Episode: when it started
Eles estavam estagnados no meio-fio do último domingo antes da iniciação da semana de 'testes e duelos'.
E, infelizmente, o evento organizado não fora um baile com a presença de formosas princesas, vinho seco e escargot. Muito menos uma apresentação de violinos enriquecida com a voz aguda do operista em uma trilha doce vitoriana.
Aquilo era incrível, toda a magnificência dos lustres dourados e cheios de cristal soava como o modo perfeito para finalizar uma semana agitada de aulas e treinamentos.
No entanto, não foi o que esteve os esperando.
Em vez de alguma cerimônia elaborada e relaxante aquele domingo recebeu um grupo de diplomatas franceses para palestras políticas e simulações de debates.
Nada mais exaustivo, honestamente.
O ponto positivo sobre isso foi que os jovens foram liberados às 17 horas e a partir de então teriam tempo livre para dormirem, socializarem no Salão dos Homens, estudarem ou, você sabe, irem à festa particular que Harry estava organizando para aquele final de noite, que, de acordo com sua visão inconveniente, deviam celebrar o último momento antes de passarem pelo inferno de provas que os aguardavam para a manhã seguinte.
Ponche. Libertinagem. Orgia. E Felicidade.
Foi esta a descrição do evento cantarolada durante o almoço quando os informou que todos estavam convidados. Aqueles olhos verdes perigosos fitavam firmemente rosto por rosto durante a anunciação, enfatizando a promessa de experiências memoráveis.
***
Caminhava através do extenso corredor com o atrito da sola de seus sapatos sendo o único barulho ressoando pelo local.
Ele não queria nada além de conhecer os arredores internos e externos do Palácio, pois nessas semanas de estadia não encontrara tempo o suficiente para tal.
Liam Payne se acomodara com uma vida mais humilde que a dos demais príncipes. Em seu reino, Bristok, o palácio real era de proporções relativamente menores, e a família renegara muitos dos benefícios que deveriam lhes ser concedidos por direito, como a promoção de banquetes particulares - eles sempre deixavam aberto para a população, sobretudo aos menos afortunados que não teriam o que comer -, confecção de vestuário menos incrementado, dispensa no uso de joias.
O rei ensinara aos seus filhos sobre a prática do Dandismo, e a importância de passar a vida pregando simplicidade.
Portanto, desde cedo Liam aprendera a não distinguir pessoas por seu estamento, e se for muito honesto consigo mesmo a única vez que se apaixonara fora aos dezessete anos, por uma de suas criadas, Sophia. A bela jovem beirava os dezenove e possuía um par de olhos quentes, assim como o sorriso mais acolhedor que ele já vira.
Ela era seu sonho.
Mas, infelizmente, antes mesmo que o príncipe pudesse alcançar a maioridade e declarar seus sentimentos, a moça contraiu pneumonia e veio a falecer. Foi o perfeito quase conto de fadas que acabou como um pesadelo.
Tal linha de pensamento sobre seu romance fracassado veio a se desfazer quando Príncipe Payne se assustou com um barulho agudo vindo de uma das salas.
Piscando o susto para fora ele percebeu que o som viera de uma sala aleatória no corredor escuro, e ele quase se sentiu em uma armadilha bizarra.
Recompondo-se o suficiente, então, tomou fôlego e abriu uma fresta da porta, chocando-se completamente.
- Oh meu deus! Você está bem?
***
Suspirava entre uma dosagem de seu chá de canela e ervas cidreiras e Oscar Wilde. O Retrato de Dorian Gray sustentado pela articulação de seus dedos direitos enquanto a mão esquerda ocupava-se segurando a alça da xícara de porcelana.
Era algo comum ultimamente, já que a insônia consumia qualquer cansaço e não o permitia um descanso mental antes das quatro da manhã. Até lá ele se aventurava em releituras das suas obras favoritas, acomodado na poltrona da biblioteca estrategicamente localizada ao lado da grande janela de vidro, onde a luminosidade da lua permitia-o enxergar a superfície do papel e todo o conjunto de palavras que o encantavam.
Louis vivia constantemente nesse seu próprio espaço. Desde pequeno. Não era raro tardes em que Johanna procurava pelo filho do meio em todo o palácio, encontrando-o sozinho em alguma sala escura enquanto seus quatro irmãos brincavam no jardim.
E isso não se dava porque o garoto era tímido ou retraído, pelo contrário, seu carisma e humildade conquistavam facilmente simpatia . Mas... Tomlinson cultivava um fascínio na solidão, em contrapartida à sua própria opinião de que ninguém deveria se sentir sozinho, ele próprio a apreciava.
Ele apreciava escutar o som da sua respiração profunda, piscar em meio à penumbra do cômodo, criar pensamentos aleatórios em sua mente, cantarolando uma melodia ou saboreando alguma memória.
Eram só... Aqueles momentos que, você sabe, precisa parar de procurar no mundo aquilo que deveria encontrar em si mesmo.
Amor?
Razões?
Propósitos?
- Uma moeda por seus pensamentos?
Uma voz entrecortou o grito mudo de seu devaneio.
Durante alguns segundos Louis piscou rápido, retornando à realidade. A realidade em que você usa oxigênio para sobreviver, e sorrisos para enganar. A realidade em que Harry Edward Styles estava apoiado no batente da porta, agora completamente aberta, a luz do corredor sombreando suas curvas.
Tomlinson tratou de fechar delicadamente o Retrato de Dorian Gray, descansando-o em seu colo.
Lançou-o um sorriso calmo.
- Príncipe Edward. - saudou, levantando-se.
Harry adentrou a biblioteca, vestindo roupas amassadas como um calção azul marinho - um pouco (muito) apertado, que ia até os tornozelos - e uma camisa branca de malha fria, envolto em um grosso rob de pelos acizentados.
Ele parecia verdadeiramente brega, e verdadeiramente embriagado. E um tanto exausto, talvez.
Ao se aproximar da figura serena, seu sorriso se expandiu.
- Imaginei que estaria aqui.
- Procurara-me em meu aposento? - Tomlinson indagou, confuso pela perseguição de Harry.
- Yeap. - Styles disse, estalando a língua do céu da boca. - Também já imaginava que não compareceria a minha festa. - fez um bico magoado com os lábios.
O poder do álcool.
- Sabes que não é o tipo de evento de meu feitio. - alegou, mencionando implicitamente a 'orgia' que havia sido prometido para os convidados. - Não era para estar acontecendo?
- Hum?
- A festa... - Tomlinson acresceu, vendo a feição incerta de Harry se transformar em algo como uma esclarecida.
- Oh, sim. - balbuciou, compreendendo. - Bom, estava entediado. - deu de ombros, pendendo a cabeça para o lado direito. - Então os expulsei.
- Ao menos se divertiu. - Louis constatou, um sorriso bem-humorado bordando sua face enquanto apontava para todas as marcas roxeadas e vermelhas pelo pescoço desnudo de Styles.
Ao se dar conta, Styles esboçou uma expressão um pouco desconcertada, esfregando e tentando tampar inutilmente todas as impressões coloridas contrastando com sua pele extremamente pálida.
Novamente, deu de ombros, sem graça.
Tomlinson não impediu que uma breve risada escapasse de seus lábios, mas então ele meio que se deu conta de algo.
- Eles... Hm, você não.. Não fez isso enquanto estava bêbado, certo? - certificou-se, piscando com um olhar apurado e preocupado para o maior. - Ninguém lhe abusou ou algo assim..?
Styles durante uma fração de segundo - uma rápida fagulha de uma margem mínima de tempo - pareceu congelar as pupilas em um ponto fixo, engolindo uma quantidade grande de saliva. Mas, sucessivamente, encarou-o com olhos cegos, libertando uma gargalhada (que honestamente soava como um riso forçado), rindo de modo que o sorriso não alcançasse as gramas de verão, e o som não concedesse autenticidade para seus atos.
Okay.
Talvez não fosse apenas álcool.
Talvez fossem alucinógenos.
- Não saberia lhe responder, ou sequer lembrar, Louis. - Harry replicou. E havia uma pitada de aborrecimento, e duas de sinceridade mascarados na usual ironia de sua fala.
Além do que, ele o chamou pelo primeiro nome, o que significava uma coisa: ele estava fodidamente alto, e fora de si, e acabara de incluir Louis em alguma lista mental de i********e, i********e o bastante para trata-lo sem as formalidades esperadas.
Tomlinson somente acenou uma vez em concordância, preferindo manter-se calado.
Ele estudava com uma profundidade exímia o exterior de um Harry de cabelos bagunçados e sorriso cansado.
- Portanto, suponho que tenha algo a me dizer, visto que me procurou em plenas três e meia da manhã, certo? - Louis averiguou.
- Eu só, bem... Bem.
- Queria companhia? - Tomlinson sugeriu desde que Harry parecia sem jeito demais para concluir a própria frase e admitir qualquer coisa que ferisse seu orgulho.
- Sim.
- Entendo. - Louis proferiu, depositando o exemplar de Oscar Wilde sobre a mesa com um pequeno sorriso gentil e acolhedor. - Não é como se eu conseguisse dormir, de qualquer maneira. Sobre o que quer debater?
Styles adotou uma postura mais séria, fitando-o naquela intensidade ardente que suas orbes verdes azuladas pudessem queima-lo.
- Louis. - sussurrou.
- Sim, Príncipe Edward?
Eles estavam a uma distância segura, caso contrário seria um grande risco ficar próximo de Harry quando ele aparentava mais agitado do que nunca, como se uma dose excessiva de adrenalina circulasse por suas veias naquele instante. Talvez fosse exatamente o caso.
- Vamos correr pelo jardim e nadar no lago privado que há no leste? - propôs, ainda em um sussurro, sua feição sólida se desmanchando para uma animada. - Eu conheço esse lugar como a palma de minha mão, sei de um lago escondido.
Drogas. Não use.
Tomlinson torceu o rosto em uma incredulidade óbvia, porque sinceridade Harry era um desmiolado, s*******o alguma.
- O quê? - insistiu, atordoado. Aquilo deveria ser uma brincadeira sua. Sério.
- Vamos correr e pular na água. O vencedor é quem mergulhar primeiro.
- Har- Vossa alteza. - Louis corrigiu-se, quase escapulindo seus bons modos, mas (honestamente) Harry e suas ideias absurdas o levavam a um completo nível de perturbação. - Está ciente de que estamos no meio da madrugada, certo?
- Completamente, honey. E...?
- Está frio lá fora. A água provavelmente registra uma temperatura congelante.
- Levamos toalhas extras. - deu-o a solução sem nem pensar, na ponta da língua.
Novamente, mantenha-se longe de substâncias ilícitas.
- Não estamos sequer permitidos a sair do quarto e perambular pela biblioteca, quem dirá sair do palácio, Príncipe Edward. - Louis atestou com suas lagoas azuis arregaladas, como se fosse óbvio e desnecessário até mesmo verbalizar um fato desses.
- Não há patrulha nas portas dos fundos, perto da ala dos empregados. Podemos sair por lá.
Harry dizia aquilo com tanta certeza. Com tanta simplicidade. Nem parecia que ele estava trazendo uma proposta tão utópica quanto aquela.
E ainda... Ainda tinha aquele entusiasmo cintilando suas íris esverdeadas. Uma esperança quase infantil de quem aguarda o consentimento dos pais para se aventurar em um escorregador.
- Vossa alteza, não sei aonde sua cabeça está no momento, mas é evidente que não há chance alguma de que eu corresponda à uma sugestão como essa, especialmente nessas condições.
- Pare com essa chatisse de um velho rabugento. Vamos lá, sair um pouco, respirar o sereno e-
- Não seja maluco. - Tomlinson interrompeu. E ele foi ligeiramente seco e inflexível em sua ação, o que o levou a um arrependimento amargo.
A animação contida de Harry foi instantaneamente esvaída de seu corpo, o sorriso ansioso diminuindo gradualmente.
Eles caíram em silêncio.
As mobílias de ébano escuro aparentavam como sombras de monstros ao que a lua não lhes alcançava completamente.
A biblioteca estava subitamente menos acolhedora e maior.
Grande demais para apenas os dois.
Havia uma distância grande entre eles.
Harry quebrou a quietude, indagando-o com a voz tão baixa que fora um verdadeiro desafio escuta-lo.
- Qual é o seu maior defeito?
Ele perguntou. Harry perguntou aleatoriamente, surpreendendo Tomlinson ao ponto de ele franzir levemente as sobrancelhas, divagando.
- Eu diria que... introvertido, provavelmente.
Styles negou veemente imediatamente à sua resposta.
- Errado. Errado.
O corpo esguio e alto moveu-se pela sala, aproximando-se tanto quanto podia de Louis, o suficiente para que inclinasse sua cabeça em sua direção e levasse sua boca ao pé da orelha do futuro líder de Riverland (futuro líder o qual manteve-se rígido em sua pose, não falhando uma respiração ou batimento cardíaco. Como ele ao menos era apto para permanecer tão impassível diante a presença forte e sexy de Harry?)
- Direi-lhe qual é seu maior defeito. - o herdeiro de Malta afirmou, cochichando diretamente em seu ouvido. - Você é muito estável. Controlador. Você quer ter controle sobre as coisas. Quer que elas se mantenham em ordem e firmes.
- Não creio que isso seja um defeito, vossa alteza.
Styles endireitou o corpo, afastando sua cabeça da do de olhos azuis e rindo satiricamente.
- Permita-me lhe dizer uma coisa, vossa alteza. - enfatizou debachado do vocativo. - A ideia de segurança, de que pode se sentir seguro é infantil e covarde. - Harry proferiu, olhando-o fixamente, com uma prepotência nas bordas de seu tom, contudo com honestidade presente no centro deste. - E te impede de ter experiências, mesmo as boas.
Louis não esboçou uma reação facial para sua alegação, continuando sustentando seu olhar, escutando educadamente o que quer que Styles estivesse dizendo.
- Enquanto você se recusa a se riscar, está se recusando a viver. A vida começa onde o conforto termina. - Harry acrescentou, um sorriso lateral de covinha afundando atrevidamente. - Então, eu irei lhe repetir uma segunda vez, Príncipe William. Uma corrida pelos jardins, um mergulho no lago, e uma constatação de que estou completamente certo.
Tomlinson não o respondeu verbalmente, ele parecia prestes a ser convencido, e um pouco tocado e reflexivo também.
Reparando na hesitação do de olhos azuis, Harry se abaixou alguns centímetros para que alinhasse suas alturas e rostos, transmitindo a maior quantidade de sinceridade que houvesse dentro de si.
- Você não precisa ser sempre 'o politicamente correto'. - pronunciou. - Às vezes, você pode interpretar só um jovem de vinte e poucos anos fazendo burrices que jovens de vinte e poucos anos estão supostos a cometer. E ainda assim, continuará sendo Louis William Tomlinson. O futuro promissor de seu reino.
Havia uma juventude... Uma juventude eternizada na personalidade de Harry Styles que talvez o levaria a repetir frases motivadoras como essas até os quarenta anos.
Ele parecia ser o tipo de adulto que acordaria no meio da noite para tocar piano. E que esconderia-se embaixo da cama para se ausentar dos compromissos do dia quando os criados fossem procura-lo pela manhã.
Ele parecia ser o tipo de rei que celebraria datas aleatórias, como o 'Dia de Usar Rosa Salmão', e promoveria chás-da-tarde com conhaque misturado nas bebidas.
Ele era o tipo de jovem que vestia gargantilhas femininas e estampas destoantes e chamativas em jantar com códigos rígidos de vestimenta...
Portanto era meio que óbvio que para transformar-se em um homem polêmico era questão de tempo. Não haviam moldes à la Harry Styles com frequência, o que consequentemente tornava sua peculiaridade algo... Subestimado, ele merecia mais enfoque.
As pessoas deveriam entender que Harry Styles era uma peça única de um quebra-cabeça próprio.
Essa ideia assim soou tentadora para Tomlinson.
E ideia da... Liberdade.
Embora ainda estivesse afastada e imaterializada, ela existia.
- A coroa é um enfeite pesado, Louis. Lembre-se que tira-la da cabeça é necessário eventualmente para o sangue circular propriamente por suas veias.
Louis levou sua atenção novamente a Harry, sustentando aquele olhar silencioso durante exatos quatro segundos até balbuciar.
- É bom que esteja pronto para aspirar poeira, vossa alteza.
E antes que Styles pudesse traduzir as palavras em seu cérebro, Louis já havia saído da biblioteca à passos apressados em direção à escadaria, e da lá para o jardim.