Sofia Valente
As aulas da manhã passaram rápido demais. Eu respondi perguntas sem escutar as instruções, anotei tópicos que não fazia ideia se seriam úteis e sorri mecanicamente para quem tentava puxar conversa. Era segunda novamente, a universidade estava mais vazia, e os jardins tinham aquele silêncio preguiçoso que sempre me acalmava, ou costumava acalmar, antes de tudo virar um nó impossível de desfazer.
Estava sentada no banco de pedra sob a sombra das cerejeiras quando Isabela apareceu com dois cafés nas mãos.
— Achei que estivesse se escondendo. — Ela sorriu, sentando ao meu lado. — Ou fugindo de novo.
— As duas coisas — murmurei, pegando o copo quente. — Obrigada.
Isabela era um respiro de normalidade. Com ela, eu ainda me sentia um pouco... eu. Antes de tudo. Antes dos Mancini. Antes de Giovanni. Antes de descobrir que minha vida tinha tantas camadas quanto uma conspiração política m*l escrita.
— Sabe — ela começou, com o tom leve de quem ia provocar — se você continuar desse jeito, vai acabar com rugas antes dos vinte e dois.
Dei uma risada curta, mas sincera. Era bom rir, mesmo que por um segundo.
— Eu só estou cansada — menti. Porque a verdade era mais complexa: eu estava confusa, machucada, dividida entre mágoas que não entendia completamente.
— Cansada, mas bonita. — Ela me deu um empurrãozinho de leve. — Você ficou incrível no teste. Acho que vai ser a líder de torcida mais adorável da universidade.
— Isso é um elogio estranho.
— Vindo de mim, é um elogio realista.
Conversamos mais alguns minutos sobre coisas bobas: festas que Isabela queria ir, provas que estavam chegando, e um professor que parecia nutrir ódio pessoal por alunos felizes. Quando ela precisou sair para revisar um trabalho com um colega, eu fiquei ali sozinha, segurando o café morno, observando as folhas dançarem com o vento.
Foi quando voltei para a sala, pouco antes da próxima aula, que vi um envelope marrom estava sobre minha mesa, exatamente no centro. Sem remetente. Sem nome. Apenas... ali.
Por um segundo, hesitei. Olhei em volta. A sala estava vazia. Nenhum sinal de Giovanni, Pietro, Luca ou qualquer um da mansão. Mas ainda assim, algo se retorceu dentro de mim. Medo, talvez. Ou só o instinto me avisando que aquilo não era coisa boa.
Peguei o envelope, escondi na bolsa e esperei até voltar ao quarto naquela noite para abri-lo.
Fechei a porta com cuidado. Não queria correr riscos. Depois de verificar duas vezes se estava trancada, sentei na cama e puxei o envelope devagar, como se estivesse prestes a segurar uma bomba entre meus dedos.
Dentro, havia um diário.
Reconheci a caligrafia antes mesmo de ler. Era dela. Minha mãe.
Minhas mãos tremeram.
Demorei longos minutos até encontrar coragem de virar as páginas. Algumas estavam vazias. Outras com rabiscos soltos. Mas então, em meio às anotações quebradas, encontrei uma parte um pouco mais longa:
Não lembro exatamente quando a paz me pareceu inalcançável. Talvez tenha sido no instante em que entendi que amor, naquela casa, era uma promessa com prazo de validade. Ele dizia que me amava... e talvez amasse. Do jeito torto que os homens poderosos amam. Com domínio. Com posse. Com medo de perder o controle. Giorgio nunca me disse que ia me deixar. Ele só deixou de me olhar.
Às vezes fecho os olhos e ainda escuto os risos. Os dela. Os dela quando era pequena, quando corria entre os lençóis estendidos no jardim de verão e dizia que as nuvens pareciam algodão. Eu sempre respondia que era perigoso sonhar alto demais. Eu já sabia que o mundo não perdoa quem nasce mulher. E ainda menos quem ousa sonhar demais.
A verdade é que eu falhei. Em tudo.
Deixei que a máfia engolisse quem eu era. Deixei que o medo moldasse cada decisão. Fui fraca. Covarde. Me agarrei a um amor que me fez esquecer do que era certo,e depois, me fez lembrar com violência.
Ela... era tudo. E mesmo assim, eu a deixei. Porque não podia permitir que vivesse cercada de sangue, segredos e armas escondidas atrás de retratos dourados. Eu queria que ela tivesse uma chance. Uma chance de ser só uma menina. De rir sem medo. De amar alguém sem precisar desconfiar a cada toque.
A saudade dela me corrói como veneno lento. E o silêncio... O silêncio de não poder chamá-la, tocá-la, explicar tudo. O silêncio de vê-la crescer de longe, como um eco do que eu poderia ter sido. Ela se parece comigo. Mais do que eu gostaria. E é por isso que preciso protegê-la mesmo agora, mesmo que ela me odeie por isso.
Minha menina...
Não posso escrever o nome. Ainda dói.
Duas metades do que um dia foi inteiro. Uma perto demais do perigo, a outra... distante demais para sentir o calor do meu abraço. Ambas nasceram do mesmo erro. Do mesmo desejo de ter algo que nunca foi só meu.
Talvez um dia alguém entenda. Talvez alguém leia isso e perceba que não se trata de perdão, mas de verdade. Eu nunca fui santa. Mas também nunca fui indiferente. A culpa me acompanha como sombra. E a esperança... bem, ela já me abandonou há anos.
Se amanhã eu não estiver mais aqui, que reste ao menos isso: palavras. Trêmulas, sujas de arrependimento, mas reais.
Porque tudo que fiz... foi por elas.
Meus olhos estavam úmidos. As palavras embaralhadas. O coração... em frangalhos.
Ela teve outra filha?
A pergunta era um trovão em meus pensamentos. Como? Quando? Por quê? De quem?
Fechei o diário com mãos trêmulas, os dedos pressionando a capa como se quisessem arrancar respostas da pele gasta do couro.
Eu precisava entender. Precisava saber a verdade.
...
Na manhã seguinte, Giovanni me esperava no mesmo horário de sempre, parado com aquela postura impecável ao lado do carro preto. Seus olhos me acompanharam desde o momento em que saí pela porta da frente até abrir a porta do passageiro.
Entrei sem dizer uma palavra.
Ele ligou o carro em silêncio, mas antes de sairmos da propriedade, eu quebrei o ar tenso entre nós:
— Giovanni.
— Sim? — ele respondeu, ainda concentrado na direção.
— Ontem... alguém deixou um envelope na minha mesa da faculdade.
— Que tipo de envelope? — ele perguntou, lançando-me um olhar breve.
— Isso não importa... mas quero saber se foi você..ç
Giovanni soltou o volante por um segundo, os dedos cerrando no ar. Ele virou-se levemente, com a expressão marcada por surpresa real.
— Sofia, eu juro por tudo... eu não deixei nada. É muito fácil entrar nessas salas..
— Tem certeza? — insisti, buscando qualquer traço de mentira no tom dele.
— Absoluta. Eu não brincaria com isso. Ainda mais com algo que envolve você. Está tudo bem?
Assenti, mas por dentro, a dúvida ainda gritava. Alguém havia colocado aquele diário ali. E queria que eu lesse.
Talvez para me alertar. Talvez para me ferir.
O caminho até a faculdade foi silencioso, mas minha mente girava como uma tempestade.
O caminho até a faculdade foi silencioso, mas minha mente girava como uma tempestade.
A outra filha.
Minha irmã.
As palavras da minha mãe ainda ardiam sob a pele como se tivessem sido tatuadas à força. Eu não sabia o nome dela. Não sabia onde estava. Não sabia sequer se ainda estava viva. Mas o que mais me doía era saber que minha mãe... minha mãe tinha amado tanto essa filha a ponto de escondê-la. De deixá-la para trás. Ou talvez de protegê-la com o próprio silêncio.
E eu? O que eu era nesse cenário? Um plano B? Uma substituta? Ou só mais uma consequência trágica de um passado que eu nunca pedi para carregar?
A cidade passava pela janela como um borrão. Os carros, as ruas, as árvores... tudo parecia distante. Irreal. Como se o mundo estivesse acontecendo fora de mim, enquanto eu mergulhava mais fundo nessa dúvida corrosiva.
O que havia de tão perigoso naquela história que precisava ser apagado?
O diário de minha mãe não explicava tudo. Apenas deixava buracos, ausências, sombras entrelinhadas. Por que ela me manteve, se a outra precisou ficar longe?
Será que eu a conheço? Que ela me conhece?
Um arrepio percorreu minha espinha.
E se eu já a tivesse visto?
E se ela estivesse mais próxima do que eu imaginava?
Soltei o ar, tentando afastar os pensamentos paranoicos. Mas não adiantava. Porque agora que eu sabia que ela existia, não conseguiria mais pensar em outra coisa.
Eu tinha uma irmã.
Uma ligação de sangue.
Um pedaço perdido de Clara que ainda caminhava por aí… talvez carregando as mesmas perguntas que agora me dilaceravam.
O carro parou em frente à universidade. Giovanni soltou o cinto e virou para mim, mas eu já estava abrindo a porta.
— Vai ficar bem? — ele perguntou, a voz carregada de preocupação verdadeira.
— Sempre fico — menti, forçando um sorriso fraco.
Ele quis dizer algo mais, mas se conteve. Fechei a porta sem olhar para trás.
Hoje, a verdade me pesava demais para ouvir mais mentiras.
Mas enquanto eu atravessava a faculdade, uma coisa me ocorreu...
Seria ela a fila de Giorgio?