Voltei para o meu quarto aos prantos e deitei de bruços na minha cama.
- Onde você estava? - May perguntou. - Por que está chorando?
Eu não respondi, estava com muita raiva, claro que não era raiva da minha irmã, mas raiva da mamãe e daquele homem mau, por que a mamãe me odiava tanto? O que eu fiz pra ela?
- Chloe, quer brincar? - Minha irmã perguntou.
- Não estou com vontade. - Respondi tentando conter o choro.
- O que houve? O que a mamãe queria com você?
- Nada, não. - Sequei as lágrimas. - Do que você quer brincar?
- Hum… - Pensou um pouco. - De esconde-esconde.
- Tá, vai se esconder, que eu vou contar. - Falei.
(...)
Os dias se passaram e todos os dias mamãe levava caras diferentes em nossa casa, eles faziam coisas feias comigo e eu não gostava, doía muito e mamãe sempre me ameaçava, ela dizia que se eu contasse para o meu pai, ele jamais acreditaria em mim e deixaria de me amar. Papai era o único que se importava comigo, eu não queria que ele deixasse de me amar. E às vezes, também ameaçava em fazer m*l para papai ou para May, eu não queria que ela machucasse eles.
Era uma quinta - feira, eu estava no meu quarto brincando com minha irmã quando mamãe entrou.
- Vem! - Ela disse para mim, e eu já senti do que se tratava.
- Não mamãe, eu não quero. - Comecei a chorar. - Por favor, não.
- Vem ou a Maytê vai ir no teu lugar.
Olhei para minha irmã que estava assustada e sem entender nada. Eu não poderia deixar que fizessem com ela o mesmo que faziam comigo, ela era muito pequena, e eu tinha que protegê-la.
- Eu já venho, tá? - Falei para minha irmã.
- E você fica aqui e não sai daqui. - Ela disse para May.
Fui com mamãe até o quarto dela, onde avistei um homem baixo, barrigudo, cabeludo e barbudo sentado na cama.
- Pensei que ela fosse um pouco mais velha. - Falou, me fazendo rezar para ele não querer me machucar. - Mas é linda! - Mexeu em meu cabelo, aumentando o meu medo.
- Bom, se divirtam, crianças. - Disse mamãe ao sair do quarto.
Eu fiquei em um canto, encolhida de medo e chorando muito, não queria nada daquilo, e eu sabia que era errado, papai sempre conversou com a gente sobre isso, sobre o fato de ninguém poder nos tocar da maneira que esses homens me tocavam, e era isso que me deixava com mais medo em contar pra ele, papai pensaria que eu deixei, que eu não disse "não", que não pedi pra pararem e ficaria bravo comigo, eu não queria isso.
O homem me olhou com um enorme sorriso e se aproximou de mim, me pegou pelo braço e eu comecei a bater nele, mas nada fez o homem parar.
(...)
Eu voltei chorando para o meu quarto, eu estava muito dolorida. Sentei levemente em minha cama, e May sentou ao meu lado.
- Chloe? O que houve? Por que está chorando?
- Não foi nada, não. - Menti.
- O que a mamãe queria com você? Ela te bateu?
Quem dera se ela tivesse me batido, acho que eu preferia ter apanhado.
- Eu ouvi uns barulhos. - Ela disse. - Os mesmos barulhos de quando a mamãe traz aqueles amigos dela. Eu não gosto de ouvir isso.
- A música, lembra? É só escutar música.
- Verdade, não lembrei. - Sorriu inocentemente.
- Vou ao banheiro. - Falei.
Sai do meu quarto e quando olhei para o andar debaixo, mamãe estava conversando com aquele homem mau, vi quando ele entregou dinheiro pra ela, e não era pouco. Por que será que ele estava dando dinheiro para a minha mãe? Geralmente as pessoas não dão dinheiro umas pras outras, assim do nada. Ele saiu de casa e a mamãe fechou a porta, corri para o banheiro, com medo dela me ver.
(...)
No dia seguinte, uma sexta - feira eu estava super feliz. Eu amava as sextas, porque era dia de ir pra casa do papai, e o final de semana era quando eu tinha paz, quando ninguém me machucava, quando eu conseguia ser criança.
A campainha tocou e logo corremos pra sala. Mamãe já tinha aberto a porta.
- Papai! - Falamos May e eu em uníssono.
Corremos para abraçá-lo e pulamos no colo dele, que nos encheu de beijos, era tão bom receber carinho.
- Como vocês estão, minhas princesas?
- Bem! - May respondeu.
- Podemos ir logo? - Perguntei.
- Claro, vamos.
Ele pegou as nossas mochilas e fomos até o carro. Nos colocou sentadas nos bancos, colocou o cinto na gente e logo sentou no banco do motorista. Papai nos fez várias perguntas sobre a escola, como havia sido nossa semana, etc.
Assim que entramos na casa dele, May e eu fomos direto pra cama dele, que era de casal, e começamos a pular, como adorávamos fazer.
- Estão com fome? - Perguntou.
- Acho que tem um buraco no meu estômago de tanta fome. - Disse minha irmã.
- Não sei porque eu ainda pergunto. Vou preparar algo para vocês.
Papai fez torrada pra gente e comemos como se não comêssemos nada há anos. Como já estava ficando tarde, ficamos em casa mesmo, vimos filme, montamos quebra-cabeça, jogamos jogo da memória e uno, e fizemos muita bagunça, papai participava de tudo. E depois jantamos uma comida deliciosa, que papai havia feito.
- Bom, agora partiu banho, e depois é cama, já está ficando tarde.
Eu gelei quando papai falou a palavra "banho", pois diferente da mamãe, ele costumava dar banho na gente e isso me causou um certo medo, pois minha região íntima estava machucada e eu não queria que ele visse.
- Pode dar banho na May, eu tomo banho sozinha depois.
- Sozinha? - Estranhou.
Acenei a cabeça positivamente.
- Tudo bem, vamos lá baixinha.
Se virou de costas para minha irmã, que subiu nas costas dele e saiu rindo com papai. Deitei na cama e fiquei escutando os dois conversando e rindo no banheiro. Fechei os olhos e imaginei mamãe fazendo o mesmo na gente. Deve ser tão legal ter uma mãe boazinha.
Os dois saíram do banheiro e papai secou minha irmã enquanto os dois conversavam, sorri ao ver minha irmã tão feliz, e eu a entendia, pois eu também sempre ficava feliz quando estava com papai.
- Filha, agora vá tomar banho. - Ele disse. - Tem certeza que não precisa de ajuda?
- Aham.
Peguei minha toalha e fui até o banheiro. Tirei minha roupa, liguei o chuveiro e comecei a tomar banho. Me esfreguei com muita velocidade para tirar toda aquela sujeira de mim, mas não saia, eu ainda me sentia suja, imunda…
Lembrei do dia anterior e comecei a chorar muito, eu não queria voltar pra casa, eu não queria.