CAPÍTULO 1 - Sara

1540 Palavras
Ando de um lado para o outro na sala, estou com meu humor no lixo e olho para cada coisa que fiz pra gente passar a noite, encaro o relógio e balanço a cabeça frustrada e chateada. Céus, ele não iria aparecer nem no meu aniversário? Suspiro fundo e me sento, seguro a taça de vinho e quero chorar, quero gritar e falar que ele falhou como marido. Eduardo Telles era um filho da mãe egoísta de m***a. As vezes me perguntava se ele ainda gostava de mim. Dois anos, dois anos casadas. Eu não sabia mais a razão pra isso tudo que eu fazia. Era meu aniversário e eu queria agradar um cara, me preocupando em ter uma noite legal, quando ele nem ao menos telefonou durante o dia ou falou comigo antes de ir para o trabalho, o melhor e que ele nem apareceu no horário, já são quase onze da noite. Eu sou casada. O que havia acontecido? Onde eu havia errado ou como Eduardo havia se tornado tão distante e frio, tão acomodado que nem me falava mais parabéns. Quando foi que o trabalho passou a ser mais importante que a gente ou a casa dele? Céus, era a quarta vez na semana que eu me via pensando a mesma coisa e tentando achar uma reposta pra uma pergunta que ele nem pensava em fazer pra si mesmo. Quem eu queria enganar? Virei a taça e me mexi pela sala, apagando as velas e pegando meu roupão atrás do sofá. Passei na cozinha e cobri tudo com um pano e subi as escadas direito para o quarto. Quando entrei, desfiz a cama e esvaziei a banheira, tirei aquele roupão e as cinta liga e a meia calça rendada e o sutiã, ficando apenas de calcinha de renda, colocando apenas uma camisa por cima. Poderia dormir pelada que eu iria me decepcionar. Até o s**o parece ser mais burocrático. - Talvez eu ligue pra marcar uma hora na agenda dele ou talvez eu mande um fax - Me jogo na cama e fico encarando o teto. Vinte cinco anos, eu acabo de completar vinte cinco anos, sou formada em psicologia, tenho um trabalho na clínica com crianças e tenho uma vida estável, meu marido é o dono da advogacia Telles, temos uma casa incrível e temos coisas incríveis. A vida perfeita, se não fosse pelo que tenho com ele hoje. Eu falo hoje porque o que acontece hoje, não acontecia antes. Ele não era mais presente, empolgado, ativo e prestativo. Eu sei que pode parecer r**m falar isso dele, não levar em conta as outras coisas que ele faz, mas isso é o mínimo e eu não deveria cobrar isso. Não deveria cobrar atenção do meu próprio marido. Ele não aproveita a proporia vida, vive em função de trabalho, não acho r**m, mas desde quando o trabalho virou preferência e não ele mesmo? Ele se formou e entrou na advocacia, eu não imaginava que ele iria se transformar em uma máquina ambulante de direito, do tipo que pode resolver qualquer problema. Aquilo não veio com uma placa dizendo ou avisando. Talvez pouco antes do casamento eu tivesse percebido, mas não, com o tempo foi ficando pior. Céus, ele não se tocava? O barulho da porta surge e eu me viro pro lado e fico quieta, estou chateada e não quero perder mais uma noite pensando nisso ou naquilo, era meu aniversário, eu nem esperava que ele se lembrasse, porém, eu ficaria tão feliz que ele se lembrasse, que ficasse por nós dois. Vi ele acender o abajur do lado dele, assim que entrou, ele não fez barulho ou nada do tipo. Fechei os olhos e acompanhei ele pelos sons, da roupa sendo tirada, até do relógio. Por um segundo ele se sentou na cama, ficou ali um bom tempo, não me encostou, não me chamou. Ele se mexeu e saiu, quando eu percebi que ele já não estava mais no quarto, eu me mexi e fiquei sentada na cama, minhas mãos começaram a tremer e meus olhos arderem, meu estômago se revirou, meus olhos ficaram embaçados. Me mexi. Não. Eu não iria me sentir m*l por querer a presença de ninguém ou companhia, não, de novo não. Atravesse o corredor e quando segui a única luz acessa, entrei na sala dele, a visão foi espetacular. Ele estava sem camisa, de frente para o notebook na sala dele, estava girando uma caneta no dedo e tinha pastas abertas pela mesa. Eduardo em pessoa, os cabelos pretos bagunçado e a pinta Henry Cavill... Céus, eu ainda achava aquele homem o mais incrível da terra, quase como um Deus em forma de gente por tamanha beleza. Ele demorou alguns segundos pra me notar, quando ergueu o olhar parecia surpreso em me ver. Ele fez o clássico, me olhou como se nada tivesse acontecido, como se ele não tivesse esquecido a p***a do meu aniversário e me deixado a noite inteira plantada. Onde esperei ele chegar e ter a decência de ao menos ficar ao meu lado, mas não, ali estava ele. - Meu bem, pensei que já estivesse dormindo - Ele sorriu, como se nada tivesse acontecendo, como se meu estômago não estivesse enjoado ou minha cabeça r**m, com o choro preso. Estava quase explodindo. Não iria sobrar nada. - Não, eu não estava. -Estou revendo alguns contratos, o pessoal foi incrível em uma das audiências hoje. Você devia ver - Dou uma risada sem graça e triste. Fazia tanto tempo que ele não acompanhava as coisas que eu fazia, tanto tempo! - Você é patético - Falo e me mexo, com o grito preso na garganta. - Sara? - Ele me chama e eu só tenho tempo de chegar na sala e ele puxar meu braço, me fazendo olhar pra ele. - O que foi, meu bem? - O que foi? Você realmente está me perguntando o que foi? Está tão cego com a m***a do trabalho que nem ao menos olhou na sua volta? Ele olha ao redor dele, vendo a organização que fiz pra ser uma noite gostosa indo pro buraco, assim como o resto do meu casamento. - Eu sinto muito, meu bem - Ele fala e até acredito que seja verdade. - Você devia avisar que fez algo para nos dois, teria aparecido. Eu vou pro sofá e caio sentada, com as mãos enfiadas no cabelo e tentando pensar em algo, mas estou com raiva, ele não lembro do meu aniversário, ele não lembrou da p***a do meu aniversário! - Quer saber, pra mim chega. Eu não vou continuar com um cara que dia após dias prefere mais o trabalho do que a pessoa que está ao lado dele. Céus, eu apoio seu trabalho, mas você nem acorda direito e já se enfia naquele escritório, chega tarde e nós fins de semana sempre é a mesma coisa. - Não precisa ficar assim, calma - Eu me levanto quando ele tenta se aproximar. - Sai de perto de mim, eu acho melhor sair daqui, estou cansada de esperar você, estou cansada de ficar enfiada dentro de casa sendo a sua segunda opção sempre. Me casei com você e não com o seu trabalho Eduardo, e tão difícil entender isso? - Aquele lugar depende de mim. - Mas é nosso casamento? - Faço uma pausa. - Depende somente de mim? Ele abre e fecha a boca, fica sem saber o que falar e eu me mexo. - Sara. - Eu preciso sair e respirar um pouco, eu vou pra casa do meu irmão. - Casamento não é um conto de fadas. Eu paro de andar, estou no meio do corredor, tem um aparador com flor ao meu lado, eu me mexo e só pego a peça e me viro, jogo ela pra frente e vejo ele se esquivando. - Eu não quero um conto de fadas! Eu quero só meu marido, quero poder jantar com ele, sair e dormir com ele, quero ter tempo pra falar como foi o dia dele e contar o meu, alguém pra assistir um filme ou apenas ficar de bobeira - Eu sinto os olhos ardendo e sei que as lágrimas estão descendo sem parar. - Quero o cara que eu me apaixonei, você pode ser ele ainda, mas está agindo assim desde que assumiu os negócios. - Você sabe que as coisas lá não são fáceis, as vezes é difícil conciliar as duas coisas, vem comigo, não precisa ficar assim, você está chorando. Ele ergue a mão e eu balanço a cabeça, aquilo já havia acontecido. - Eu vou facilitar pra você, vou embora dessa casa. - Sara... Entro no quarto e tranco a porta, ele continua me chamando e pedindo pra falar, no tempo que passo no quarto, estou enchendo ele de lágrimas e arrumando uma mala, pego só algumas peças de roupas e visto um casaco longo. Quando abro a porta, ele me encara dos pés a cabeça, até parar no meu rosto. - Que m***a acha que está fazendo? - Dando um tempo, facilitando pra você talvez, assim você pode se dedicar 100% aquele escritório. - Você não vai sair daqui, amor. - Quem vai me impedir, Eduardo?
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