Pablo
Estava terminando de pôr a mesa, olhando para o relógio da parede. Em seguida dei uma conferida em cada prato; Chester assado ao molho de laranja e outras especiarias, arroz à mineira, farofa, salpicão. Rabanada, gelatina com leite condensado e mousse de maracujá.
Satisfeito coloquei o pano de prato no ombro. Segundos depois tocoram a campainha e imediatamente fui correndo atender, não poderia deixar meu sogro Cristóvão esperando. — Olivia, eles chegaram!
No entanto, assim que abri a porta descobri duas surpresas inesperadas.
— Boa noite genro, essa daqui é Adelaide, a dama que meses atrás foi responsável de cuidar da homenagem à minha falecida esposa.
— Boa noite a todos, como vai a senhora?
Apertei a mão de uma mulher na faixa dos cinquenta, bem vestida, elegante e com um agradável sorriso no rosto. Só não sabia se isso iria agravar a montanha russa emocional da minha querida esposa.
— Pablo, amigo. Estamos congelando aqui fora. Não vai nos convidar para entrar?!
Ronan exclamou de forma brincalhona enquanto as duas mulheres ali presentes davam uma curta risada.
— Podem entrar, fiquem à vontade.
O senhor Cristóvão fez uma breve aceno de cabeça ao levar sua acompanhante, segurando o braço dela em volta do seu de uma forma um tanto íntima.
A senhora loira, me deu um pires tampado com papel alumínio, contendo alguma receita natalina. Presumo.
— Fiz especialmente para Olivia, era a preferida dela quando era pequena. Quem me contou foi o Coronel, é claro. — Sorriram simpaticamente um para o outro. Como se tivessem um segredo velado ali entre eles.
— Posso ter dito isso mesmo, mas vamos adentrar. O soldado Ronan tem toda a razão, lá fora está congelando. A casa tem aquecedor genro?
— Sim, e já está ligado. Arrumei tudo para recebê-los melhor, além de proporcionar um conforto melhor para a sua filha.
Meneou a cabeça levando o que parecia ser sua namorada ao lado dele.
Deus segura a língua ferina da minha esposa nessa noite de pensamentos positivos. Orei enquanto imaginava a cena desse duplo encontro.
Logo a Solange entra no meu campo de visão, dando-lhe mais passagem ao perceber sua forçada aproximação.
— Vejo que se adaptou bem à nova rotina de marido. Sempre soube que seria um excelente esposo prendado, mas não esperava por isso… — Sorridentemente pegou rapidamente na ponta do meu avental, quase encostando propositalmente na frente da minha calça social. No susto procurei desesperadamente por Ronan, que surpreendentemente havia passado por trás dela, dado uma passada rápida na cozinha e voltado com uns damascos secos nas mãos, comendo e apontando para a loira mais jovem.
— Minha namorada — comentou todo bobo. — Lembra daquela mulher que disse que tinha pega… — Olhei de relance para o meu sogro que o olhava com uma carranca tenebrosa antes de voltar a atenção para o que a Adelaide contava a ele. — É, você entendeu.
— Seu melhor amigo entendeu super bem, Ronan.
Voltei a olhá-la, querendo algum tipo de resposta. Mas ela apenas sustenta o sorriso pondo mais um pires tampado na minha outra mão.
— Pudim, sua sobremesa favorita. Da nossa época. — Sussurrou essa última parte antes de terminar de entrar. No decorrer abraçou o seu namorado, os dois riram de uma palhaçada infantil dele.
Fechei a porta devagar rezando a todos os santos que cuidasse da Olivia e…
— Sejam bem vindos ao nosso agradável lar, ah, e feliz natal a todos, é claro.
Me virei a tempo de contemplar o auge de sua extrema beleza. Vestida de vermelho. Usava um vestido de longo caimento com duas fissuras na linha do meio dos joelhos, e que deixava a sua barriga gestacional amostra. Cabelos longos, alinhados, caídos em cascatas bem esticadas que chegam até ao seu umbigo, mais lisos e brilhantes que nunca. Dividida no meio, realçando as bochechas do rosto. Sem falar da maquiagem natural, divina em todo seu esplendor, realçando aquele olhar sedutor. Ainda para manter a pose de deusa, colocou as mãos na cintura. Dei sorte de estar usando avental, pois me alegrei muito ao vê-la vestida para mata.r.
— Olivia… meu… amor… — gaguejei ao notar seu olhar quarenta e três, mirando cada pessoa naquela sala, até que seu olhar de cigana oblíqua, se concentrou na Solange que havia se distanciado do Ronan ao ver ele olhando demais para a minha esposa. Em seguida, saindo de um transe corrosivo entre ela e a minha ex, ela descontou aquela olhada séria na mulher sentada ao lado do seu pai, que fez questão de segurar na mão dele.
É hoje que o bicho pega!