Olivia
Ao notar a tenebrosa cena, fui obrigada a contar mentalmente, começando de trás para frente, de baixo para cima, do cem até o trinta, pois era muito além do meu limite ter que contar até chegar ao número um. Ter que suportar passar a véspera de natal com duas... Então chegando no trinta pude guardar o resto da minha sanidade mental enquanto finjo simpatia com duas desconhecidas, com essas duas intrusas dentro do meu sagrado lar.
Enquanto minha mente vagava no número que deixei propositalmente estagnado, dei uma boa olhada para o meu esposo. Pablo estava satisfeito e contente por ter pessoas a compartilhar uma data especial junto dele, e isso de certa forma gerou um conforto lá dentro do meu coraçãozinho, mas bem lá no fundinho mesmo, embora não saiba onde se encontrava seus pais. Talvez tenham morrido ou eles ainda estejam vivos em algum lugar desse planeta, mas ele não achava necessário tocar nesse assunto, já que sua família se tornou eu e meu filho. Não queria estragar meu primeiro natal com o soldadinho, ele se esforçou demais para me agradar. Então sosseguei o facho, alisando meu lindo vestido vermelho pelo qual o i****a do seu melhor amigo não cansanva de admirar sem se preocupar com a olhada de repreenda do Coronel. Ah… papai, o senhor realmente está passando por um momento delicado, talvez precise intervir e internar ele. Sua conduta estava fora dos seus padrões, onde colocou a cabeça ao trazer essa mulher como acompanhante na casa da própria filha? Da filha que ele obrigou a casar ou daria um jeito nada honroso para se livrar de um neto bastardo.
Após os falsos cumprimentos, sentamos ao redor da mesa de jantar. A mesa estava completamente farta, com todos os quitutes à mostra. Meu soldadinho se empenhou muito. Olhei-o novamente, dessa vez apertando sua mão. De soslaio notei a figura paterna olhando aquele meu gesto genuíno como uma resposta às suas preces, satisfeitíssimo em ter colocado o soldado do seu batalhão no meu caminho, contudo a sua acompanhante fez o mesmo que eu, novamente, só para me irritar, presumo.
Sentados com os seus respectivos pares, tive a intenção de ser a primeira do grupo a puxar assunto, claro que não ficaria em paz se não colocasse cada um no seu respectivo lugar antes de ceiar, antes de começarmos a nossa querida confraternização natalina.
Primeiramente sorri, esticando os lábios fechados para o Pablo, ainda segurando-o pela mão. Pablo não era bobo, muito menos ingênuo em acreditar que eu iria passar pano para essas duas desaforadas, então ele tentou me advertir com um olhar e um simples e pequeno puxão de mão, antes que eu olhasse para a frente. No entanto, nem ele e nem ninguém nesse jantar teria a capacidade de segurar a fúria pré existente dentro do meu ser. Precisava urgentemente de respostas, antes que vomitasse na cara dessas duas desavergonhadas.
— Coronel… pelo visto esqueceu dos seus próprios conselhos. — Mantive o sorriso cordial ao destilar meu primeiro ataque. — Mamãe com certeza deve estar se revirando no túmulo com essa sua cena ridícula de casal apaixonado.
A mulher em questão se sentiu um tanto incomodada, mas apenas tentou largar da mão dele. Ele não permitiu tal afastamento, deixando o clima entre nós dois mais tenso ainda. Os outros convidados apenas assistiam o espetáculo, mas a vez deles chegaria. Era só uma questão de tempo.
— Oli, eu…
— Sabia que é amanhã a data da morte dela? Lembra da sua esposa? Do nome da minha mãe? Mas o Coronel insiste em celebrar antes. — Sorri meio trêmula, segurando a vontade imensa de chorar ao tocar num assunto tão doloroso para mim. Sendo forçada a conter a trancos e barrancos a amargura que corroia noite e dia a minha alma. — Não creio que o senhor pode ser tão descarado.
— Olivia! Agora já chega! — falou o coronel, se achando no direito de me calar na minha própria casa.
— Querida, não… Por favor.
Pablo apertou a minha mão mais uma vez, num gesto de carinho, conforto e uma pequenina repreenda.
Continuei a olhar meu pai, que me olhava seriamente de volta. Via-se o quanto ele era insolúvel naquilo que era bom e preferido para ele. Sendo incapaz de conter meus ressentimentos, deixei que ele visse todo meu rancor. Até que ele virou o rosto para a parede, respirando com certa urgência largou a mão daquela senhora que a essa altura havia abaixado a cabeça.
— Na verdade sua mãe morreu antes do natal, mas você com sua cabecinha louca preferiu culpar o natal por ter levado ela. A Efigênia ainda faz parte da minha vida, sempre fará filha. Sua mãe é inesquecível, ela sempre terá o espaço dela reservado aqui dentro. — Ele colocou a mão na direção do seu peito ao voltar a me olhar nos olhos, que a essa altura estavam umedecidas pelo momento. — Adelaide sabe perfeitamente disso, e me aceita assim mesmo. Achei que a minha única filha pudesse me aceitar assim também.
Engolindo em seco desviei o olhar dele, pois minhas pálpebras começaram a reagir. Malditos hormônios gestacionais!
— Pois é, né. Então… Olivia, minha intenção é ser uma boa companhia ao seu pai, apenas isso. Não vim aqui confrontar você ou a memória da sua mãe. Longe de mim cometer tal ofença. — Escutei uma risadinha dela na intenção de quebrar o clima pra lá de tenso. Ele me contou que seu prato preferido de infância era torta de pêssego.
Pablo fez questão de remover a parte que cobria aquele recipiente bem na minha vista. A sobremesa tinha uma cara ótima, devo admitir, mas me fez fechar fortemente os olhos por alguns segundos para aquilo e sentir ansia de vomito. Na mesma hora ele e Adelaide conseguiram tirar da mesa, e recostei a cabeça no ombro dele me sentindo cansada. Respirei com dificuldade, voltando ao normal aos poucos.
— Pronto meu amor… — Passou a mão nas minhas costas enquanto eu olhava a todos com o semblante franzido.
— Espero que se um dia eu vier a engravidar não fique com essa visagem, sabe como é, frescurite de grávida, aí não. Que coisa mais ultrapassada. — discorreu balançando as mãos magras no ar, gesticulando os dedos que mais pareciam patas de frango. — Mas se sente melhor lindinha? — perguntou Solange, fazendo carinha meiga.
Levantei o rosto, ajeitando-me no assento enquanto era amparada cuidadosamente pelo meu soldado de plantão. A invejosa torceu a cara sem se preocupar em deixar cair a sua máscara de boa visita.
— Escutando esse menosprezado discurso vindo de uma enfermeira fica difícil acreditar que tenha se formado com louvor na sua carreira, bonitinha. Talvez ser namorada e esposinha de um soldado seja o seu destino mesmo.
— Pretendo continuar com a minha independência. Não preciso me amarrar a nenhum relacionamento, apenas curto o que o Ronan pode me oferecer.
Eles se entreolharam brevemente, concordando mutuamente com esse tipo de relação.
Em seguida o amigo do meu esposo olhou discretamente para a minha barriga exposta.
— Mas confesso que se pudesse ver você Solange desse jeito; grávida, até inchada, esperando um filho meu no ventre, ficaria lisonjeado por ter sido escolhido.
Ronan levou um tapa na nuca por ela, e os dois voltaram a se olhar, rompendo aquele companheirismo, começaram a discutir baixinho essa história.
— Sei que a conversa está tomando rumos inesperadamente adversos, mas vamos nos concentrar no…
— No pudim de leite condensado! — exclamou a loira, que largou o namorado de lado para correr até onde Pablo estava. — Quero que você seja o primeiro a experimentar.
Ela abriu outra travessa, pegou rapidamente a espátula, cortou um pedaço de pudim e mandou meu marido abrir a boca para ela.
— Não precisa disso, posso…
Ele tentou pegar da mão da sua ex, mas ela era bastante obstinada, insistindo nesse lance.
— Vamos! Pablo! Deixa de ser bobo, quantas vezes assistia seu joguinho comendo do meu pudim?!
Sorriu ela pondo a outra mão na boca, como se tivesse contado uma piada somente deles. Meu soldado ficou visivelmente branco, ao olhar para o seu amigo, que havia cruzado os braços suspeitando do óbvio, e em seguida observou a expressão severa do seu sogro, que ainda duvidava do que estava mais do que escancarado naquele mediocre cenário.
— Joguinho? O pudim dela? É isso Pablo?
Perguntei enquanto juntava as mãos sobre a minha barriga, fazendo-o olhar diretamente na minha direção.
— Não sabia que gostava de futebol? — questionei seriamente.
— Vocês dois já se conheciam? Foram amigos de quarto? — Meu pai perguntou curioso. Ainda duvidando do óbvio.
— Já entendi tudo, foram namorados.
Todos nós olhamos para Ronan, que apenas continuou a fitar aquilo com certo desgosto.
Continua…