Capítulo 6

1607 Palavras
Kiara — Vou tomar um banho — falei baixo tentando afastar aquela sensação estranha do peito enquanto me levantava da cama. Lorenzo apenas assentiu distraído mexendo no celular enquanto continuava resolvendo assuntos do morro. A luz fraca do quarto iluminava parcialmente o rosto dele enquanto mensagens não paravam de chegar. Problemas. Armas. Dinheiro. Guerra. Era sempre assim. Naquele mundo os homens nunca descansavam.Caminhei lentamente até o banheiro fechando a porta atrás de mim. O silêncio tomou conta do ambiente imediatamente e por alguns segundos tudo que consegui ouvir foi minha própria respiração cansada. Me encarei no espelho. Às vezes eu m*l me reconhecia mais. A garota sorridente da adolescência tinha desaparecido em algum momento entre perdas, mentiras e escolhas erradas. A mulher refletida diante de mim agora parecia distante. Fria em alguns dias. Triste na maioria deles. Soltei o cabelo devagar deixando os fios escuros caírem pelos ombros enquanto ligava o chuveiro. A água quente começou a cair enchendo o banheiro de vapor, mas nem aquilo era suficiente para aliviar o peso que carregava dentro do peito. Porque algumas dores não passam. Elas apenas aprendem a ficar silenciosas. Entrei debaixo da água fechando os olhos lentamente enquanto sentia o calor escorrer pela minha pele. E como quase sempre acontecia quando ficava sozinha, minha mente acabou voltando pra ele outra vez. Ícaro Navarro. O nome ainda doía mesmo depois de tantos anos. Encostei a testa na parede fria do box sentindo um aperto estranho crescendo dentro de mim. — Aí Ícaro… será que você ainda está vivo… ou será que morreu naquela noite? Minha voz saiu baixa quase como um sussurro perdido no meio do barulho da água. Porque no fundo aquela era a pergunta que me perseguia desde o dia em que ele desapareceu. Ninguém nunca encontrou corpo. Ninguém nunca teve prova de nada. Mas também ninguém jamais ouviu falar dele outra vez. Com o tempo, o morro decidiu acreditar que ele estava morto. Era mais fácil assim. Mais confortável. Como se apagar sua existência resolvesse todos os pecados daquela família. Só que eu nunca consegui acreditar completamente nisso. Nunca. Porque existia uma parte minha que ainda sentia ele vivo em algum lugar. Talvez fosse loucura. Talvez apenas saudade. Ou talvez algumas pessoas deixem marcas profundas demais para desaparecer assim. Fechei os olhos tentando afastar aquelas lembranças, mas foi inútil. As memórias vieram fortes outra vez. Ícaro rindo comigo escondido atrás da quadra. As mãos dele segurando minha cintura na laje durante o pôr do sol. Os olhos intensos me encarando como se eu fosse a única coisa boa na vida dele. Meu peito apertou imediatamente. Eu odiei ele durante muito tempo por ter sumido sem olhar pra trás. Odiei porque precisei juntar os pedaços sozinha enquanto o mundo desabava ao meu redor. Porque fui obrigada a seguir vivendo enquanto uma parte de mim ainda esperava ele voltar. Mas pior que o ódio… Era o fato de nunca ter conseguido esquecer. A água continuava escorrendo pelo meu corpo enquanto lágrimas silenciosas começaram a se misturar com ela sem que eu percebesse. Patético. Depois de tantos anos e eu ainda chorava por alguém que provavelmente nem existia mais. Respirei fundo limpando rapidamente o rosto antes de desligar o chuveiro. Não podia continuar presa naquele passado. Não depois de tudo que aconteceu. Saí do box enrolando a toalha no corpo enquanto o espelho completamente embaçado refletia apenas vultos distorcidos. Foi então que ouvi meu celular vibrando várias vezes em cima da bancada. Estranhei imediatamente. Lorenzo raramente me ligava estando dentro da mesma casa. Peguei o aparelho ainda distraída, mas parei no mesmo instante ao olhar a tela. Número desconhecido. Meu coração bateu estranho sem motivo aparente. Por alguns segundos fiquei apenas encarando a ligação vibrando na minha mão enquanto uma sensação r**m percorria meu corpo devagar. Então atendi. — Alô? Silêncio. Franzi a testa. — Quem tá falando? Nada. Só respiração. Lenta. Pesada. Meu estômago gelou imediatamente. — Se isso for brincadeira eu vou desligar. Mais silêncio. Então finalmente uma voz surgiu do outro lado. Rouca. Baixa. Perigosa. Uma voz que meu coração reconheceu antes mesmo da minha mente conseguir acreditar. — Ainda gosta de tomar banho quente quando tá nervosa. O mundo inteiro parou. Meu corpo congelou no mesmo instante enquanto o ar simplesmente desaparecia dos meus pulmões. Não. Aquilo não podia estar acontecendo. Minhas mãos começaram a tremer violentamente ao redor do celular enquanto cada parte de mim entrava em choque. Porque eu conhecia aquela voz. Conhecia perfeitamente. Mesmo depois de anos. Mesmo depois do silêncio. Mesmo depois da dor. Ícaro estava vivo. Meu coração disparou tão forte que por um segundo achei que fosse desmaiar. O celular quase escorregou da minha mão enquanto o banheiro parecia pequeno demais para a quantidade absurda de emoções que invadiram meu corpo de uma vez só. Minha respiração falhou imediatamente e o silêncio do outro lado da ligação só piorava tudo. Porque aquela voz… Era ele. Depois de anos. Depois de noites inteiras chorando sozinha. Depois de aprender a sobreviver fingindo que tinha superado. Ícaro estava vivo. — Não… — minha voz saiu falha enquanto eu me apoiava na bancada tentando recuperar o ar — Isso não tem graça. Do outro lado houve uma risada baixa. Rouca. Perigosa. Exatamente como eu lembrava. E aquilo destruiu qualquer esperança de ser imaginação. — Continua mentindo m*l quando tá nervosa. Fechei os olhos imediatamente sentindo as pernas enfraquecerem. Só Ícaro falava daquele jeito comigo. Só ele conhecia detalhes pequenos assim. Meu peito apertou tão forte que chegou a doer fisicamente. — Ícaro… Dizer o nome dele depois de tantos anos parecia errado. Intenso demais. Como abrir uma ferida que nunca cicatrizou de verdade. O silêncio tomou conta da ligação por alguns segundos. E quando ele voltou a falar a voz estava diferente. Mais baixa. Mais pesada. — Então você ainda se lembra de mim. Uma lágrima escapou pelo meu rosto antes mesmo que eu percebesse. Idiota. Eu deveria estar com raiva. Deveria desligar. Deveria odiar ele por ter sumido sem deixar nada além de dor. Mas meu coração traidor só conseguia bater mais forte. — Onde você tá? — perguntei quase num sussurro. — Perto. A resposta fez meu corpo inteiro gelar. Meu Deus. Ele estava no Rio. A mão tremendo apertou mais forte o celular enquanto minha mente tentava acompanhar tudo aquilo. Mil perguntas se atropelavam dentro da minha cabeça ao mesmo tempo. Como ele sobreviveu? Por que voltou? Por que agora? — Você morreu pra todo mundo… — murmurei tentando controlar a respiração — Eles disseram que você tava morto. A risada amarga dele atravessou a ligação. — Era exatamente isso que eles queriam. Ouvir aquela frieza na voz dele machucou de um jeito estranho. Porque mesmo sem ver, eu conseguia sentir. Ícaro tinha mudado. Muito. O garoto impulsivo que eu conheci anos atrás não existia mais. — Por que você tá fazendo isso comigo? — perguntei sentindo outra lágrima cair — Depois de todo esse tempo…O silêncio voltou. Mas dessa vez era diferente. Pesado quase sufocante. Então ele falou algo que fez meu coração parar outra vez. — Porque eu nunca consegui esquecer você, Kiara. Fechei os olhos imediatamente sentindo o mundo girar devagar ao meu redor. Aquilo era c***l. Cruel demais. Porque uma parte minha passou anos esperando ouvir exatamente aquelas palavras enquanto outra tentou desesperadamente apagar ele da minha vida. — Você não podia voltar… — falei baixo limpando o rosto rapidamente — Você não faz ideia da confusão que isso vai causar. — Eu sei exatamente. A resposta veio calma. Controlada. Perigosa. E isso me assustou mais do que qualquer coisa.Porque Ícaro sempre foi intenso emocionalmente. Impulsivo. Explosivo. Mas agora havia algo diferente na voz dele. Frieza. Como se tivesse aprendido a esconder tudo atrás de um muro impossível de atravessar. — Lorenzo não pode saber disso — falei rápido ao ouvir passos do lado de fora do quarto. O silêncio dele durou alguns segundos. Quando respondeu a voz estava ainda mais fria. — Então é verdade. Meu estômago afundou imediatamente. — Ícaro… — Você tá com ele. Não era pergunta. Era constatação. Passei a mão pelo rosto sentindo o desespero crescer dentro de mim. Porque não existia forma boa de explicar aquilo. Não depois de tudo. — As coisas mudaram… — Eu percebi. A forma amarga como ele respondeu fez meu peito apertar. Eu queria explicar. Queria dizer que tentei esperar. Que tentei acreditar que ele voltaria. Que me senti abandonada quando o mundo inteiro caiu sobre mim. Mas nenhuma palavra parecia suficiente agora. — Você sumiu… — minha voz falhou outra vez — Eu achei que tava morto. Do outro lado, houve silêncio. Então finalmente ele respondeu baixo: — E você foi pros braços do meu primo. A culpa atravessou meu peito como faca. Porque por mais que existissem motivos… Ainda doía ouvir aquilo. Os passos do lado de fora ficaram mais próximos. — Kiara? — a voz de Lorenzo surgiu do quarto. — Tá tudo bem aí? Meu coração disparou violentamente. Olhei imediatamente para porta do banheiro enquanto o pânico tomava conta de mim. — Eu preciso desligar. — Não. Aquela única palavra saiu carregada de autoridade. Meu corpo arrepiou inteiro meu Deus. Era assustador o efeito que ele ainda tinha sobre mim. — Ícaro… — Olha pra janela quando sair do banheiro. A ligação caiu. Fiquei imóvel por alguns segundos encarando o celular desligado enquanto minha respiração saía completamente descontrolada. Então lentamente virei o rosto para janela embaçada do banheiro. O coração martelava tão forte no peito que chegava a doer. Porque no fundo…Eu já sabia. Sabia que ele estava perto. Perto demais.
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