o advogado

1327 Palavras
Capítulo 15 Ponto de Vista de Angélica Sentamo-nos frente a frente nas cadeiras de metal parafusadas ao chão. A mesa que nos separava era fria, marcada por arranhões e iniciais de pessoas que já haviam passado por aquele mesmo inferno. Ficamos conversando sobre amenidades no início. Ele queria saber do clima, das notícias da vizinhança, de qualquer coisa que o fizesse sentir-se conectado à vida normal além daquelas paredes coroadas com arame farpado. Eu contei histórias exageradas sobre o trânsito caótico da cidade e sobre o caixa rabugento da padaria da esquina, arrancando dele pequenas risadas que soavam como música para os meus ouvidos. Era para isso que eu estava ali: para ser a sua âncora de realidade, a sua única ligação com a vida que lhe foi pausada. Então, o olhar dele ficou mais sério, adquirindo aquela típica expressão de irmão mais velho, responsável e excessivamente preocupado. Ele se inclinou ligeiramente sobre a mesa, cruzando as mãos com força. "E a faculdade, Angélica? Como estão as coisas por lá? Você está conseguindo acompanhar tudo?" A pergunta me atingiu como um golpe silencioso, mas meu rosto permaneceu impassível, treinado para a mentira. Minha mente imediatamente viajou para a pilha de contas de luz e água com aviso de corte em cima da mesa da cozinha, para os turnos extras que eu estava pegando no trabalho apenas para conseguir pagar o aluguel, e para os livros que eu m*l tinha energia para abrir quando chegava de madrugada. A verdade era que a faculdade estava se tornando um sonho quase impossível de sustentar, um peso esmagador no meio da minha luta solitária pela sobrevivência financeira de nós dois. Eu estava exausta, física e psicologicamente drenada. Mas eu olhei nos olhos dele e vi a culpa e o medo que já o consumiam por estar ali, trancafiado, e por me deixar sozinha lá fora. Ele não precisava, e não podia, carregar o meu fardo além de sua própria cruz. "Sim, está tudo bem", eu sempre respondo assim. A mentira deslizou natural e reconfortante pelos meus lábios. "Eu estou indo muito bem. As aulas estão puxadas, claro, mas estou fascinada. Lembra que te falei das minhas aulas de linguística? O professor elogiou muito minha última análise sintática. Eles dizem que eu tenho um futuro brilhante na pesquisa." O alívio lavou o rosto dele, relaxando os músculos tensos de sua mandíbula de uma maneira que me cortou o coração. "Eu sabia. Você sempre foi a mente brilhante da casa. Tem que focar nisso, Angélica. Estude bastante. Não quero preocupar você com os meus problemas, não deixe que essa minha... situação... atrapalhe o seu caminho." "Não se preocupe", murmurei, apertando a mão calejada dele sobre a mesa. "Não se preocupe comigo com nada. Eu dou conta. Foque apenas em ficar bem e seguro aqui dentro. Vai passar rápido." Nossa visita durou o que pareceram ser apenas cinco minutos, embora o relógio na parede insistisse que o tempo regulamentar havia se esgotado. Quando a sirene aguda e irritante soou pelo salão e a voz impessoal do guarda ecoou nos alto-falantes anunciando o fim do horário de visitas, meu estômago despencou. A despedida era sempre a parte mais c***l e dolorosa do meu fim de semana. Nós nos levantamos. O último abraço foi rápido, apressado pela vigilância rigorosa dos guardas que já começavam a direcionar os detentos de volta para as galerias com gritos secos. "Te amo. Se cuida na rua", ele disse antes de se virar. "Também te amo", respondi, observando suas costas largas até que ele desaparecesse pela pesada porta no final do corredor escuro. Fiz o caminho de volta ao mundo exterior em piloto automático. Assinei o livro de saída e peguei meus documentos. O ar pesado do presídio parecia grudar na minha pele, e tudo que eu queria era deitar na minha cama e dormir para esquecer a semana. Quando empurrei a porta de vidro da saída principal, o sol do fim de tarde bateu no meu rosto. Respirei fundo, tentando limpar meus pulmões. Foi então que meu coração falhou uma batida. Parado na calçada logo na saída, encostado em um sedã prateado luxuoso que destoava completamente da poeira da rua do presídio,⁰ i0ⁿ0o⁰ estava o advogado do meu irmão. Ele usava um terno impecavelmente cortado, conferindo as horas em um relógio que custava mais do que eu ganhava em um ano inteiro. A simples visão dele ali me deu náuseas. Encontros não agendados com ele nunca significavam boas notícias, e a postura tensa dele confirmava o meu palpite. Ele desencostou do carro assim que me viu e caminhou na minha direção, o sorriso profissional e frio de sempre estampado no rosto. "Angélica. Que bom que a encontrei saindo", ele disse, bloqueando o meu caminho até o ponto de ônibus. "Doutor. Aconteceu alguma coisa? Por que o senhor está aqui?" Perguntei, cruzando os braços defensivamente sobre o peito. Ele suspirou, um som ensaiado, e ajeitou a gravata de seda. "Eu gostaria de trazer atualizações mais brandas, minha querida. Mas a situação jurídica do seu irmão acabou de sofrer um revés complicado. A promotoria está dificultando as coisas, pressionando por um agravamento da pena na revisão do processo. O juiz está inclinado a aceitar a argumentação deles." Senti o chão sumir debaixo das minhas botas desgastadas. "Como assim? O senhor disse na semana passada que estava tudo sob controle! Que ele sairia em poucos meses!" "A justiça é um tabuleiro que muda constantemente de configuração", ele respondeu, com uma indiferença que me deu vontade de gritar. "Eu posso reverter isso, montar um recurso sólido, mas vou precisar de manobras jurídicas mais complexas. Para ser direto, Angélica: eu preciso de mais dinheiro. Ou seu irmão poderá ficar mais anos na cadeia." A frase ecoou na minha cabeça, alta e ensurdecedora. Mais anos na cadeia. A imagem do rosto cansado do meu irmão, do seu abraço magro, voltou como um relâmpago. O sangue ferveu nas minhas veias. "Mais dinheiro?" Minha voz saiu trêmula de incredulidade e fúria contida. "Doutor, nós já pagamos tudo o que estava no contrato! Eu não tenho mais economias. Eu m*l tenho dinheiro para colocar comida na mesa! Da onde o senhor acha que eu vou tirar mais dinheiro?" O rosto do advogado permaneceu de pedra, desprovido de qualquer empatia humana. "Eu lamento profundamente pela sua situação financeira. Mas o sistema não perdoa quem não pode pagar por uma defesa à altura. Se eu não tiver o aporte financeiro necessário agora, terei que me limitar à defesa padrão. E com a defesa padrão... ele vai pegar a pena máxima. Pense bem." Eu queria atacá-lo, chamá-lo de chantagista. Eu queria chorar e desmoronar ali mesmo na calçada poeirenta. Eu não aguentava mais. A exaustão quase me venceu. Mas então, a determinação fria e desesperada assumiu o controle. O meu irmão não passaria a juventude inteira apodrecendo naquele lugar. Eu não permitiria. A legalidade do que eu precisaria fazer para conseguir aquele dinheiro começava a perder importância. Engoli o choro e ergui o queixo. "Não," eu disse, a voz ganhando uma firmeza assustadora. Eu não tinha mais lágrimas. O poço havia secado. "Não vou deixar isso acontecer." "Então aguardo o depósito", ele retrucou, pragmático. "Eu vou conseguir," eu falei, cada sílaba soando como um pacto com o d***o. "Mas prometi a ele que não o deixaria lá. Prometo ao senhor que irei mandar o dinheiro para evitar que tudo isso seja ainda mais traumático e longo do que já está sendo. Apenas garanta que ele saia." Ele abriu um sorriso satisfeito e assentiu levemente com a cabeça antes de dar as costas e entrar em seu carro confortável. Eu fiquei ali, sozinha no asfalto quente, enquanto o carro dele sumia na rua de terra. A promessa que fiz ao meu irmão sobre meu futuro e meus estudos se despedaçou ali mesmo. A partir de amanhã, eu teria que cruzar linhas que jurei nunca ultrapassar. E eu faria isso sem olhar para trás.
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