Zuko
A fumaça do charuto subia lentamente pelo escritório luxuoso enquanto eu permanecia sentado atrás da enorme mesa preta revendo algumas informações sobre as novas rotas que começariam a funcionar naquela semana. A cidade brilhava do lado de fora da cobertura através da parede inteira de vidro, mas minha atenção estava presa nos papéis espalhados diante de mim.
Armas.
Dinheiro.
Fornecimento.
Alianças.
O Rio estava começando a se mover exatamente do jeito que eu queria.
Cada comunidade que aceitava negociar comigo enfraquecia um pouco mais o império do meu tio sem nem perceber. E aquilo era só o começo. Ainda faltava muita coisa antes da guerra realmente começar.
Passei a mão lentamente pela barba curta enquanto terminava de assinar alguns documentos. O silêncio dentro do escritório era confortável até a porta abrir sem aviso.
Kenji entrou segurando uma pasta preta nas mãos.
Pela expressão dele, alguma coisa tinha acontecido.
— Você não sabe o que eu acabei de descobrir.
Ergui os olhos devagar na direção dele enquanto fechava a caneta sobre a mesa.
— O que você descobriu Kenji? Espero que seja algo bom.
Ele abriu um sorriso discreto daquele jeito irritante que fazia quando sabia que tinha encontrado algo importante.
— Vem até aqui que vou te mostrar.
Levantei lentamente da cadeira arqueando a sobrancelha enquanto caminhava na direção dele.
— Tá. O que tem haver?
Kenji apontou discretamente para o enorme
vidro da cobertura.
— Tá vendo aquela cobertura lá toda iluminada?
Olhei na direção que ele indicou.
A cobertura ficava em alguns prédios depois da minha, alta, luxuosa e completamente iluminada pela luz amarelada do interior.
— Sim. O que tem? E quem mora lá?
Sem responder imediatamente, Kenji apenas me entregou a pasta.
Peguei aquilo sem entender e abri devagar.
No instante em que vi a fotografia meu corpo inteiro travou.
Kiara.
Ela aparecia parada na varanda daquela cobertura usando um vestido preto colado ao corpo enquanto o vento bagunçava seus cabelos longos.
Meu coração bateu pesado no peito.Por alguns segundos o escritório inteiro ficou silencioso demais.
A foto parecia recente.
Muito recente.
Meus olhos percorreram cada detalhe dela lentamente enquanto uma mistura perigosa de raiva, saudade e desejo queimava dentro de mim.
Kiara estava ainda mais linda do que nas minhas lembranças.
E isso era um problema.
Um problema enorme.
— Aqui a pouco ela aparece sempre no mesmo horário — Kenji falou calmamente observando minha reação. — E aí tem o número do celular dela que eu consegui. Não foi tão difícil… mas nada que umas notas de dinheiro não resolva.
Continuei olhando a fotografia sem responder imediatamente.
O tempo tinha mudado muita coisa nela.
Mas os olhos…
Os olhos continuavam iguais.A mesma intensidade silenciosa que me destruía anos atrás. Fechei a pasta devagar tentando controlar a tensão crescendo dentro do peito enquanto caminhava até o vidro observando diretamente a cobertura dela.
Então era ali que ela morava agora.
Com ele.
Minha mandíbula travou instantaneamente só de pensar.
Lorenzo Navarro.
Meu primo.
O homem que ocupou meu lugar depois que destruíram minha vida.
Passei a mão lentamente pela nuca sentindo a velha raiva acordar dentro de mim outra vez.
— Quanto tempo ela tá aí?
— Uns dois anos, pelo que consegui levantar.
Assenti devagar sem desviar os olhos da varanda iluminada.
Dois anos.
Dois anos dividindo a cama com outro homem.
Com ele.
Meu peito queimou de um jeito ridículo.
Idiota.Depois de tudo que aconteceu eu não deveria sentir nada.Mas sentir e controlar eram coisas completamente diferentes.
Kenji se aproximou um pouco mais.
— Quer que eu continue investigando?
— Quero tudo.
Minha voz saiu fria.
Perigosa.
— Rotina. Segurança. Quem entra. Quem sai. Quero saber até a hora que ela respira se for possível.
Kenji assentiu imediatamente.
Porque ele sabia.
Sabia exatamente o efeito que aquela mulher ainda tinha sobre mim.
Voltei a abrir a pasta observando outra foto dela agora entrando no prédio durante a noite.
Bonita.
Elegante.
Intocável.
Mas algo parecia errado.
Mesmo sorrindo nas imagens existia tristeza escondida nos olhos dela. Eu conhecia Kiara bem demais para não perceber.
E aquilo mexeu comigo mais do que deveria.
— Ela parece infeliz — falei quase sem perceber.
Kenji cruzou os braços.
— Talvez porque tá casada com um merda.
Um sorriso frio apareceu no canto da minha boca.
Lorenzo sempre foi um homem fraco tentando parecer forte.
Arrogante demais.
Impulsivo demais.
Exatamente o tipo que pisaria na própria felicidade por ego.
Fechei a pasta novamente sentindo o olhar preso naquela cobertura iluminada do outro lado da avenida.
O destino tinha um senso de humor c***l.
Depois de anos desaparecido no outro lado do mundo eu volto pro Rio… e descubro que a única mulher que já amei mora praticamente na minha frente.
Soltei uma risada baixa balançando a cabeça devagar.
— Isso vai dar problema.
Kenji me encarou em silêncio antes de responder:
— Acho que o problema começou no dia que você voltou pro Rio, Zuko.
E talvez ele estivesse certo.