Capítulo 7

2700 Palavras
Valentina Fiquei encarando a parede de cimento queimado do meu quarto, ela nunca me pareceu tão deprimente quanto parecia agora, um hematoma começava a se anunciar em meu braço, meu joelho ralado estava tão dolorido que qualquer movimento na cama me fazia estremecer, aquela música estava certa, um joelho ralado dói bem mais que um coração partido, mas o que fazer quando se sofre dos dois males ao mesmo tempo? O telefone voltou a tocar, meus olhos relancearam para a tela e meu coração bateu mais rápido quando vi o nome de Marcos, era a vigésima ligação dele, estava cansada e não queria desligar o celular apenas para não falar com ele, amanhã teria de ir trabalhar e não acordo sem alarme, é claro que só estava me justificando para o meu subconsciente sobre uma decisão que eu sabia que iria tomar, era só uma tática para não me sentir tão culpada depois. Estendi a mão e deslizei o dedo para o lado, quando o ruído estático substituiu o silêncio eu sabia que tinha tomado uma péssima decisão, poderia ter desligado, mas não. — O que você quer? — Perguntei sentindo a raiva e a vergonha renascerem em mim. — Tina.. — Não me chame assim. — Não queria te machucar, me desculpa eu não... — Você não teve intenção, sei disso. — Engoli em seco, ele suspirou aliviado provavelmente estava com medo de que o denunciasse e isso acionou um gatilho em mim, me lembrando de como meu chefe me defendeu. As palavras de Matteo em minha defesa votaram como um balde de água fria, um cara lindo inteligente e rico que poderia estar fazendo qualquer outra coisa com qualquer mulher que quisesse, um cara assim estava olhando para mim, não só olhando... Ele me via como pessoa, como mulher. Não que seja motivo suficiente, mas se um cara que não recebe nada de mim me oferece tanto, por que eu tenho que ficar com alguém como Marcos? Por que tenho que fazer das tripas coração para esse relacionamento dar certo? Por que só eu tenho que ceder, perdoar, esquecer e lutar por isso? Já deu. — Você não teve intenção quando flertava com outras meninas pelo celular no nosso primeiro ano de namoro, nem quando trocava nudes com aquela bancária no ano seguinte, ou mesmo quando te peguei no hotel com aquela loira. Você nunca teve a intenção, mas só o que tem feito desde então é me machucar, me humilhar e me destruir. — Tina, por favor! Isso é passado, eu te amo, p***a! — Escutei com lágrimas no rosto sua respiração alterada, ele estava nervoso, aos meus ouvidos parecia até apavorado, nunca falei nada para ele, talvez ele esteja apenas surpreso. — Eu te amo, mas às vezes preciso relaxar, é muita pressão, as contas do escritório, o casamento... às vezes eu preciso fugir disso tudo. — Fugir para baixo dos lençóis com outra mulher? — Ela que deu em cima de mim! Não tive culpa, eu sou homem e — Tem razão, a culpada sou eu por tolerar essas merdas, porque ao fazer isso te deixei pensar que você podia fazer qualquer coisa que eu iria perdoar. — Tina foi a única vez, juro que não vai acontecer de novo. — Não foi a primeira vez, flertar por mensagem ou pessoalmente, tudo isso é traição, olhando para trás eu posso ver que você passou por todas as etapas até finalmente consolidar tudo, mas isso não tira o mérito de que você me trai desde quando começamos a namorar, e eu estou cansada Marcos, estou tão cansada de deixar você fazer eu me sentir uma merda. Meu choro se tornou convulsivo, escutei ele fungando do outro lado da linha, mas se era um teatro ou não eu deixei de me importar. — Não quero mais nada com você, cancela tudo, não vai ter casamento. — Não vou cancelar nada! — Ah então não cancele, mas no dia 20 de maio não serei eu quem entrarei pela igreja. — Juro por Deus, se continuar com esse chilique vou deixar tudo pra você pagar! — Meu peito estremeceu, ele viu a a******a e ouvi quando respirou fundo. — Você não tem emprego, nem terminou sua graduação, nenhuma delas... acha que consegue pagar? — Você... tá me ameaçando? — Não, estou te dando uma escolha. Podemos continuar com nossos planos, ou você pode continuar com sua birrinha enquanto fica cheia de contas pra pagar, tá tudo no seu nome mesmo. E então? Não exagere, todo mundo tem um caso uma vez ou outra, mas é você que eu amo, é você com quem quero me casar. — Vá se f***r! — Gritei. — Eu morro com meu nome no SPC, mas não me caso com um filho da p**a que nem você! — Valentina! Quando encerrei a chamada em meio aos berros dele minhas mãos tremiam, não me dei ao trabalho de conferir os contratos, sabia que tudo estava em meu nome, mas estava cansada demais para pensar no que fazer, ainda tinha que lidar com Matteo... notei o carro dele na esquina, assim como vi Marcos de tocaia me esperando, eu tinha que decidir o que fazer com Matteo, mas só queria dormir, amanhã ou depois pensaria a respeito, eu precisava do dinheiro, ainda mais agora. ... — O que vai fazer? Encarei Melinda sobre a caneca de café, estava colocando ela a par do meu último encontro e da última conversa com Marcos e também sobre o intrigante comportamento do meu chefe, depois de um mês consegui me encontrar com ela durante um dos treinos exaustivos de musculação dele, aproveitei a pausa para tomar um café com minha amiga/chefe. — Nada. — Como assim nada, Tina? — Ela me encarou perplexa. — O cara te seguiu, já esteve na sua casa duas vezes! Quem me garante que ele não está realmente te perseguindo? E eu ainda ajudei o canalha! — Não te culpo, até porque não é ele que me preocupa e sim seu irmão. — Ah pode ficar tranquila que vou ter uma conversinha com aquele outro canalha. — Não acho que ele tinha intenção de me machucar, mas... — Pelo amor de Deus, ele te machucou! E o i*****l ainda está te chantageando, você pode até acusar ele de estelionato. — Não dá pra acusar já que eu mesma assinei toda a apelada e estava ciente da situação, Melina. O que torna tudo pior. — E acha que a solução é se agarrar ao seu patrão de comportamento duvidoso? —Questionou erguendo a delineada sobrancelha micro pigmentada. — Qual é, se fosse em outras circunstâncias e com outras pessoas, isso seria aceitável e compreensível, mas isso não combina com você. — Por quê? Tenho que continuar sendo trouxa a vida toda? Por que não posso usar as pessoas do mesmo jeito que fui usada até agora? — Porque está fazendo isso só pra chamar a atenção de Marcos. É por isso. — Acusou e me encolhi. — Não sei do que está falando. — Não vem bancar a sonsa comigo, se fosse em outra situação você já teria se demitido por causa dessa atitude do Matteo, mas agora não somente irá permanecer no emprego como está planejando tirar proveito da situação? — Não é por causa do Marcos. — Insisti. — Não!? — Eu preciso do dinheiro. — Admiti e não me senti tão envergonhada como antes. Estava enterrada em dívidas e precisava me livrar delas, antes não me sentia assim tão livre de julgamentos, mas agora me parecia completamente aceitável que me aproveitasse da atenção de Matteo, ora, não fui atrás dele e nunca nem o olhei com outros olhos, foi ele quem se aproximou e constantemente se envolveu nos meus assuntos. Foi ele quem decidiu me dar benefícios além da conta, não pedi nada, por que é errado aceitar? Se ele quer bancar minha academia? Eu aceito e apesar de não gostar, irei treinar todos os dias. Ele montou um quarto pra mim para facilitar meu trabalho, tudo bem, estou de malas prontas e já deixei algumas roupas na casa dele, ele comprou roupas caras com a desculpa de que teremos muitos eventos para comparecer e que não era justo eu ter de arcar com as despesas, estou bem com isso também, ele que gaste todo o dinheiro dele se quiser, eu que não vou me preocupar se é certo ou errado. — Não é do dinheiro que estou falando. — Melinda, eu vi o tipo de mulher com quem ele lida todo dia na academia e nos eventos, acredite em mim quando digo que isso não é nada demais, sou apenas uma fantasia com a secretária gordinha. — E você está bem com isso? — Ele me usa e eu o uso, me parece justo. — Desconversei. — Não sei, ainda é suspeito pra mim. — Descobriu alguma coisa com seu pai? — Nada, ele só tem o processo da guarda do cachorro em andamento, nada arquivado, nem mesmo uma multa de trânsito atrasada. — Claro que não, sou eu quem pago todas. — É você quem tem tomado todas aquelas multas? — Ainda estou me acostumando com o carro dele. — E o que isso tem a ver? São multas de estacionamento e de rodízio! — Eu me recuso a tentar fazer baliza se tem pessoas olhando, é humilhante. — Tenho certeza de que a maioria dos lugares que frequenta com ele tem wallet. — Sim, mas graças a Deus não precisei dirigir muito com ele durante o último mês. — Você está com o carro dele? — Ele insistiu. — Admiti com receio do julgamento dela. — O que fez com o Etios? — Vendi para pagar a dívida, Matteo me ajudou com os tramites. — Meu Deus, Valentina... — Olha, não se preocupe. Ele me trata muito bem, nunca avançou o sinal nem nada, no fundo é um cara legal, até mesmo um pouco tímido se quer saber. — Isso é ainda pior. — Por quê? — Se ele fosse um canalha seria justificável tirar proveito, mas se ele é um cara legal quer dizer que quem está sendo cretina é você, ou pior, ele pode ser um psicopata! — Ele já é bem grandinho... e não acredito que seja um psicopata. — Isso não justifica brincar com ele. — Quando abrir minhas pernas tudo acaba, ele irá se cansar e iremos seguir nosso rumo, só espero ter quitado minhas dívidas até lá, por isso me disponho a dar migalhas de atenção para manter o interesse dele vivo. — Você está se ouvindo? — Rebateu incrédula. — Essas coisas acontecem o tempo todo. — Não quer dizer que seja certo, mas parece que hoje em dia virou moda romantizar prostituição. — Sempre fui correta e olha o que ganhei, estou enterrada em dívidas e meu nome está sujo, Melina! Aquele desgraçado vem fazendo dívidas em meu nome há meses, estou errada ao agarrar a primeira chance que me aparece de sair do buraco? — Só queria ter mais dinheiro pra te dar. — Murmurou em tom de desculpas, ela já pagou parte das dívidas e aceitei porque não tinha escolha, mas ainda estava mortificada com isso. — Sei que queria, mas sua empresa nem está dando retorno ainda. Não se preocupe comigo, já me ajudou o suficiente, tudo vai ficar bem. Tranquilizei-a apertando suas mãos por cima da mesa, mas uma coisa ainda me inquietava. — Por que disse que estava fazendo isso pra chamar a atenção do seu irmão? — Porque ele está louco com isso, chegou em casa surtando e exigindo que meu pai mexesse os pauzinhos, mas meu pai não só não fez isso como acertou o pé do ouvido dele por se meter com Matteo. — É mesmo? — Por que acha que ele foi com tudo pra cima de você, ao ponto de te chantagear para continuar o noivado? Me recostei na cadeira pensativa, depois da ligação de Marcos naquela noite ele sumiu, provavelmente ainda estava esperando que eu ligasse implorando para reatarmos o noivado, deve estar pensando que foi muito esperto, não o condeno, sempre fui muito regrada financeiramente e nunca usava nem mesmo cartões de crédito e só comprava minhas coisas no débito, mas ele não sabe o que é lidar com uma mulher traída e disposta a dar a volta por cima, o i*****l não contava que isso fosse me dar ainda mais coragem para seguir um rumo completamente diferente de conduta, não havia reconhecido o Matteo de imediato, o nome me fugiu da mente, mas o sobrenome me era familiar, não foi difícil descobrir o porquê, bastou uma ligação para uma amiga do setor de RH do meu antigo trabalho e descobri que Matteo havia trabalhado comigo anos atrás, costumava trocar e-mails com o departamento dele. Foi fácil concluir que ele teve um dedo na minha demissão, talvez uma mão inteira, era o que faria se estivesse obcecado e possuísse meios de intervir na vida de alguém que despertou meu interesse, isso é claro se eu fosse o alvo, mas como não possuía mais nada de valor poderia me colocar como alvo sim, mas me contatar através de Melina foi uma ótima manobra para desviar o foco, tenho que admitir, se não fosse a atitude dele em me defender de Marcos eu jamais teria desconfiado dele. — Interessante. — Murmurei satisfeita com a revelação de que Marcos estava surtando com a minha proximidade com meu chefe. — Não faça essa cara, vai bancar a noiva traída e vulnerável para conquistar ele? — Não, me fazer de coitadinha não irá funcionar. — Sorri ao beber o que restava de café na minha xícara. — Algo me diz que não foi isso que o atraiu. Verifiquei a hora e percebi que já estava na hora de voltar, iríamos viajar para interior para um evento e precisava buscar Matteo na academia, iríamos pegar seis horas de estrada e precisava me preparar psicologicamente pra isso, era fácil fingir que a presença dele não me afetava no dia-a-dia por que não tínhamos que conviver por muito tempo no mesmo ambiente, mas ficar confinada com ele num carro durante tanto tempo tornaria as coisas mais difíceis, até por que dirigir me deixava nervosa, mas dirigir com alguém do lado era ainda pior, estava contando com a possibilidade dele pegar a estrada já que não tinha muita experiência. — Mas iai, ele é tudo isso mesmo? — O quê? — Perguntei distraidamente e me sentindo culpada por não ter escutado a pergunta — O Matteo. Ao vivo e a cores ele é tão apetitoso quanto parece? — Nuca prestei atenção, acho que sim. — Que mentira deslavada. — Me censurou ao se levantar para pagar a conta, quando voltou ainda estava rindo enquanto olhava o celular para verificar as visualizações do vídeo que postei, bloqueie o celular e o guardei na bolsa. — Tem um edit dele socando o Marcos no Tik ToK, ele queria processar a plataforma, mas meu pai falou que não ia dar em nada. — Um edit? — Perguntei alarmada. — Sim, estão usando para indicar livros de Dark romance. — Sorri com escárnio. — Matteo não é nada parecido com os personagens de Dark romance. — Defendi querendo mudar de assunto. — Ele te conheceu de um jeito bem aleatório, te perseguiu e ameaçou acabar com a vida do seu ex, acho que ele seria um ótimo protagonista e dos melhores. — Não sou eu quem está sendo manipulada Melina, isso não vira as coisas a meu favor? — Eu diria que ninguém sabe quem está manipulando quem, isso acontece nos melhores livros. — Argumentou e sorriu maliciosamente ao abrir a porta do enorme SUV preto. — Não some, tá. E cuidado na estrada. — Não sou eu quem vai dirigir. — Comentei esperançosa — Sorte a sua. — Mandei um beijo e ela sorriu ao fechar a porta, me encaminhei pro Hb20 branco sorrindo, gostava muito mais dele do que do Etios, sorri ao pensar que teria seis horas para ler meu livro, poderia acabar ele hoje se tudo desse certo.
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