Giovanni De Santis
A porta da mansão se fechou atrás de mim com um estalo surdo. Um som seco, preciso. O tipo de som que os De Santis sempre apreciaram. Discrição. Eficiência. Controle.
Controle.
Era disso que eu precisava agora... me lembrar quem eu sou e de onde vim.
Soltei o ar lentamente e ajeitei o punho da camisa, desfazendo a dobra que havia escorregado. Tive que parar no espelho do corredor, e por um instante, não gostei do que vi.
Havia algo diferente no meu reflexo.
Não era o cabelo, nem a roupa. Era o olhar. Aquela expressão ligeiramente cansada, como se estivesse pensando demais. E eu odiava pensar demais. Era perda de tempo.
Principalmente por causa dela.
Sofia Valente.
A menina que apareceu no tabuleiro como um mero peão, mas que agora caminhava como uma rainha inconsciente. E o pior… era que parte de mim admirava isso.
Ridículo.
Passei direto pelo corredor principal, ignorando os quadros dourados nas paredes que contavam a falsa glória da nossa linhagem. Entrei na biblioteca, onde o cheiro de couro e uísque velho me envolveu como um abraço familiar, o único tipo de afeto que essa casa sabia oferecer.
Meu pai estava sentado na mesma poltrona de sempre, um livro de capa preta em uma mão e uma taça de vinho na outra. Olhos baixos, mas atentos. Como sempre.
— Está de volta cedo — disse, sem levantar a cabeça.
— Dia produtivo — respondi, servindo um pouco de uísque antes de me acomodar na poltrona em frente. — Não esperava te ver aqui, pai.
Ele finalmente levantou o olhar e me encarou. Um exame frio. Como quem avalia se a peça que tem nas mãos ainda serve para o jogo. Ou se já está desgastada demais para ser usada.
— Não precisa me chamar assim — ele disse, sem esconder o desprezo na voz. — “Pai”. Nunca precisei desse título com você, e você sabe disso.
Um nó invisível apertou minha garganta, mas eu mantive a taça firme.
— Como quiser, Vittorio.
Eu era um bastardo. Um erro. Uma falha nos cálculos meticulosos de um homem que construía herdeiros como quem esculpe estátuas. Friamente. Rigorosamente. Eu fui o filho da fraqueza. Da noite errada. Do corpo errado.
Ele nunca disse em voz alta. Mas nunca precisou.
Ele odiava estar perto de mim. Me tolerava porque era útil, porque ninguém presta tanta atenção na peça que, supostamente, não tem valor.
Ele girou o vinho devagar, observando o líquido escuro como se houvesse algo ali que valesse mais do que eu.
— E a menina Valente?
— Está começando a acreditar em mim — respondi. — Comecei devagar. Um gesto aqui, outro ali. Um sorriso no momento certo. Um comentário que faz ela rir. Estou construindo o que ela quer ver: um homem que parece bom demais pra esse mundo.
Vittorio assentiu uma única vez, sem emoção. Depois tomou um gole longo do vinho.
— Bom. E ela acredita?
— Está comendo na minha mão — disse, cruzando as pernas com uma confiança que eu nem sabia se ainda era real. — Aceita caronas. Ri das minhas piadas idiotas. Me olha como se eu fosse a única coisa segura em meio àquela tempestade.
Ele apoiou o livro no braço da poltrona e me analisou por um longo momento. Seus olhos eram como lâminas frias.
— Giorgio é um homem inteligente, Giovanni. E você é... impulsivo. Sentimental, talvez. Não cometa o erro de acreditar que pode vencer o jogo com coração.
Ele usava meu nome como se fosse um acidente. Algo que precisava ser engolido a seco.
— Não estou cometendo esse erro.
— Ainda. — Ele inclinou-se para frente, o rosto parcialmente na sombra. — Lembre-se de uma coisa: você não é como eles. Você não é como o Lorenzo, nem como o Marco. Você não nasceu pra isso. Foi um desvio. Um lembrete vergonhoso de que até os De Santis erram.
Ele sempre fazia questão de dizer que não era como meus irmãos.
Um músculo do meu maxilar se contraiu.
— E mesmo assim, sou o único de nós que está de fato jogando.
— Exatamente. — Ele riu sem humor. — Porque quem tem mais a perder sempre joga mais desesperado.
Fez uma pausa antes de continuar, e a voz agora veio mais baixa, mas letal.
— Você não pode se dar ao luxo de sentir. Nenhuma fraqueza. Nenhuma brecha. É isso ou se torna irrelevante.
Assenti.
Mas a imagem dela passou pela minha mente. Sofia.
Cabelos mexendo ao vento. O som do sorriso dela. O jeito como abaixa os olhos quando está com vergonha.
E o pior… o sorriso. Aquele sorriso suave. Que não era pra mim, mas que, quando dirigido a mim, me causava uma irritação absurda. Como se, por um instante, eu quisesse que ela sorrisse apenas pra mim.
Merda.
Levantei da poltrona antes que meu pai dissesse mais alguma coisa. Ele já havia vencido aquela noite.
Saí do escritório sem olhar para trás e fui direto para o meu quarto. A mansão estava silenciosa, mas cada passo meu ecoava como se dissesse: “Você nunca vai ser um deles.”
Mas eu não queria ser um deles.
Queria ser o nome que eles jamais esqueceriam.
Dentro do meu quarto, onde não exigiam postura, pude abrir os botões da camisa e ficar mais à vontade.
Joguei a peça sobre a poltrona perto da lareira apagada, caminhei até o espelho e encarei meu próprio reflexo mais uma vez.
— Você não pertence a esse lugar. Mas vai tomá-lo mesmo assim. — Murmurei olhando meu reflexo no espelho.
Estava prestes a tirar os sapatos quando escutei um estalo leve vindo da porta. A maçaneta girou. Eu nem precisei olhar para saber quem era.
— Achei que você estivesse ocupado fingindo ser relevante. — A voz do meu primo cortou o silêncio como navalha polida.
Alessio De Santis. O queridinho da linhagem legítima. Sangue puro. Um De Santis “de verdade”, como meu pai fazia questão de dizer.
— E eu achei que você estivesse ocupado demais lambendo as botas do vovô para se incomodar com o bastardo aqui em cima — retruquei, sem me virar.
Ouvi seus passos entrarem, confiantes demais, como se o quarto também lhe pertencesse. Odiava isso. Odiava o jeito como ele sempre agia como se eu fosse um intruso na minha própria vida.
— Você anda se esforçando demais com a menina Valente — disse ele, já se servindo de um pouco do meu uísque sem pedir. — Aposto que acha que vai ser sua redenção, não é? A conquista que vai apagar o erro da sua existência.
Me virei devagar.
— Se está tão interessado, posso te dar algumas dicas. Mas acho que ela não se atrai por cobras de estimação.
Ele riu. Aquela risada seca, de quem se diverte com a própria crueldade.
— Sempre tão sensível, Giovanni. Será por isso que o tio Vittorio nunca te apresentou como filho? Ou será porque você lembra a todos que até o grande patriarca erra de vez em quando?
Fiquei em silêncio. Não porque as palavras dele me atingiram, eu já era calejado demais pra isso. Mas porque responder daria a ele algo que ele queria: reação.
Ele caminhou até a janela, espiando a noite escura como se esperasse ver alguma movimentação no jardim.
— Giorgio está atento — ele disse. — A menina é importante para ele. E você… bom, você é só sacrificável.
— Engraçado — rebati — Se eu fosse tão insignificante assim, você não estaria aqui.
Ele se virou, olhos estreitos.
— Só estou aqui porque o velho me mandou saber se você vai conseguir cumprir sua parte sem transformar isso em outro vexame emocional.
— Diz ao velho que o bastardo sabe seu lugar. E que não esqueci o que precisa ser feito.
Alessio sorriu, mas não havia humor ali.
— Cuidado, Giovanni. O tabuleiro pode virar. E você, mais do que ninguém, sabe como é fácil ser deixado de fora do jogo.
Com isso, ele saiu. A porta bateu com o mesmo estalo surdo de antes.
Controle.
Precisava me controlar.
Mas tudo o que senti foi a raiva pulsando sob a pele… quando a maldita imagem do sorriso dela rondou minha mente.