Pré-visualização gratuita 1.Primeiro
Cloe atravessou o corredor da biblioteca da universidade com a pasta debaixo do braço e o café já quase frio na mão. O último ano de Direito pesava de um jeito diferente. Não era só a carga de processos simulados e as noites em claro estudando jurisprudência de família. Era a certeza de que, em poucos meses, ela estaria do outro lado da mesa, explicando para alguém que o casamento acabara e que o amor — aquele que as pessoas insistiam em romantizar — raramente sobrevivia à realidade.
Ela não acreditava nele. Nunca acreditara de verdade. Cresceu vendo o pai chegar tarde, com cheiro de perfume que não era o da mãe, e a mãe fingindo que não notava. Aprendeu cedo que fidelidade era uma palavra bonita em contratos e em juramentos de casamento, mas rara na prática. Por isso escolheu divórcios. Pelo menos ali a honestidade era obrigatória: as pessoas já chegavam sem ilusões.
Sentou-se na mesa do fundo, perto da janela que dava para o pátio interno. Tirou o casaco, abriu o notebook e começou a revisar as anotações sobre partilha de bens. O cabelo castanho escuro caía solto sobre os ombros; ela o prendeu de qualquer jeito com um elástico enquanto lia. A blusa preta justa marcava a cintura fina e o decote discreto o bastante para não chamar atenção desnecessária, mas o bastante para quem soubesse olhar.
Ben a viu de longe.
Estava na seção de literatura contemporânea, com um volume de contos abraçado contra o peito como se fosse um escudo. Vinte e dois anos, último ano de Letras, e ainda carregava aquela expressão de quem acreditava demais nas histórias que lia. Alto, magro, cabelo bagunçado de quem passava horas escrevendo em vez de se preocupar com aparência. Os óculos escorregavam um pouco no nariz quando ele se concentrava. E naquele momento ele estava concentrado demais nela.
Há semanas ele a observava. Não de forma invasiva — ou pelo menos tentava não ser. Cloe era impossível de ignorar. Não só pela beleza óbvia (a forma como ela andava, a segurança no olhar, o jeito de falar com qualquer um como se o mundo fosse fácil demais para ela), mas pela reputação que a seguia. Todo mundo sabia que Cloe não se apegava. Que saía com quem quisesse, quando quisesse, e sumia depois sem drama. Espírito livre, diziam. Ben preferia pensar que ela simplesmente não acreditava na mesma coisa que ele.
Ele fechou o livro com cuidado e caminhou até a mesa dela. Cada passo parecia mais alto do que deveria. O coração batia de um jeito ridículo. Ele já tinha ensaiado a conversa no quarto, no espelho, no ônibus. Nada parecia natural o suficiente.
Cloe levantou os olhos quando a sombra dele cobriu a tela do notebook. Reconheceu-o de vista. O garoto de Letras que sempre estava com algum livro e uma expressão sonhadora. Bonito, de um jeito quieto. Virgem, se os boatos da faculdade estivessem certos — e na universidade os boatos raramente erravam nesse tipo de detalhe.
— Precisa de algo? — perguntou ela, sem fechar o notebook. A voz saiu prática, quase impaciente.
Ben engoliu em seco. Apoiou o livro na mesa, mas não se sentou ainda.
— Cloe… oi. Eu… sou o Ben. Do curso de Letras. A gente já se cruzou algumas vezes no campus.
Ela arqueou uma sobrancelha, curiosa.
— Eu sei quem você é. O que você precisa?
Ele passou a mão na nuca, um gesto nervoso que tentou disfarçar.
— Eu estou escrevendo um romance. É… meio o trabalho de conclusão, mas também é o livro que eu sempre quis escrever. Tem romance, tem drama, tem… cenas. Cenas mais intensas. Íntimas.
Cloe inclinou a cabeça. Um leve sorriso apareceu no canto da boca.
— Sexo, você quer dizer.
Ben corou até as orelhas. Olhou para os lados, como se alguém pudesse ouvir.
— Sim. Só que… eu não tenho experiência. De verdade. Nenhuma. E eu tentei pesquisar, assistir coisas, ler, mas… não ajuda. Fica artificial. Ou mecanico. Ou exagerado. Eu preciso que as cenas pareçam reais. Que tenham sentimento, tensão, detalhe… e eu não sei como escrever isso sem parecer que estou inventando algo que não conheço.
Ele fez uma pausa, respirando fundo.
— Eu preciso de ajuda. E você… você é a pessoa mais… experiente que eu conheço. E a mais honesta, pelo menos no que eu ouvi. Eu não quero que você faça nada comigo. Só… me explique. Me diga como é de verdade. O que uma mulher sente, o que funciona, o que é mentira de filme. Eu pago café, almoço, o que for. Só… me ajuda a não estragar o livro.
Cloe o observou em silêncio por longos segundos. O pedido era inusitado. A maioria dos caras que se aproximavam dela queria outra coisa. Esse queria informação. E admitia a virgindade com uma honestidade quase dolorosa.
Ela fechou o notebook devagar.
— Você está pedindo para eu te dar uma aula teórica de sexo porque você é virgem e quer escrever cenas quentes sem parecer um adolescente nojento?
Ben engasgou com a própria saliva.
— Eu… não diria exatamente assim, mas… basicamente, sim.
Cloe riu baixinho. O som foi breve, mas genuíno.
— Senta.
Ele obedeceu imediatamente, puxando a cadeira em frente a ela. As mãos ficaram apertadas sobre o livro.
Ela apoiou o queixo na mão e o estudou com mais atenção. Vinte e dois anos. Romântico até a medula, dava para ver. O tipo que ainda esperava a garota certa. O tipo que ela normalmente evitava como praga — justamente porque eles acreditavam demais e ela não acreditava em nada.
— Por que eu? — perguntou ela. — Tem internet. Tem livros. Tem gente que faz isso profissionalmente.
— Porque a internet é mentirosa. Os vídeos são performance. Os livros… a maioria é escrita por gente que também inventa. Eu quero a verdade. E você… você não finge. Pelo menos é o que dizem.
Cloe sentiu um leve desconforto. A reputação dela sempre fora uma armadura conveniente. Agora alguém estava pedindo exatamente o que estava por baixo dela.
— Eu não acredito em romance, Ben. Acho que amor é uma desculpa bonita para pessoas se machucarem. Eu saio com quem quero, quando quero, e não prometo nada. Se eu te ajudar, vai ser com essa perspectiva. Sem flores. Sem “e eles viveram felizes para sempre”. Só corpo, desejo, o que funciona e o que não funciona.
Ele assentiu com seriedade.
— Eu preciso exatamente disso. O meu personagem masculino… ele é inexperiente no começo. Depois aprende. Eu preciso entender a diferença entre o que ele imagina e o que realmente acontece.
Cloe ficou em silêncio mais um momento. Depois abriu a pasta, tirou um caderno em branco e o colocou entre eles.
— Tudo bem. Vamos fazer assim. Você me conta a cena que está tentando escrever. Eu te digo onde está mentindo. Depois a gente ajusta. Mas tem regras.
Ben ergueu o olhar, atento.
— Quais?
— Uma: você não vai se apaixonar por mim. Eu não sou a garota dos seus livros. Duas: a gente não vai t*****r. Isso aqui é só conversa. Três: se em algum momento eu achar que você está pedindo mais do que informação, eu paro. Entendeu?
Ele engoliu de novo, mas a voz saiu firme.
— Entendi. Eu não… eu não quero isso de você. Só o livro.
Cloe sorriu de lado, quase cética.
— Todo mundo diz isso no começo.
Ela virou a página do caderno e escreveu no topo, com letra firme:
Cena 1 — O que ele acha que acontece vs. o que realmente acontece.
Depois levantou os olhos para ele.
— Então. Me conta. Qual é a primeira cena quente do seu livro?
Ben respirou fundo. O coração ainda batia rápido, mas agora por outro motivo. Ele abriu o caderno onde guardava os rascunhos e começou a ler em voz baixa, quase envergonhado, a passagem que escrevera na noite anterior.
Cloe ouviu em silêncio. Às vezes franzia a testa. Às vezes um canto da boca se ergueu. Quando ele terminou, ela bateu a caneta no papel duas vezes.
— Ok. Primeiro erro: ninguém chega tão limpo e perfeito numa primeira vez. Segundo: ela não vai gemer daquele jeito só porque ele pensou algo romântico. Terceiro…
E assim começou.
Do lado de fora, o sol da tarde batia nas janelas da biblioteca. Dentro, entre páginas de Direito e rascunhos de um romance ainda sem nome, Cloe — que não acreditava em amor — começou a ensinar Ben — que ainda esperava por ele — a escrever desejo de verdade.
E nenhum dos dois, naquele momento, percebeu que a conversa que acabara de começar seria muito mais perigosa do que qualquer cena quente que ele pudesse inventar.