Ainda dentro da camionete, estava paralisada remoendo as palavras de Sara, olhando friamente Ruiz sentado na areia da praia, e o único sentimento que percorria meu corpo era o de ódio. Sabia que meu pai de forma alguma tinha a obrigação de abrir as portas de sua casa pra mim, mas ele adotou Ruiz, e comigo, sumiu após os meus sete anos enviando apenas cartões. Me sentia desprezada, uma estupida por ter vindo até aqui com a esperança de encontrar o amor do pai que jamais tive. Dando ré na camionete, sai da praia, e comecei a dirigir pensando no que diabos faria, sem dinheiro, gasolina, com fome, sem lugar para ficar, precisava de um emprego. Mais naquele monte de coisas velhas que estavam jogadas no interior dessa camionete cheirando a mofo, não havia nenhum traje que ao menos passasse a imagem de uma pessoa responsável o suficiente para receber a chance de uma vaga, e ainda me sentia perdida, não conhecia a cidade, não sabia nem mesmo aonde poderia encontrar uma oportunidade de trabalho.
Enquanto dirigia, sem rumo, pra minha sorte a camionete decidiu acabar o ultimo resto de gasolina que tinha. Encostei-a, e saindo furiosa, comecei a chuta- lá, gemendo de raiva. As pessoas me olhavam como se fosse uma louca, mas há essa altura do campeonato pouco me importava o que pensariam. Sem saber o que fazer, caminhei até a calçada, me encostei na parede e fui escorrendo por ela até me sentar no chão com minhas mãos sobre a cabeça bufando de nervoso. Como uma ironia do destino, bem ao meu lado naquela calçada suja, havia jogado no chão um panfleto de oportunidades de emprego, naquele momento sorri aliviada, como se as coisas tivessem finalmente começado a melhorar. Deis de criança sempre tive uma intuição muito forte sobre as coisas, era como um dom, sentia quando algo seria bom ou r**m, daria certo ou não, como se dentro de mim em algum lugar as coisas fluíssem de uma forma que me levava a senti as coisas de um jeito diferente. Na minha mão agora tinha por onde começar a procurar, e dentro de mim havia esperança que estava tendo um começo. Abri a porta traseira da camionete, e comecei a revirar as roupas tentando encontrar algo que fosse no mínimo, mas comportado. E depois de vinte minutos, olhando peça por peça consegui encontra uma calça jeans de barra larga, ela tinha um tom escuro, o que escondia o quão gasta ela estava. Com uma blusa de manga longa preta e um blazer, cairia super bem com minha bota de salto, traria um ar sofisticado. Me troquei dentro da camionete mesmo, era apertada e precisei fazer tudo de uma forma que não demostrasse as pessoas que passavam na rua que estava me trocando e sai em direção aos endereços indicados no panfleto, o que não esperava é que seriam tão longes, o que não era muito propicio para botas de salto. Mais a dor no meu pé era o de menos quando se tratava de conseguir uma estabilidade sem depender de me humilhar para aquele bad boy arrogante novamente. O primeiro ponto de parada era como atendente em uma lanchonete, que tinha um ar de que era frequentada por pessoas de classe alta, o bairro em que estava aparentemente todo ele era frequentado por pessoas de classe mais alta. Entrei tentando ser o mais empoderada e confiante o possível. Sorriso nos lábios, e sendo simpática, mais por dentro não sabia como isso acontecia, jamais havia ido a uma entrevista de emprego antes, e nem sei o que falaria. As condições em que vivíamos em blue Mountais, e com o tumor da minha mãe, não consegui nem mesmo terminar os meus estudos:
- Oi, prazer, me chamo Ellen, vi que vocês estão procurando funcionários novos. - falei, levando um olhar desprezível da mulher que estava no balcão. O que me levou a tirar o sorriso do meu rosto.
- Lamento garota. Precisamos de gente mais velha para trabalhar aqui. Uma jovem como você atrairia olhares, e acabaria se deixando levar por não ter tanta responsabilidade quanto uma mulher adulta.
Primeira entrevista, primeiro não. Apenas acenei com um sorriso para a mulher e sai pela porta caminhando, com um aperto no peito, e o medo de não conseguir um sim. Depois de sair da lanchonete, fui até um mercado, uma loja, como diarista, baba e adivinhem? Todos não. Parei para me sentar e respirar um pouco, o dia já chegava ao fim, e com o panfleto em mãos, inconformada tentando entender o que havia de errado comigo, me restava apenas mais um lugar. O clube Mont Mor. Seria uma caminhada de cinco minutos, então criei forças e continuei a andar. Pensativa e cabisbaixa, começava a crer que minha intuição dessa vez havia falhado. Parada na frente do clube, cruzava os dedos para que tudo desse certo. O clube era incrível, com guarita, uma grande área verde, um canteiro de rosas incrível, e havia lá dentro apenas carrões, de marca, de pessoas da alta sociedade, bem trajadas, ceo, empresários, e assim por diante. O que de certa forma aumentava minha ansiedade, e o medo de levar mais um não. Já cansada não tinha forças para ser simpática então me aproximei da guarita:
- Oi, gostaria de ver a vaga de emprego.
- La...
- Não, se a sua palavra for lamento por favor então não me diga, estou com a minha camionete velha sem gasolina em algum lugar dessa cidade imensa que nem conheço, e o pior, ela é o único lugar que tenho pra dormir, um banco duro e fedendo a mofo, meu pai é um grande babaca, e está no México com a nova família dele e não pode nem mesmo atender ao telefone, e faz menos de uma semana que perdi minha mãe, e não tive tempo nem de chorar a morte dela... então não me diga que lamenta...
- Lavínia, acho que você já ouviu o que a moça quer. - disse o segurança da guarita aproximando o oucktoquer da boca e rindo constrangido. Me senti patética ao perceber que seria de Lavinia, a socia do local, e não de lamento. Minha cara foi ao chão.
- Ouvi sim, deixe que a moça entre. - Ela falou com a voz suave, parecia ser bem gente boa, o que me passou uma segurança maior depois da vergonha.
Entrei passando da guarita, era possível sentir meu rosto se esquentando de vergonha, já andava quase mancando com meus dedos esmagados dentro daquela bota apertada, o local era maravilhoso, estava encantada. Um estacionamento enorme, muitas arvores e flores, e do lado esquerdo havia uma escada imensa, aonde ficava o restaurante. Subi as escadas apressada, logo na porta de entrada era possível ver o local cheio, pessoas bonitas, bem vestidas, o cheiro de comida fazia com que minha barriga roncasse mais alto. No fim, era possível ver o porquê o clube mont mor, era referência em Sydney, a vista da parede de vidro, refletia parte das luzes da cidade, e pegava uma parte do oceano azul que banhava as maravilhosas praias daqui. Ao ver aquela paisagem foi como se minha alma se enaltecesse de gratidão, e apenas aquela visão fosse capaz de tirar todo o cansaço de meu corpo, me trazendo energia novamente para lutar por esse emprego. Ainda restava a esperança de minha intuição não ter me enganado tanto assim.
- Oi. Deve ser Ellen, prazer sou Lavinia, sou uma das sócias do clube. Responsável pela organização do local.
- Oi, sinto muito pelo desabafo, é que ouvi tantos lamentos hoje que acabei explodindo.
- Está tudo bem, vamos irei te mostrar o local enquanto conversamos.
Descendo as escadas, me sentia mais confiante ao lado de Lavinia. Ela era o tipo de pessoa que a energia é tão leve, que é capaz de fazer qualquer dia péssimo ficar bom. O clube conforme andávamos ficava ainda mais bonito. A poucos metros da lanchonete, há direita, havia uma academia imensa toda de vidro, com esteiras, personal, diversos aparelhos, e as pessoas que faziam as atividades ficavam nos olhando. Também havia um pouco mais pra baixo, uma pista como de caminhada, que cortava todo o clube por meio nas arvores verdes e o clima agradável. Continuamos andando, e eu está perplexamente encantada. Havia uma imensa quadra de tênis, um local com mesas ao redor, bem sofisticado. Ainda mais a baixo havia também um campo de Rugby, o esporte mais praticado na Australia, e ao que parece aconteciam competições e jogos de Rugby também no clube. E pra finalizar, havia uma imensa piscina, que no inverno também fornecia água aquecida.
- Bom Ellen, vi que você necessita do emprego, é uma mulher guerreira e de voz firme pela forma como falou antes. Não posso simplesmente sair fazendo caridades, então te darei a chance de trabalhar por duas semanas, se mostrar que é dedicada o bastante o emprego é seu definitivamente. Uma das garotas irá te acompanhar durante os primeiros dias e te ensinar tudo o que precisa saber. Você começara amanhã as sete, algum problema?
- Não, claro que não, na verdade não estou acreditando, muito obrigada senhora Lavinia, prometo não a decepcionar.
- Tudo bem, veremos como você se sairá. Se quiser ficar essa noite por conta do carro sem gasolina, não tem problema, tem um quarto nos fundos do restaurante. Pode tomar um banho, e peço que lhes entreguem um jantar. Seu uniforme será entregue antes de começar seu expediente.
- Tudo bem, muito obrigada senhora, agradeço imensamente...
- Por favor não me chame de senhora, irei preparar o quarto, deve haver alguma roupa no meu carro e para sua sorte há um conjunto de roupas intimas que comprei hoje pela manhã por puro instinto, odiei ele. E ficara perfeito em você.
Lavinia começou andar na minha frente voltando para o restaurante, a segui dois passos atras comemorando com o sorriso de orelha a orelha que era impossível de conter. O nervosismo parecia pequeno quando se tratava de necessitar passar por essa experiencia. Lavinia me acompanhou até o quarto no fim do restaurante, era um quarto bem melhor do que o que tinha em blue mountains, a cama toda coberta com lençol sofisticado, e ele cheirava ao frescor de laranja. Apressada, assim que ela se retirou do quarto, já fui logo tirando meus sapatos, e a roupa apertada. Não demorou muito e ela retornou com o conjunto novo que havia me dito. Ao desembrulhar, me deparei com uma lingerie vermelha de renda, jamais havia me vestido com algo tão bonito e delicado, que trazia os traços tão femininos, e romântico. Exalava sedução. Após o banho o vesti me olhando no espelho, e me sentia a mulher mais maravilhosa, como se todas as minhas inseguranças tivessem sido desfeitas pela costura daquela lingerie vermelho, o contato da renda com meu corpo era tão suave, me levava a passar a mão por ele me sentindo empoderada o suficiente para conseguir o que eu quisesse naquele momento. Esses cinco minutos de admiração fizeram com que dentro do meu ser algo despertasse me acordando para as coisas que estavam acontecendo em minha vida. A perca da minha mãe, a maturidade que estava adquirindo, e com um sopro algo despertou em mim o desejo de me tornar a mulher da qual sempre quis ser. E batalhar por ela. Me trouxe também inspiração para me deitar com aquele conjunto sobre os lençóis limpo da cama e escrever em meu caderno de escritas, a forma com que os emaranhados da costura daquela lingerie vermelha haviam despertado o desejo e a força da mulher que eu estava me tornando.