Eu ainda estava naquele galpão. Eu estava tremendo sem sentir frio. Eu estava dissociando muito. Balanço a cabeça algumas vezes, na tentativa de acordar de um possível sonho que não existe.
Minha visão fica turva algumas vezes. Quando olho para a porta, vejo aquele homem se aproximando. Estou vendo desfocado, mas consigo reconhecer qual deles é. Tenho tanta fome, mataria por um gole de água ou por aqueles vegetais que minha mãe me obrigava a comer.
— Kira, sei que vai ser difícil mas preciso que aja naturalmente. — A voz dele está distante, mas ele está na minha frente. Aqueles homens me deram alguma coisa quando um deles foi buscar a máquina. Rasgaram minhas roupas. Me bateram... Tocaram em mim...
— Água... Por favor. — Peço com um pouco de dificuldade.
— Drogou ela?
— A garota não parava quieta. — Escutei um barulho logo em seguida.
— Você consegue conversar no telefone sem parecer que está drogada? — Vejo um esboço de alguém na minha frente, me dando tapinhas no rosto. — Consegue? — Questionou rude.
Perdi a noção, tudo ficou silencioso de repente.
Acordei em uma sala diferente. Eu estava jogada no chão. Olhei em volta e haviam dois sofás, mesa, cadeiras, muitos pacotes e sacos grandes. Acho que apenas me jogaram, não se deram o trabalho de me colocar no sofá. Havia uma leve luz vindo de uma janela de vidro bem pequena, que não fazia tanta diferença na iluminação.
Me encolhi em um cantinho longe da porta, não podia negar que estava apavorada. Eu me sentia vulnerável, como se o mundo ao meu redor desaparecesse e eu tivesse sido engolida por uma escuridão perturbadora. Quando eu acordei, demorei um pouco para acreditar que tudo isso era real, eu quis morrer quando descobri que não estava sonhando.
Nunca me imaginei nessa situação. Minha mãe nunca nem sequer me deixava ver filmes que tivessem violência, e agora eu estou vivenciando e sofrendo com uma. Eu sei que isso é uma coisa constrangedora de se falar, mas tudo que eu queria agora é minha mãe.
Escuto um barulho na porta, me encolho colocando os braços dobrados à minha frente como um escudo e escondo o rosto nos joelhos.
— Por que não acendeu a luz? — Escuto a voz de uma moça que logo acende a luz. Olho para ela imediatamente. Desde que cheguei aqui, não havia visto nenhuma mulher. Não consigo responder. — Você está bem? Trouxe água e comida. Bom, e uma roupa também. Você deve estar em choque, mas para o seu bem, melhore antes que o Ash chegue.
Ela deixou uma sacola do lado da porta e saiu. Me rastejei até a sacola, virei uma garrafa de água mineral em segundos. Devorei o sanduíche em tempo recorde. Vesti uma blusa grande que havia na sacola. Três vezes maior que o meu tamanho, mas tudo bem.
A porta abriu de uma vez. Aquele homem de mais cedo entrou. Rastejei de volta para longe da porta.
— A Ava veio aqui? — O encarei sem dizer uma palavra. — A Ava veio aqui? — Falou em um quase grito.
— Sim! — Gaguejei assustada.
— Ótimo, você vai falar com a Kim. Vem aqui. — Ele sentou ao lado de uma mesinha pequena. Fiz o mesmo com receio. — Você vai apenas falar com ela normalmente, improvisa uma história sobre o que aconteceu. Não vai precisar falar muito, é só por alguns minutos. Combinado? — Assenti.
— Não sei como improvisar, senhor. Não tem nada que eu fale que possa justificar o que aconteceu. — Evito contato visual com ele.
— Não precisa de nada convicto, p***a. Só faz o que eu mandei. — Assenti. Ele tira meu celular do bolso, aperta algumas teclas e põe no viva-voz. — Se controla, não deixa ela perceber que você está nervosa. Não vou te machucar, então fica calma! E sem nenhuma gracinha.— Respiro fundo enquanto ouço o toque da ligação chamando.
— Kira!! — Após alguns segundos ouço a voz de Kim.
— Kim!! — Algumas lágrimas ameaçam brotar nos meus olhos. Achei que nunca mais escutaria sua voz. Respiro fundo.
— Onde você está? Te liguei várias vezes depois da mensagem que me enviou. — Olhei para o homem à minha frente que me olha sério, arregalando os olhos em sinal para que eu concorde.
— Eu estou bem Kim, você é muito exagerada, não tinha motivo para você ir atrás da polícia, eu fui para aquela... — Pensei um pouco. — Aquela boate que a gente comentou, lembra? Acabei estrapolando, desculpa. — Kim anuiu. — E minha mãe? Está sabendo?
— Não sabe, fique tranquila. Kira, você não respondeu. Onde você está? — Olho para frente e Ash sussurra em inaudível "na casa da Kim".
— Na sua casa. — Ash sorri de canto enquanto Kim fica em silêncio. Ele sussurra novamente "manda a polícia cancelar as buscas". — Não quero que minha mãe fique preocupada Kim, fala para a polícia que tudo foi um m*l entendido, eu não fui sequestrada nem nada. Já estou indo para casa.
— Eles já ouviram. — Ela fala em um tom baixo, provavelmente a polícia deve estar ouvindo tudo. Ash sussurra "manda ela vim buscar você, você está bêbada"
— Você vem me buscar? Estou meio bêbada ainda, não quero andar de Uber assim. É perigoso. — Ash sussurra "boa".
— Vou. A polícia já está tirando a sua foto da internet, vão encerrar as buscas. — Kim tem uma voz tensa. Imperceptível, mas tensa. Só consigo perceber, porque conheço os trejeitos de Kimberly.
— Te amo! — Falo involuntariamente.
— Te amo. — Encerra a ligação.
Olho para Ash que sorri vitorioso. Ainda quero muito que Kim me explique absolutamente tudo, eu sei que ela sabe o motivo de tudo isso. E o porquê de nunca ter me contado sobre o irmão.
— Há quantos dias eu estou desaparecida? — Questiono embargada.
— Uma noite e um dia. — O homem deita no sofá encarando o teto.
— A polícia vai acreditar nessa história medíocre? — Alguns segundos depois, o mesmo atira meu telemóvel contra a parede. Me encolho pelo susto e lágrimas escorrem automaticamente dos meus olhos.
— Vai sim, a Kim é esperta. Ela vai fazer eles acreditarem. Agora para de me encher de perguntas se não eu acabo de te matar. — Caminha até a porta. — Vamos embora. Ainda precisa cuidar dos seus machucados, que saco! — Ele saiu andando e o acompanhei com muita dificuldade.
Cansada de andar sentei no chão, não conseguia ficar de pé.
— Anda logo, temos que sair daqui. — Me empurrava com o pé.
— Não consigo andar. — Fiz uma careta de dor ao tentar levantar.
— Mas que p***a! — Pensou um pouco, me pegou nos braços e me carregou estilo noiva até o carro. Alguém já dentro do carro abriu a porta, e ele me colocou no banco de trás um tanto bruto. Era a mulher de mais cedo. — Ava, acelera as coisas e cuida dos ferimentos dela. Tem uma caixa aí.
Ele dirigiu por um tempo, aparentemente estávamos distante do lugar onde os outros homens me levaram da primeira vez.
— Você está muito machucada. Eles só te bateram ou fizeram mais alguma coisa? Pode me contar. — A mulher questiona séria.
Eu estava muito entorpecida para lembrar, mas lembro deles me tocarem. Em lugares mais íntimos...
— Eu não lembro... Eu... — Procurei as palavras. — Lembro deles me tocarem, apenas. Não sei se fantasiei. — Ela assentiu. Mexeu um pouco no celular.
— Ash! — Ela o chamou como se pedisse permissão para algo, e ele apenas a olhou pelo retrovisor e assentiu. Ela mexe um pouco no celular. Ash me encara pelo retrovisor, me sinto intimadada e logo desvio. Meu pânico não havia me permitido reparar no quanto ele é bonito.