cap 07 aprendendo a viver

1006 Palavras
VENENO Acordei com o rádio da escuta chiando, vozes cruzadas e tom de merda no ar. – "Sumiu o carregamento." – "Os caras da facção rival fizeram o rapa na parte alta." – "Foi entrega errada ou alguém dedurou." Merda. Merda logo cedo. Peguei o rádio, mandei geral se reunir na laje de cima. Queria cara por cara me olhando no olho e jurando que não sabia de nada. Mas o silêncio falou mais alto que qualquer palavra. Tinha traidor no morro. E quando tem traidor... tem sangue. Me sentei no canto, com a arma na cintura, a cabeça latejando e o coração batendo errado. Eu tava cansado. Desde o dia que Rebeca virou as costas, nada encaixava. A comida perdia o gosto, a noite não passava, e o cigarro só servia pra disfarçar a vontade de ir atrás dela de joelho. Mas hoje, hoje eu não podia pensar nela. Tinha coisa pior. Cinco mil em mercadoria roubada. Arma que sumiu. Parceiro desaparecido. O morro tava tremendo, e o nome Felipe veneno tava na mira. Fui bater na quebrada da frente, avisar que se a mercadoria não aparecesse, ia chover chumbo. Olhei no olho de cada líder da área e deixei claro: "não é ameaça, é promessa." Voltei pro carro, suado, irritado, com o pescoço tenso. E foi aí que o destino cuspiu na minha cara. Passei pela parte baixa e vi ela. Rebeca. Sentada num banco, rindo com um cara qualquer. Um moleque qualquer. Um sorriso leve, de quem não tava carregando dor nenhuma. Ela segurava a mão dele. Encostava o corpo nele. E eu? Assisti tudo. Parecia que meu peito foi rasgado com faca cega. A mesma mulher que me tirava do eixo, que deixava meu mundo mais leve, tava ali, sendo leve com outro. Dando o sorriso que eu pensei que era meu. Mostrando os olhos que eu nunca mais tive coragem de encarar. E ela viu o carro. Ela sabia. Sabia que eu tava ali, vendo. E mesmo assim... continuou rindo. Eu juro que por dois segundos, minha mão foi na arma. Não por ele. Mas porque a raiva que subiu em mim queria destruir alguma coisa. Qualquer coisa. O carro, o vidro, o mundo. Mas respirei fundo. Apertei o volante com tanta força que minha mão chegou a tremer. E fui embora. No rádio, os caras me chamavam de novo. Mais uma treta estourando. Mais um corre errado. Mas naquele momento? Nada importava. Porque eu entendi que no mesmo dia em que perdi no morro, também perdi a única pessoa que fazia tudo isso valer a pena. Rebeca me esqueceu. E eu... tô esquecendo como é viver sem ela. (...) REBECA Sabe aquela sensação de acordar leve? De respirar fundo e não sentir dor no peito? Pois é. Eu não conheço mais isso. Desde que descobri que o Felipe era casado, que tinha mulher e uma vida por fora, nada mais foi leve. Nem o ar, nem o café, nem os passos pela rua. A favela não mudou, mas eu mudei. E agora, cada canto dela me lembra dele. Mas eu tô tentando. Juro que tô tentando. Acordo cedo, tomo meu banho, amarro o cabelo, coloco meu short jeans e a camiseta de sempre, pego a bolsa com as quentinhas e vou pra rua com o mesmo sorriso que aprendi a forçar desde nova. Só que por dentro, o coração ainda tá... quebrado. Mas aí, naquele dia comum, ele apareceu. O nome dele é Ícaro. Mora numa das partes mais baixas do morro. Trabalha numa barbearia pequena, toca violão na igreja da mãe e tem um jeito calmo que, de início, me irritou. Mas depois... me fez respirar. Me viu subindo a viela com a caixa das marmitas equilibrada no braço e falou: – Ei, deixa eu te ajudar. Tá pesadão isso aí. – Tô de boa. – respondi, seca. – Certeza? Porque teu braço tá tremendo igual o da minha vó segurando panela. – Ele riu. Eu ri também. Contra minha vontade. E foi aí que começou. No outro dia ele passou de novo. Comprou uma quentinha. No outro, voltou. Trouxe uma paçoquinha. E no outro... me esperou na saída da escola com um sorriso e uma garrafinha de suco. Nada demais. Nada intenso. Mas tudo leve. Com o Ícaro, eu não fico em alerta. Não fico tentando entender o que ele quer dizer quando me olha. Não fico com medo de me queimar. Só fico. E isso, pra quem quase virou cinza... é raro. Mas ainda assim... Não é ele. Não é o veneno. Por mais que eu tente, o nome dele ainda pulsa na minha cabeça quando tô sozinha. Quando deito. Quando fecho os olhos. Quando escuto um funk mais sujo no fone. Quando passo pelo lugar onde quase me beijou. Ícaro é flor. Veneno é faca. Mas tem dias que a gente quer flor. E tem dias... que a gente quer sangrar só pra sentir alguma coisa. Hoje fui com o Ícaro até a praça nova lá embaixo. A gente sentou no banco, tomou refrigerante e riu de umas besteiras. Ele tentou tocar uma música no violão de plástico do primo dele, e eu ri como há tempos não ria. Verdadeiro, mesmo. Mas no meio da risada, meu olho bateu num carro escuro parado no canto da rua. Era o carro dele. Do veneno. E eu senti. Senti o coração travar. A respiração cortar. A boca secar. Ele tava lá dentro. O vidro escuro, mas eu sabia que ele tava vendo. E eu também deixei ele ver. Segurei a mão do Ícaro. Encostei no ombro dele. Ri mais alto. Não por maldade. Por vingança. Por desespero. Talvez por orgulho. Talvez porque eu queria que ele sentisse o mesmo vazio que deixou em mim. O carro saiu depois de uns minutos. E eu... fiquei ali. Fingindo que o mundo tava certo. Mas no fundo, uma parte minha sussurrava: "Você não esqueceu." E não, eu não esqueci. Mas talvez... tô aprendendo a sobreviver mesmo com o incêndio ainda queimando.
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