- May! - Falei.
O homem olhou na direção da porta, e May deu um passo para trás.
- Quer brincar com a gente? - Ele perguntou.
Muito assustada, May saiu correndo e o homem riu, voltando ao que ele estava fazendo antes. Eu pedi que ele parasse para eu falar com minha irmã, mas ele só parou quando quis, e quando isso aconteceu, eu fui correndo falar com a Maytê. Entrei no nosso quarto e não a vi.
- May! May! Sou eu! - Falei, mas ela não apareceu.
Olhei debaixo das camas, atrás da cortina, e então, abri o roupeiro, onde a vi sentada, chorando e com as mãos nos ouvidos.
- May! - Tirei as mãozinhas dela dos seus ouvidos. - Vem cá. - A levei até a minha cama e nos sentamos. - Desculpa! Não era para você ter visto. A mamãe que me obriga, eu não gosto, sei que está errado, mas ela diz que eu não tenho querer, mas você não pode contar pra ninguém, é segredo. -- Ela permaneceu em silêncio. - May, diz alguma coisa, por favor.
Ela me olhou com os olhos úmidos, mas não disse nada, será que estava brava comigo?
- May, está chateada comigo? - Perguntei.
Sem responder, ela apenas me abraçou, acho que isso era um “não.”
May não disse mais nada até a hora que fomos dormir.
No dia seguinte, assim que acordei, vi que minha irmã já havia acordado.
- Bom dia! - Falei.
Ela deu um sorriso tristonho e se levantou, foi até o roupeiro e pegou o uniforme da escola.
- Não vai tomar banho pra escola?
Ela acenou positivamente com a cabeça.
- Vem, então.
Fomos ao banheiro e tomamos banho, geralmente costumávamos brincar de jogar água uma na outra, eu até tentei, mas ela não quis. Quando saimos do banho, nos arrumamos e comemos umas torradas com copo de nescau, que eu havia feito pra gente.
Desde o dia anterior, May não havia dito mais nada, e isso estava me preocupando, preferia que ela gritasse ou brigasse comigo.
Maytê e eu fomos para o colégio, e ao chegarmos, ela se sentou em um banco, longe de suas amigas, e eu fui até os meus amigos.
- Ontem estava super divertido, né? - Comentou Jenny.
- Aham. Foi demais. - Disse Mike.
- A minha parte favorita foi o banho de mangueira. - Falei. - Me diverti muito.
Logo o sinal tocou e fomos para nossas filas.
Quando a aula acabou, a professora de Maytê me chamou.
- Chloe, sabe o que aconteceu com a Maytê? Ela não fez nenhuma atividade, bateu em três crianças, coisa que ela nunca fez, não quis brincar e ainda quando os amigos a convidaram para brincar, ela jogou os brinquedos longe, e ainda não disse uma palavra durante a aula toda, e logo ela que é uma tagarela. Sabe o que houve?
- Hã… Não sei. Ela está assim comigo também, acho que foi o filme de terror que ela viu ontem.
- Será? - Parecia pensativa. - Espero que seja só isso mesmo. Qualquer coisa me avise, ok?
- Pode deixar!
Fui até a Maytê, que me aguardava, e durante o caminho, tentei puxar vários assuntos, mas ela não respondeu nenhum, só me olhava e balançava a cabeça em sinal afirmativo e negativo.
- May, fala algo, por favor, se quiser me xingar, eu não ligo, mas fala comigo. - Pedi, porém, ela não falou.
À tarde, mamãe saiu, May e eu estávamos sozinhas em casa, como de costume, quando a campainha tocou. Não estávamos esperando ninguém, então fiquei com medo. Fui vagarosamente até a sala, peguei uma cadeira, coloquei na frente da porta, subi na cadeira e olhei pelo olho mágico, sorri ao vê-la. Desci da cadeira e abri a porta.
- Tia Cath! - A abracei.
- Oi, meu amor. - Me abraçou. - Sua mãe está? - Neguei com a cabeça. - Ótimo! - Adentrou minha casa. - E a May?
Antes que eu pudesse responder, a minha irmã apareceu.
- Oi, princesa. Tudo bem?
May me olhou e acenou positivamente com a cabeça.
- Eu vim convidar as minhas meninas pra irem tomar um sorvete comigo.
- Oba! - Comemorei. - Mas, e o.London?
- Eu deixei ele um pouco com o pai de vocês, pra gente fazer um passeio de garotas, o que acham? Topam?
- Eu topo!
May acenou positivamente com a cabeça.
Tia Cath nos levou a uma sorveteria, que sempre íamos com papai, era a melhor do bairro, tinha cada sabor delicioso… A mulher nos serviu e depois nos sentamos à mesa.
Nós duas conversamos um pouco e May permaneceu em completo silêncio.
- O que foi, querida? - Acariciou a mão da minha irmã. - Você está tão quietinha.
- Ela está assim desde ontem. - Falei.
- É mesmo? E por quê? - Dei de ombros. - May, me conta, aconteceu algo?
Minha irmã me olhou de canto de olho e depois negou com a cabeça.
- Ok. Depois a gente vê isso. - Falou meio pensativa.
Nós terminamos nossos sorvetes e depois tia Cath nos levou de volta pra casa, porém, mamãe já havia voltado, infelizmente.
- Quem é você? E o que faz com minhas filhas?
- Ela é a tia Cath, a namorada do papai. - Falei.
- Ah, acho que lembro de você da audiência. Mas agora é assim? Pega minhas filhas sem avisar e leva elas pra sei lá onde?
- Desculpa, você não estava, você saiu pra sei lá onde e elas estavam sozinhas aqui, só as levei para tomarem um sorvete. E o juiz sabe que você deixa duas crianças pequenas sozinhas em casa? Quer mesmo continuar essa conversa?
Mamãe a olhou com fúria, e desconversou. Logo a tia Cath foi embora e May e eu fomos para o nosso quarto, e minha irmã deitou em sua cama.
- Quer brincar de alguma coisa? - Ela negou com a cabeça. - Quer desenhar? - Novamente ela negou com a cabeça.
Suspirei e deitei em minha cama. Ah, já estava com saudade de escutar a doce voz da minha irmãzinha.