Matteo
Ela não iria me dizer nada ofensivo, mas enquanto voltávamos para casa percebi que estava furiosa, os nós dos dedos da mão que segurava as extremidades da saia rasgada estavam brancos, ela mordia as bochechas com tanta força que um bico hostil se formou nos lábios carnudos e bem desenhados.
Parte de mim queria que ela gritasse comigo, me xingasse e me batesse, isso pelo menos quebraria o silêncio opressor que evidenciava que éramos apenas dois desconhecidos no meio de uma situação constrangedora, mais uma vez, e depois de tanto esforço para encontrá-la e tê-la perto de mim isso era um pouco frustrante, mas ela não sabia de nada e se soubesse ela me daria uma surra com certeza e o pior é que pelo que vi mais cedo Léo a ajudaria, ele adquiriu um instantâneo senso de proteção em relação a ela e como eles se conheceram hoje isso é muito mais do que surpreendente.
Abri o portão e ela adentrou cabisbaixa, quando o portão se fechou soltei a guia de Léo e fui imediatamente buscar a sacola de remédios que por sorte comprei ontem na farmácia, graças a um pequeno acidente na montagem da minha impressora, apesar de ser contra o uso de remédios para tratar qualquer simples machucado tive de ir atrás de um analgésico, graças a sugestão de uma funcionária solícita da farmácia, havia band-aid e antisséptico, mas não conseguia encontrar a bendita sacola em lugar nenhum da casa, lembrei que havia deixado a sacola no banheiro e fui até lá.
— Está procurando a sacola da farmácia? — Anui surpreso por ela ter me seguido até o banheiro. — Está na segunda gaveta.
Abri a gaveta e lá estava sacola do mesmo jeito que a deixei, uma fisgada de frustração me atingiu e fiquei confuso, também fiquei um pouco aliviado, mas ainda estava frustrado por ela não bisbilhotar, gostaria de despertar algo nela nem que fosse um pouco de curiosidade, mas depois de lidar com alguém tão babaca quanto seu noivo não me surpreendia que nem mesmo um cara como eu chamasse sua atenção.
Valentina seria desafiadora e desde o começo sabia disso.
Acenei para que ela se sentasse na privada, ela o fez com cerimônia, dividida entre segurar a saia e fechar as pernas o máximo possível, o que era bem difícil já que ela tinha coxas grossas, me ajoelhei no tapete felpudo e peguei uma bola de algodão e a empapei com antisséptico, mas ela me deteve erguendo a mão.
— É melhor lavar com sabão neutro primeiro, depois use o antisséptico.
A observei com curiosidade, imediatamente imagens de seu currículo invadiram minha mente e me lembrei que ela também tinha um curso de técnica de enfermagem, ela era simplesmente uma enciclopédia, como os antigos eruditos, ela desviou o olhar para a pia e percebi que estava encarando a pobre a garota, suspirei resignado e olhei ao redor avaliando a melhor forma de lavar seus joelhos, a melhor opção seria o chuveiro, mas com certeza ela recusaria, ela estava quase pulando pela janela para ir embora, felizmente a pia da minha suíte era dupla e avaliei todas as opções.
— Com licença. — Murmurei antes que mudasse de ideia, me levantei e enfiei as mãos em suas axilas ela ficou dura feito pedra, mas era a forma menos comprometedora de erguê-la.
— Você tá maluco! Que merda está fazendo!?
— Você disse que precisamos lavar o ferimento. — Justifiquei e sua expressão se amainou.
— Ao menos poderia ter me avisado antes de me erguer como se eu fosse uma criança de cinco anos.
— Desculpe. — Ela ficou tensa de repente e me afastei um pouco tentando passar um pouco de segurança. — Valentina, eu...
— Por que disse aquilo? — Seus olhos se ergueram para mim pela primeira vez desde que encontramos com seu ex. — Você não viu a quantidade de gente filmando?
— Não sou tão famoso assim.
— Com essa aparência? — Zombou e me senti um pouco ofendido com seu tom debochado. — A essa hora já deve ter até alguma Fanfic sobre você na internet. O herói musculoso e viril que aparece para salvar a dama em apuros, ou talvez você seja descrito como um CEO milionário, talvez até mesmo um jogador de futebol americano, acho que isso combina mais.
— Parece ter pensado muito no assunto. — Zombei no mesmo tom, ela fez uma careta.
— Algumas coisas simplesmente surgem na mente, não precisam ser planejadas profundamente.
— Parece que sou bem raso, não é.
— Não foi o que quis dizer — Ela sacudiu a cabeça com uma expressão séria. — Não importa, não deveria ter dito aquilo. Agradeço a interferência, mas acho que exagerou.
— Caras como aquele não desistem fácil.
— O que quer dizer, ele pode ser um p****e traidor, mas nunca...
— Nunca faria nada contra sua vontade? — Ironizei. — O seu braço prova o contrário, não acha?
— Foi só uma briga, eu estava irritada e ele com certeza também estava e...
— Nada justifica ele pôr as mãos em você. Você irá denunciá-lo?
— Ele nunca fez nada parecido. — Sussurrou constrangida, mas a tentativa de defendê-lo me irritava.
— Você irá denunciá-lo? — Perguntei novamente, ela arregalou os olhos espantada com a pergunta ou talvez com meu tom, ela balançou a cabeça em uma negativa e engoli um palavrão.
A encarei com firmeza para ter certeza de que minhas próximas palavras não seriam esquecidas.
— Já vi muitos desse tipo, babacas mimados e cheios de privilégios... caras como ele não aceitam um não, acredite em mim. Se não quer denunciá-lo, deixarei por isso mesmo por enquanto, mas se ele colocar as mãos em você novamente, se ele simplesmente olhar em sua direção vou afundar o meu punho na cara dele e se isso não for o suficiente irei afundar o escritório da família dele na merda.
— Por quê?
— Porque odeio pessoas que querem impor suas vontades nos outros e você é minha funcionária, me sinto responsável porque isso aconteceu em seu horário de trabalho.
— Sempre mente sobre namorar seus funcionários para enxotar os ex-namorados deles?
— Bem, fora você o único funcionário fixo é meu assessor que também é meu melhor amigo, mas nunca tive que usar essa estratégia com ele.
Ela ficou mais relaxada e deixou escapar um sorriso minúsculo, mas não falou mais nada, finalizei o curativo e sorri, estava muito satisfeito com o trabalho.
— Obrigada, você precisa de mais alguma coisa ou posso ir? — Perguntou ansiosa se afastando mais para trás na pia e puxando o joelho para longe do meu alcance, me apressei em recolher o material para esconder meu desapontamento.
— Pode ir, mas eu gostaria de te acompanhar.
— Como é? — Exclamou assustada. — Não, não tem necessidade...
— Você mora sozinha, não é? — Minha voz soou dura mesmo aos meus ouvidos, descartei as gases ensanguentadas no lixo ao lado da privada e comecei a lavar as mãos na pia ao lado.
Olhei de esguelha e vi quando ela engoliu em seco, provavelmente ganhando tempo para relembrar se me deu essa informação, ela parecia ser uma pessoa cautelosa e isso apenas me surpreendia dado o desdém que ela tem mostrado em relação a toxicidade do ex-namorado e a falta de cuidado com estranhos, por mais que o estranho seja eu. E se eu fosse um assassino em série? Um estuprador? Suspirei, ela é meio imprudente com sua própria segurança.
— Quer apostar como aquele cara está te esperando para te emboscar na sua casa? — Uma ideia perturbadora passou na minha mente. — Ele tem as chaves?
— Não, eu nunca dei para ele.
— Menos m*l, mas depois de hoje tenho certeza de que ele irá se esforçar ainda mais para te encurralar, caras assim não aceitam quando a mulher segue em frente.
— Já fez isso? — Perguntou estreitando os olhos escuros, a pergunta me deixou embaraçado dada a atual situação, mas sorri ao responder.
— Não. Não costumo perseguir ninguém... — Exceto você, pensei comigo mesmo.
— Pensei que seu relacionamento anterior fosse...
— Eu não a amava. —Esclareci me recostando na pia para observá-la, não gostei de ela trazer a Andressa para a conversa. — De certa forma, era dependente emocionalmente dela, mas não era amor. — Afirmei olhando em seus olhos, era importante deixar isso claro desde o início.
— Percebi isso assim que decidi sair de casa, por ela eu ainda estaria lá perdendo minha herança enquanto ela desfrutava da vida ambígua, mas resolvi sair e foi a melhor escolha que fiz, e como já passei por isso eu te digo, você vai ficar balançada ás vezes quando ele vir atrás, mas mesmo assim diga não, senão você vai entrar num ciclo vicioso de infidelidade e vai ficar cada vez mais difícil sair, é como pular corda e tentar sair com ela em movimento, é fácil entrar, mas sair ilesa é mais difícil.
— Obrigada pelo conselho, — Disse balançando as pernas numa sugestão de que queria descer. — Mas não costumo voltar atrás na minha palavra e não perdoo traição.
— Fico feliz de ouvir isso — A desci da pia, dessa vez ela sorriu constrangida ao passar por mim e fomos para a sala, peguei a chave do carro enquanto ela se despedia de Léo, quando estava pronta para ir abrir a porta e ela estacou no hall.
— Se acha que engoli a conversa fiada de patrão superprotetor realmente você subestimou meu currículo. — Minhas sobrancelhas automaticamente se ergueram, abri a boca para me defender, mas ela não havia terminado ainda. — Agradeço o que fez e o que está fazendo, mas gostaria que não se envolvesse na minha vida pessoal, vamos manter uma relação estritamente profissional porque senão terei que me demitir e eu realmente odeio procurar emprego. Tudo bem?
— É claro. — Concordei pasmo.
...
Fiquei observando da janela ela entrar no carro e realizar um ritual agonizante e lento enquanto ajustava os espelhos retrovisores, o banco... por que ela estava ajustando se apenas ela usava o carro e ele ficou parado na rua o dia inteiro? Ela estava realmente nervosa, talvez não devesse ter permitido que voltasse dirigindo, pulei assustado quando o carro saiu cantando pneu.
— Ela não ficará irritada se não me ver, não é? — Observei Léo, pude jurar que ele bufou enquanto circundava o chão e se deitava no tapete com a cabeça sobre as patas.
Só percebi que já estava com a chave na mão quando abri a porta e vi a mesinha ao lado vazia, apertei o botão das chaves enquanto descia as escadas pensando se deveria levar Léo comigo, mas achei melhor não, ele poderia ficar ainda mais estressado se me visse socar aquele babaca, as luzes da Land Rover piscaram, entrei e tentei me tranquilizar enquanto o portão abria devagar, assim que passei por ele percebi que não precisava ter pressa, Valentina dirigia o Etios a 20Km por hora pelas ruas largas do condomínio.
Fiquei a uma distância maior dela me recriminando por me apressar tanto, se ela me visse poderia pedir demissão e todo meu trabalho iria por água abaixo, cumprimentei os porteiros quando passei pela guarita, o pôr do sol ficando para trás enquanto dirigia para dentro do bairro da periferia, o fluxo de carros era grande, dei passagem apenas para me camuflar no meio do trafego, o trajeto era cheio de curvas sinuosas e subidas íngremes, quando chegamos ao início da rua em que ela morava o trânsito parou de vez, escutei as buzinas e coloquei a cabeça para fora apenas para ver Valentina com o carro em diagonal no meio de uma subida levemente inclinada enquanto tentava dar passagem para um coletivo que tentava passar entre ela e uma Vã escolar, ela foi obrigada a subir na calçada.
O coletivo seguiu sua rota, mas Valentina não conseguia sair da calçada, quando o carro morreu por três vezes liguei o pisca alerta e abri a porta, mas ela conseguiu sair do sufoco com uma manobra brusca e subiu cantando pneu novamente, o cheiro de borracha queimada empesteou a rua, ela precisava treinar mais para conseguir dirigir nesse bairro, nada que a experiência não resolvesse disse a mim mesmo pensando no quanto seria divertido ensiná-la, segui em frente e quando cheguei perto da casa dela, estacionei um pouco antes da curva e assisti ela colocar o carro na garagem, ela teve algum trabalho para entrar de frente, a rua era estreita e a garagem era pequena, mas ela conseguiu.
No final da rua vi uma BMW azul apontar na esquina vindo em sua direção enquanto o portão automático descia lentamente, me recostei no poste da esquina que poderia ser visto a distância de quem estava subindo a rua, bem a vista de qualquer um que passasse e torci para Valentina não sair novamente, o carro quase parou, o motorista pareceu mudar de ideia e passou devagar em frente à casa dela e quando chegou perto de mim encarei as janelas escuras pelo insulfilm, vi a silhueta de um homem, o carro acelerou quando passou pela curva onde estava parado e sumiu de vista, sabia que era Marcos, fiquei tentado a segui-lo e quebrar os dentes dele para lhe passar outro aviso, mas se ele dissesse a Valentina ela iria surtar já que me avisou para não me meter, mas ficaria de olho no i*****l.
...
— VOCÊ O QUÊ!? — Ignorei os berros de Guilherme, ele era meu assessor/RP e meu melhor amigo nas horas vagas, encontrei ele em casa devorando minhas bananas quando voltei e fazendo companhia para o Léo que dormia no tapete.
— Pare de gritar, ela não me viu. — Disse ao jogar a chave na mesinha.
— Ah, ela não te viu!? — Exclamou em tom de zombaria enquanto me seguia até a cozinha, abri a geladeira e peguei um iogurte desnatado e algumas frutas que Valentina deixou cortadas na geladeira depois me aproximei do balcão em busca de aveia e whey, mas não estavam à vista, os encontrei dentro do armário, ela deixou tudo separado em recipientes retangulares de plástico e devidamente enfileirados no armário, os organizadores que comprei apenas por que disseram que era útil, Valentina parecia concordar e sorri ao admirar o armário completamente organizado, a mulher era uma santa. — Você a seguiu como psicopata!
— Só estava me assegurando de que ela chegaria bem em casa. — Resmunguei impaciente ao fechar as portas com um baque. — Por falar nisso cancele o carro automático, pegue um manual. Quero que ela aprenda a dirigir os dois e ela precisa praticar mais com um manual por enquanto.
— Oh meu Deus, o que irá fazer em seguida? — Zombou. — Pagar um personal? Um médico particular? Um psicólogo? Meu Deus, isso está saindo dos limites cara, você está obcecado!
— É claro que estou. — Afirmei mexendo a mistura em uma tigela. — Não é meu Hobbie perseguir mulheres por aí, achei que já sabia disso.
— Matteo, você deu um jeito dela ser demitida, armou para ela flagrar o noivo a corneando e depois a contratou. — Ele suspirou de maneira tão dramática que poderia ser indicado ao Oscar. — Não quero frisar o quanto isso é preocupante e problemático ao ponto de ser até criminoso, fiz o que pediu porque achei que assim que visse que ela não é isso tudo que fantasiou na sua cabeça, você deixaria pra lá, então leve logo ela para cama e acabe com isso, não deve ser difícil a julgar pelo emocional fragilizado dela.
Bati a tigela no balcão, ele se assustou e contraiu o maxilar enquanto me endireitava, as mãos firmemente plantadas na pedra para não ceder à tentação de fazê-lo engolir a língua com dentes e tudo.
— Você é meu amigo então vou te avisar, é a última vez que fala dela assim. — O encarei assegurando-o que ele não devia cruzar essa linha. — Valentina não é um fetiche, ela é a mulher da minha vida e se tudo sair como planejei, logo, logo ela será dona dessa casa. Então se tem algum juízo na sua cabeça, não fale dela como se ela fosse descartável.
— Pelo amor de Deus, você só trocou e-mails com ela e se apaixonou, é isso?
— Não faça parecer patético.
— É porque a situação é patética mesmo. — Ele suspirou resignado e colocou as mãos na cintura, olhou ao redor ganhando tempo para ponderar as besteiras que percebi que queria cuspir na minha cara, parecia estar escolhendo muito bem as palavras, percebi quando ele reparou de verdade no lugar, estava realmente muito bom, sua testa franziu e ele estreitou os olhos ao me observar novamente.
— Ela também é uma ótima decoradora. — Acrescentei.
— Matteo, você lutou tanto para ter o poder aquisitivo que te desse conforto para competir e agora está colocando tudo em risco por causa de uma universitária falida?
— O que quer dizer com isso?
— Bem, ela tem muitas contas para pagar. Buffet, viagem... não dá para cancelar essas coisas em cima da hora sem sair no prejuízo e nem vamos falar do financiamento estudantil e do carro.
— Ela tem chance num processo contra aquele i*****l?
— Com um bom advogado e muito dinheiro, sim. — Admitiu. — Mas o cara colocou tudo no nome dela, então...
— Deixe assim.
— O quê? — Questionou confuso. — Você espiona e persegue a garota, a contrata por um salário exorbitante e agora vai deixá-la se afundar em dívidas?
— Se eu me meter nisso e Valentina descobrir ela vai embora, é melhor que resolva sozinha, ela precisa do dinheiro e assim tenho certeza de que ficará no emprego por algum tempo.
— Isso é perturbador, sabia? — Declarou me olhando com incredulidade.
— Investigue a família do Marcos. — Ele sacudiu os braços em indignação e bateu as mãos nas coxas num protesto infantil, era divertido ver ele tendo dificuldades.
— Cara, não podemos simplesmente investigar a família de um dos advogados mais respeitados do país!
— Guilherme, quero saber de qualquer negócio duvidoso que eles estão envolvidos e se não tiver nenhum, invente, faça por debaixo dos panos. Se aquele cara planeja chantagear a Valentina eu irei mostrar a ele que não estou brincando.
— Acha que esse é objetivo dele?
— Acho que sim, ele não vendeu a casa.
— Talvez pense que ainda tem chance... — Sugeriu hesitando. — Ela pode voltar com ele, sabe disso, não é?
— O que você veio fazer aqui mesmo? — O cortei para encerrar logo aquela visita.
— O Bruno não vai conseguir treinar você.
— Por quê?
— A equipe do Aaron fisgou ele.
— Merda. Não basta ter roubado meu patrocínio, filho da p**a do c*****o — escovei o cabelo para trás, a mente a milhão tentando encontrar uma solução enquanto me dividia entre passar a mão no cabelo como se ele fosse uma lâmpada mágica e puxá-lo como se pudesse extrair uma solução do meu couro cabeludo, tinha apenas alguns meses até o evento e o prazo estava apertado demais para qualquer cara responsável aceitar a proposta. — Entre em contato com o Carlos, vê se ele consegue encontrar alguém das antigas.
— Cara, tem pouco tempo até o campeonato paulista.
— Eu sei, eu iria pessoalmente, mas tenho um evento amanhã e outro no domingo, quebra essa pra mim, fale com o velho.
— Sabe que aquele cara é osso duro de roer, odeio lidar com ele. — Disse ao se aproximar do balcão e pegar mais uma banana.
— Faz parte do seu trabalho, agora se manda e deixe minhas bananas em paz.
— Duvido que falaria assim com ela.
— Não mesmo, mas você não é ela e nem se parece com ela. Então dê o fora.
— Eu hein, você é um patrão bem cretino às vezes sabia!? — Resmungou de boca cheia e saiu, sorri quando ele me mostrou um dedo antes de fechar a porta.
Me sentei à mesa comendo iogurte e me sentindo repentinamente solitário, a casa parecia grande demais para uma pessoa, Léo se deitou aos meus pés com se sentisse a mudança em meus sentimentos, olhei para a sala de vidro e sorri ao lembrar dela, ela passou boa parte do dia naquele cômodo, parecia ser seu preferido, talvez com o tempo pudesse a convencer a decorá-lo para seu próprio uso, quando eu começasse a treinar mais intensamente talvez ela tivesse que dormir aqui, Deus me livre de deixar ela dirigir naquele bairro altas horas da noite ou da madrugada.
O pensamento de Valentina dormindo em minha casa, ocupando-a com sua presença marcante me perturbou, voltei a atenção ao meu prato enquanto Léo começava a roncar em meus pés.