- d***a! – ela praguejou, fitando f**o o céu.
Estava cinza chumbo. A chuva aumentava. Ela precisa andar mais rápido. Mas, escorregava sobre as ruas de paralelepípedos. Queria chegar rápido na casa de Klyne. Ela teria que recorrer a ele. Não teria mais saída. Receou que precisasse se sujeitar a ideia de ser amante dele. Mas, não havia mais jeito. A não ser que ele tivesse outra recomendação, o que ela duvidava. Ele, apesar de estar distante, quando podia vê-la, demonstrava o quanto a desejava, apenas com seu olhar. Mas, Anne não iria se sujeitar àquele papel. Mas, se não houvesse saída? Era isso que a assustava. Era isso que fazia seu coração afundar no peito. Ela não queria ser um objeto de prazer nas mãos de Klyne. Ela não estava apaixonada por ele. E nunca estaria. Não iria conseguir se vender daquela maneira para sobreviver. As lagrimas se misturaram a chuva forte, que enregelava seu corpo. E ela sentia seus músculos doloridos. A mala pesava sobre sua mão.
Uma carruagem passou ao lado dela, jogando ainda mais água sobre si, quando passou por uma poça. Anne praguejou alto, se senti ainda mais azarada do que antes. E a carruagem parou. A porta se abriu e de lá saiu Collins. Ela ficou tentada em gritar com ele. Mas, segurou sua língua dentro da boca. Ele veio até ela, com um olhar preocupado.
- Senhorita – ele disse, com pesar – Eu sinto muito pelo que minha irmã fez.
- Está tudo bem – ela disse, continuando sua caminhada e só parou, pois ele a segurou pelo braço – Pode me soltar?
- Não – ele negou.
- Não? – ela repetiu, irritada.
- Não – ele repetiu de novo, com calma – Quero que venha comigo.
- Perdão? – ela perguntou, mais irritada.
- Quero que venha comigo, senhorita. Eu quero ajudá-la...
- Ah, mas não vou mesmo – ela se afastou, bruscamente e começou a andar. E ele a acompanhou, sem dificuldade – Se o senhor está pensando em um arranjo desonroso, pode saber que isso nunca vai acontecer.
- Eu não pedi nada desonroso, pedi? – ele perguntou, irônico – Eu nem terminei minha frase e a senhorita já está me acusando tão cruelmente.
Ela parou de andar. E o fitou, procurando encontrar alguma coisa que denunciasse que ele estivesse apenas brincando com ela. Todos os homens que pediram para ajudá-la queria que ela esquentasse suas camas. E ela não era uma meretriz!
- E como pretende me ajudar? – ela perguntou, sarcástica – Se tiver uma família que precise de uma governanta, seria muito bom.
Ele sorriu. E não havia luxuria em seus olhos. Apenas um olhar gentil. E ela se sentiu estupida por pensar que ele pudesse ter alguma ideia de tirar proveito da vulnerabilidade dela.
- Eu preciso – ele disse – Eu disse que precisava de alguém. E a senhorita é perfeita para isso.
Ela sentiu seu coração dolorido. Perfeita para isso. Perfeita para ser uma governanta. Era ótimo ouvir aquilo. E ao mesmo tempo parecia uma piada. Como a vida dela mudou tanto? Antes, era a filha de um vigário, com conforto e somente pensava quando iria se casar. E depois, se viu servindo os outros. Sendo tratada como uma paria e como um cão sarnento. Mas, Collins não parecia vê-la assim. A fitava como se ela de fato existisse. Tratava-a com respeito e cordialidade. Naqueles três anos que era uma simples governanta, ninguém a percebeu e tratou como ele tratava. Ele era um homem diferente. Distinto. E isso a aqueceu por dentro e a fez querer beijar suas mãos. Mas, ela tinha dignidade. Não iria mais se curvar. Ele só estava sendo caridoso. Devia ser sua natureza.
- Bom, então o que estamos esperando? – ela perguntou – Eu aceito o emprego.
Ele gargalhou.
- Ótimo, vamos entrar, senhorita – Ele colocou a mão das costas dela, a guiando para a carruagem.
Eles viajaram e silêncio. Ela se sentia gelada e tremia, assim como ele. Ele esfregava uma mão na outra, soprando o ar contra elas. E levantou os olhos, com um sorriso divertido.
- Parece que vamos morrer congelados, antes de chegar ao nosso destino – ele brincou.
- Prefiro ser mais otimista e pensar que vamos chegar em breve, vivos e que terá uma lareira a disposição – ela disse, sem pensar – Quero dizer...eu...
- Está tudo bem – ele disse – Gosto da sua franqueza, se pensou em se desculpar. Gosto de pessoas que são reais e sinceras. E não me bajulam pela minha posição.
Ela assentiu.
- E qual é sua posição, meu senhor? – ela perguntou.
- Eu sou um médico conhecido. Minha área era de cirurgião, mas me interessei muito pelo que acontece na mente humana, depois que... – ele se calou, evitando o olhar dela.
Ela estudou seu rosto. Pela claridade que vinha da janela, ela pode perceber que ele estava carregado de emoções. Encrespava os lábios e parecia perdido no passado.
- Depois do que, senhor? – ela perguntou, depois de algum tempo em silêncio.
- Depois que percebi que a mente humana tem seus mistérios – ele respondeu, com um sorriso forçado, a fitando com um olhar dolorido – E isso ocupou minha mente. Há muitos colegas meus que discordam que as doenças são originadas das emoções. Não se pode ver, não se pode quantificar, então eles descartam as possibilidades. A autopsia de um corpo não mente. Só há material orgânica e não há nada ali que indique isso. Mas, é algo tão lógico. Se acaso a senhorita se depara com uma situação enervante, a senhorita não sente seu estomago arder, queimar? – ela assentiu, surpresa – Pois, aí que está a charada. O pensamento que você teve causou uma reação em seu corpo. Então, por que não ver com mais atenção o que pensamento produz?
O que ele dizia era confuso para ela. Nunca ouvira falar nada sobre isso. Mas, isso fazia sentindo para ela. Ele sabia explicar seu ponto.
- O senhor é muito diferente – ela disse e ele franziu o cenho – Digo, o senhor é franco e direto. Além de conversar com uma governanta, como se fossemos iguais.
- E somos iguais – ele disse, surpreso – Bom, eu pelo menos acredito que todos nós somos iguais. Essa questão de classes e elitismo nunca esteve enraizada em minha mente. Acho tudo tolice.
- O senhor é muito bom por pensar assim – ela disse, se sentindo feliz em estar na presença dele – Em dois anos que estou trabalhando, nunca encontrei alguém que conversasse comigo tanto tempo, os criados da casa Sra. Armstrong.
Ele a fitou com pesar.
- Isso é bastante c***l – ele disse, com a voz baixa – Tenho horror a esse tipo de tratamento. As pessoas são iguais, senhorita. Se você pudesse ver um corpo por dentro...- ela fez uma careta ao ouvir isso – Me desculpe pela franqueza. Eu acredito que isso iria enojá-la, assim como a maioria das damas, mas me vejo falando sem parar.
- Por favor, continue – ela pediu, ansiosa para saber mais sobre o que passava na mente dele e o que ele já tinha visto em seu trabalho – É que somente de pensar em um corpo exposto, eu fiquei enjoada. Já vi isso, algumas vezes.
- Já? – ele perguntou, surpreso.
- Sim – ela disse, ainda se lembrando dos seus tempos em East End – Eu vivia em uma região muito violenta, meu senhor. East End – ele anuiu – E já tive que ver situações calamitosas. Havia um corpo em um beco, aberto. Eu pensei que nunca iria parar de expelir o que tinha no estomago. É uma situação muito degradante.
- Posso imaginar – ele disse, com tristeza – Eu somente não consigo entender como a senhorita foi para um lugar tão...
- Tão violento? – ela concluiu a pergunta. Ele assentiu – Há circunstâncias da vida que me fizeram ir para lá. Não tive muita escolha.
- E que circunstâncias são essas? – ele perguntou, curioso.
Ela ficou receosa de falar sobre si. Sobre seu caso com Thomas. Sobre tudo que viveu naquele lugar, durante os poucos meses de gestação que teve naquela casa fria e bolorenta. Mas, ela se sentia segura com Collins. Ele parecia genuinamente preocupado. Contudo, não teve tempo de respondê-lo. A carruagem havia parado. Ele abriu a porta e a chuva ainda caia com força. Ela desceu em seguida e se viu em frente a um portão de ferro. A casa de Collins era grande. Não era uma mansão, mas era uma casa bonita, de tijolos, com dois andares. Ele abriu o portão e eles entraram. Ela carregou a mala dela e sua valise, indo atrás dele. Eles subiram as escadas da entrada da varanda e logo a porta se abriu, revelando uma senhora de idade, com cabelos esbranquiçados e com um vestido escuro.
- Dr. Collins – ela o saudou – Por Deus, está encharcado.
- Uma boa observação, Sra. Hackney – ele disse, com humor – Aqui está minha nova governanta, a senhorita Williams.
A Sra. Hackney a fitou com um olhar desconfiado, que parecia dizer que ela não seria capaz de fazer o serviço. E isso fez a confiança de Anne cair por terra.
- Boa tarde, senhorita – ela disse e se voltou para o médico – O senhor não está sendo precipitado? Ela parece muito frágil e jovem para isso. Vai fugir como as outras e eu disse que não quero cuidar daquele menino. Ele é um terror e minhas pernas estão...
- Fracas. Eu sei, eu sei – Collins interrompeu, com um risinho – Mas, deixe-nos entrar, mulher. Estamos congelando.
- É claro, é claro – ela os deixou passarem.
Anne se viu em uma casa aconchegante e com pouca mobília. Havia poucos quadros pelas paredes revistadas com um papel de parede cor creme com listras em azul claro. Ela pode ver a escada que dava para o andar de cima e foi guiada pela Sra. Hackney para o andar de cima e mostrou um quarto disponível. Havia uma cama simples, sem dossel e um armário. Ela ficou sozinha para se trocar e tirar as roupas molhadas, que a Sra. Hackney prometeu que alguém viria buscar em seguida. Ela fora gentil de emprestar uma toalha para a jovem pode secar os cabelos. Ela pode ver as mechas escuras, muito diferentes dos cabelos claros que tinha. Sentiu o coração doer. Quanto mais ela teria que mudar para se encaixar no mundo?
Depois de estar o mais seca possível, deixando os cabelos soltos, ela desceu as escadas a pedido da Sra. Hackney. Ela havia prometido um chocolate quente e uma lareira. Anne não iria recusar. Não compreendia por que ela e Collins eram tão gentis. Mas, se estavam sendo, ela não iria negar isso. Se sentia feliz e acolhida. O que era muito bom. Ela entrou em uma sala aconchegante e quente, devido ao fogo que crepitava. E se sentou perto do fogo, em uma cadeira com espaldar acolchoado. Ela se recostou, com alívio e não notou que havia mais alguém com ela.
- É reconfortante ver que está bem acomodada, senhorita – a voz de Collins a sobressaltou.
- Ó, eu sinto muito – ela disse, se levantando.
- Por favor, sente-se – ele pediu.
Ela notou seus cabelos loiros e úmidos. Ele parecia ter sido afogado, o que não seria diferente dela, que devia estar com um aspecto terrível. O olhar dele era divertido, como se os dois tivessem trocado alguma piada interna, ou como se ele pudesse ler os pensamentos dela. Ela se sentou, agora com as costas retas, tentando se mostrar adequada, sem se mostrar confortável demais, como se estivesse em sua própria casa. Afinal, ele era seu empregador.
- A senhorita pode relaxar – ele disse, parecendo sentir a agonia dela.
- Eu estou relaxada – ela replicou – Mas, estou na casa do meu empregador. Não devo ser impessoal.
Ele riu.
- A senhorita está na minha casa e eu não me importo de ver meus criados felizes e bem acomodados. Não sou um esnobe e nem um homem c***l. Aliás, a senhorita não está de serviço. Vai começar amanhã.
- É muito gentil, senhor – ela disse, com um sorriso.
- Eu não diria isso, quando você conhecer meu protegido – ele disse, rindo.
Ela acabou rindo junto com ele.
- Bom, se eu sobrevivi a Jacob, posso sobreviver ao menino selvagem – ela disse, com humor.
- É o que eu espero, senhorita. Não fuja, por favor – ele implorou, com um tom agoniado, mas seus olhos reluziam divertimento – Ninguém quer me ajudar. E me sinto perdido. Não sei o que fazer por ele.
Ouvi-lo falar daquela maneira fez o coração de Anne doer. Ele parecia realmente desesperado.
- Há quanto tempo ele está com o senhor? – ela perguntou.
- Seis meses – ele respondeu, recostando-se a cadeira e tirando as botas. Ela ficou vermelha com a forma que ele agia. Era como se ele não tivesse barreiras com ela – E ele não tem sido fácil. Não consegui fazê-lo comer com os talheres e ele não fala nada. Só solta sons incoerentes. Uma vez eu o ouvi dizer pare, mas eu não tenho certeza.
Ela assentiu.
- Eu quero muito ajudá-lo, senhor. E gostaria de conhecê-lo, de verdade – ela disse.
O Sr. Collins sorriu e se levantou, deixando as botas perto do fogo. Voltou a se sentar e reclinou a cabeça, fechando os olhos. Anne sentia que o ar havia sido comprimido, pois não conseguia respirar corretamente perto daquele homem. Ele era tão diferente. E parecia livre, como se nada o prendesse. Seu comportamento não estava correto, pelo fato de estar perto de uma dama. Ele não deveria tirar o calçado, nem parecer tão relaxado. Mas, ela corrigiu seu pensamento. Ele não estava perto de uma dama. Ela era só a governanta. Não havia uma reputação de fato a ser zelada. E isso doeu em seu coração, pois ter perdido tudo, inclusive sua reputação e ter se tornado invisível na sociedade a deixava entristecida. Sua vida havia mudado em dois anos. E tudo isso por culpa de um homem que nem a tornou respeitável e somente a estava usando. Ela admitiu para si mesma, a contragosto que Thomas jamais iria torná-la respeitável e muito menos ser um bom marido. E precisou admitir que sua escolha fora péssima. Ela engoliu seco, sentindo seus olhos marejarem. Não iria chorar diante de Collins. Não mesmo. Ele não precisava saber o inferno que ela estava passando. Ela apenas pediu licença para se retirar e saiu abruptamente da sala. As lágrimas embaçavam seus olhos e fora difícil encontrar o caminho do seu quarto. Ela fechou a porta, dando vazão aos sentimentos que pareciam afogá-la, como se estivesse dentro de um lago, sem chance de encontrar a superfície.
Ela se encolheu feito um novelo de lã em sua cama de solteiro, abraçando o travesseiro com força, sufocando o grito de dor que sentia reverberar em seu peito. Depois de um tempo, percebeu que não havia mais lagrimas a derramar e se levantou, resoluta. Ela sempre, em algum momento, acabava chorando pelo passado. Por Thomas, que nunca mais a procurou. Mas, a nova chance que tinha em suas mãos parecia ser uma perspectiva melhor para o futuro. Collins estava oferecendo um emprego, referências e não parecia ser um homem c***l. Ela tinha sorte. Mesmo não podendo voltar para casa e voltar a ser uma dama, ela tinha muita sorte. Quem seria agraciado, em sua posição, por ter um emprego onde seu empregador era tão bom e justo? Ela precisava pensar além da sua dor naquele momento. Limpou as lágrimas com o dorso das mãos e pegou sua valise. De lá tirou seu caderno, tinteiro e pena. Voltaria a escrever, para aplacar a solidão. Era o melhor a se fazer. Ela se sentou no chão, colocando o caderno sobre a cama, pois não havia uma escrivaninha, e continuou a escrever, do ponto que havia parado. Sua h*****a fugia do castelo, com uma espada, que m*l conseguia carregar. Ela estava fugindo de um homem c***l e vil, que queria mantê-la presa, para se casar e desfrutar de sua fortuna. Partiu daquele ponto e continuou a trama, sem perceber que o tempo havia passado e que a vela que usou para iluminar o ambiente estava no fim. Suspirou, cansada.
Levantou-se, esticando todo o corpo e pegou outra vela que trazia dentro da valise e acendeu. Saiu do quarto, vendo que o corredor estava escuro. Devia ser mais de meia noite. Ela queria encontrar a cozinha e tomar um copo de água. Sentia o estomago roncar. Não devia ter passado o jantar. A Sra. Hackney havia a convidado mais cedo para um jantar simples na cozinha, mas Anne se sentia miserável demais para sair. E agora seu corpo estava pagando o preço. Ela andou pé, ante pé, para não fazer barulho e escutou um ruído vindo de um dos cômodos do segundo andar. Um grito ecoou e ela teve um sobressalto, derrubando a vela no chão. O coração bateu acelerado, ressoando em seu ouvido. Escutou passos e pode ver uma figura disforme, avançando sobre ela. A única coisa que pensou em fazer era correr.