Igor Santore
Entro em casa, e tudo está escuro, a empregada já deve ter ido embora a muito tempo, sigo em direção ao meu quarto sem fazer questão de acender nenhuma luz, vou me guiando pela escuridão até está sobre minha cama, olho para o teto, vendo pouca coisa por causa apenas das luzes dos postes lá fora no condomínio, passo a mão pelos meus cabelos, sentindo meu coração acelerar apenas com a lembrança de Alec.
- Tristan, não sei o que fazer, tenho medo. Muito medo.
Não sei quando, mas quando me dou conta, uma luz bastante forte me faz abrir os olhos, tento entender onde estou, e logo me dou conta que estou no mesmo lugar onde vi Tristan em meu sonho.
- Oi Igor. -Escuto sua voz e logo posso vê-lo a alguns passos de mim, corro para dentro dos seus braços abertos, me sentindo acolhido ali dentro. - Do que você tem medo Igor? Eu já não disse para você ser feliz? - Sinto meu sangue ferver de raiva nesse momento.
- Como posso ser feliz, hein? Você não está mais aqui. Então me diz como p***a eu vou ser feliz. -Começo a ficar nervoso, minha voz saindo mais alto do que gostaria, me afasto do seu abraço, sentindo raiva, mas raiva de mim, eu não posso fazer isso com ele, não posso trair Tristan desse jeito.
- Igor, não pense assim, você não vai me trair se apaixonando por outra pessoa. -Ele fala como se pudesse ler minha mente.
- Não diga isso, você não sabe como estou me sentindo.
- Sei sim, você está me usando, me usando como desculpa para não se aproximar do rapaz. Não me use para isso, para afastar sua felicidade Igor. - Começo a andar de um lado a outro.
- Como vou fazer isso com você? Não estou te usando. Não estou. - Meus olhos enchem de lágrimas, e ele segura meu rosto em suas mãos.
- Ah Igor, não faça isso com você, eu te amo, nunca atrapalharia sua felicidade, nunca o afastaria da pessoa que está destinada a ser sua. Sei que fui uma parte importante na sua vida, mas passou, você tem que viver sua vida agora, eu não estou mais nela, não transforme o que a gente ficou nisso, numa cadeia que tem mantém preso a mim, você é livre Igor, seja livre. E eu vou ser muito feliz em ver você feliz.
- Obrigado. Obrigado. Eu te amo.
Acordo um pouco assustado, mas sentindo meu coração um pouco mais leve, enxugo meus olhos, tirando as lágrimas que caíam, Tristan sabe que amo, mas ele também sabe que estou descobrindo uma nova paixão, e ele aceita isso, posso até achar que isso não passou de um sonho maluco, mas sei que ele faria qualquer coisa para vir me dizer essas palavras, sei que ele seria capaz de tudo para me ver feliz. Então tenho que correr atrás dessa felicidade, por mim.
Continuo ali, deitado, pensando nas possibilidades de dar certo, Alec é um cara machucado, sofreu demais com a rejeição dos pais, tenho que ir com calma. Que tal começar com um jantar?
Um pouco mais calma, sigo até o banheiro, tomo um banho gelado, e deixo meus ombros relaxarem.
Tudo está sendo tão novo, descobrir que posso me apaixonar novamente me dar um pouco de medo, sei que lá no fundo tudo que mais quero e ter alguém, mas fica difícil deixar se embarcar depois que você perdeu alguém especial, e nem pude me despedir direito, só através de sonhos.
Sinto falta de Tristan, do amigo que ele era para mim, sempre me entendia e estava lá quando eu precisava, depois que perdi ele, achei que seria impossível me apaixonar de novo, mas acho que Alec veio para mudar isso, não vou dizer que amo ele, mas o que sinto quando estou na presença dele, a força que me faz ficar tonto e querer seu beijo ou apenas que ele fique ao meu lado, é algo a qual eu devo lutar para saber o que é.
Do jeito que Marina falou, os pais não o aceitaram quando descobriram que ele é gay, o que me faz pensar em como ele descobriram isso, e como pode existir pessoas assim, que abandonam seus filhos por questões que só diz respeito a ele. Não devia ser tão importante assim com quem você transa ou não, ou quem você ama, o amor é uma coisa tão linda para ser tão limitado. Infelizmente não posso mudar os pensamentos das pessoas.
Eu mesmo ne considerava hetero, sair com várias meninas e transei com algumas, mas me apaixonei por meu melhor amigo, se eu tivesse fechado meus olhos e tivesse dado voz ao meu medo eu não teria vivido momentos únicos ao lado dele. Depois de pensar nisso, acho que posso entender agora Tristan, ele não quer que eu me prenda ao medo, assim como não fiz quando assumi meus sentimentos por ele.
Se eu for deixar o medo me dominar, o medo que tenho de perder mais alguém que possa ser importante, eu nunca vou me perdoar.
Deixo que os bons sentimentos tomem conta de mim, penso em Alec, no seu jeito doce com as crianças, em como ele é dedicado em seu trabalho, tanto que quero que ele venha trabalhar comigo em minha empresa de Arquitetura, em como o sorriso dele é lindo, suas bochechas ficam tão fofas quando está sorrindo que sinto vontade de aperta elas.
Sinto meu coração quente, como a muito não sentia, ele volta a bater acelerado com a direção dos meus pensamentos me fazendo acreditar que ele ainda está vivo, o sentimento que achei ter enterrado com Tristan. Amor.
Uma palavra tão pequena, mas que define o que estou descobrindo sentir por aquele homem, ainda não o conheço tão afundo, mas isso não importou para meu coração o escolher. Levo minha mão ao meu peito, sentindo-o subir e descer acelerado, sorrio com a imagem brincalhona de Alec me vindo a mente, ele chegou a pouco tempo, chegou de mansinho e se instalou em meu coração.
Saio do banho me sentindo um novo homem, disposto a lutar pelo que quero. Mudo de roupa rápido e respondo alguns e-mails do meu sócio que está comandando tudo na empresa na minha ausência.
Saio do quarto e vou em direção a cozinha para tomar um suco.
- Mamãe? - Vejo minha mãe ajeitando algumas coisas na mesa, ela olha em minha direção e sorrir.
- Oi querido, bom dia. Vim prepara algo para você hoje. - Eu rio, entendo tudo.
- Você só está aqui porque Damien se casou e não precisa mais dos seus cuidados né?
- Que calúnia menino, isso é jeito de falar com sua mãe, estou aqui porque te amo. - Lhe dou um beijo na testa e me sento a mesa.
- A senhora sabe que mais do que os meus dois irmãos idiotas, eu sei me cuidar, tanto é que você só ia fazer café para o Damien. - Falo e mordo minha torrada, não é que eu não goste do carinho dela ou dos seus cuidados, o que foi uma das coisas que mais senti falta quando resolvi morar sozinho. Mas ela sempre soube que eu sempre preso por minhas refeições, não sou como meu irmão mais velho que passa o dia inteiro apenas com o café da manhã no estômago.
- Você me pegou, todos meus filhos saíram do ninho, sinto falta de cuidar de alguém. - Ela fala, sentando-se ao meu lado.
- Você tem o papai para cuidar.
- É diferente, sinto falta de ter um bebê. -Ela fala e faz biquinho. Acabo rindo e ele me cutuca as costelas, me afasto rindo.
- Seu neto logo vai nascer.
- Eu sei, e já o amo, mas é diferente, você não entende...- Ela pensa por alguns minutos, e continuo comendo.
- Acho que vou adotar uma criança. -Ela fala de repente e quase me engasgo com o suco.
- Está falando sério???- Pergunto alarmado.
- Sim, vou falar com o seu pai. - Fala com um enorme sorriso no rosto e pega sua bolsa no balcão da cozinha indo em direção a saída.
- Esper.... - Ela não me deixa terminar e some. Escuto a porta da frente bater e suspiro. Meu Deus, se ela for levar isso mesmo para frente, eu agradeço muito, tem muitas crianças precisando de um lar.
Termino meu café e saio com meu carro da garagem de casa, passando pela rua do condomínio posso ver Damien e Karl com sua barriga enorme entrando no carro, buzino e aceno para eles que me retribuem, mas não tenho tempo de parar para uma conversa, tenho que chegar no orfanato.
Uns 40 minutos depois estou estacionando o carro na minha vaga, e indo em direção a porta da frente, mas paro ao ver Alec, ele está conversando com um homem mais alto que ele de cabelos escuros.
Vejo que ele aponta para a saída e que suas mãos tremem um pouco, ele parece nervoso e com medo do homem a sua frente. Não penso muito e quando vejo já estou andando na sua direção, seus olhos me notam, e vejo quando um suspiro deixa seus lábios, e segundos estou ao seu lado e olho nos olhos claros daquele indivíduo.
- Está tudo bem Alec? - Passo meu braço ao redor de sua cintura e o gesto não passa despercebido para o homem a minha frente.
- E quem é o senhor? - Ele pergunta parecendo chateado com a minha chegada. Não sei por que, mas não gostei nem um pouco desse cara.
- Não te interessa quem sou. O que faz aqui? E por que está incomodando Alec? - Minha voz sai um pouco mais agressiva.
- Isso não te interessa, eu sou o namorad...- Sinto meu tremer, mas logo Alec se pronuncia, me fazendo relaxar.
- Você não é nada meu Arthur, Nada. Vai embora.
- Eu disse que quero conversar com você Alec, me escuta. - Ele avança um passo suas mãos indo direto em Alec, mas impeço que sua mão chegue até ele o puxo para mais perto de mim, sentindo seu corpo tremer. Pego meu celular e chamo pelos seguranças, eles aparecem logo em seguida e peço que levem o homem, ele grita e diz que isso não acabou.
Entro com Alec e ele abraça minha cintura. Passo minhas mãos por seus cabelos macios e depois de um tempo ele se acalma. O puxo para o escritório e o faço sentar na cadeira.
- Quer conversar sobre isso? -Ele olha para mim e pensa um pouco, mas ele assente me fazendo ficar um pouco nervoso com medo das palavras que possam sair da sua boca.