Chapter XXVII

4269 Palavras
Episode: Under the Carpet - Oh meu deus! Você está bem?!  Liam piscava nervoso, adentrando o cômodo tão rápido quanto podia, correndo em direção ao príncipe curvado com a cabeça enfiada em um balde de madeira. Segurou-os pelos antebraços buscando oferece-lo alguma sustentação enquanto o corpo se encolhia cada vez que uma nova ânsia parecia atingi-lo. Aguardou simplesmente espantado enquanto o jovem vomitava diretamente no balde, não sendo capaz de ver o seu rosto e completamente não entendendo a razão de ele estar ali, naquela sala escura e aleatória àquela hora da noite.  Quando os barulhos pareceram cessar e alguns minutos de imobilidade total se passaram em meio ao silêncio, o príncipe começou a endireitar sua postura , e no momento que sua face foi desvinculada do abrigo do balde, ele pôde enxerga-lo superficialmente a partir luz escassa provinda do corredor através de uma fresta da porta. Zayn. - Príncipe Malik? - Liam murmurou surpreso, e imediatamente mais preocupado. - Você está bem? O que aconteceu? Os olhos de Zayn pareciam opacos, um pouco crus, enquanto estabeleciam comunicação com os seus. - Apenas passei m*l. - o futuro herdeiro de Arlen se limitou a dizer, engolindo um bolo seco em sua garganta. O cheiro estava honestamente horrível mas Liam nem sequer o sentia, seu cérebro muito transtornado com os acontecimentos recentes para processar qualquer outra coisa. - P-Por que estava aqui? Vomitando nessa sala? - continuou com um interrogatório, tentando dar sentido ao contexto. Zayn parecia verdadeiramente alerta e tenso, segurando trêmulo o balde com ambas as mãos. Sua pele estava ligeiramente um tom mais pálido. - Porque ninguém me ouve aqui. Se eu passasse m*l em meu próprio banheiro poderia acabar por acordar outros príncipes de dormitórios vizinhos com o som. Havia um desespero cru em suas palavras que alertavam uma desconfiança em Payne, levando-o a franzir as sobrancelhas em uma expressão avaliativa.  - Como veio parar nesse... Cômodo? - O jovem de Bristok perguntou relutante, piscando aguçadamente e estremecendo com um arrepio em sua espinha. - Você... Você faz isso constantemente? Seu nervosismo se amplificou quando Zayn se recusou a da-lo uma explicação, virando-se de costas para repousar o balde no chão. O silêncio era quase sufocante, e a realidade e gravidade da situação começou a atingir a consciência de Liam. - Oh, meu Deus. - Payne balbuciou, cobrindo sua boca com a ponta dos dedos em um choque mudo. - Você tem alguma doença? Alguma doença grave? Zayn soltou um silvo, como uma risada debochada, fitando-o em suas pestanas longas e uma feição de ironia, levemente rabugenta, e levemente depravada. - Não. - disse secamente, dando passos firmes pelo lugar tomado de breu (como se ele conhecesse aquele espaço com a palma de sua mão de modo que se localizasse na iminente escuridão, atenuada pelo resquício de claridade da porta). Locomovendo-se a um canto ao fundo, onde Liam já não era capaz de vê-lo mais, o moreno se sentou em um banco de madeira longo, daqueles usados em capelas, cujos crentes se acomodam para passar as cerimônias e rezarem. Payne esforçou-se para segui-lo, guiando-se cegamente no espaço até topar a ponta do pé com a própria ponta do pé de Zayn. - Então por que, sabe, vomita frequentemente? Sofre de refluxo? - indagou, sua voz perdida no silêncio obscuro daquela sala. Alguns instantes de quietude se instauraram para serem finalmente quebrados pela voz enfraquecida e hesitante de Malik. - Porque eu preciso ficar bonito. O modo como ele enfatizou o final de sua fala, o modo como 'bonito' pareceu carregar um peso muito grande para uma só palavra soou sufocante. Soou um termo de valor raso, mas significado profundo. Ele via beleza como .. Uma necessidade. Ele havia aprendido a 'ser belo', a agradar esteticamente as pessoas. Era dessa forma que Zayn Malik equilibrava o peso de sua coroa?  - Bonito? - Liam repetiu, testando como aquilo soava diferente em seus próprios lábios, onde a dimensão árdua que Zayn concedia a isso era diferente para si. Ele meio que estava espantado também. - Você faz isso para.. - gaguejou, repentinamente tonto com toda a incredulidade travada em seu cérebro. - Para.. estar bonito? Quão individual e relevante era a sentença da beleza para cada um?  Qual era o limite de superficialidade no quesito físico da coisa quando existia um universo de intelectualidade e paixão no interior? Ou melhor, um corpo continuaria sendo sempre um corpo. Um conjunto de células, vivas e mortas, trabalhando em conjunto e delineando as estruturas humanas, mas... elas só serviam para constituir os aspectos carnais dos indivíduos, e isso era extremamente relativo e controverso, afinal, suas estruturas físicas não deveriam limitar sua   natural essência. Ao menos, era o que Liam Payne sempre achou do assunto. No entanto, era um tema claramente pessoal, e talvez possuísse percepções contrárias onde um grau de relevância muito maior estava injetado em suas entrelinhas. - Isso é tudo que eu tenho. - Zayn ocasionalmente balbuciou, com um tom conformado e calmo, e quase doloroso de ser traduzido. Liam Payne estava mais do que indignado (indignado era um breve eufemismo, para ser sincero) de como o mundo, a sociedade, ou o próprio Zayn fizera-se acreditar que ele se resumia em seu exterior. Como podia ignorar absolutamente tudo que ele possuía, todo o caráter e a compaixão, para simplesmente abreviar-se a beleza. Soava extremamente errado, mas, novamente, ninguém poderia padronizar sua linha de raciocínio e esperar que todos enxerguem a vida diante o mesmo ponto de vista. Era só... Lamentável que Zayn fora instruído a criar essa visão deturpada e fragilizada de si. Payne não estava no direito de repreende-lo, e sinceramente acreditava tampouco ajudaria-o se somente o desse uma lição de moral sobre como ele estava errado sob sua opinião, eles não tinham i********e, Zayn não confiaria em suas palavras só porque são fortes, e, sobretudo, ele muito possivelmente mantinha suas próprias razões e porquês (por mais errôneos que fossem) para cultivar tal sentimento. Um simples 'você está tratando aparência como uma virtude maior que sua nobreza interior' não funcionaria. Não nesse momento. Não nessas condições. Ele precisava ensina-lo de maneira paciente, abordando-o com calma, pelas  bordas, conhecendo seus motivos e tentando passar por cima deles. Portanto, naquele momento, Liam não se viu em outra solução senão engolir o bolo de oposição ardente em sua garganta e se limitar a respirar profundo, buscando alguma brecha que serviria de começo. Malik aparentava debilitado o suficiente. Ele carecia de um tratamento calmo, não brusco. Liam ponderou que talvez pudesse conserta-lo, se fosse aos poucos, se servisse um pedaço da verdade em cada refeição até que possuísse uma porção inteira de argumentos e razões que convencessem-o. Convencessem-o que ele não era a p***a de um espelho para refletir o que os demais indivíduos esperavam enxergar através de seu corpo. E sim através de seu coração. Para isso, um passo de cada vez. - Você tem a mim também. - pronunciou, tateando o ar até que conseguisse se sentar no banco ao lado do moreno. - Eu não quero sua pena. - Malik garantiu, na defensiva. - Tudo que estou te oferecendo é minha amizade.  Apesar do escuro total naquele canto do quarto, Liam meio que sentia Zayn encarando-o, e se fosse palpitar ainda alegaria que havia um vinco em suas sobrancelhas de desconfiança. - Onde estamos, aliás? - Payne questionou, querendo desviar o curso da conversa para algo menos pesaroso. - É uma sala de marcenaria. Eles constroem os bancos e algumas peças de madeira aqui, e concertam-as também. - É um pouco intimidante para mim, você não se assusta de vir sozinho de madrugada? Zayn soltou um breve riso. - Não. Eu me acostumei. Além de ser boa por não ter janelas e alguém dificilmente, você sabe, me flagrar. - encolheu seus ombros. - Oh, eu senti a indireta. - Liam murmurou em um tom divertido. - Desculpe-me pela invasão. Payne não estaria apto para ver, mas Zayn negou sutilmente com sua cabeça. - Eu quem me desculpo por você ter, er, presenciado isso. É nojento, eu sei. - Se é nojento, por que insiste?  - Porque eu preciso. - afirmou sem vacilar, quase robótico e muito sólido.  - Se eu tentasse mostra-lo o oposto, você estaria disposto a me compreender? - o herdeiro de Bristok perguntou cuidadoso, seu tom calmo e lento. - Não iria adiantar, honestamente, você acabaria perdendo tempo. Mas eu aprecio sua sujeição.  - Certo. - replicou-o em concordância, embora claramente fosse uma mentira porque ele estava realmente disposto a fazê-lo parar com aquilo. Por ora, não se oporia. - Você pode, uh, manter isso em sigilo? Como um grande segredo? - Zayn pediu (lê-se suplicou) em sua pele frágil e pequena, visivelmente inseguro. - Meus lábios são túmulos, vossa alteza. Não se preocupe. *** - Eu pensei que soubesse correr, vossa alteza. - Louis esbravejou, brecando seus passos ao alcançar a metade do jardim, entre a porta dos fundos pela ala dos empregados (que foi verdadeiramente um desafio de sair já que qualquer barulho poderia acorda-los) e a trilha das coníferas. O frio da madrugada não parecia atingi-lo enquanto uma adrenalina desconhecida lançava descargas por suas veias. Louis degustava um sabor de libertação enquanto recuperava o fôlego, rindo da maneira desengonçada que Harry vinha praticamente saltitando igual um filhote de alce em sua primeira tentativa de corrida. Após cerca de vinte segundos Harry o alcançava no meio-fio de canteiros de bromélias que, mergulhadas no breu da noite, pareciam sombras abstratas sobre vasos vitorianos. Logo que estava próximo do menor, Styles diminuiu a velocidade dos passos até finalmente parar, parecendo genuinamente esgotado ao curvar-se para frente e apoiar-se nos joelhos, ofegante. - Não é tão fácil quando você dispõe de dois pés esquerdos. - Harry arfou, tomando uma longa lufada de ar, ainda arqueado naquela posição. - E tem asma. - Asma? - Tomlinson repetiu instantaneamente preocupado, formando um vinco em suas sobrancelhas e agachando-se na altura da figura cacheada inclinada. Ele estava prestes a esticar seu braço e repousar delicadamente a mão no ombro de Harry em demonstração de apoio, no entanto antes que a palma aproximasse de sua pele coberta pela fina cobertura do tecido,  Styles levantou a cabeça e encarou seu movimento. As orbes verdes, gramas de verão, em um primeiro momento fitaram hipnotizadas o pulso fino de Louis, e então quase em uma velocidade surpreendentemente foram guiadas para a profundidade das lagoas azuis. - Eu estou bem. - garantiu-o com a voz suave, endireitando sua postura com a respiração estabilizada. Tomlinson também se recompôs para estuda-lo minuciosamente, deixando o braço cair ao lado do corpo, concordando por fim com uma pingaterreada seca. - Vamos apenas caminhar até lá, sim? Não precisamos de um incidente. - Oh céus, deveria ter trazido minha Carolina, ela realmente gosta de passeios noturnos ao ar livre. - Styles gralhou, andando novamente em direção à trilha, onde supostamente ele garantiu que existia uma segunda trilha secreta que levava para o lago. Havia uma paixão no modo que Harry dissera aquilo que declinou a possibilidade de se tratar de um dos comentários debochados. Ele era um pilar exótico. Parecia sustentar uma personalidade de extravagâncias imensuráveis, interessantes e incompatíveis com o mundo real, onde príncipes possuem uma conduta padrão a seguir para a maneira de ser e pensar. Ele era como a quebra do sistema, a queda da coroa, um novo continente não descoberto em um planeta colonizado por mentes alienadas e corpos uniformizados. Tomlinson começou a encara-lo um tanto admirado por toda a juventude que abrasava de seus olhos, semelhante a um visionário bêbado em seus próprios delírios. Se fosse compara-lo a um dos lugares que já visitara em suas viagens quando menor, talvez fosse o norte da África, onde algumas cidades eram povoadas por tribos peculiares. Tribos peculiares que falavam línguas diferentes e gesticuladas, uma terra de clima sempre quente e colorida.  Apesar dos demais julgarem o país como um jardim de pobreza e sem nobreza alguma, quem realmente se aventurasse desbravaria um universo de inspiração. E claro, também haviam conflitos internos que só quem residisse lá saberia a dimensão e o modo de lidar. Talvez Harry Styles fosse uma personificação do norte da África. Sempre subestimado. Intimidante para alguns. Rejeitado pela maioria. Julgado por todos. - Carolina gosta de passeios noturnos? - Louis indagou, piscando interessado para aquilo. - Oh, sim. Ela tem hábitos propensos à libertinagem, você sabe. - Harry murmurou chutando a grama com as pontas dos sapatos, um sorriso carinhoso brincando em seus lábios. - Talvez ela tenha puxado ao dono, então. - Louis sugeriu com um ar atrevido, o que gerou uma expressão de fascínio pela parte de Harry, genuinamente surpreso pela forma com que Tomlinson se expressou, descontraído, fora de sua fantasia formal de futuro rei que custava a abandonar. - De certo ela é uma cobra moderna. - Harry rebateu. - Oh, cuidado onde pisa, agora entraremos no trajeto escondido, é possível haverem cobras e aranhas. Tendo o avisado, Príncipe Edward guiou-os para ultrapassarem uma pequena a******a entre duas grandes coníferas, onde o mato não era aparado ou cuidado como no restante do jardim. Eles rumaram através da escuridão, em silêncio, concentrados em enxergar o mínimo possível para que ao menos não tropeçassem em raízes de árvores ou esbarrassem em enormes teias. Harry ía na frente - e claro, ele encontrou um graveto comprido no chão e usou-o como um cajado, ora se apoiando como uma bengala, ora usando para empurrar galhos de folhas e obstáculos da passagem. Quando Louis começou a se questionar onde estava com a cabeça para aceitar uma insanidade dessas, Harry anunciou: - Aqui estamos, meu caro. Não era exatamente o lugar que Tomlinson imaginara ao ser vinculado à imagem de Harry. Sendo um espaço frequentado pelo cacheado, acreditou que estariam diante um grande lago, iluminado, com estátuas requintadas e talvez pequenas adegas de vinho escocês em algum canto secreto. E quiça houvesse um chafariz - vindo de Edward, nunca se duvida nada. Mas, pelo contrário. Aquilo era um paradoxo de toda a representatividade estereotipada e absolutamente previsível de Harry. Aparentava-se como um lugar esquecido, ignorado, onde um lago pequeno se localizava rodeado por algumas rochas de médio porte pintadas pelos musgos, relvas em cada centímetro quadrado e algumas daquelas flores rasteiras que nascem em ambiente úmido liberando um aroma que talvez fosse perfeito para caracterizar a madrugada: 'infinita e refrescante'.  Quem fosse buscar em mapas dificilmente identificaria aquele diminuto santuário, afinal estava resguardado entre basicamente um círculo de árvores altas de troncos retorcidos, o que acabava por dificultar o rastreamento daquele pedaço de paraíso perdido com cheiro de grama misturada ao lodo. - Como que... - Louis iniciou a pergunta, esforçando-se para engolir toda a adoração imediata pela paisagem e começar um questionário. - Como que você descobriu isso aqui?! - gesticulou a sua volta, absorto no êxtase, sentindo-se como uma criança que capturou uma fada atrás de seu travesseiro. Harry varreu a área com suas íris radiantes e o peito aquecido só por estar lá. - Na minha primeira temporada. Acidentalmente eu peguei um exemplar na biblioteca que mostrava a planta de todo o território ao redor da construção do Palácio. - revelou, cutucando a grama com seu graveto-cajado. Um garoto inquieto. - Constatava-se que antes da construção do Glass Palace existia um lago para umidificação do terreno, quando antigamente este território era habitado por camponeses.  O príncipe dos longos cachos tombou a cabeça para trás, observando a malha do céu estrelado que era visível entre as copas das árvores.  O perfil de seu rosto era banhado pela luz refletida da Lua, iluminando-o. Céu limpo. Alma limpa. - Portanto, eu resolvi investigar. E descobri que o lago foi propositalmente abandonado por considerarem-o sem utilidade, pequeno demais, degradado, tomado por musgos. - Harry endireitou a cabeça, retornando o olhar para William. - Fora dos pré-requisitos e padrões exigidos pela sociedade real. - Eles nem sequer tentaram ajudá-lo? Limpa-lo? Construir canais ou utiliza-lo para irrigação? Styles esboçou um pequeno sorriso lateral, afundando o buraquinho gracioso de sua bochecha, mais conhecido como adorável covinha.  - Eles não dão segundas chances para o que encaram como inferior. - respondeu. E de alguma maneira seu argumento tomou outras proporções de significado. Seu argumento soou pessoal, embora sua voz se mantivesse firme, com uma determinação calma e neutralidade mascarando a seu incômodo. - Talvez devessem. - o menor rebateu, convicto e sério o bastante para que enfatizasse sua opinião.  E Harry entendeu. Entendeu que um diálogo secundário estava sendo estabelecido entre as entrelinhas, implicitamente. Portanto, sem jeito e um mais tocado do que desejava, tratou de disfarçar sua emoção, tossindo a seco e fitando os anéis de seu dedo. - De qualquer forma, eu encontrei esse lugar, temos um ao outro desde então. - deu de ombros.  - Presumo que tenha valido a pena. - Louis comentou, maravilhado por toda aquela natureza rejeitada. Harry concordou. - Esse é o meu esconderijo. - decretou, orgulhoso. Mas ainda assim, parecia um tanto contraditório sob a visão de Louis o esconderijo de Harry ser tão diferente da própria imagem dele. Como se o jovem cheio de adornos luxuosos estivesse deslocado no meio de insetos, matagal, e gimnospermas velhas, as quais, sob a penumbra da noite, davam a impressão de serem sombras de monstros.  - Não faz muito jus a sua personalidade. - Louis contestou, assistindo um sapo pulando perto deles. Seu coaxo era engraçado.  - Darling, é bom ter um templo isolado, onde a riqueza não alcança e os lustres de cristal não iluminam. Soa-me reconfortante. - proferiu extasiado, sorrindo. Tomlinson encarou-o verdadeiramente confuso. - O quê? - Harry indagou ao notar a expressão inquieta do menor. - É que.. Sabe, é estranho escutar isso vindo logo de você, o filho do ouro, com todo o respeito. Styles virou o rosto para frente, repuxando a boca minimamente para cima em um sorriso brando enquanto vislumbrava o reflexo da lua na água parada. - Bem, estamos no meio da madrugada, fora dos limites permitidos do Palácio. É estranho isso vindo logo de você, o filho das normas, com todo o respeito. - zombou ao final. Os lábios finos e educados de Louis se entreabriram para um iminente rebate de autodefesa, no entanto, em ausência de palavras, fechou-os novamente, seu cérebro incrivelmente espantado pelo repentino reconhecimento de que Harry tinha um ponto, e não podia estar mais certo. - A coisa é que... - O herdeiro de Malta voltou a dizer, agachando-se na beira do lago e esticando seu dedo indicador para toca-lo, afundando-o na água extremamente fria. - É que no fundo todos nós precisamos de um abrigo para fugirmos de nós mesmos ocasionalmente.  Harry afastou a mão ao julgar a temperatura extrema demais, levantando-se e virando-se de frente para Tomlinson, levando seu olhar suave para encontrar a expressão comovida do calado príncipe. - É como emergir seu rosto para a superfície enquanto pratica o nado, dando impulso e inspirando o quanto é capaz, devolvendo oxigênio ao pulmão. Tão revigorante quanto o momento que seu rosto se ergue para fora da água e você pode finalmente.. Respirar. - pronunciou com uma feição sonhadora acendendo de si. Styles sussurrou a última parte: É libertador, não acha? Dentro daquelas palavras, dentro de Harry de fato, parecia existir uma pequena caixa preta trancafiada com muitos cadeados, no fundo de sua mente, onde o verdadeiro Harry estava escondido. Ora ou outra você conseguia escutar alguns pedidos de socorro. Ou então gritos de agonia vindos de dentro. Ora ou outra você piscava e quase jurava de ter visto um curto vislumbre de sua verdadeira essência, como se durante alguns segundos ele emergisse de seu interior, ultrapassando os cadeados, e se materializando bem a sua frente.  Essa era uma das vezes. Em que ele soava... Verdadeiro. E a ironia estava longe. E a coroa mais ainda. Um garoto de cabelos cacheados no ápice de sua juventude, traços atenuados entre delicados e másculos, jeito de quem tem planos promissores para o futuro. Um idealizador. É libertador. Você não acha? A pergunta de Harry ressoou no fundo da mente do príncipe de Riverland, provocando o retorno daquela sensação de adrenalina, como se ele soubesse exatamente a resposta e o quão agradado e satisfeito estava por ter corrido pelos jardins, escapado do Palácio, rido do modo desengonçado de Styles, deparado-se com um resquício de um espaço abandonado onde o reflexo da lua o remetia a um conforto inédito. Onde ele foi permitido simplesmente... Voar para fora de sua carapaça e se renovar. - Completamente, vossa alteza. Libertador. - confessou, suspirando anestesiado. - Chame-me de Harry. - o outro pediu. - Porque eu o chamarei de Louis.  - Não sei se me acostumo. - Oh, pelo amor, é só pronunciar o 'a' depois de 'H' e adicionar o 'rry' com algum sotaque. Não é difícil. - Styles persuadiu, sorrindo travesso. O que acabou conquistando uma breve risada divertida de Louis. - Certo, certo. Harry. Feliz? - Extremamente, Louis. Agradeço pela mudança. - Eu quem agradeço por ter me trazido aqui, ao seu esconderijo. - Tomlinson verbalizou, soando franco e legitimamente grato. Harry fixou sua atenção nos olhos vibrantes de Louis, notando o quão destoante era o tom de suas lagoas azuis no sereno do luar.  Deus, ele sempre se afogava nelas. - Você.. Você sabe, esse pode ser o nosso esconderijo. Eu não me importo de compartilha-lo. Sempre que quiser vir, não precisa de meu acompanhamento. Sei que gosta de ler e sugiro deitar-se naquelas pedras para aproveitar a claridade da lua, e a umidade do ar. Eu lhe darei um mapa com instruções de como chegar aqui. - Bem, talvez eu queira a sua companhia. - Louis rebateu. E aquilo bastou para pegar Harry desprevenido, levando-o a inspirar falho. Seu coração estava disparando contra o seu peito alto e rápido. Oh, Deus. Ele teria um derrame. - Será sempre um prazer. - Styles respondeu cuidadosamente, pressionando a palma de sua mão contra o próprio peito esquerdo para sentir os batimentos cardíacos estranhos, querendo para-los de alguma maneira. Acalmem-se, inferno. O comportamento atordoado e ligeiramente desconcertado do maior passou despercebido por Louis, que somente mirou seu olhar na água estagnada. - Pensei que fôssemos nadar. - reproduziu irônico, lembrando-se da proposta inicial maluca de Styles que incluía mergulhar na água congelante como um desafio. Isso fez com que Harry despertasse - felizmente - de seu transe, piscando rápido até recobrar a consciência e tentar normalizar os impulsos de seu coração. Ele estava avoado o suficiente para não compreender nada. - O que disse? Pode repetir?  - Disse que pensei que fôssemos nadar.  - Oh. O meu plano era fingir que eu pularia para o ver submergindo sozinho. - Harry segredou, rindo pela indignação paupável do moreno. - Jamais tive a intenção de entrar nesse lago, ele é fundo e eu não sei nadar. - Jura? - Sim, uma vez me aventurei a pular adentro sem considerar a profundidade e me debati assustado ao perceber que meus pés não tocavam o chão. A minha sorte foi que consegui esticar totalmente o braço e agarrar a borda. - Você poderia ter boiado. - Meu desespero não permitiria. E eu também não sei boiar. - Posso te ensinar. - Louis se ofereceu. Ele era um excelente nadador, embora não fosse comum frequentar lagos devido ao frio constante do continente na maior parte do ano, ele e sua família sempre nadavam em cachoeiras americanas ao visitarem reinos amigos estrangeiros na América. - Aprecio a oferta, mas recuso. Sou claramente uma negação com controle motor e, sobretudo, não tenho fôlego para isso. - Compreensível. - Louis proferiu. - Faz bem, além do mais lagoas são traiçoeiras. Harry desejou revirar os olhos, pronunciando debochadamente um 'Jura? Porque eu literalmente me afogo nas suas todas as vezes'. Mas ele se segurou. E ao invés se limitou a assentir quieto. - Em alguns pares de minutos o sol deve nascer no horizonte, caso não queira sair naquele jornalzinho de fofocas como o 'Príncipe que perdeu a moral e mordeu a maça da serpente, flagrado fora de seu aposento' eu sugiro que voltemos para o Palácio. - Esse autor realmente tem algo contra você, huh? - Eu ainda irei descobrir quem está por trás dessa palhaçada. - Harry professou, assistindo Louis piscar lentamente em concordância, atento.  Ao passo que rumavam pela trilha de coníferas com céu alvorecendo e os primeiros cantos dos pássaros anunciando o fim da madrugada, ambos não paravam de bocejar. - Isso irá nos render grandes olheiras. - Príncipe Edward resmungou, esfregando as têmporas, referindo-se a aventura que tiveram e que consequentemente os fez perder todas as possíveis horas que tinha para dormir, já que em tempo cronometrado seriam despertados pelas criadas e inseridos na rotina puxada. - Obrigado, novamente. Por tudo. - Louis insistiu ao alcançarem a escadaria interna, após se esgueirarem como fugitivos pela porta dos fundos, na ala dos empregados - que não estavam despertados ainda, amém.  Harry não o respondeu. No entanto, sorriu. E seu sorriso pareceu doce e ligeiramente carinhoso. Assim, eles se despediram e cada um foi para o seu próprio quarto.  Louis riu internamente ao flagrar Lorena adormecida toda desajeitada na poltrona, roncando alto. Ela sempre o esperava para conversas aleatórias de madrugada, e como ele não voltou, a menina acabou por pegar no sono completamente contorcida no estofado. Seria de suma importância os príncipes descansarem, pois nessa semana se iniciariam as provas e duelos. E, honestamente, nenhum deles estavam prontos para proporção de acontecimentos que estavam próximos de estourar os vidros daquele Palácio.
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