Anne subiu as escadas, ainda eufórica e foi até o quarto de Jacob. Ele estava sentado, impaciente, em sua cama. E a fitou com irritação. Vestia sua roupa de dormir, listrada em um tom azul claro e branco.
- Você prometeu que iria me dar o doce – ele disse, emburrado.
Sua boca estava franzida e seu rosto muito vermelho. Ela mordeu os lábios, contendo o sorriso. Pegou dentro do bolso da cinza o pacote e entrou três caramelos a Jacob.
- Agora, está satisfeito? – ela perguntou, sorrindo para ele.
Seu coração parecia se enternecer. Ela gostava de vê-lo calmo. E pensou como seria seu filho, caso ele estivesse vivo. Se ele não estivesse morto, ele teria os mesmos cabelos escuros de Jacob, mas olhos com certeza seriam azuis como o dela, ou verdes com os de Thomas. Ela engoliu seco, sentindo seus olhos pinicarem. Ela se sentou ao lado de Jacob, que colocou as três balas na boca, com um sorriso.
- Isso e delicioso – ele disse, com a voz empastada.
- Não fale de boca cheia, Jacob – ela ralhou.
Ele riu.
- Conta uma história pra mim? – ele pediu, se deitando.
Anne cobriu o garoto e o fitou com interesse calculado.
- Se eu fizer isso, você vai ser bom amanhã? Vai se comportar como um cavalheiro?
Ele enrugou o nariz.
- Sim – ele respondeu, como se fosse a coisa mais difícil do mundo a fazer.
- Palavra de cavalheiro, meu senhor? – ela perguntou.
- Sim, palavra de cavalheiro – ele respondeu.
Anne sorriu e beijou a testa dele. Jacob ficou vermelho e evitou o olhar dela, mas agarrou a mão livre dela.
- A história, por favor – ele pediu.
- Muito bem – ela se preparou, aquecendo a voz. Ele riu disso – Era uma vez, em um reino muito distante, um jovem cavaleiro muito valente e bonito – Jacob sorriu.
- Ele era parecido comigo? – ele interrompeu.
- O senhor está me interrompendo agora? – ela perguntou, com um olhar de advertência.
- Desculpe – ele pediu – Só queria saber se era como eu.
- É, ele é como você, Jacob. Mas, ele era cavaleiro muito gentil com as damas, sabe. E não jogava comida pelas paredes – ele ficou vermelho, desviando o olhar para a janela cerrada – Bom, continuando, o cavaleiro era muito bom. E honesto. Ele era justo e lutava por seu rei. E sua missão era expulsar o m*l do reino. Todos os malfeitores eram parados por ele e sua milicia – Jacob ficou surpreso – É isso mesmo, ele era muito forte valente. Até que um dia ele recebeu uma missão muito importante.
- E o que era? – ele perguntou, ansioso, querendo antecipar a história.
- Bom, ele precisava resgatar uma princesa de uma torre – ela respondeu, com ar teatral.
Jacob fez uma careta.
- Não gosto de princesas – ele disse – Isso é história para meninas.
- Ora, mas nem se tiver dragões na história? – ela perguntou, tentando instigar a imaginação dele.
Isso parecia ter surtido o efeito desejado. Jacob parecia mais contente.
- Sim, sim. Dragões e monstros – ele respondeu – E sangue.
Anne riu com gosto. A imaginação de Jacob estava cheia de lutas e monstros, além de muitas coisas nojentas, como sapos, insetos e lama. Muito sujeira. Mas, afinal, ele era só um menino.
- Bom, sim, tem sim – ela disse – E um vampiro também.
Jacob riu, divertido. Sua risada era doce, o que reconfortava o coração de Anne. Ela continuou a contar as aventuras do cavaleiro, até que Jacob dormira. Ele não escutara a parte que o cavaleiro conseguira derrotar o dragão com sua espada envenenada, cortando sua cabeça. Seria algo muito excitante de ouvir para um menino de oito anos. Ela se levantou, pegando uma vela do castiçal, repousado na cômoda e apagou as restantes com um sopro. Se assustou a ver Collins na soleira da porta, com um fantasma. Ela não acreditava naquelas histórias, mas casa à noite, fazia barulhos estranhos, de rangidos e o vento ecoava do lado de fora como um grito agoniado, acordando-a aterrorizada. Ela já era uma mulher crescida, mas sempre que se assustava ou tinha pesadelos, cobria-se até o topo da cabeça e rezava.
- Desculpe-me – ele pediu – Eu não queria assustá-la.
Ela estava com a mão no coração, sentindo a pulsação latejar em seus ouvidos.
- Deveria ter se anunciado, meu senhor – ela ralhou e percebeu o que fizera – Me desculpe.
Ele riu, não parecendo abalado com a insolência dela.
- Não, está tudo bem. Não há nada a perdoar. Eu deveria ter batido na porta. É que fiquei escutando sua conversa com Jacob e fiquei fascinado com sua forma de lidar com ele.
Ela engoliu seco. E se sentiu desconsertada. Ele estava a elogiando? Aquilo era novo para ela, que sempre escutou reprimendas.
- Sim, eu consegui perfurar a barreira que tínhamos. Ele quase nunca me deixa chegar perto e hoje parece que dei sorte – ela confidenciou – Er...perdeu. Acredito que não queira escutar eu a tagarelar sobre meu trabalho.
- De modo algum – ele disse, simpático – Eu admiro quem pode amansar a fera que é meu sobrinho.
Ela piscou. Ele era parente de Jacob?
- O senhor é tio dele? – perguntou.
- Ah, sim. Eu sou um tio relapso. Sempre estou em congressos, viajando. Mas, resolvi ficar em Londres, por um tempo. Meu trabalho no hospital está sendo gratificante – ele respondeu – Sou irmão da Sra. Armstrong. Loreta é minha irmã mais velha.
Aquilo era interessante. Como ele poderia ser tão bonito e loiro, perto de Sra. Armstrong, que tinha uma aparência esguia e um olhar severo? Ela tentou desviar os pensamentos quanto a beleza dele. Não deveria pensar nele nesses termos. Era errado.
- Entendo – ela disse, sem graça – Bom, eu vou indo. Se puder fazer a gentileza de não o acordar. Por favor.
Ele assentiu.
- É claro – ele assentiu.
Ela se voltou para o corredor e notou que tudo estava escuro. E olhou para ele. Estava de costas para ela, na porta. Parecia contemplar Jacob da soleira. E com certeza se saísse, iria tropeçar em algo, sem uma vela.
- O senhor gostaria de uma vela? – ela perguntou, solicita.
- Ah, sim é claro – ele aceitou.
Ela entrou novamente no quarto, passando por ele. Suas mãos esbarraram e isso a deixou desconsertada e com respiração represada. Ela pegou uma vela do candelabro que estava sobre a cômoda e acendeu o pavio com a vela dela. Pegou a não e entrou para Collins. A luz bruxuleante refletiu o rosto dele. Tinha um rosto oval e um queixo médio. E seu olhar era calmo e gentil. Com a luz, parecia o azul dos seus olhos pareciam brilhantes e não tão acinzentados. Ele pegou a vela que ela estendia.
- Obrigado – ele disse, gentil.
Ela balbuciou algo inteligível, sentindo seu rosto corar e se afastou dele.
- Senhorita? – ele chamou, quando ela estava um pouco mais afastada no corredor.
Ela se virou para ele.
- Eu...- ele disse, mas parecia ainda procurar as palavras – Boa noite – disse, por fim.
- Boa noite – ela sussurrou.
Anne se virou, ainda desconsertada e quando chegou no seu quarto, não muito longe da ala infantil, se trancou. Colocou a vela sobre um pires, em cima da cômoda e retirou suas vestes. Eram roupas simples. E o espartilho não era difícil de desatar. Vestiu sua camisola e apagou a vela. Deitou-se na cama simples de solteiro. Seu quarto era pequeno, com uma janela, que tinha visão para a casa vizinha. Havia um armário, onde ela guardava seus poucos pertences e as paredes eram lisas, sem quadros. Ela gostava daquele quarto. Não havia lareira, mas havia calefação na casa. E ela não tinha que passar frio de novo. E nem sentir o cheiro de bolor e mofo intenso. Mas, não tinha Thomas consigo. Seu coração se apertou. Sentia falta dele, apesar de ter sido um péssimo companheiro. Ele a deixava sozinha a maior parte do tempo, para poder jogar e se divertir. Ou estava pintando alguma tela. Mas, quando estavam juntos, ele a amava com paixão. E parecia venerá-la. E sempre estava em casa, à noite, para abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Thomas era um sonhador, um homem t**o. Mas, era gentil e era seu marido, mesmo que não fosse perante Deus. As lágrimas varreram seu rosto e ela se sentiu sozinha. Terrivelmente sozinha e sem amor. Estava amarga também. Ela não queria mais saber dos homens e suas mentiras doces. Nem de entregar seu corpo a nenhum deles. Abraçou seu travesseiro e deixou que a dor esvanecesse. O último pensamento que teve ao dormir era voltado para Thomas, pedindo a Deus que ele estivesse vivo em algum lugar e bem.
***
- Está pronto? – ela perguntou para Jacob.
Estavam em Hard Park. E eles estavam prestes a soltar uma pipa. Finalmente, uma semana de paz foi o que Anne teve. Entre suborná-lo com caramelos e histórias fantasiosas, o menino estava mais dócil e não havia feito uma travessura. Ela pensava até quando isso iria durar. O tratado de paz poderia ser rompido a qualquer momento, pensou receosa.
- Estou pronto – ele disse.
- Então, pode correr – ela disse, com um sorriso.
E ele correu de costas. E conseguira empinar a pipa. O lugar era mais amplo e aberto. As arvores em volta não atrapalharam. Ele parecia embevecido com aquilo. Era como se tivesse descoberto um mundo a parte. Ou um continente novo.
- Olha Anne como ela voa – ele apontou, segurando o fio da pipa.
O céu estava nublado, mas nem sinal da chuva. Anne contemplava a pipa de cor vermelha e havia mais algumas crianças com suas babas fazendo a mesma coisa. A baba Thompson aguardava em banco, fazendo crochê e Anne observava Jacob. Seu coração se enterneceu. Ela queria um filho, mais do que tudo. Queria nunca ter perdido seu pequeno. Seria um menino bonito. Ele se chamaria Nicolas. Era um nome muito bonito, ela pensou, com pesar, levando a mão a barriga, sem pensar. Logo percebeu que estava melancólica demais, sem notar que Jacob se afastava dela.
- Jacob, não vá tão longe – ela pediu.
Ele assentiu, mesmo assim, se afastava. Ela andou com calma, até ele. Não queria que ele pensasse que ela estava o coibindo de algo. Queria que Jacob confiasse nela. E seus olhos a levaram a uma figura alta e esguia, vindo na direção deles. A figura se tornou mais clara. Era um cavalheiro trajado com roupas em um tom marrom sem graça e ele vestia uma cartola n***a e carregava uma bengala. Ela somente reconhecia que era Collins, quando viu os cabelos loiros dele e a forma decidida que ele avançava até ela. Seu coração acelerou. Suas mãos estavam transpirando.
- Boa tarde, senhorita Williams – ele disse, colocando a cartola entre as mãos – Que bom encontrá-la aqui. Estava procurando pela senhorita.
Sua respiração ficou irregular. Ele estava procurando por ela?
- Boa tarde, senhor – ela disse, tentando soar normal e desinteressada – Estava procurando Jacob?
Ele assentiu, com um sorriso.
- Sim, queria vê-lo. Sai do hospital agora e queria saber como ele estava. Sinto que estou muito distante dele – ele confessou, se posicionando ao lado dela.
Ela anuiu com a cabeça. Eles ficaram em silêncio vendo Jacob correr alegre, em círculos.
- Ele é adorável – ela deixou escapar.
- E um diabinho, pelo que soube – Collins complementou.
- Ó, eu não sei do que está falando, senhor – ela desconversou, sem olhá-lo. Estava vermelha.
- A senhorita sabe sim – ele disse, rindo – Como eu queria uma governanta assim.
- Como disse? – ela se engasgou. O que ele disse a fez ficar ainda ruborizada, se pudesse.
- Eu disse que queria uma governanta como a senhorita – ele repetiu, sem se abalar, procurando o olhar dela. Ela ficou abalada pelo olhar sério que ele lhe dirigia – A senhorita tem as qualidades desejáveis em uma governanta. É paciente, parece obstinada e nunca levantou a mão para Jacob. Pelo menos, é o que minha irmã disse.
- Ela disse isso? – Anne perguntou, estupefata.
- Sim, disse. Mas, ela é muito difícil de se dobrar. É muito raro ter um elogio dela – ele disse, rindo – Eu queria roubar a senhorita para mim.
Anne sentiu o corpo inteiro quente. Ele não devia dizer aquelas coisas, dava muita asa a imaginação.
- O senhor queria para cuidar da criança que está cuidando? – ela perguntou. Deveria ser isso, é claro.
Ele assentiu.
- Sim. Erik não quer falar com ninguém. Eu não sei se alguém o ensinou a falar – ele fitou o horizonte, pensativo, encrespando os lábios – Ele se porta com um selvagem. E não tem modos. É difícil alimentá-lo e ele sempre tenta sair de casa. Já o encontrei em uma arvore ou até mesmo debaixo da chuva. É estranho ele não se incomodar com isso. Parece apático. Por Deus, ele deve ter cinco, ou seis anos. É difícil saber. Ele é muito pequeno.
- Pobre criança – Anne disse, com o coração doido – Eu queria poder ajudá-lo, senhor. Sinceramente. Não consigo entender como uma criança pode ter chegado a isso.
Ele mordeu os lábios. Sua expressão era sombria.
- Bom, se a senhorita soubesse o que já vi no hospital, iria perceber que há muitas pessoas que se portam como animais. Mas, isso era pelos maus tratos recebidos. São apenas doentes da mente e tratados com tanta crueldade. Eu tentei ao máximo conversar com meus superiores, pois os enfermeiros tratam aqueles doentes com muito brutalidade. E estou prestes a terminar um artigo sobre isso. Sobre como eles são tratados. Eu consegui entrar lá, justamente tentando denunciar a reputação do lugar. Se eu tiver provas do que acontece, além de conseguir fazer isso vir ao publico e mostrar que com tratamentos mais humanos, teriam mais resultados, então eu poderia mudar algo – ele disse, com tanta obstinação e paixão, que Anne ficou deslumbrada. Ele era um bom homem, ela pensou.
- É um ideal muito nobre, meu senhor – Anne disse, comovida – Eu acredito que com sua obstinação, o senhor consiga.
Ele sorriu para ela.
- É o que eu espero. De fato, é o que eu espero – ele disse.
Anne não percebeu que devia dar mais atenção a Jacob e ficou entretida demais com a presença de Collins. E quando ela voltou sua atenção para Jacob, ele não estava à vista.
- Ah, meu Deus, onde ele está? – ela perguntou, assustada.
- Onde está quem? – Collins perguntou.
- Jacob. Ele estava aqui, agora não está mais – ela não deu tempo para resposta, andando com pressa.
Collins a seguiu de perto, claramente ansioso. Eles procuraram pelo parque, até que se encontraram na margem do lago Serpentine. E Jacob estava muito próximo do lago, jogando pedrinhas.
- Jacob – ela chamou, sentindo seu coração a mil.
Ele se levantou com o chamado e acabou tropeçando, caindo dentro do lago.
- Jacob! – ela gritou, correndo até ele.
Collins foi mais rápido entrando na água e puxando o garoto. Ele parecia assustado, mas nada de m*l havia acontecido. Ao redor, as pessoas olhavam com curiosidade e outras julgavam. Mas, Anne não deu a atenção a isso. Ela conseguiu alcançá-los na margem do rio e segurou Jacob, abraçando-o com força, molhando suas vestes no processo. E depois o segurou pelos ombros.
- Nunca...mais...fa..ça isso, ouviu? – ela gaguejou.
- Desculpa – ele pediu, assustado – Eu caí sem querer.
- Não deveria ter se afastado, Jacob. Por Deus – ela ralhou – E se você tivesse se afogado?
- Eu não teria, eu sei nada – ele disse, com soberba, se afastando do toque dela.
Anne fervilhou por dentro.
- Volte aqui mocinho – ela disse, segurando-o pelas vestes – Prometa que não sairá mais perto de mim. Se não, vai ficar sem sobremesa.
- Tá bom, tá bom – ele disse, tentando se soltar, sem sucesso.
Anne o pegou pelo braço e começou a andar. Collins ia atrás dela.
- Está tudo bem, senhorita – ele disse, se aproximando – Ele já aprendeu a lição. Não aprendeu garoto?
- Sim, senhor – Jacob disse, emburrado – Me solta, por favor?
Ela o fitou com raiva. O olhar dele era de culpa.
- Não, nem pensar. Vai ficar assim comigo até chegarmos em casa. E vai pensar no quanto me deixou aborrecida e assustada. Se você tivesse se afogado, eu não sei o que aconteceria comigo. Eu não sei...- ela parou de falar, sentindo seu coração apertado.
- Está bem. Eu não farei mais isso, Anne – Jacob prometeu.
Ela não estava convencida. E continuou a andar com ele, até encontrar a baba. A carruagem da família Armstrong estava parada do lado de fora de Hyde Park e eles embarcaram, juntamente com Collins. Ele a fitava com um olhar preocupado. Ela evitou fitá-lo, sentindo-se desconfortável. Logo que chegaram em casa, Jacob desceu rapidamente, se esquivando dela. E passou por sua mãe. A Sra. Armstrong torceu o nariz, vendo seu filho subir as escadas e fitou Anne, com um olhar frio.
- O que aconteceu? – ela perguntou.
- Ele...é...er – Anne balbuciou.
- Ele caiu no lago, Loreta – interveio Collins – Mas, está tudo bem. Só foi um susto.
A Sra. Armstrong parecia muito irritada. E devia ter engolido uma vespa, pela careta que fez ao irmão e dirigiu seu olhar a Anne. Era um olhar de fúria.
- Como pode deixar meu filho cair no lago? Como pode? – ela esbravejou – Você não estava cuidando dele?
- Sim, mas...- ela tentou se explicar, retrocedendo um passo.
Collins a apoiou pelas costas. Ela se sentiu segura, mas seu coração ainda galopava dentro do peito. O olhar sinistro da sua patroa a deixava com medo.
- Você é uma incompetente – ela cuspiu, com raiva – Eu disse que teria consequências seus erros. Eu lhe disse. Eu avisei que teria. Eu não deveria ter a contratado. Lorde Klyne a recomendou com tanta ênfase. Eu acreditei que você poderia me servir, mas você não serve para nada. Não sabe educar uma criança é possível que a mate no processo.
Aquela afirmação doera muito mais que um t**a. Ela se encolheu, sentindo os olhos marejados.
- Eu sinto...muito – ela balbuciou – Eu não queria...
- Loreta, por Deus. Pare com essa cena – Collins interveio – Jacob é uma criança. Ele tem energia de sobra. Quantas vezes eu mesmo não cai em um lago?
A tentativa de apaziguar era nobre, mas isso parecia ter piorado o humor da Sra. Armstrong.
- Você, fique fora disso – ela gritou, apontando para ele – Não o chamei para defender uma governanta. Alguém que não vale o meu tempo – ela a fitou com desdém – Agora, suma daqui - ela se dirigiu a Anne, com um olhar raivoso – Pegue suas coisas e despareça. E se eu souber que sumiu alguma coisa daqui, uma faca sequer, eu a esmagarei. Saiba que eu farei da sua vida um inferno.
Anne se sentia tremula. E a visão embaçada. Ela saiu correndo, escada acima.
- Como pode ser tão c***l, Loreta? – ela escutou Collins a defender.
Anne apressou o passo, sem escutar o desfecho. Com certeza eles iriam brigar e ela não queria estar perto. Entrou em seu quarto, puxando sua valise e colocando suas poucas roupas dentro e sua mala, para guardar os três sapatos que tinha. Jacob entrou no quarto, com os olhos vermelhos. Ele tinha chorado.
- Você não pode ir, Anne – ele pediu, choroso – Eu não quero que vá. Vou falar para a mamãe que é minha culpa.
- Não, querido – ela parou de guardar as coisas em cima da cama e se aproximou da criança, se agachando e colocando a mão no queixo dele – Não há mais o que fazer. Não fique assim, querido.
Ele a abraçou, com força. Ela sentiu o coração partir dessa vez. Era como deixar um amigo. E ela se sentia em desespero. Não estava pronta para ficar sozinha. O que faria agora? E se não pudesse ver Jacob, sua vida não faria sentido. Ela gostava de cuidar dele. De ajudá-lo a se tornar um cavalheiro e uma criança obediente. E ela conseguira a afeição dele, tão duramente. Por que tinha que ficar longe dele?
- Fica, Anne. Por favor – ele implorou.
Ela se afastou, secando as lágrimas insistentes, com o dorso da mão. Ver o rostinho dele vermelho e ele fungando a deixava triste. Ele ficaria sozinho com uma estranha. E ela não teria a mesma paciência que Anne. Todas iam embora. Ninguém queria conhecer Jacob de verdade.
- Eu preciso ir, querido – ela disse – Mas, prometo visitá-lo. Vou pedir para seu tio Collins me deixar vê-lo.
- Promete? – ele pediu, com os olhos tristes.
- Claro que sim.
Só que ela não poderia prometer. Ela nunca poderia voltar. E quando ela saiu da casa, pelas portas do fundo e contornou o terreno, uma chuva caia. O que ela faria agora?