Chapter XXV

3539 Palavras
(continuação Chapter XXIV) - Posso saber qual é? - indagou, sua expressão pura e genuinamente interessada naquilo que Styles guardaria para si até seu túmulo, já que provavelmente a maioria de suas coisas eram confidenciais e ele raramente revelava para qualquer outro. Louis meio que sentia que haviam coisas ... De Harry. Sim, coisas de Harry. Como uma pasta imaginaria de um gaveteiro esquecido onde todos os significados de suas manias bobas estavam descritos, onde todos os porquês de seus comportamentos e sonhos estavam traduzidos, e onde o verdadeiro Harry poderia ser encontrado. Por fora você enxerga suas cores, seus sorrisos e assiste aos seus costumes esquisitos e conduta lamentável... Mas, la dentro, trancafiado sob mil fechaduras, haviam respostas. Não necessariamente justificativas - alguns atos jamais serão justificados - mas respostas. Isso não era exclusivo de Harry, embora. A maioria das pessoas, na concepção de Louis, são esse conjunto intrínseco de arquivos pessoais em oposição a o que há externamente. Se fosse explicar em uma analogia mais ampla, seríamos como a Anatomia e a Fisiologia, em que na primeira você estuda o corpo em si, e na segunda o seu respectivo funcionamento. O problema é que poucos, poucos mesmos, se importam o bastante ou se dispõe a conhecerem algo além do anatômico, a julgar sem ser pelo o que parece às suas vistas - porque, claro é mais fácil -, e buscar ir a fundo em seu conhecimento, se preocupando em descobrir a razão por trás daquilo.  Unanimemente Harry parecia não ter ninguém ao seu redor que quisesse verdadeiramente entende-lo. Sim, haviam alguns que o idolatravam e ficavam a sua mercê para qualquer desejo.. Mas... Mas no fundo eles estavam se aproveitando.  E quem não se aproveitava, o julgava, ou o repudiava, ou o criticava... Ninguém queria honestamente compreender alguém tão temperamental, m*****o e ácido. E não podia-se nem mesmo culpa-los por isso, porque Harry na maioria das vezes agia como um imbecíl. Mas... E se alguém houvesse se importado? E se alguém engolisse o orgulho e se sentasse em sua frente apenas para observa-lo em silêncio, sem as luzes douradas reluzindo suas jóias? E se alguém houvesse se interessado anteriormente pelo motivo dele se irritar facilmente? Ou por que acorda cedo toda manhã e geralmente faz caminhadas solitárias pelo jardim? Por que ele se importa tanto com o luxo? Ou até mesmo o que há por trás de sua obsessão com prazeres carnais? A coisa é... Pessoas tem seus motivos. E estes geralmente são ignorados pois abrevia-las por suas ações e estereotipa-las é menos trabalhoso do que buscar entende-los.  Bom, Louis estava lá, certo? Ele estava lá e não se importava em ceder seu tempo ou qualquer valor que estivesse abrindo mão para escuta-lo. Louis não via problema em ser alguém - possivelmente o primeiro - a demonstrar-se verdadeiramente cativado pela história de Harry. Talvez fosse o que Harry precisasse todo esse tempo... Um par de ouvidos e um pouco de atenção. Styles fazia tantas besteiras para ter atenção geral que no fundo era outro tipo de atenção que ele carecia. E Louis não se incomodava de ser alguém para lembra-lo que ele importava. Ele e suas manias idiotas, e sua infância ou qualquer coisa que ele se sentisse confortável a revelar. Quando você adota um animal de rua, você nunca será capaz de saber pelo o que ele passou, mas você terá uma leve noção a partir dos traumas que ele trouxer do passado. E Harry - aquele gatinho arisco e sem-teto - aparentava ser alguém com muitos deles, embora escondesse-os bem. - Me conte, Príncipe Edward, por que Carolina lhe é tão especial? - Tomlinson insistiu, oferecendo um olhar sereno e tranquilo. Styles desviou seu foco para o próprio colo, subitamente sentindo-se muito tímido e impotente para aquilo. Era só...era só um grande passo, entende? Era uma parte dele, e ele não estava acostumado a publicar partes dele para ninguém. A partir de uma decisão incerta e um suspiro falho sua voz finalmente entrecortou o ambiente, soando mais reservada do que gostaria. - Quando eu entrei aqui, digo, na minha primeira temporada, eu ainda era muito... Jovem. - Styles pingaterreou, piscando rápido como para disfarçar sua comoção no assunto. - Honestamente, era bobo também, pirralho, entende? Enquanto a maioria já tinha sua maioridade e agia como jovens adultos eu estava na fase de adolescente. Tornei-me o mascote da temporada. Harry soltou um riso breve desdenhoso. Suas gramas de verão estavam fixas no mesmo ponto e ele aparentava estar profundamente distante, avoado em sua divagação, sentindo as sensações que as próprias palavras causavam. Louis se absteve de qualquer comentário, permanecendo atento às revelações. - Uma vez, durante uma aula de equitação, um dos príncipes sofreu um acidente quando seu cavalo se assustou com uma cobra. E ele caiu de costas e acabou por fraturar uma costela. Tomlinson assentiu, flagrando a profundidade da lembrança que Harry vivia.  Ele era tão intenso em tudo que falava, tudo que transmitia. - Os outros príncipes imediatamente se reuniram para um desafio e******o de caçar a cobra que havia fugido para dentro do estábulo. Eu estava no meu canto e observava quieto, mas... Mas eu não me aguentei quando eles a capturaram e começaram a tortura-la. Os olhos verdes de Harry - e toda a resplandecência daquele tom - pareciam aguados, desfocados, ameaçando se quebrar em comoção. - Eles atiravam pedras nela enquanto a cobra corria para a floresta. Ela foi evidentemente acertada no percurso por uma das grandes e parecia doloroso demais para ela continuar rastejando e se salvar.  - Príncipe Edward? - Louis chamou, cuidadoso. Styles estava um pouco trêmulo e atônito demais para responde-lo. - A cobra simplesmente desistiu de lutar pela vida e ficou imobilizada, recebendo mais pedradas como se aquilo fosse um castigo por ter assustado o cavalo. Uma lágrima solitária escapou da pálpebra inferior de Harry enquanto ele engolia um bolo em sua garganta. - Eles me puxaram até lá, eu era o mascote e como pareciam sempre em busca de algo que me atingisse perceberam que eu estava perturbado com aquilo. Entregaram-me pedras na mão e ordenaram que eu as atirassem nela. A mão direita de Styles se fechou, agarrando com força o tecido macio de sua calça. - E-eu não queria. A cobra estava praticamente já morta, m*l se mexia, não havia necessidade daquilo. É um animal, apenas igual a nós, e ninguém deve machucar um animal. - sua voz se quebrou. - Eles estavam me pressionando e foi difícil de suportar, tudo que fiz foi correr como um covarde em direção ao palácio. Styles soava como uma taça de vidro fina, fácil de quebrar. - Como eu era o mascote, eles me puniram.  - Puniram-o? - Louis repetiu, preocupado. - Ao me acharem dentro do palácio eles primeiro me bateram, me bateram de verdade. Mas eu já estava acostumado, porque, você sabe - uma risada sem humor - um pirralho afeminado demais, o perfeito motivo de chacota. A acidez de seu tom era o suficiente para delatar o quanto de rancor ele tinha pelo episódio. - Essa punição não me incomodou. Eu estava satisfeito por não ter participado daquela monstruosidade. Bem, até que de noite, quando fui ao meu quarto para deitar-me, deparei-me com o corpo da cobra, morta, em cima do meu colchão. - Isso é deplorável. - Tomlinson bufou, indignado. Styles relevou sua fala e permaneceu com a cabeça avoada, inspirando lentamente. -  A partir daquele dia eu percebi que... eu era mesmo um i****a. E prometi que ninguém nunca mais passaria por cima de mim.  - Então você se transformou em quem é hoje? - Eu diria que foi uma construção gradual. - respondeu prendendo o lábio inferior entre os dentes. - Sente-se orgulhoso por isso? De ter aberto mão de quem era para se tornar alguém odiado e repudiado pela maioria? - Louis indagou, curto e doloroso. Ele nunca mediu muito suas palavras, eram sempre honestas demais independente do quão cruas e esmagadoras soassem. - Valeu a pena? - Eu nunca me esforcei para tal. - Você não me respondeu a pergunta. Valeu a pena, vossa alteza? Harry por fim levantou sua cabeça e encarou-o significativamente com suas orbes frias. - Louis, quando eles te temem, eles te respeitam. - cantarolou, quase forçado e encenado, a perversidade salpicada nas beiradas. - Então por que você continua a trazer nos dias de hoje fragmentos do passado? Por que ainda anda com a cobra de bengala? Presumo que ela tenha importância inestimável. Harry se calou em um silêncio consciente. Ele nunca admitiria suas rachaduras, suas cicatrizes. Mas Louis era persistente. - Me diga, vossa alteza, qual a razão de Carolina acompanha-lo nos dias de hoje? - insistiu. O príncipe dos longos cachos suspirou em derrota como se realizasse que não haveria outra saída senão confessar. - Ela é o fragmento de quem um dia fui. - admitiu, desviando o olhar para cima, o teto escuro. - Uma última parte minha que eu não posso abandonar.  Louis não disse nada. Nem precisou. Era claro que tinha consagrado seu ponto e sugado de Harry a revelação previsivelmente auto-esclarecedora. -  Gostaria de ter conhecido o antigo Harry. - Tomlinson proferiu, no entanto. - O antigo Harry gostaria de ter te conhecido também. - disse-o segurando um pequeno sorriso lateral. - Você é uma pessoa agradável. Às vezes. - acrescentou com um toque de provocação. - Quando não está sendo um "pré-rei" robótico, me vencendo nos duelos ou falando como se fosse um velho ancião de oitenta anos. - Sou o que sou. - Príncipe William deu de ombros, descontraído, sustentando uma expressão suave no rosto. Ele era a personificação da calmaria. - Eu sei. - Harry replicou, um grande sorriso agora bordado em sua face de porcelana, onde estava implícito e subtendido uma possível continuação para a frase "eu gosto de você dessa forma".  Styles suspirou, encarando significantemente as orbes azuis delicadas. Um pensamento bobo o paralisou, e ele não foi capaz de conte-lo para si antes de estar compartilhando com o príncipe. - Talvez se as coisas tivessem acontecido em uma ordem diferente, e estivéssemos na primeira temporada, você e o antigo Harry poderiam ter se apaixonado e vivido um romance vitoriano clichê. - Harry sentenciou, reparando na maneira confusa de Louis para sua afirmação. - Eu costumava ser um t**o romântico, facilmente impressionável. Você sabe, apenas dezessete anos nas costas e muitas poesias do Yeats teriam me levado até você. - Talvez. - Louis replicou, piscando hipnotizado durante alguns segundos com aquela hipótese rondando seu cérebro e criando um cenário paralelo em que Harry e ele protagonizavam um capítulo de paixão. A imagem era perturbadora, pois ele quase conseguia materializar detalhadamente aquilo - com a exceção de que em sua visão, não se tratava de um antigo Harry, e sim do Harry atual, o qual ele conhecia as extravagâncias e o humor ácido. Após um silêncio estranho, Tomlinson olhou para o relógio de ponteiros na parede oposta a cama, refletindo o quão tarde estava - quase duas da manhã - e que sua insônia parecia prestes a ceder espaço para um cansaço iminente. Seu ato não passou despercebido por Harry, que imediatamente tratou de se levantar um pouco sem graça, esticando o tecido da calça que se amassara. - Bom, vejo que é hora de me retirar. - anunciou, piscando rápido e eufórico. - Foi uma boa conversa. - Louis decretou, sua voz calma e quase preguiçosa, um sorriso extenso formando rugas nas laterais dos olhos azuis. - Obrigado, vossa alteza. - desdenhou uma última vez (ora, era engraçado) e fingiu uma reverência irônica, rindo no final. - Tenha uma boa noite. Talvez fosse exatamente essa atenção que Harry tanto almejara ganhar. Chapter XXV Episode: Just a human Seus olhos se entreabriram com dificuldade na manhã seguinte quando as camadas grossas das cortinas se afastaram e os primeiros raios solares veranistas iluminaram o interior do aposento. - Bom dia, vossa alteza. - Jezebel cumprimentou, despertando-o de vez do estado adormecido. Louis segurou seu bocejo e apenas levantou os braços para se espreguiçar, sorrindo docemente para as duas criadas que já faziam suas tarefas iniciais. - Uh, eu definitivamente não gostei dessa cor, por que não escolheram o verde em um tom mais claro? - Lorena resmungou em um canto do quarto, pendurando o terno verde musgo elegante que confeccionaram para Louis vestir naquele dia. Jezebel revirou seus olhos para a fala da irmã, depositando a bandeja com uma xícara de chá quente no criado-mudo, curvando-se ligeiramente em direção ao corpo do príncipe repousado no colchão. Sua feição de tédio era bem auto-esclarecedora, mas ainda assim ela sussurrou para que somente Louis escutasse. - Ela me contou que o Príncipe Edward veio o visitar na noite passada. E está rabugenta sobre isso desde então.  Tomlinson arqueou uma das sobrancelhas em confusão. - Uh, Lorena não gosta do herdeiro de Malta perto do senhor, ela crê veemente que ele acabará sujando a imagem do senhor, ou o abalando de algum modo. - Jezebel acrescentou. Louis não pôde segurar uma breve risada incrédula para aquilo, porque sinceramente foi hilário de se escutar e Lorena deveria ser considerada o ser mais adorável desse planeta. A jovem olhou do outro lado do cômodo para os dois que cochichavam, bufando audivelmente. A partir dessa demonstração Louis decidiu que era a hora de ter uma conversa com sua fiel companheira de dezessete anos e um temperamento típico de adolescentes. - Jezebel, será que poderia deixar-me alguns minutos a sós com Lorena? - pediu educadamente, sendo retribuído com um breve aceno em concordância e uma última reverência antes que a loira saísse do quarto. Qualquer outra criada provavelmente sentiria inveja da relação que Louis e Lorena estabeleciam, mas Jezebel não se importava, de fato. Ela estava feliz pela irmã mais nova estar mais descontraída e menos reclusa no palácio, e sabia que isso tudo era graças ao dono dos olhos azuis mais profundos de Riverland. - Então, pretende revelar-me o motivo de todo esse mau-humor? - Tomlinson iniciou, sentando-se na cama e apanhando sua xícara de chá. - Sim. - ela disse sem rodeios, largando seu serviço atual e indo se acomodar ao lado do príncipe.  Foi mais fácil e direto que pensou que seria, Louis concluiu. - Eu temo que a presença de Harry influencie o senhor. - a garota dos olhos verdes suspirou. - Vejo que estão cada vez mais próximos e os boatos que escuto sobre esse príncipe na sala dos empregados preocupa-me terrivelmente. - Lor- - Ele leva outros príncipes para o quarto toda noite, corteja damas casadas, cria armadilhas para as pessoas! Louis, ele é malvado. Eu sinto que ele é malvado. Louis parou e se recordou do diálogo que tivera certo tempo passado, onde Zayn criara um bom ponto. - Ele não é malvado, ele só é... Incompreendido. - Como pode saber disso? E se estiver o manipulando? E se ele só quer tentar levar o senhor para a cama?  Isso foi um pouco fora dos limites, sinceramente. Porque ela era uma criada, e estava insinuando coisas terríveis sobre um príncipe, sobretudo mencionando que a intenção do mesmo era atrair Tomlinson para seu covil. Louis não se abalou com sua fala, embora. Ele permaneceu com o semblante calmo e compreensivo. - Ele só está em busca de um amigo, Lorena. - rebateu, a voz lenta e firme, como se estivesse explicando algo para uma criança, ou talvez uma filha teimosa. Ela, no entanto, não pareceu convencida, cruzando os braços em frente ao peito com uma postura rígida. - Sinto que está sendo enganado, vossa alteza. É um sexto sentido meu avisando que isso não acabará bem. Além de que o senhor é uma pessoa tão boa, de coração puro, relacionando-se com um homem... - seu nariz se franziu em uma careta de repúdio. - Intragável, m*****o e perverso. - Não acho que ele seja verdadeiramente assim. É só uma defesa natural. - E se ele se voltar contra o senhor? E se o ferir? - Ele não irá. - Louis garantiu, com tanta certeza e confiança que até aparentava-se um vidente seguro de suas previsões futuras. - O que quer dizer com isso? - Certo. Vamos criar uma situação hipotética aqui, okay? A garota assentiu, abaixando um pouco o orgulho. - Há esse animal de rua- - Pode ser um cachorrinho? - interrompeu-o, perguntando com seus olhos brilhando em entusiasmo. Céus, ela o lembrava tanto sua mãe com esse jeito espontâneo. - Sim, pode ser um cachorrinho. - Louis aceitou, sorrindo comovido. - Bem, então há esse cachorrinho sem dono, que mora nas ruas.  Ele vive constantemente sozinho, e é extremamente agressivo, não permite que ninguém se aproxime. - Por quê? - Bom, talvez isso seja da sua própria personalidade, ou talvez seja um trauma do abandono, não sei dizer. - Certo. - Um dia um indivíduo decide se aproximar do animal, porque ele parece triste e solitário, mas quando estica sua mão para afaga-lo, ele o morde.  Os olhos de Lorena se arregalaram, e ela escancarou um pouco a boca, parecendo verdadeiramente intrigada com o conto. - Então, evidentemente, ele se afasta do bichano e vai embora, como todos os outros. Ela concordou. - Outro dia, essa mesma pessoa se aproxima de novo, incitado pela tristeza que aquele cachorrinho sempre carrega no fundo do olhar. E, novamente, ele é mordido. Mas, dessa vez, ele não vira as costas ou desiste. Ele permanece ali, próximo, e aos poucos leva sua mão para perto do animal. O cachorrinho não permite que ela faça carinho, no entanto também não o ataca como anteriormente. - Uh, isso é altruísta.  Louis negou, replicando: - Isso é humano.  Após um silêncio de consciência, Lorena piscou inspirada, ansiosa para a continuação. - Aos poucos, entre tentativas e progressos, o indivíduo se aproximava mais e mais do cachorrinho arisco, até um dia ser capaz de toca-lo sem que o mordesse. Ele o acariciou, e conquistou sua simpatia, sendo uma exceção para o jeito revoltado do animal. Tomlinson bebeu a última gota de seu chá e devolveu delicadamente a xícara de porcelana para a bandeja, virando-se com suas mãos livres para a Lorena, encarando-a significativamente. - Com o tempo, ele teve a sua amizade, e decidiu levar o cachorrinho de rua para a própria casa, onde não se sentiria mais solitário, não sofreria maus-tratos ou se assustaria com as madrugadas sombrias. - pausou, respirou e prosseguiu. - Me diga, Lorena, o cachorro irá mordê-lo novamente? - Não.  - Irá ataca-lo? - Não.  - E sabe por que não? Porque a pessoa ganhou sua confiança. Ele obviamente avançava em cima dos outros antes porque ataque era sua melhor forma de defesa, uma vez que você está sozinho.  Lorena assentiu calada, em um momento de compreensão nítida do assunto e aonde Tomlinson queria chegar com aquilo. - E por que o senhor se disporia tanto a ser essa pessoa logo para Harry Styles? Louis inspirou fundo, levando sua cabeça em direção à janela do lado, onde sabia que veria exatamente a figura de Harry caminhando sozinho pelos jardins, da mesma maneira que o príncipe fazia todas as manhãs, era praticamente uma rotina - não importa o quão fria amanhecesse- ele sempre estaria perambulando em meio aos canteiros, parecendo sem rumo e um pouco perdido, ora parando para apanhar uma flor, ora sentando-se em um dos banquinhos de madeira para observar em silêncio o canto harmônico dos pássaros.  A pergunta de repente recebeu um sentido extenso e honesto para ele.  Por que ele se sujeitava à tarefa de ser amigo de Harry? Fixou um último momento suas orbes no corpo magro e alto do príncipe, o qual naquele exato segundo estava aspirando o aroma do roseiral, com o nariz próximo de uma linda rosa branca, na parte central do jardim, próximo à trilha de coníferas. - Porque eu acredito que ninguém merece se sentir solitário. - foi sua resposta, proferida como um baque surdo e impactante. - Mas como Harry é solitário se há sempre tantos o paparicando ou visitando-o nas madrugadas? Louis retornou seu foco para a imagem genuinamente curiosa de Lorena, esperando que ela apanhasse a essência de suas palavras, porque honestamente o ambiente já era poético o bastante com a luz escassa do sol iluminando seu rosto de perfil em pinceladas pálidas, e uma janela de vidro transparecendo a imagem de um Harry Styles mergulhado em flores e nostalgia, Yeats certamente seria capaz de escrever um poema bucólico e teatral baseando-se naquele episódio. - Às vezes. - ele começou, pensando em uma boa continuação. - Estar rodeado de pessoas que não se importam é um dos sintomas mais trágicos da solidão. Isso bastou para calar a garota, parecendo o suficiente para captar toda uma moral túrgida como desfecho. - Ele é só um humano. Nós todos somos. Nós todos merecemos um pouco de carinho, sim? - acresceu. Lorena passou a acompanhar o olhar de Louis para afora da janela, observando com ele Styles se afastando dos jardins de flores para o trajeto das coníferas, sendo engolido pela névoa restante da madrugada e um mundo vazio só dele que provavelmente ninguém conheceria.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR