Capítulo 7

832 Palavras
Zuko A fumaça do charuto subia lentamente pelo escritório luxuoso enquanto eu permanecia sentado atrás da enorme mesa preta revendo algumas informações sobre as novas rotas que começariam a funcionar naquela semana. A cidade brilhava do lado de fora da cobertura através da parede inteira de vidro, mas minha atenção estava presa nos papéis espalhados diante de mim. Armas. Dinheiro. Fornecimento. Alianças. O Rio estava começando a se mover exatamente do jeito que eu queria. Cada comunidade que aceitava negociar comigo enfraquecia um pouco mais o império do meu tio sem nem perceber. E aquilo era só o começo. Ainda faltava muita coisa antes da guerra realmente começar. Passei a mão lentamente pela barba curta enquanto terminava de assinar alguns documentos. O silêncio dentro do escritório era confortável até a porta abrir sem aviso. Kenji entrou segurando uma pasta preta nas mãos. Pela expressão dele, alguma coisa tinha acontecido. — Você não sabe o que eu acabei de descobrir. Ergui os olhos devagar na direção dele enquanto fechava a caneta sobre a mesa. — O que você descobriu Kenji? Espero que seja algo bom. Ele abriu um sorriso discreto daquele jeito irritante que fazia quando sabia que tinha encontrado algo importante. — Vem até aqui que vou te mostrar. Levantei lentamente da cadeira arqueando a sobrancelha enquanto caminhava na direção dele. — Tá. O que tem haver? Kenji apontou discretamente para o enorme vidro da cobertura. — Tá vendo aquela cobertura lá toda iluminada? Olhei na direção que ele indicou. A cobertura ficava em alguns prédios depois da minha, alta, luxuosa e completamente iluminada pela luz amarelada do interior. — Sim. O que tem? E quem mora lá? Sem responder imediatamente, Kenji apenas me entregou a pasta. Peguei aquilo sem entender e abri devagar. No instante em que vi a fotografia meu corpo inteiro travou. Kiara. Ela aparecia parada na varanda daquela cobertura usando um vestido preto colado ao corpo enquanto o vento bagunçava seus cabelos longos. Meu coração bateu pesado no peito.Por alguns segundos o escritório inteiro ficou silencioso demais. A foto parecia recente. Muito recente. Meus olhos percorreram cada detalhe dela lentamente enquanto uma mistura perigosa de raiva, saudade e desejo queimava dentro de mim. Kiara estava ainda mais linda do que nas minhas lembranças. E isso era um problema. Um problema enorme. — Aqui a pouco ela aparece sempre no mesmo horário — Kenji falou calmamente observando minha reação. — E aí tem o número do celular dela que eu consegui. Não foi tão difícil… mas nada que umas notas de dinheiro não resolva. Continuei olhando a fotografia sem responder imediatamente. O tempo tinha mudado muita coisa nela. Mas os olhos… Os olhos continuavam iguais.A mesma intensidade silenciosa que me destruía anos atrás. Fechei a pasta devagar tentando controlar a tensão crescendo dentro do peito enquanto caminhava até o vidro observando diretamente a cobertura dela. Então era ali que ela morava agora. Com ele. Minha mandíbula travou instantaneamente só de pensar. Lorenzo Navarro. Meu primo. O homem que ocupou meu lugar depois que destruíram minha vida. Passei a mão lentamente pela nuca sentindo a velha raiva acordar dentro de mim outra vez. — Quanto tempo ela tá aí? — Uns dois anos, pelo que consegui levantar. Assenti devagar sem desviar os olhos da varanda iluminada. Dois anos. Dois anos dividindo a cama com outro homem. Com ele. Meu peito queimou de um jeito ridículo. Idiota.Depois de tudo que aconteceu eu não deveria sentir nada.Mas sentir e controlar eram coisas completamente diferentes. Kenji se aproximou um pouco mais. — Quer que eu continue investigando? — Quero tudo. Minha voz saiu fria. Perigosa. — Rotina. Segurança. Quem entra. Quem sai. Quero saber até a hora que ela respira se for possível. Kenji assentiu imediatamente. Porque ele sabia. Sabia exatamente o efeito que aquela mulher ainda tinha sobre mim. Voltei a abrir a pasta observando outra foto dela agora entrando no prédio durante a noite. Bonita. Elegante. Intocável. Mas algo parecia errado. Mesmo sorrindo nas imagens existia tristeza escondida nos olhos dela. Eu conhecia Kiara bem demais para não perceber. E aquilo mexeu comigo mais do que deveria. — Ela parece infeliz — falei quase sem perceber. Kenji cruzou os braços. — Talvez porque tá casada com um merda. Um sorriso frio apareceu no canto da minha boca. Lorenzo sempre foi um homem fraco tentando parecer forte. Arrogante demais. Impulsivo demais. Exatamente o tipo que pisaria na própria felicidade por ego. Fechei a pasta novamente sentindo o olhar preso naquela cobertura iluminada do outro lado da avenida. O destino tinha um senso de humor c***l. Depois de anos desaparecido no outro lado do mundo eu volto pro Rio… e descubro que a única mulher que já amei mora praticamente na minha frente. Soltei uma risada baixa balançando a cabeça devagar. — Isso vai dar problema. Kenji me encarou em silêncio antes de responder: — Acho que o problema começou no dia que você voltou pro Rio, Zuko. E talvez ele estivesse certo.
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