A noite não terminou. Apenas trocou de máscara.
Depois que a ligação caiu, a casa ficou num silêncio tão denso que parecia sólido. A qualquer movimento, o ar rangia. Sophia passou horas deitada, olhos abertos no teto, contando as fissuras do gesso como quem conta pecados. O relógio da mesa de cabeceira marcava cada segundo com crueldade, e, a cada tique, o mundo anterior se afastava um pouco mais.
Levantou quando o céu ainda era azul profundo. A luz da madrugada entrava pela janela como água fria. Os carros permaneciam diante da mansão, alinhados com precisão militar. Um dos homens andava de um lado a outro na calçada, mãos nos bolsos do sobretudo, olhar atento. Ao compasso dos passos dele, o medo dentro de Sophia aprendia a marchar.
No espelho, quase não se reconheceu. O cabelo castanho emaranhado, as olheiras profundas, a pele pálida de quem atravessou uma guerra sem sair da cama. Passou água no rosto, prendeu o cabelo num coque apressado e vestiu a primeira coisa que encontrou: moletom, calça de algodão, um par de meias velhas. Sem joias. Sem perfume. Zero de tudo o que, até ontem, definia a versão pública de Sophia Bennett.
Desceu a escada devagar, dedos deslizando pelo corrimão gelado. Encontrou a mãe na cozinha, sentada à mesa, intacta como porcelana antiga. Catherine segurava uma xícara de chá com delicadeza que parecia medo. Sobre a mesa, o rosário de pérolas formava um oito infinito.
— Dormiu? — a mãe perguntou, sem levantar os olhos.
— Quem dorme com um pelotão na porta?
Catherine respirou fundo. A mordida no lábio inferior quase apagou a cor do batom.
— Você não precisa ser corajosa o tempo todo, querida.
— Engraçado — Sophia puxou a cadeira e se sentou —, me disseram que agora preciso ser muita coisa.
— Sua avó dizia que coragem não é ausência de medo. É andar com ele.
Sophia fixou o olhar no vapor que subia da chaleira. Por um momento, quis ser criança outra vez, quando problemas eram notas na escola ou vestidos que pinicavam a pele. O cheiro de pão tostando quase a enganou. Quase.
— Ele vai voltar — Catherine murmurou, como quem teme dar forma a um pesadelo dizendo-o em voz alta. — Esses homens no portão... Não vão embora.
— Nunca mais vão embora — Sophia concordou.
Ouviu passos arrastados no corredor. Richard apareceu à porta, a barba por fazer, o robe pendendo nos ombros, o olhar em castigo permanente. Os olhos dele eram duas luas minguantes.
— Eu... — começou, e a voz quebrou como galho seco. — Sophia, eu...
— Não — ela disse, e não foi alto nem grosso. Foi definitivo. — Sem discursos. Não agora.
Ele assentiu, encolhendo-se, e sentou diante delas com cuidado, como se temesse quebrar a cadeira, o chão, o mundo. Ficaram assim, os três, por longos minutos. Ninguém tocou na comida. O relógio da cozinha mudou para dez para as seis.
A campainha tocou.
O som cortou a sala como lâmina nova. Richard deu um pulo, mas foi Catherine quem respirou fundo e se levantou. Sophia já estava à frente, os pés se movendo mais rápido que a cabeça. Abriu a porta com a corrente ainda posta. Do lado de fora, havia um homem e uma mulher. A mulher tinha um tablet numa mão e uma pasta de couro na outra. O homem — gigante, pescoço grosso, tatuagens escondidas por uma camisa impecável — parecia uma parede.
— Bom dia, senhorita Bennett — a mulher disse, o sorriso no rosto sem se atrever aos olhos. — Sou Bianca. Trabalho para o senhor Romano.
— Claro que trabalha — Sophia murmurou.
— Posso entrar?
— Pode falar daqui.
Bianca assentiu, sem se ofender, e deslizou um papel sob a fresta.
— Agenda da semana. Às dez, entrega de aparelho de telefone. Às onze, chegam costureira e estilista para medidas. Ao meio-dia, almoço enviado pela cozinha do Romano. Às quinze, aula de etiqueta e italiano básico. Às dezoito, um carro vai buscá-la para jantar com o senhor Romano.
— Não vou a jantar nenhum.
— Vai — o homem ao lado de Bianca falou, a voz baixa como ameaça que não precisa de volume.
Sophia ergueu o queixo.
— Seu nome?
— Marco.
— Marco, você me conhece há quanto tempo para falar comigo assim?
— Não preciso conhecê-la para entender que não peço duas vezes — disse, sem pestanejar.
Bianca tocou o braço dele, um aviso silencioso. Voltou-se para Sophia, tom calmo, quase doce.
— O senhor Romano pediu que eu deixasse isto. — Tirou uma caixa pequena da pasta. — É um telefone novo. O seu atual foi desativado. Este está habilitado para ligações específicas. Meu número e o dele já estão na agenda. E... — abriu outra caixa, mais pesada — o passaporte.
Sophia piscou.
— Meu...?
— Seu passaporte novo, senhorita. Documento de viagem com sobrenome Romano, válido por... — conferiu no tablet — dez anos.
A palavra "Romano" no papel brilhou feito lâmina. Catherine soltou um som, meio riso, meio soluço. Richard escondeu o rosto nas mãos.
— Não aceito — Sophia disse, embora as mãos já estivessem suadas ao toque da caixa. — Podem enfiar o passaporte onde...
— Sophia — a mãe sussurrou, pedindo, não repreendendo.
Bianca manteve o sorriso mínimo.
— Entendo. É só um documento, por enquanto. O senhor Romano não gosta de imprevistos. Prefere... agilizar.
— Agilizar minha vida? Ou minha venda?
Bianca respirou fundo. O tablet brilhou no reflexo do vidro.
— Às dezoito, um carro — repetiu, recuando um passo. — Ah, e o segurança que ficará interno se chama Nico. Responde a mim. E ao senhor Romano, obviamente.
— Interno?
— Dentro da casa.
— Na nossa casa? — Richard ergueu a cabeça, vermelho.
— Na casa dele — Marco corrigiu, sem esforço. — A partir de hoje, tudo da senhorita Bennett interessa ao senhor Romano. Por extensão, é dele.
A corrente na porta tilintou quando Sophia a soltou com força demais. Fechou a porta antes que mais ar de fora entrasse. Encostou as costas na madeira, precisando dela como apoio.
— Dentro de casa? — Catherine repetiu, perdida.
— Dentro — Sophia respondeu, e a palavra, em sua boca, tinha gosto de ferro.
O primeiro a atravessar a sala foi Nico. Entrou sem bater, acompanhado por dois homens que carregavam caixas, e varreu o ambiente com olhar de checklist. Nada sujo, nada confuso, nada fora do controle. Tinha o cabelo cortado raso, a barba limpa, uma cicatriz fina no queixo. Não era bonito, mas possuía aquela eficiência que tornava os monstros organizados. Cumprimentou Catherine com um aceno, ignorou Richard, parou a um passo de Sophia.
— Senhorita Bennett — disse.
— Tem sobrenome, Nico?
— Santoro.
— Claro que é Santoro.
— A partir de agora, acompanho-a em tempo integral. Se for ao jardim, vou junto. Se for ao banheiro, fico do lado de fora. Se for à cidade, vou no banco de trás. Se tentar fugir, não conseguirá.
— Está claro — Sophia respondeu, sem baixar os olhos. — E se eu quiser caminhar sozinha por cinco minutos sem um homem como sombra?
— Pede pro senhor Romano.
— E se eu não pedir?
— Então não caminha.
Fez um sinal para os homens, que desapareceram pelo corredor com as caixas. Sophia seguiu o som, como se perseguisse um bicho ferido. Encontrou-os no escritório do pai, empilhando objetos já organizados. Pastas, livros, uma garrafa de uísque esquecida na estante.
— Nem pensem em tocar nesses papéis — Richard cruzou a sala num lampejo de bravura que não alcançou metade do caminho.
Nico ergueu uma mão. Os homens congelaram.
— Papéis pessoais ficam. Qualquer papel que mencione Romano vai para a pasta preta — sentenciou.
Sophia percebeu então a etiqueta. "R". Não de Richard.
Ela foi para o jardim. Precisava de céu. O ar não melhorou, mas pelo menos a luz era maior. As roseiras ainda sorriam para ninguém, os cisnes ainda deslizavam como se vivessem em outro planeta, e o gazebo vitoriano continuava no lugar, igual à lembrança. Só ela havia mudado. E tudo ao redor dela.
Nico veio alguns passos atrás, como sombra disciplinada.
— Vou só respirar — Sophia disse.
— Respire.
Caminhou até o gazebo. Subiu os três degraus, os mesmos passos da infância, onde fingira ser Elizabeth Bennet e imaginara um Mr. Darcy saindo da neblina. A ironia não ri. Só observa. Sentou no banco de madeira. O ar tinha cheiro de manhã, de terra molhada, de algo que estava prestes a acontecer.
O celular vibrou. O novo. Nem lembrava de tê-lo tirado da caixa. A tela acendeu com um número sem nome. O coração deu um solavanco estranho.
Atendeu.
— Principessa.
A palavra deslizou pelo ouvido como seda áspera.
— Você é uma assombração? — perguntou, odiando a leveza falsa da própria voz.
— Sou pontual.
— Já colocou um homem dentro da minha casa.
— Dentro da minha casa — corrigiu, sem elevar o tom. — Tudo que toca você me diz respeito.
Ela apertou o banco com os dedos.
— Você não manda em mim.
— Mando no que me pertence.
— Não sou coisa.
— Não. É a exceção que confirma a regra.
— Então por que me tratar como se fosse?
Houve um breve silêncio do outro lado, uma pausa afiada.
— Porque ainda não entendeu — Lorenzo disse. — Honra, dever, família. Palavras velhas, eu sei. Mas sou um homem de palavras velhas. Quando digo que é minha, não é metáfora. É contrato, sangue e consequência.
— E romance? — Sophia perguntou, com um riso curto que não era humor. — Isso entra em qual pasta da sua organização?
— Não ponho nome no que ainda não provei.
Ela sentiu o rosto esquentar. O insulto passou perto, mas não a atingiu onde ele queria. Bateu em outro lugar.
— Às dezoito, jantar — continuou. — Vista algo que me faça perder a educação.
— Não vou.
— Vai.
— Quem garante?
— Eu.
— Acha que me intimida?
— Não. Já a intimidei ontem. Hoje, treino você.
A palavra mordeu. Sophia fechou os olhos um segundo.
— Treina?
— Sua cabeça. Sua língua. Sua paciência. E, se deixar, sua pele.
A respiração dela falhou por um instante. Nico, a alguns metros, era um poste humano fingindo não ouvir nada.
— Não vou deixar.
— Ainda.
Ele retirou o som da linha e devolveu em forma de presença. Quando respondeu, a voz estava mais próxima, como se atravessasse o fone.
— Tem uma caixa na sua cama — Lorenzo continuou. — Abra. Se gostar, use hoje à noite. Se não gostar, escolha outra coisa. Mas venha. Não me faça ir buscá-la.
— Me buscar? — soltou uma risada incrédula. — Vai me arrastar pelos cabelos?
— Não. Pelos olhos.
A ligação terminou. Ficou no ouvido dela como um perfume caro demais no lugar errado.
Voltou para dentro, cruzando o gramado com passos medidos, consciente demais do próprio corpo. Nico, corretamente discreto, manteve a distância de sombra. Catherine a esperava no corredor, as mãos unidas, como quem se segura para não cair.
— O que ele disse?
— Agenda. Regras. E uma ameaça de etiqueta.
— Sophia, não provoque esse homem.
— Não fui eu quem convidou a tempestade, mãe.
No quarto, a caixa estava de fato sobre a cama. Preta, sem logo. Pesada. Uma fita vermelha dava a volta como se amarrasse um segredo. Sophia ficou parada um instante, só olhando. Abriu. Por dentro, papel de seda. Afastou, e então viu.
Um vestido.
Vermelho. Profundo. Decote que começava correto e terminava perigoso. Tecido que parecia ter sido cortado para um corpo que ele nunca tocou, mas já conhecia. Debaixo, um par de sandálias douradas, finas, delicadas. E, numa caixinha menor, um colar. Ouro simples, uma pequena placa.
"R".
Ela riu. Um som curto, sem alegria.
— Nem usando minha garganta como troféu, Lorenzo.