Capítulo 16
Ponto de Vista: Angélica
O trajeto de ônibus do presídio até o meu apartamento pareceu durar uma eternidade, como se o tempo estivesse zombando do meu desespero. A cada solavanco do veículo velho pelas ruas esburacadas da cidade, a voz daquele advogado ecoava na minha mente, fria e calculista: mais dinheiro, ou seu irmão poderá ficar mais anos na cadeia. Eu encostei a testa no vidro sujo da janela, sentindo a vibração do motor contra a minha pele, e fechei os olhos. As lágrimas, que eu havia segurado com tanta força na frente daquele homem engravatado, finalmente transbordaram, traçando caminhos quentes e silenciosos pelo meu rosto cansado.
Eu estava completamente acabada. Minha energia vital havia sido sugada pelas paredes cinzentas daquela prisão e pela crueldade do sistema que exigia um pedágio alto demais pela liberdade de quem eu mais amava. A minha mochila, pesada com cadernos, textos e teorias acadêmicas que eu precisava ler, de repente parecia uma piada de mau gosto. De que adiantava ser a aluna brilhante, de que importavam os estudos avançados e as promessas de um futuro na pesquisa, se no presente eu não tinha sequer como impedir que meu irmão apodrecesse atrás das grades? A realidade não exigia intelecto; ela exigia dinheiro vivo, rápido e em uma quantidade que o meu emprego atual jamais seria capaz de suprir.
Quando finalmente cheguei ao nosso prédio, o sol já havia se posto, substituído pela iluminação amarelada e falha dos postes da rua. Subi os três lances de escada arrastando os pés. Meus músculos doíam, tensionados pelo estresse. Destranquei a porta do nosso pequeno apartamento e fui recebida pelo cheiro familiar de laquê, perfume adocicado e café recém-passado.
No meio da sala estreita, cercada por roupas espalhadas sobre o sofá e uma paleta de maquiagem aberta na mesinha de centro, estava Diana.
Minha amiga e colega de quarto era um furacão de energia e pragmatismo. Estava de frente para o pequeno espelho pendurado na parede, passando uma camada grossa de rímel nos cílios. Diana tinha uma rotina que me exauria só de observar: passava o dia inteiro equilibrando bandejas e lidando com clientes apressados no restaurante do centro e, à noite, trocava o uniforme engomado por vestidos curtos e saltos agulha para trabalhar como garçonete em uma das boates mais exclusivas – e notórias – da cidade. Ela era uma sobrevivente, dura na queda, com um sorriso de batom vermelho que escondia uma determinação de ferro.
“Angie? É você?” ela chamou, sem desviar os olhos do espelho, esfumando a sombra escura nas pálpebras. “Pensei que fosse chegar mais tarde. Como foi lá com ele?”
Eu fechei a porta atrás de mim e a encarei. Tentei formular uma resposta simples, tentei dizer que estava tudo bem, mas o disfarce que eu havia sustentado o dia inteiro simplesmente desmoronou. A mochila escorregou do meu ombro, caindo no chão com um baque surdo. Meus joelhos cederam levemente e eu me apoiei na parede, soluçando, um som gutural e quebrado que escapou da minha garganta rasgando qualquer resto de dignidade que eu ainda tentasse manter.
Diana parou no mesmo instante. O pincel de maquiagem caiu da mão dela, batendo na mesa. Em dois segundos, ela estava ao meu lado, suas mãos firmes e quentes segurando os meus ombros trêmulos.
“Ei, ei, ei... o que aconteceu? Respira, Angélica. Fala comigo. O que fizeram com ele?” O tom de voz dela, sempre tão irreverente, agora estava carregado de uma urgência protetora.
“Não fizeram... não fizeram nada com ele ainda”, consegui balbuciar, engasgando com as próprias palavras. “Mas o advogado me parou na saída, Diana. Aquele sanguessuga engravatado. Ele disse que a promotoria apertou o cerco, que o juiz quer agravar a pena. Ele disse que precisa de mais dinheiro, muito mais dinheiro, para montar um recurso diferente. Se eu não pagar agora... se eu não der o que ele está pedindo... meu irmão vai pegar a pena máxima. Ele vai passar os melhores anos da vida dele lá dentro.”
Deslizei pela parede até sentar no chão frio, abraçando os próprios joelhos. Diana se abaixou na minha frente, ignorando o vestido que estava prestes a usar para trabalhar.
“Quanto ele quer?” ela perguntou, a voz baixa, analítica.
Quando eu murmurei o valor, vi os olhos de Diana se arregalarem por uma fração de segundo antes dela recompor a expressão. Era uma quantia obscena. Era o tipo de dinheiro que pessoas como nós, vivendo de salários contados e aluguéis atrasados, não viam em uma década de trabalho honesto.
“Eu não tenho de onde tirar, Di,” eu disse, a voz abafada contra meus joelhos. “Eu não posso pedir empréstimo, meu nome já não aguenta. No trabalho, se eu fizer mais horas extras, eu desmaio de exaustão, e mesmo assim não chegaria nem perto da metade. Eu prometi a ele, Diana. Eu olhei nos olhos do meu irmão hoje e prometi que não ia deixar ele lá. Mas eu não sei o que fazer. Eu preciso arranjar dinheiro, custe o que custar.”
Fez-se um silêncio pesado no apartamento, quebrado apenas pelo som distante do trânsito na avenida. Diana respirou fundo. Ela se levantou lentamente, foi até a mesinha, pegou um copo de água e me entregou. Esperei que ela oferecesse palavras de conforto vazias, que dissesse que as coisas iriam se ajeitar de alguma forma mágica. Mas Diana nunca foi de ilusões.
“Vem trabalhar comigo”, ela disse, o tom de voz cortante e absolutamente sério.
Eu ergui a cabeça, os olhos inchados, piscando para processar a informação. “O quê? Na boate?”
“Sim, na boate,” ela afirmou, cruzando os braços. “Escuta, o restaurante de dia m*l paga o meu lado do aluguel. É à noite que o dinheiro de verdade gira. Aquela boate não é para universitários ou garotos querendo beber cerveja barata. É o território de homens engravatados, figuras de negócios escusos, caras que andam com seguranças armados e que têm mais dinheiro do que sabem como gastar. Eles gostam de ostentar. Se você souber sorrir, servir a bebida rápido e, principalmente, se fingir de surda e cega para tudo o que ouvir ou ver nos camarotes, as gorjetas são surreais. Tem noites que eu volto para casa com o equivalente a um mês de salário no bolso.”
As palavras dela pairaram no ar. Eu sabia da reputação do lugar onde Diana trabalhava. Sabia dos carros importados blindados que estacionavam na porta, dos homens poderosos que operavam nas sombras da cidade e que usavam aquele espaço como um refúgio para os seus negócios que não podiam ser feitos à luz do dia. Era um ambiente perigoso, um submundo camuflado por luzes neon e garrafas de champanhe caríssimas. Um mundo que eu sempre fiz questão de evitar.
“O gerente está precisando de garotas de confiança para a área VIP,” Diana continuou, a voz persuasiva. “Garotas que sejam espertas, que não causem problemas. Você é inteligente, Angélica. Você sabe ler as pessoas. É exaustivo, o ambiente é pesado e você vai ter que engolir muito o seu orgulho. Mas se você quer dinheiro rápido, de verdade, sem ter que esperar um mês inteiro por uma mixaria... é a única saída que temos agora. Eu falo com o gerente hoje mesmo. Ele me deve favores.”
Eu olhei para os meus livros empilhados no canto da sala. Olhei para as minhas botas gastas e para a conta de luz vencida sobre o balcão da cozinha. Depois, fechei os olhos e lembrei do toque áspero das mãos do meu irmão na mesa de metal do parlatório, da voz cansada dele me pedindo para focar nos estudos. Eu estava prestes a jogar toda a minha segurança pela janela. Estava prestes a cruzar a linha que separava o meu mundo acadêmico e seguro do submundo caótico e sombrio da cidade.
Não pensei duas vezes. A hesitação morreu no exato momento em que o rosto do meu irmão voltou à minha mente. O medo existia, claro que sim, mas a necessidade era um monstro muito maior.
“Eu vou”, a minha própria voz soou estranha, firme, carregada de uma determinação fria e inédita. Eu me levantei do chão, limpando o resto de umidade do rosto com as costas da mão. “Eu vou com você. Hoje.”