícaro era um cara incrível. Do tipo que escuta, que respeita, que pergunta antes de tocar. Do tipo que manda mensagem dizendo "chegou bem?" e lembra de que cor era minha blusa ontem. Mas ainda assim, não era o veneno. E por mais que eu me xingasse por isso, meu coração teimava em lembrar de cada detalhe dele. Do toque. Da voz rouca. Do jeito que ele me olhava como se eu fosse pecado e salvação ao mesmo tempo. Mas mesmo lembrando... eu não voltaria. Não depois da mentira. Do silêncio. Do desrespeito. Então segui. Me forcei a viver. E foi num sábado à tarde, quando eu tava saindo da escola técnica com a mochila nas costas e a cabeça no mundo da lua, que eu vi ele. Veneno. Parado do outro lado da rua. Sozinho. Sem moto, sem parceiro, sem boné. Só ele. Real. Cru. Quase... pequeno. Meu peito apertou. Mas continuei andando. Ele atravessou. Parou na minha frente. Me olhou com os olhos mais cansados que eu já vi. – A gente pode conversar? Suspirei. Olhei pro lado, pra cima, pra tudo... menos pra ele. – Já conversamos, Felipe. Quando você escolheu esconder a verdade. – Eu fui covarde, Rebeca. Eu sei. – Então pronto. A gente tá de acordo. – Mas me escuta... por favor. Fiquei em silêncio. Por dentro? Tremendo. Por fora? Congelada. – Eu deixei ela – ele disse, a voz falha. – Cortei tudo. Não por você. Por mim. Porque aquilo não era vida. E eu só percebi isso... quando quase perdi a única coisa verdadeira que eu tive nos últimos anos. – E eu sou isso? "Coisa verdadeira"? – Tu é mais que isso. Tu é tudo que eu queria guardar pra mim. Mas eu fui moleque. Deixei o medo decidir por mim. Ele se aproximou, devagar. O cheiro dele bateu. A memória voltou. A vontade também. – Me dá uma chance. Só uma. Pra fazer certo. Pra ser limpo, de verdade. Eu olhei nos olhos dele. E era ele. O mesmo Felipe que me fez queimar. Mas agora... com cinzas nos ombros. E eu? Eu queria. Queria tanto. Mas... – Eu te amei, Felipe. Muito mais do que devia. – E eu ainda te amo. – Mas não volto. – Por quê? Engoli seco. A garganta fechada. O orgulho em pé. – Porque eu demorei muito pra me juntar. Não vou me quebrar de novo. Ele abaixou a cabeça. Não insistiu. Não gritou. Não implorou. – Tá certo. – ele disse, com a voz baixa. – Eu te entendo. – Espero que entenda mesmo. – Cê ainda vai me ver por aí. – Eu sei. – Mas agora... de longe. Ele virou as costas e foi embora. E eu? Fiquei ali parada. Forte por fora, desmoronando por dentro. Chorei sozinha mais tarde. No banho. No travesseiro. No ônibus. Porque ninguém fala disso, né? Do quanto dizer "não" pra quem a gente ama também dói. Felipe veneno sumiu depois disso. Dizem que focou nos negócios. Que tá calado, misterioso. Que a favela respeita ainda mais. Mas eu sei que por dentro... Ele carrega o mesmo buraco que eu. E o pior de tudo? Eu ainda sonho com ele. Mas sonho acordada. Com os pés no chão. E o coração blindado. (...) VENENO Acordei com um barulho estranho. No começo, pensei que fosse sonho, algo distante, um estalo, um som de fogos. Mas o céu estava iluminado por aquelas luzes que ninguém quer ver: fogos de guerra. Não eram de festa, eram sinal de invasão. O morro rival tinha chegado. O rádio chiava com vozes nervosas, as informações pulavam uma em cima da outra. "Subiram pelo beco da escola... atiraram no ponto de vigia... queimaram o depósito... caiu a comunicação com a base de baixo." O morro inteiro virou um campo minado. Era o inferno de novo, só que dessa vez, eu não tinha mais força pra segurar tudo. Joguei a camisa no corpo, peguei a pistola e desci correndo pelas escadas. O cheiro de pólvora já invadia o ar, misturado com suor e medo da galera. Gritos e tiros vindos de vários cantos. Já tinha gente caindo, sangue espalhado, gritos cortando a madrugada. – Veneno, os cara tão subindo pela escadaria central! – gritou um dos manos, nervoso. – Fecha as saídas! – ordenei, a voz grossa, mas com o coração martelando no peito – Não pode deixar eles passar! Me joguei atrás de uma parede, atirando contra os invasores que avançavam como uma horda enfurecida. O morro que eu construí estava sendo queimado com fogo e bala. Vi um garoto da minha equipe ser derrubado do lado. Não podia pensar, só atirar, recuar, respirar, repetir. Os tiros vinham de todos os lados. A viela virou um campo de batalha, com a escuridão iluminada pelas rajadas e pelos fogos no céu. – Jonas tá ferido, precisa ajuda na laje 13! – avisaram pelo rádio. – Manda reforço pra ele, eu cubro a entrada da escola! – gritei. A tensão era tanta que o ar parecia cortar a garganta. O morro inteiro estava em guerra. Cada tiro que dava, cada bala que desviava, fazia a sensação de que o chão podia ceder. No meio do caos, senti uma fisgada no braço. Um impacto quente, a dor queima, que chega sem avisar. Olhei pra baixo: sangue escorrendo, o tiro tinha me pegado. Mas não podia parar. Levantei, mesmo cambaleando, e continuei avançando contra o inimigo. Tentei me manter firme, mesmo com o mundo girando. Até que veio a segunda bala. Dessa vez na perna. Dor aguda, impossível de ignorar. Caí no chão, engatinhando, tentando não deixar o corpo ceder. – Veneno! Segura firme! – ouvi vozes, enquanto dois manos me puxavam pra trás. No meio da confusão, tudo que eu conseguia pensar era nela. Rebeca. O fogo no céu era nada perto do fogo que queimava dentro do peito por causa dela. As lembranças vieram violentas: o jeito que ela sorria, o olhar que me despedaçava, a decisão dela de ir embora. A dor era física, mas o que me corroía era o silêncio dela. A ausência. A distância. A saudade que não se cura. Seguraram meu braço, tentaram estancar o sangue, enquanto a batalha continuava. Eu queria ficar ali parado, mas não podia. O morro precisava de mim, mesmo que meu corpo estivesse pedindo pra desistir. Olhei para o céu. Os fogos queimavam como a minha mente. E tudo que eu consegui pensar foi o nome dela: "Rebeca..."
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