Henry parecia ávido em mostrar a Anne que ele gostava dela. Ela continuou a trabalhar, como sempre e o tratou com respeito. Ele a tratava igualmente, mas a encurralava nos corredores e a noite tentava roubar mais beijos dela, sem se importar de serem vistos. Anne se sentia derreter em seus braços, mas mantinha a distância dele, reforçando a questão de que eles precisavam pensar com mais calma e precisavam se conhecer mais. Ele suspirava, irritado, mas se afastava.
Ela apenas estava tentando ganhar tempo. Não poderia ficar na casa dele, enquanto estivesse apaixonada. Se baixasse a guarda, iria se entregar a ele e sofreria depois as consequências do seu ato impensado. Não poderia contar com um homem em sua vida. Precisava se valer por si mesma. Estava cansada de ver sua vida sendo arrasada por homens egoístas que não se importavam com o que ela queria. Aguardou ansiosa para que o livro que ela iria publicar pudesse se tornar um sucesso. Poderia com a publicação ter dinheiro para viver sua vida sozinha. Seria finalmente independente.
Fora criada para ser uma boa esposa, mas rebelde que era, não conseguia se ver nesse papel. Era tão difícil não ter suas próprias opiniões e se revoltar com as injustiças que os homens faziam. As diferenciações na educação, a forma que as mulheres eram tratadas, como seres inferiores que só serviam para reprodução. E quanto mais rica e refinada era uma dama, era vista como uma parceira adequada para gerar filhos, como se fosse uma égua parideira. Anne não conseguia fechar os olhos para isso e para como sua mãe era tratada. Ela tinha que ser submissa e servil. Por isso, Anne se apaixonara por Thomas. Ele parecia alheio a essas opiniões e a tratava com igualdade. Deixava a falar e expor seus pensamentos. Ele poderia ter sido péssimo para ela, não tendo a protegido, mas nunca a tratou com condescendência.
Anne suspirou, lembrando do passado. Da sua família. Apesar da raiva que sentia, a falta deles era insuportável. Resolveu enviar uma carta para sua mãe, endereçado a todos. E depois, uma carta a Klyne. Precisavam conversar. Sua carta foi respondida no dia seguinte, pedindo para encontrá-lo no Hyde Park, em uma parte em que tinha pouco movimento de pessoas. Por ser seu dia de folga, poderia se ausentar. Qual não foi sua surpresa encontrar Jacob com ele. O menino correu para abraçá-la.
- Senti tanto sua falta – ela disse, levantando-o do chão.
- Por que não me visitou? – ele perguntou, triste.
Anne notou que a governanta era outra. Era uma mulher de idade e tinha um olhar severo. Ela não gostou disso.
- Eu não pude, querido – ela respondeu, com pesar, colocando-o no chão – Mas, em breve eu irei.
Ele assentiu.
- Jacob, vá com sua governanta agora. Quero conversar com a senhorita Williams – Klyne ordenou.
- Mas, tio...- ele tremeu os lábios.
- Obedeça, Jacob. Eu trarei você em mais visitas para ver a senhorita Williams. Me dê só um momento para conversarmos – ele pediu, com um olhar que não admitia recusa.
- Sim senhor – o menino concordou, baixando a cabeça e indo com a governanta.
Vê-lo sair daquela maneira partia seu coração. Ela gostava do menino. E ele mesmo sendo malcriado, se apegou a ela, assim como ela se apegou a ele.
Klyne a fitava com interesse.
- Bom, estou aqui, Anne – ele disse, com um tom irônico – O que posso fazer por você?
Ela engoliu seco.
- Por que trouxe Jacob? – ela perguntou.
- Porque eu sei que gosta dele e ele sempre pergunta de você. Eu sei o que é gostar de uma pessoa e não poder vê-la – Ele não transparecia nenhuma emoção. Mas, ela pode detectar uma nota de amargura em sua voz – Então, me diga, em que posso ser útil?
- Eu não estou aqui para pedir nada, milorde – ela disse, tentando usar um tom formal e ele arqueou as sobrancelhas. Ela olhou para os lados e não havia ninguém passando por entre aquelas trilhas. Poderia falar com privacidade – Eu...eu queria entendê-lo mais. Queria compreender suas intenções. Agradecê-lo por sempre me ajudar. Me senti ingrata contigo.
Klyne a fitou surpreso, mas logo alterou sua expressão. Estava neutro. Parecia querer esconder o que sentia.
- Minhas intenções nunca foram honrosas – ele disse, sério – Eu a submeti a uma situação degradante, desejando que fosse minha amante, Anne. Eu não quero que pense que deve me agradecer.
Ela negou com a cabeça.
- Eu sei disso, mas eu sei que você tem um coração. Apenas cometeu um erro quanto a mim. Se realmente não se importasse, não teria arranjado um emprego para mim. Não iria se preocupar comigo. O que quero dizer é que queria ser sua amiga. Sempre quis. Eu me sinto em dívida com você. Gostaria nesse momento que possamos conviver em paz.
- Sabe como pode pagar sua dívida - ele disse em um tom insinuante que a deixou nervosa. Ela bufou – Eu só estou dizendo a verdade, Anne. Não pinte uma imagem boa de mim. Sou um aproveitador das situações. Eu não as crio, mas aproveito quando elas me beneficiam. Irei cobrar no tempo certo sua dívida.
Ela o fitou, mortificada. Parecia que não conseguiria apelar para sua consciência.
- Robert...eu achei que havia amizade entre nós – ela sussurrou, o fitando em súplica – Por favor, eu só peço que não me arruíne. Peço que pense o quanto isso poderá me prejudicar.
Ele evitou olhá-la, olhando para frente.
- Esse é seu medo? – ela assentiu – Medo de que eu possa destruir sua reputação?
- Sim, eu já expliquei isso – ela respondeu com impaciência.
- Então, todo esse discurso de amizade e de que se importa comigo é uma fachada para me manter calado? – ele perguntou, com sarcasmo – Interessante. E sabe o que é mais interessante agora? – ele se aproximou dela, a fitando com raiva. Seus olhos chispavam – É que você está buscando outra pessoa para protegê-la. Alguém da minha família. Eu fico realmente chateado, pois achei que eu seria muito importante para você, como havia dito há poucos instantes. Disse que queria ser minha amiga. Mas, estou inclinado a acreditar que isso tudo é um plano ardiloso seu, para ter a atenção do meu primo. Não quer ser vista com outros olhos por ele, não é? Por isso, está me pedindo para ficar calado e oferecendo amizade.
- Robert...não é isso...você está distorcendo tudo – ela acusou, explodindo de raiva. Sentia o corpo inteiro tremer devido ao fato de estar sendo acusada por ele.
- Não tente me enganar. Conheço mulheres como você. São ardilosas, esperando um prêmio maior. Como eu não quis desposá-la, você foi atrás de outro, que com certeza vai fazê-la sua esposa, não é? – ela negou com a cabeça, com um olhar irritado e magoado – Não me olhe assim, Anne. Eu sei o que você quer. É segurança. E Henry é um homem apaixonado. Ele sempre recolhe todos que precisam de ajuda e apoio. Mas, não percebe o quanto as pessoas estão usando-o e manchando o nome da nossa família. Ele é bom demais para esse mundo e não vou deixar que você se aproveite disso. Não mesmo.
- Eu não estou me aproveitando, por Deus – ela quase gritou – Eu estou apenas trabalhando. Vivendo minha vida. Pare e pense, Robert – Ela parou de andar, fazendo ele ficar a frente dela. O olhar dele era um misto de raiva e acusação - Se eu quisesse me aproveitar, teria tentado conquistar você. Seria sua amante e depois iria exigir ser sua esposa.
Ele negou com a cabeça, com um olhar dardejante. Os lábios encrespados. Ele apertou a bengala em sua mão e bateu contra o chão de cascalho com força.
- Você somente não fez isso, porque queria alguém fácil de manobrar. E eu não sou. Eu quase acreditei que você fosse diferente, Anne. Quase – ele disse com desprezo – Que não tentaria fazer nada, que somente queria ajuda. Mas, eu sou t**o. Deixei que entrasse em nossas vidas e não vi o perigo que você traz.
- Está querendo somente me magoar por eu não o querer! – ela esbravejou, cruzando os braços com força sobre o peito.
Os olhos dele tremeram e sua expressão raivosa se transformou em agonia. Mas, foi um breve deslumbre que ela teve. Ele ficou indiferente em segundos e virou o rosto.
- Você é ardilosa, Anne. Não vou me esquecer disso. Maldita hora que a quis. O que me magoa é você pensar que eu iria expô-la de verdade. Se você queria saber, eu nunca faria isso. Eu estava com ciúmes de você, apenas isso. Mas, eu jamais a prejudicaria – ele procurou o olhar dela e havia dor. Deu um passo até ela, segurando-a pelo ombro. Isso a assustou, pois ele respirava rápido e seus olhos continham toda a raiva que sentia – Você não percebeu que eu me importo com você? Que sempre me importei durante esses dois anos? Que eu a fiz minha amante porque queria você comigo? Que queria seu amor. Por Deus, eu me casaria com você, sem pensar duas vezes. Mas, você ficou pensando que eu estragaria tudo, não é? Vislumbrou uma oportunidade com Henry, não foi? Era esse seu medo. Que eu estragasse tudo.
- Pare de dizer mentiras! – ela protestou, tremula, se afastando do toque dele – Você é que está errado, Robert. Você – ela apontou o dedo indicador para ele, com indignação. Levantou a sobrancelha em uma atitude desafiadora - Tentou falar comigo em público vezes demais, expondo seus sentimentos e quase que Henry testemunhou isso. Ele poderia pensar o pior. E não quero que pense. Eu não sou uma aproveitadora! Foi você quem nos expôs, me interpelando com tanta i********e, tentando me propor novamente uma união desonrosa.
Ele piscou e respirou fundo. Seu rosto era uma carranca.
- Eu não estava pensando direito. Eu nunca penso quando estou perto de você. Mas, isso vai acabar. Eu não vou deixá-la me influenciar – ela tentou protestar, pois nunca tentou influenciá-lo – Não, não fale nada. Eu não acredito em você. Tudo isso, essa cena de dizer que é minha amiga era para ter benefícios. E me acusar como fez agora, como se eu fosse capaz de destruí-la...eu não faria...eu disse coisas ruins para me proteger, porque sou e******o demais...mas...
Ele engoliu seco. Balançou a cabeça. Então, seu olhar endureceu e seu rosto se tornou uma máscara fria de indiferença. Ele bateu a bengala no chão e isso era o único sinal de impaciência dele.
- Se considere avisada, senhorita Williams – ele disse, com um tom seco – Eu não vou permitir que tente enredar meu primo em suas artimanhas. Não pense que vou esquecer o que conversamos e nem suas intenções. Continue seu trabalho com Erik. Mas, eu sugiro que saia logo da casa de Henry. Eu quero que saia das nossas vidas o mais breve possível. E volte rastejando de onde veio.
- Eu não sou uma aproveitadora! – ela gritou, segurando-o pelo punho do paletó, quando ele se moveu para se afastar. Ele a fitou com ódio – Não me olhe assim, Robert. Você foi quem se aproveitou de mim. Você que propôs algo indecoroso. Eu não fiz nada de errado. Eu não estou querendo enredar Henry. Acredite em mim.
Ele fechou os olhos e levou a mão ao rosto dela.
- Deve se lembrar que você veio me pedir ajuda. Eu só a queria para mim, no final das contas. Talvez, se não fosse tão aproveitadora, eu teria lhe dado tudo – Seu olhar se tornou escuro e sua mão enluvada para acariciou a bochecha dela. Ela não recuou, se sentindo estranha. Parecia fora do próprio corpo e não conseguia desviar do olhar intenso dele - Tão bonita. Seus olhos são como a perdição, Anne – ele sussurrou – Pena que nunca sentia nada por mim – ele continuou com a voz baixa – E que no lugar do seu coração tem uma pedra de gelo.
Ele se afastou, voltando ao seu olhar frio e indiferente, encrespando os lábios. Ela respirou fundo, se sentindo atordoada e ao mesmo tempo injustiçada.
- Por que está me acusando tão cruelmente? – ela perguntou, indignada.
- Não é o que todas vocês mulheres são, ardilosas e aproveitadoras? – ele cuspiu as palavras.
Klyne se afastou, caminhando com rapidez. Ela tentou chamá-lo, mas ele fingiu não a ouvir. Ele devia estar a punindo por negar ser dele. Acreditando fielmente que ela era uma aproveitadora. Mas, ela iria provar que não era. Era injusto aquilo tudo, ela pensou, enquanto caminhava para casa. Era injusto, pois ele propôs algo a ela, quando ela pediu ajuda. Disse que ela seria sua amante. E quando se recusou a esse papel, ficou dois anos em silêncio. E ela não conseguia entender por que agora ele a estava atormentando com esse arranjo, dizendo que a queria. Quase a expos, com suas conversas dúbias, perto de testemunhas. Se havia alguém manipulador era ele. Não era ele que disse que aproveitava a ocasião? Era isso que estava fazendo, confundindo sua mente. Fazendo com que ela fosse a errada naquela situação. E isso tudo porque ela não queria ser dele.
Homens podiam ser tão cruéis e mesquinhos.