Pré-visualização gratuita PRÓLOGO
Ruby Jones
Algumas pessoas acreditam que o primeiro amor nasce de um grande acontecimento e da forma mais especial possível.
Uma declaração.
Um beijo.
Um olhar inesquecível.
O meu nasceu da pior forma possível... foi em um silêncio e permaneceu assim por anos.
Quando consegui uma bolsa para estudar na Westminster School, achei que minha vida finalmente mudaria. Westminster School era o tipo de escola que eu só conhecia pelos filmes. Os filhos dos empresários mais importantes da cidade estudavam lá. Herdeiros, filhos de políticos, donos de sobrenomes conhecidos e jovens que nunca precisaram se preocupar com o preço de uma refeição ou com a conta de luz chegando no fim do mês.
Eu era a exceção.
Minha bolsa cobria apenas as mensalidades. Todo o restante dependia de mim como: os uniformes extras, os livros, o almoço e as excursões. Até mesmo as roupas que eu usava quando havia algum evento no colégio. Minha mãe dizia que eu deveria agradecer por ter um teto sobre a cabeça e, sinceramente, muitas vezes eu agradecia, porque aquele teto era a única coisa que ela ainda fazia por mim.
Ela trabalhava em um pequeno mercado do bairro, mas quase todo o salário desaparecia entre garrafas de bebida e maços de cigarro. Desde que o homem com quem viveu durante anos foi embora, ela nunca mais conseguiu se reerguer. Ou talvez nunca tivesse tentado.
Todos os dias eram iguais.
Ela chegava em casa reclamando da vida, da sorte, dos homens e do trabalho. Enquanto isso, eu lavava a louça, lavava as roupas, preparava o jantar e limpava a casa. Fazia as compras quando ela esquecia e organizava o que podia. Era estranho perceber que, aos dezessete anos, eu parecia ser a única adulta daquela casa.
Se eu quisesse dinheiro para almoçar no colégio, precisava trabalhar.
E foi o que fiz.
Passei a atender clientes em uma pequena cafeteria nas tardes e nos finais de semana. Chegava em casa cansada, dormia poucas horas e estudava durante a madrugada. E, ainda assim, nunca pensei em desistir, porque existia um lugar onde eu finalmente conseguia respirar.
A escola.
Westminster School era o único lugar onde eu não precisava ouvir discussões, garrafas batendo sobre a mesa ou o cheiro constante de cigarro espalhado pela casa. Ali, eu podia simplesmente ser Ruby. Foi naquele lugar que conheci as duas pessoas que mudaram completamente a minha vida.
Trevor Thompson e Maddison Fitz.
É curioso como algumas lembranças nunca envelhecem. Ainda consigo vê-los exatamente como naquele primeiro ano.
Maddison tinha um sorriso contagiante e a facilidade absurda de conversar com qualquer pessoa. Ela fazia amizade em minutos e transformava qualquer ambiente em um lugar leve. Era impossível não gostar dela.
Trevor era diferente.
Mais reservado e educado.
Gentil em pequenos gestos que quase ninguém percebia. Era o tipo de garoto que segurava a porta para quem vinha atrás sem esperar um agradecimento, que dividia as anotações quando alguém faltava e que perguntava se você havia chegado bem em casa depois da aula.
Nada nele era exagerado.
Talvez tenha sido exatamente isso que me fez me apaixonar já que nunca houve um momento específico. Foi acontecendo aos poucos.
Um sorriso. Uma conversa. Uma gentileza.
E, quando percebi...
Meu coração já era completamente dele.
O problema era que o coração de Trevor nunca esteve vazio. Ele já pertencia à Maddison.
Os dois pareciam feitos um para o outro. Riam das mesmas coisas, terminavam as frases um do outro e discutiam por bobagens e faziam as pazes poucos minutos depois. Era bonito e doloroso. Todos os dias eu os observava caminhando pelos corredores lado a lado. Sentando juntos durante o almoço, estudando na biblioteca e compartilhando fones de ouvido. Até andavam de mãos dadas a cada minuto. Eles viviam planejando o futuro.
Enquanto isso...
Eu caminhava alguns passos atrás, sempre perto o suficiente para fazer parte da amizade e distante o bastante para nunca fazer parte da história de amor deles. Durante muito tempo, achei que aquele sentimento fosse desaparecer sozinho. As pessoas diziam que paixões adolescentes eram passageiras e que bastava dar tempo ao tempo.
Então eu esperei.
Eu esperei semanas. Meses. E anos. Mas quanto mais tempo passávamos juntos... mais difícil ficava esquecê-lo. Porque Trevor nunca deixava de ser Trevor. Ele continuava sorrindo daquele jeito que fazia qualquer dia r**m parecer melhor e continuava sendo atencioso. Continuava perguntando se eu já havia almoçado quando percebia que eu escondia a fome atrás de uma desculpa qualquer e continuava me oferecendo carona quando chovia. Ele continuava enxergando minhas dificuldades sem jamais me fazer sentir inferior por causa delas e me incluía em tudo.
Ele sabia quando algo estava errado e ele se importava mesmo.
Ele era bom.
Simplesmente bom e talvez fosse justamente isso que mais machucasse. Eu me apaixonei pelo homem que ele era. Não pelo dinheiro, não pelo sobrenome e nem pela vida que ele poderia me oferecer. Eu me apaixonei pelo rapaz que fazia o mundo parecer um lugar mais gentil.
Mas ele amava a minha melhor amiga e... Maddison também o amava.
Nunca existiu espaço para mim naquela história. Nunca houve um triângulo amoroso e nunca houve disputa. Maddison jamais soube dos meus sentimentos e eu agradecia por isso. Ela era minha melhor amiga, a pessoa que mais esteve ao meu lado durante os anos difíceis. Então... como eu poderia desejar o namorado dela?
Durante muito tempo, cheguei a me odiar por causa disso.
Sentia culpa sempre que Trevor sorria para mim e meu coração acelerava. Sentia culpa quando ele me abraçava para comemorar alguma conquista e sentia culpa por imaginar, nem que fosse por um segundo, como seria ocupar o lugar que sempre pertenceu à Maddison.
Então fiz a única coisa que achei certa... enterrei aquele amor onde ninguém pudesse encontrá-lo.
Nem Trevor.
Nem Maddison.
Nem eu.
Só que alguns sentimentos não desaparecem porque decidimos ignorá-los. Eles apenas aprendem a existir em silêncio e o meu passou anos vivendo exatamente assim. Escondido e calado, só esperando por um futuro que, no fundo, eu sempre soube que jamais seria meu.
Naquela época, eu ainda não entendia que certos sentimentos não desaparecem só porque deveriam. Eu ainda não sabia que amar alguém em silêncio podia se transformar numa prisão. E, principalmente, eu ainda não fazia ideia de que Trevor Thompson seria a história mais bonita e mais dolorosa da minha vida.