Capítulo 12

1560 Palavras
Pietro Mancini A primeira coisa que me atingiu foi o som da risada dela. Alta, leve, viva. A risada que ela soltou ao lado de Giovanni quando desceu do carro. Sofia parecia... feliz. Como se tudo aquilo fosse incrível para ela. Como se ela estivesse se adaptando bem demais à ideia de ter aquele bastardo ao lado dela. Fiquei parado à sombra de uma das colunas da varanda principal, os braços cruzados e o maxilar travado. Observei enquanto ela subia os degraus ao lado dele. Giovanni mantinha a mão nas costas dela, protetor demais pro meu gosto. A forma como os dedos dele tocavam a cintura dela me fez ver vermelho. A p***a do sangue ferveu e tudo em mim começou a gritar. Não era só ciúmes. Não era só orgulho. Era tudo misturado: frustração, raiva, desejo, medo de perder o que era meu. Medo de perder ela, mesmo que ela não fosse minha. E se eu não fizesse nada... eu ia perdê-la. Esperei ela entrar e ele ir embora. E então, como um maldito predador, me movi. A sala de estar estava vazia quando ela passou. Só que eu já estava lá, à espreita, no canto da parede ao lado da estante. Como uma sombra pronta para engolir tudo. — Parece que teve um bom dia — comentei, fazendo com que ela parasse no mesmo instante. Ela girou devagar, e os olhos claros me fitaram com aquela mistura de alerta e cansaço. Sofia estava diferente. Mais firme. Mais altiva. Como se finalmente tivesse aprendido que naquele lugar, ou você endurece... ou quebra. — Foi um dia comum — respondeu, seca. — Ah, não me diga. O sorriso que você deu pra ele lá fora... não parecia tão comum. Ela ergueu o queixo. — Está me espionando agora? — Observando. É o mínimo que eu posso fazer quando você volta pra casa sorrindo pra um i****a. — Não é da sua conta. — Ela cruzou os braços. — É, sim — avancei um passo, e ela não recuou. — Tudo que você faz é da minha conta agora. — Você não tem esse direito, Pietro. — Então me dá esse direito. Ela bufou, descrente. — O que você quer de mim, hein? Primeiro me odeia, depois quase me beija, depois finge que eu não existo. Agora isso? — Eu quero que você pare de fingir — rosnei. — Que esse teatro todo não mexe com você. Que aquele desgraçado não está usando você pra chegar até o topo. — Giovanni não quer a droga da sua máfia. — Ah, não? — me aproximei de vez. — Então por que ele está aqui? Por que ele não desgruda de você? Por que parece estar sempre dois passos à frente? Ela tentou recuar, mas estava encostada na parede. Como sempre. Como eu sempre fazia com ela. — Você está com ciúmes? — perguntou. — Não. — Menti. Ela estreitou os olhos, me desafiando. — Porque se estiver... é tarde demais. — Não. Ainda não é. O silêncio pesou. E então, fui eu quem soltou a bomba. — Eu me lembro de você quando era pequena. Sabe disso? Ela arregalou os olhos, pega de surpresa pela mudança de tom. — Que...? — Quando veio aqui pela primeira vez, antes de vir morar, você frequentava a nossa casa. Com aqueles olhos arregalados e aquele vestido ridículo com laço nas costas. Você odiava tudo. Inclusive a gente. Ela mordeu o lábio inferior, e por um segundo eu vi algo fraquejar ali dentro. — Eu era uma criança — sussurrou. — Mas já era corajosa. Já era cheia de si. — E você era um i****a, e ainda é. — Mas eu te protegi — soltei de uma vez, e a raiva me tomou. — Fui seu amigo, mesmo quando você não sabia. Mesmo quando você dizia que queria ir embora. Eu nunca deixei ninguém tocar em você. Nunca deixei que fizessem nada. Ela engoliu em seco. — Isso não te dá o direito de fazer o que faz. — Não é sobre direitos. É sobre nós, Sofia. E então, eu fiz o que não devia. O que não podia. Mas o que eu precisava. Inclinei o corpo e a beijei. Não foi doce, nem gentil. Foi brutal. Um beijo cheio de raiva, de saudade, de mágoa. Um beijo que dizia tudo que eu não podia colocar em palavras. Tudo que me dilacerava por dentro. Ela tentou me empurrar. As mãos pequenas pressionaram o meu peito com força, mas eu fui mais rápido. Segurei seus pulsos, encostei seu corpo na parede, e por um segundo, um único segundo, o mundo inteiro pareceu ceder. Não havia trono. Não havia Giovanni. Não havia máfia, promessas ou passado. Havia só ela. Só Sofia. E o jeito como os olhos dela vacilaram me deu tudo o que eu precisava. Foi como um incêndio tomando forma em meio à gasolina. Um erro. Um desastre. Uma explosão de tudo o que nos corroía por dentro. Ela gemeu. Baixinho. O nome escapou entre os lábios dela como um segredo. — Pietro... O som me arrebentou. Ela não tentou mais fugir. Pelo contrário. O corpo dela se moldou ao meu como se me reconhecesse, como se quisesse se perder ali. Os dedos tremeram sob os meus, e quando afrouxei a força para soltá-la, ela não se afastou. Se aproximou. Ela se esfregou em mim. Lentamente. Os quadris roçaram nos meus, e a cabeça caiu para trás, deixando o pescoço à mostra. Eu queria marcar. Queria morder. Queria deixá-la tão minha quanto ela já era nas entrelinhas. — Você me odeia? — sussurrei contra sua pele. — Odeio — ela respondeu, mas a voz estava embargada. Fraca. — E é isso que me assusta. Minhas mãos afundaram na cintura dela. Nossos corpos colados, famintos, se reconhecendo no toque, na raiva, na mágoa e na urgência. Eu podia sentir cada centímetro do corpo dela reagindo ao meu. Ela tremia. Ela se rendia. Até que, de repente, a consciência voltou. Como um balde de gelo lançado sobre uma fogueira. Sofia ofegou alto, os olhos arregalados de raiva e confusão, e me empurrou com força. Com raiva de mim. Com raiva dela mesma. — Filho da p**a! — cuspiu as palavras, a respiração descompassada. O tapa veio em seguida. Rápido. Preciso. Ardido. — Nunca mais — gritou. — Nunca mais encoste em mim! Fiquei parado. O rosto ardendo. O coração mais ainda. Mas eu vi. Vi como os olhos dela ainda brilhavam. Vi os lábios trêmulos, a pele arrepiada, o peito subindo e descendo como se tivesse corrido quilômetros. Ela não me odiava. Ela me queria. — Nunca mais encoste em mim — disse, ofegante. — Mantenha suas mãos longe de mim, Pietro. Fiquei parado. O rosto ardendo. Mas o orgulho ainda mais. — Vai continuar fingindo que não sente? — Vai continuar fingindo que você é diferente de Giovanni? Porque não é. Os dois querem o mesmo. Só que ele foi honesto sobre isso. Ela virou as costas e saiu. Eu a deixei ir. Ela gemeu meu nome... p***a. Sussurrou, suplicou, se curvou contra mim como se fosse minha. Por um instante, foi. E eu queria odiar isso. Queria dizer a mim mesmo que tudo aquilo era parte do plano. Que o beijo, o toque, o calor que explodiu entre nós não passava de estratégia. A porta do meu quarto se fechou com um estalo quando entrei. Fui direto até o bar que tinha ali no canto. Joguei o uísque no copo sem contar, sem pensar, e bebi como se o álcool pudesse apagar a sensação da pele dela se esfregando contra a minha. Como se pudesse queimar o nome dela da minha língua. — Isso é só por causa da máfia — murmurei, sozinho. A voz saiu rouca, tensa, como se eu estivesse tentando convencer um inimigo interno. Como se houvesse algo dentro de mim que não parava de rir da minha própria mentira. Ela é só a peça que falta. A chave para consolidar o meu poder. Se Giovanni a levar, leva tudo. E isso... isso eu não vou permitir. Ela não significa mais do que isso. Uma herança. Um pedaço de território. Mas... O som da respiração ofegante dela ainda estava preso nas minhas memórias. O jeito como ela se derreteu nos meus braços antes de lembrar que me odiava. Antes de retomar a maldita sanidade e me empurrar como se eu fosse um monstro. Ela me bateu. Mas antes disso... ela gemeu. A garrafa bateu na madeira do balcão com força, como se fosse culpa dela que meu corpo estivesse em guerra com a p***a da minha mente. Não é sobre ela. Ela é o meio para um fim. Então por que c*****o eu fecho os olhos e ainda consigo sentir o cheiro do cabelo dela? Por que minha mão ainda formiga por ter segurado sua cintura como se ela fosse feita pra mim? Afastei o copo e respirei fundo. Devagar. Como se isso fosse bastar pra me acalmar. Mas quanto mais tento fingir que tudo isso é apenas sobre poder, mais eu percebo que... talvez o que me desespera de verdade é saber que Giovanni tocou nela. Que vai tocá-la de novo. E que, por mais que eu tente, não sei se consigo deixar que outro homem a tenha.
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