Capítulo 15

1588 Palavras
Sofia Valente O silêncio da mansão aos fins de semana tinha um som próprio. Não era exatamente de paz, mas de expectativa. Como se até as paredes soubessem que, ali dentro, qualquer descanso era só uma pausa antes da próxima tormenta. Foi nesse silêncio que caminhei, descalça, atravessando o corredor principal com a respiração contida e os olhos atentos. O final de semana havia chegado, e com ele, a rara oportunidade de buscar respostas por dentro. Eu não confiava em mais ninguém. E, se quisesse entender quem era minha mãe de verdade... teria que buscar respostas por mim mesma. Subi até o terceiro andar. A ala restrita da mansão, onde ficavam os arquivos, a biblioteca privada e, mais importante, o cofre pessoal de Giorgio. A maioria dos seguranças estava no andar térreo. Pietro e Luca tinham saído mais cedo. Giorgio não estava em lugar nenhum. Era agora ou nunca. Minha chave-mestra, um pequeno dispositivo que roubei semanas antes, da mesa de Pietro, deslizou pela fechadura do escritório de Giorgio. A porta se abriu com um clique quase imperceptível e eu entrei. O escritório era grande, cercado por estantes de madeira escura e janelas altas cobertas por cortinas pesadas. O cofre estava atrás de um quadro, um retrato do próprio Giorgio jovem, sentado num trono antigo, cercado por homens de olhar vazio. Um símbolo da Cosa Nostra. Removi o quadro com cuidado e digitei a sequência que eu tinha decorado quando o vi, semanas atrás, abrindo o cofre sem saber que eu estava observando da sacada. A tranca cedeu. Lá dentro, havia pastas. Cartas. Fotografias. Documentos antigos com o selo da máfia. Toquei tudo com luvas, precaução de instinto. E foi quando vi o envelope branco com as bordas gastas, amarelado pelo tempo, selado com um laço de fita vinho. “Para Giorgio”, dizia, em letras pequenas. Minha mão congelou no ar. Abri com cuidado. O cheiro de papel antigo me invadiu. Giorgio, Não sei se você lerá isso. Não sei sequer se você ainda pensa em mim. Mas, se um dia fizer isso... quero que saiba que me arrependi. Não por ter te amado. Mas por ter deixado que esse amor me transformasse na pessoa que me tornei. Você prometeu que me protegeria. Que manteria nossa filha longe desse mundo. E eu acreditei. Mas você não foi homem o bastante para cumprir nenhuma das suas promessas. Você escolheu a máfia, em vez de nos escolher. E eu... eu escolhi protegê-la mesmo assim, mantê-la longe de você. Adeus. Clara. Minha mãe. Aquela caligrafia tão familiar, tão doce nos bilhetes que ela deixava na minha lancheira quando eu era criança, agora me parecia um punhal. Giorgio... e minha mãe? Era impossível. Era inconcebível. Minha mãe era casada com meu pai. Eles pareciam felizes. Tinham sido companheiros, unidos, até o fim. Ou pelo menos era o que me fizeram acreditar. Dobrei a carta com mãos trêmulas. Guardei-a no bolso interno do meu casaco e fechei o cofre com o mesmo cuidado. Mas já não havia silêncio dentro de mim. O papel parecia queimar entre meus dedos, como se aquelas palavras estivessem vivas, pulsando, gritando, reescrevendo tudo o que eu acreditava sobre o passado da minha mãe. Sobre o meu passado. E, pela primeira vez, eu questionei algo que nunca tive coragem de perguntar: Giorgio é meu pai? A ideia era absurda, mas aquela carta... aquela maldita carta... dizia o contrário. Ela era íntima demais. Dolorosa demais para mim. Eu era sua única filha, e ela me enganou e enganou meu pai por anos. Meu coração batia descompassado. As palavras dela ecoavam como estilhaços na minha mente. "Você não foi homem o bastante para cumprir nenhuma das suas promessas." Fechei os olhos, respirando fundo, tentando não surtar. Mas já era tarde demais. Eu precisava de respostas. E havia apenas uma pessoa neste mundo que poderia me dá-las. Saí do escritório como uma tempestade, ignorando os olhares dos empregados, os corredores intermináveis, o burburinho distante vindo do jardim. Marchava como se estivesse indo para a guerra. E, de certa forma, estava. Perguntei aos seguranças onde Giorgio estava, e me disseram que estava treinando os novos soldados. O centro de treinamento estava com a porta entreaberta. Empurrei com força, sem bater. Giorgio ergueu os olhos quando me viu. — Algum problema? — perguntou, com a voz tranquila demais. Caminhei até ele, joguei a carta dobrada em seu peito. Ele olhou em volta e fez um sinal para que todos saíssem e fiquei ali, em silêncio, encarando-o como se pudesse arrancar a verdade só com o olhar. Ele abriu o papel, leu com a expressão imóvel... mas eu vi. Vi a leve contração da mandíbula. Vi a sombra passar pelos olhos. — Onde encontrou isso? — perguntou, dobrando novamente com calma. — Não acho que deva invadir minha privacidade dessa maneira. — Eu precisava entender — disse, tentando manter a compostura. — A verdade. A história da minha mãe. A nossa história. — E achou que reviver fantasmas resolveria alguma coisa? — Não são fantasmas. São mentiras. A minha vida inteira foi construída sobre segredos. E hoje... eu descobri que a mulher que eu idolatrava talvez tenha sido amante do homem que destruiu tudo. — Entender o passado, não o altera. — Não importa onde. Quero saber quem é a filha de quem ela está falando. — Sofia... — Sou eu, não sou? — insisti. — Sou a filha de vocês dois. Ele fechou os olhos por um instante e soltou o ar como se carregasse um fardo nas costas há anos. — Não — respondeu, por fim. — Você não é minha filha. As palavras vieram como um soco. Mas ele continuou. — Clara e eu... tivemos uma história. Uma história que nunca deveria ter acontecido. Mas aconteceu. E ela terminou quando pensou que poderia me controlar. — Então por que ela escreveria isso? — perguntei, erguendo a carta. — Por que ela escreveria “nossa filha”? — Porque, no fundo, ela queria que eu tivesse sido o pai. — A resposta dele veio como uma lâmina, mas não soava como verdade. — Queria ter acreditado que nós poderíamos ter uma vida juntos. Mas Clara era casada. Com outro homem. O mesmo homem que tentou me matar anos depois. Fiquei em silêncio por alguns segundos, processando. — Você ainda a amava. Giorgio não respondeu. Mas o silêncio disse mais do que qualquer palavra. — Por que não me contou isso antes? — Porque não mudaria nada. — Respondeu como se não fosse nada. — Clara fez uma escolha. E eu fiz a minha. Eu escolhi a Cosa Nostra. Sempre escolheria. — Nem a mulher que você amava foi suficiente? — Ninguém é suficiente quando o que está em jogo é o sangue que juramos proteger. — Nem seus filhos e eu? Somos sua família. Houve uma pausa. — Ninguém. As palavras caíram pesadas, definitivas. Uma sentença que me esmagou de dentro pra fora. — Então por que estou aqui? — Porque Clara pediu. Porque ela morreu pedindo isso. — Sua voz finalmente tremeu. — E porque, quando olho pra você, eu a vejo. Vejo os olhos, a raiva, a teimosia... Mas não veja isso como amor, Sofia. Aqui dentro... amor não significa nada. Aqui, só há lealdade. Só há dever. — E ameaças disfarçadas de proteção — completei, amarga. Ele se aproximou da janela, e olhou o jardim como se falasse com fantasmas. — Não coloque seu coração neste jogo. Vai sair sangrando. — Já estou sangrando, Giorgio — cuspi. — Pelas mentiras, pela enganação, por ser apenas um troféu para vocês. — Ela não foi minha amante — murmurou. — Clara foi o amor da minha vida. O ar sumiu dos meus pulmões. — Mas ela era casada com meu pai... — E mesmo assim, ela me amava. — Ele se aproximou. — Eu a conheci antes de você nascer. Antes de qualquer lealdade. Antes da guerra entre as famílias. E quando ela se casou com o Valente, foi por obrigação, não por escolha. — E mesmo assim você a deixou morrer. Giorgio parou. O silêncio se estendeu como uma sombra. — Eu amava sua mãe — disse por fim, a voz mais baixa do que nunca. — Mas nada, Sofia. Nada nunca estará acima da Cosa Nostra. Aquela frase caiu como uma sentença. — Isso é deprimente. — Um homem que governa com o coração... é um homem morto. Eu fiz o que era preciso. Protegi essa casa, essa família, esse império. Sua mãe escolheu fez as escolhas dela, e morreu tentando me proteger. — Você poderia ter me contado... — Para quê? Pra você me odiar? — Eu já odeio. — Sussurrei. Ele riu, sem humor. — Ótimo. Então você já está pronta. — Pronta pra quê? — Pra aprender o que é poder. E o preço que ele cobra. A máfia não rouba apenas vidas. Ela rouba amores. Rouba pais. Rouba mães. Rouba tudo que é puro e transforma em sacrifício. Não acreditei no que ele me disse, precisava de um teste de DNA para saber se ele era realmente meu pai, mas se fosse... por que diabos estaria me jogando para meus irmãos? Obrigando-os a tentar me conquistar? Deus... se eles eram meus irmãos, eu estava atraída pelos dois... Tenho que os manter longe de mim. Me virei e saí. Porque, se ficasse mais um segundo ali, eu gritaria. Choraria. Imploraria por algo que ele nunca foi capaz de dar a ninguém: humanidade.
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