A Mamãe Postiça

1162 Palavras
Voltei para o quarto e deitei em meu colchão aos prantos. Chorei a noite inteira, não consegui dormir nem um minuto sequer, e estava com muita dor. Quando May acordou, ela me viu já acordada. - Faz tempo que você acordou? - Se sentou ao meu lado, em meu colchão. - Nem dormi. - Respondi. - Sério? Por quê? - Hã… Estava com dor… - Onde? - Hã… Dor de barriga. - Menti. - E não está mais com dor? - Não, já passou. - A abracei. Na parte da manhã, fizemos um lanche delicioso que Sammy havia preparado pra gente. Ela era tão legal, parecia uma mãe de verdade. Durante o tempo todo que ficamos nessa casa, ela foi um pouco nossa mãe, nos cuidou, nos protegeu, nos deu amor, e brincava com a gente. - Terminaram? - Ela perguntou. - Aham. - Respondemos. - Então, agora vão tomar banho porque vocês têm aula daqui a pouco. Cadê a Tiffany? - Saiu. - Gritou uma mulher da sala. - Vocês sabem tomar banho sozinhas? - Sim, fazemos quase tudo sozinhas quando estamos com a nossa mãe. - Respondi. - A gente até toma banho sozinhas, mas as vezes cai shampoo nos nossos olhos, e arde muito. - Disse May. - Ai, tadinhas! - Acariciou o rosto da minha irmã. - São tão pequenas… Se quiserem, posso dar banho em vocês. - Eu quero! - May pulou de alegria. Eu também queria, seria como se mamãe nos banhasse, e eu queria saber como era isso, já que nem lembro quando foi a última vez que mamãe nos deu banho, talvez quando eu tinha uns 3 anos. Mas… Eu fiquei com medo. Não era medo da Sammy, ela era boazinha, mas… era medo dela ver que eu estava machucada, ela podia me fazer perguntas e eu não podia dizer a verdade, mesmo querendo, pois eu sabia que se eu fizesse isso, mamãe machucaria a May e o papai, e eu não queria que ela fizesse nada com eles. - Pode dar banho na May, eu tomo depois. - Falei. - Tem certeza? Posso dar nas duas de uma vez pra ser mais rápido. - Ah, toma banho comigo, Chloe, assim podemos brincar de guerrinha de água como sempre. Pensei um pouco e acabei aceitando, ah, como era difícil falar ‘’não’’ pra minha irmã. No caminho até o banheiro eu fiquei pensando o que fazer ou o que dizer caso ela perguntasse algo, mas estava torcendo para ela nem notar. Entramos no banheiro e May foi logo tirando suas roupas, e eu também tirei a minha roupa, porém, um pouco tímida, embora eu não estivesse com vergonha. Assim que tirei minha calcinha e fui para debaixo do chuveiro, Sammy me perguntou. - Querida, o que houve? Se machucou? - Hã… Hã… Aham. - Como? O que aconteceu? - Perguntou soando preocupada. - Eu… Hã… Eu me bati em um brinquedo da pracinha da minha escola. - Menti. - Qual? - May perguntou bastante curiosa. - Hã… A gangorra, fui descer, escorreguei e me bati. - Deve ter doído. - Disse a minha irmã. - Você não imagina o quanto. - Falei ao lembrar o verdadeiro motivo do machucado. - Acho que eu tenho uma pomadinha pra isso. - Disse Sammy. - Depois a gente passa, ok? Acenei a cabeça positivamente. Ela deu banho na gente com muito amor e cuidado. Tive vontade de chorar, mas me contive, será que ela podia ser nossa mãe? Eu queria tanto saber como é ter uma mãe boazinha. Assim que terminamos de tomar banho, Sammy me deu a pomada para eu passar, eu passei, mas sabia que em breve voltaria a doer. Ela ajudou a gente a se vestir e depois até penteou os nossos cabelos, só papai fazia isso em nós, a gente gostou, ela tinha a mão tão macia e delicada. - Quem leva vocês pra escola? - Perguntou. - Nós vamos sozinhas, mas eu não sei ir daqui. - Falei. - Mas que absurdo! É muito perigoso criança andar sozinha na rua, tem muita gente má nesse mundo. ‘’E como... ‘’ - Pensei. - Mas eu vou levar vocês hoje. - Falou para nossa alegria. - Qual o nome da escola de vocês? Eu disse para ela como se chamava a escola que a gente estudava e ela nos levou. Foi o caminho todo de mãos dadas com a gente. - Sabe, eu gostei muito de conhecer vocês, princesas. - Ela disse. - E decidi que vou mudar de vida. Vou arrumar outro serviço... - No que você trabalha? - May perguntou. - Hã… Eu… Eu vendo coisas. - Falou soando mentira. - Então você é vendedora? - Minha irmã perguntou. - Tipo isso. Mas depois que eu conheci vocês, eu vi que não é isso que eu quero pra minha vida. Eu quero trabalhar em outra área, e quero me casar e ter filhas tão lindas como vocês. - Você vai ser uma ótima mãe. - Falei. - Obrigada, meu amor. - Sorriu. Assim que chegamos no colégio, ela nos desejou uma ‘’boa aula’’ e foi embora, alegando que voltaria na hora da saída para nos buscar. Pouco depois que ela saiu, papai chegou para falar com a gente. Ele queria saber como estávamos e onde estávamos ficando. Eu disse que não sabia bem onde era, mas que havia diversas moças, e falei sobre a Sammy, ele ficou feliz por ter alguém que cuide da gente, coisa que mamãe nunca fez. Como papai teria compromisso, ele teve que ir embora. Nos despedimos dele, e May saiu correndo para brincar com as suas coleguinhas. E eu me sentei em um banco, meus amigos ainda não haviam chegado. Fiquei sentada e comecei a lembrar da noite anterior, não entendia o porquê de mamãe me obrigar a ir com aqueles homens malvados, eu não gostava, eu não queria, e doía, doía muito. - Chloe? - Nem havia notado a presença do Mike. - O que houve? Por que está chorando? Sem dizer nada, me levantei e o abracei aos prantos. Em silêncio, ele me abraçou de volta. - O que houve? - Perguntou assim que eu desfiz o abraço. - Eu… Eu não posso contar. - Falei. - Por quê? Não sou teu melhor amigo? - Claro que é. - Falei rapidamente. - Então… Melhores amigos contam tudo uns pros outros. Ou não confia em mim? - Claro que confio. Mas… Tenho medo. - Falei cabisbaixa. - De mim? - Perguntou soando ofendido. - Claro que não, seu bobo. Hã… Tenho medo que saibam que contei pra alguém. - Eu não vou contar, sei guardar segredo. - Sorriu. Mike ficou em silêncio aguardando que eu dissesse algo, e eu queria dizer, queria contar tudo, ele era meu melhor amigo, eu confiava nele, queria poder me abrir pra alguém e talvez ele não entendesse sobre essas coisas, e talvez por isso não tivesse problema.
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