Luca Mancini
O céu começava a mudar de tom quando eu a vi atravessar o jardim com passos apressados, como se fugisse de um incêndio invisível. Ela estava com os olhos baixos, os ombros tensos, e parecia... quebrada. Não da forma dramática que tantas garotas fingiam ser. Não. Sofia carregava uma dor real, aquela que rasga por dentro e ninguém vê.
Sabia que era por causa dele.
Por causa do i****a do meu irmão. Desde que era mais nova, ele era o único que tinha poder o bastante para deixa-la tão desolada.
Engoli em seco e deixei o cigarro cair dos meus dedos. O estalo contra o mármore foi o único som além da respiração dela quando me viu. E parou.
— Esse não é o melhor momento, Luca. Por que tem que estar em todos os lugares? — a voz saiu trêmula, mas ainda com aquele orgulho queimando na garganta. — É sério. Só me deixa em paz.
— Você. Aqui. Agora. — Apontei para o caminho lateral, onde uma trilha de pedras levava a um terraço que ninguém mais frequentava.
Ela hesitou.
— Não estou com humor pra jogos.
— Eu também não — minha voz saiu mais baixa. — Não é jogo, Sofia.
Não esperei resposta. Apenas comecei a andar. E quando ouvi os passos dela atrás dos meus, senti como se tivesse ganhado uma batalha silenciosa.
O terraço ainda era do mesmo jeito de anos atrás, uma varanda em formato de L, envolta por trepadeiras secas e com uma vista parcial das colinas de Piemonte. Ali, onde o vento carregava o cheiro da infância e dos erros dos adultos, eu me escondia quando não queria ouvir os gritos de Giorgio ou lidar com os olhares gélidos de Pietro.
— Eu costumava vir aqui quando não aguentava mais... tudo isso — confessei, girando nos calcanhares para encará-la.
Sofia olhava para o chão, como se as rachaduras do piso fossem mais seguras que o peso do meu olhar.
— Aqui é bonito — ela disse, baixinho, sem emoção.
— Você está tremendo.
Ela cruzou os braços.
— Não estou.
— Está, sim.
O silencio que se seguiu foi denso, quase doloroso.
— Ele te machucou?
— Não — respondeu rápido demais. — Não fisicamente.
Dei um passo em direção a ela. Depois mais um.
— E emocionalmente?
Ela respirou fundo.
— Isso não importa.
— Importa pra mim.
Sofia finalmente ergueu os olhos. Estavam marejados, vermelhos, mas havia uma fúria neles que quase me fez recuar.
— Você não tem o direito de se importar, Luca.
— Eu tenho mais do que você imagina.
Me aproximei devagar, sem pressa, sem intenção de assustá-la, e parei tão perto que podia sentir o calor do corpo dela. Sofia cheirava a perfume floral e a mágoa m*l curada.
— Se fosse comigo — murmurei, encostando a mão no corrimão ao lado do corpo dela — se você fosse minha... eu não deixaria ninguém te tocar.
Ela não disse nada. Apenas me olhou. Os olhos brilhando, os lábios entreabertos. Por um segundo, pensei que ela fosse ceder. Pensei que fosse se inclinar e...
— Eu ouvi você. — A voz dela cortou o ar como uma navalha afiada, arrancando de mim o pouco de equilíbrio que eu ainda fingia ter.
Fiquei quieto, esperando que ela prosseguisse.
— Na noite do meu aniversário. — Ela continuou, firme, com os olhos brilhando de uma dor contida. — Eu ouvi tudo o que você disse perto do banheiro feminino. Ouvi que você e Pietro só estão brigando por mim porque eu sou um maldito prêmio. Um troféu. Uma moeda de troca entre dois idiotas mimados que querem sua herança.
Congelei. Cada músculo travado, cada memória se atropelando dentro da minha cabeça. Sofia estava parada a poucos passos, mas parecia tão distante quanto impossível.
— Sofia, deixa eu explicar...
— Explicar o quê? — Ela riu, mas o som era seco, quebrado, ácido. — Que eu sou a chave? Que se um de vocês me tiver, leva junto o trono da máfia? Que essa casa, esse nome, essa p***a toda que vocês chamam de legado, vale mais do que qualquer sentimento verdadeiro?
Dei um passo em direção a ela. Ela recuou dois.
— Você está me dizendo essas coisas bonitas agora porque quer me enganar. Quer que eu baixe a guarda. — Sua voz tremia, mas era o tremor da raiva, da mágoa sufocada por tempo demais. — Quer me ter. E, com isso... garantir sua maldita herança.
Ela cuspiu a palavra como se queimasse a língua. E doeu. Doeu de um jeito estranho, torto, como se fosse a primeira vez que alguém enxergasse através de mim.
— Não é só isso. — Minha voz saiu rouca. — Não é mais só isso, Sofia. Eu juro.
— Mas foi. — Ela ergueu o queixo, os olhos marejados e ferozes. — E isso basta.
Tive vontade de arrancar aquele passado de mim com as mãos. Rasgar da minha pele os anos de lealdade podre que construí ao lado de Giorgio, ao lado de Pietro. Mas não dava. Eu era parte disso. Parte da sujeira. Parte da ambição.
— Eu... eu não queria que fosse assim — murmurei, incapaz de me defender com mais do que isso.
— Não queria? — Ela riu de novo, com amargura. — Foi você quem escolheu jogar esse jogo. Foi você quem me usou desde o começo. Quem me cercou com palavras doces e olhares cheios de promessas que nunca pretenderia cumprir.
— Não é verdade — balbuciei.
— É sim, Luca. — A voz dela falhou no final. — E o pior de tudo... é que eu comecei a acreditar.
Ela virou o rosto, mas não antes de eu ver uma lágrima cair.
Meu peito apertou com tanta força que achei que fosse sufocar.
— Me desculpa — foi tudo o que consegui dizer, de novo. A mesma desculpa que parecia tão pequena diante da dor que eu tinha causado.
Sofia balançou a cabeça, como se aquilo fosse inútil. E talvez fosse mesmo.
— Eu não sou um troféu. Eu não sou um objeto de herança. E se você algum dia quiser me conquistar de verdade... — Ela parou. Respirou fundo. — Vai ter que me ver como algo além da sua maldita ambição.
Ela virou de costas.
E naquele segundo, vendo os ombros dela curvados, a nuca exposta, a respiração descompassada... eu soube.
Eu tinha falhado.
Não por não tê-la beijado, não por não ter confessado antes. Mas por ter permitido que ela acreditasse, nem que por um instante, que tudo entre nós era jogo.
— Sofia... — chamei uma última vez, sem saber ao certo o que queria dizer.
Ela parou, mas não se virou.
— Só... me deixa sozinha, Luca.
E foi embora.
E eu fiquei ali, sozinho, com as mãos vazias e o coração afundando numa culpa que finalmente parecia justa.
Naquele terraço esquecido, onde eu costumava me esconder do mundo, entendi que, se quisesse qualquer chance com ela... teria que deixar de ser o herdeiro.
E começar a ser apenas um homem.
Um homem que ama.
E que fodeu tudo.
Fiquei ali por um tempo que não consegui contar.
O vento passava lento, mas cortante, como se soubesse exatamente onde doía. Me encostei no parapeito do terraço, e encarei o horizonte como se alguma resposta pudesse surgir do céu cinza acima da mansão.
Ela tinha razão.
Sofia tinha razão em cada palavra.
No começo, sim, ela era só a peça que faltava no quebra-cabeça do poder. E eu fui covarde o bastante para alimentar essa ideia. Para aceitar que, se a tivesse, teria tudo.
Mas isso foi antes de ouvir a risada dela direcionada a mim pela primeira vez.
Antes de vê-la furiosa com Pietro, ou de sentir a pele dela esquentar sob meus dedos. Antes de notar que ela era forte. Que ela era diferente de qualquer coisa que essa casa já produziu.
Minha mãe também achava que poderia ser amada dentro desta casa. Também acreditava que existia afeto onde só havia estratégia. Ela foi destruída por isso. Pelo olhar de Giorgio, pelas mentiras, pelas promessas vazias de uma vida que nunca foi dela.
E agora, eu estava fazendo o mesmo com Sofia.
Talvez eu fosse pior que Pietro.
Pietro, com toda a sua raiva, sua obsessão, sua brutalidade, ao menos era transparente. Eu não. Eu me escondi atrás de um sorriso, de um charme bem ensaiado. Envolvi Sofia em sedução quando o que ela merecia era verdade.
Fechei os olhos. Respirei fundo. E pela primeira vez, sem teatro, sem arrogância, sem o papel de herdeiro, eu me perguntei:
— E se ela nunca me perdoar?
O pensamento caiu como pedra no meu estômago. Porque não se tratava mais da herança, eu sabia disso, mas talvez fosse tarde demais pra isso.
Me afastei do parapeito e desci as escadas lentamente, com o corpo pesado como se cada passo fosse um castigo. As paredes da mansão pareciam mais altas, mais fechadas. E pela primeira vez desde que eu era criança... eu me senti preso dentro dela.
Preso entre o homem que eu precisava ser para herdar essa merda toda e o homem que eu queria ser para merecer Sofia Valente.
E no fundo, uma parte de mim já sabia.
Se eu tivesse que escolher...
Ia escolher ela.
Mesmo que isso significasse perder tudo.