Capítulo 8
Ponto de Vista: Angélica
Eu ainda estava perto da parede de vidro, tentando fingir que não me sentia deslocada, quando vi Rafael se afastar do grupo.
Meu coração acelerou imediatamente.
Ele vinha em minha direção com aquele sorriso confiante, os passos seguros, como se o mundo inteiro estivesse sob seus pés. Por um segundo, tudo ao redor ficou em silêncio. Ou talvez fosse só o barulho do meu próprio sangue pulsando nos ouvidos.
Ele parou na minha frente.
— Você veio — disse, analisando meu rosto, depois descendo o olhar pelo meu corpo.
Senti minhas bochechas esquentarem.
— Você me convidou — respondi, tentando soar natural.
Ele estendeu a mão e me entregou um copo com uma bebida dourada.
— Bebe.
Olhei para o copo. O cheiro era forte.
— Eu… eu não bebo álcool.
Ele riu de leve, como se eu tivesse contado uma piada.
— Ah, para com isso, Angélica. É só uma festa. Relaxa.
Balancei a cabeça.
— Sério, eu não estou acostumada…
O sorriso dele mudou. Ficou menos gentil.
— Tá com medo? — ele provocou.
A palavra me atingiu. Eu não queria parecer medrosa. Não ali.
— Não… — murmurei.
— Então bebe.
Ele aproximou o copo da minha boca. As pessoas ao redor começaram a olhar. Eu senti a pressão invisível, a expectativa, os olhares curiosos.
Para agradá-lo.
Só para agradá-lo.
Segurei o copo e dei um gole.
O líquido queimou minha garganta. Era forte. Amargo. Desceu rasgando.
Fiz uma careta involuntária.
Ele riu.
— Viu? Não é nada demais.
Mas era.
Meu estômago já ardia.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, percebi que o resto do grupo estava se aproximando. Michelle veio na frente, com aquele sorriso venenoso. As outras meninas atrás dela. Os garotos também.
Formaram um círculo ao meu redor.
Meu corpo ficou tenso.
— Olha só quem resolveu aparecer — Michelle disse, cruzando os braços. — A bolsista.
Alguns riram.
Rafael pegou outro copo.
— Agora bebe mais um.
— Não… já tá bom — falei, tentando manter a calma.
Ele segurou meu queixo.
— Eu mandei beber.
Meu coração disparou.
— Rafael, eu não quero…
Ele inclinou o copo e pressionou contra meus lábios. Parte da bebida escorreu pelo meu queixo, mas eu acabei engolindo.
Mais risadas.
— Isso! — um dos meninos gritou.
Minha cabeça começou a ficar leve. O chão parecia um pouco instável.
— O que essa pobre quer aqui? — uma das meninas falou alto. — Não era pra você estar limpando banheiro ou servindo mesa?
Outra completou:
— É o que ela faz de melhor, né? Garçonete imunda.
Senti algo quebrar dentro de mim.
As palavras eram como tapas.
— Talvez ela esteja procurando emprego aqui — alguém debochou.
— Ou veio nos agradar — disse um dos garotos, olhando para meu corpo com malícia. — Hoje ela é a atração principal.
O jeito que ele falou me fez gelar.
Atração.
Meu olhar correu de um rosto para outro. Eles não estavam apenas rindo. Estavam esperando algo.
Planejando algo.
O medo percorreu meu corpo como um choque elétrico.
Rafael segurou meu braço com força.
— Vem.
— Pra onde? — perguntei, sentindo a voz falhar.
— Relaxa.
Ele me puxou em direção à área da piscina. Meus pés tropeçavam no salto. Minha cabeça girava. O álcool já estava fazendo efeito.
O ar parecia mais pesado ali fora. As luzes refletiam na água azul da piscina, criando um brilho quase hipnotizante.
Mas nada tinha beleza naquele momento.
Os meninos começaram a se aproximar demais.
Mãos tocando meus braços. Minha cintura.
Meu corpo enrijeceu.
— Para! — tentei afastar um deles.
Mais risadas.
— Ela tá fazendo charme!
Outra mão apertou meu quadril.
— Para! — repeti, agora mais alto.
Eu sentia meu equilíbrio falhar. Minha visão levemente embaçada.
Então vi.
As meninas estavam com os celulares erguidos.
Filmando.
Meu coração quase parou.
— Não… — sussurrei.
Uma mão apertou meu peito por cima do vestido.
Eu congelei.
Não era só humilhação.
Era violência.
Meu corpo inteiro começou a tremer. A raiva misturada com pânico queimava por dentro.
— Solta ela! — ouvi alguém dizer em tom de brincadeira.
— Deixa, ela gosta — outro respondeu.
Eu não gostava.
Eu estava com medo.
O mundo girava mais rápido. O álcool confundia meus sentidos, mas a clareza do perigo era brutal.
Eles iam me destruir.
Iam gravar. Iam espalhar.
Iam acabar comigo.
Não.
Não.
Não.
Com toda a força que ainda me restava, empurrei Rafael.
Ele não esperava. Cambaleou um passo para trás.
Aproveitei.
Corri.
Tropecei quase imediatamente, mas consegui me manter em pé. Ouvi gargalhadas atrás de mim.
— Acha que pode fugir, Angélica? — alguém gritou.
— Hoje você é nossa atração principal!
Meu coração batia descompassado. Eu m*l sentia o chão sob meus pés. A música ainda tocava dentro da casa, como se nada estivesse acontecendo.
Eu corri em direção à saída.
Vi o portão.
Vi o segurança.
Ele tentou me segurar pelo braço.
— Ei! Você não pode—
Empurrei com tudo o que tinha.
Talvez ele não esperasse aquela reação. Talvez eu estivesse movida por algo além da força física.
Eu passei.
Saí correndo pela rua do condomínio, descalça — em algum momento perdi um dos sapatos.
O ar noturno bateu no meu rosto como um choque de realidade.
Eu ouvia passos atrás de mim.
Ou talvez fosse só minha imaginação.
Eu precisava sair dali.
Precisava desaparecer.
As lágrimas escorriam sem que eu percebesse. Meu peito doía. Minha cabeça girava.
E então eu vi.
Faróis.
Um carro vinha pela rua.
Por um segundo, tudo ficou lento.
Uma parte de mim pensou:
E se acabar agora?
E se for mais fácil assim?
Eu não pensei.
Eu não calculei.
Eu simplesmente me joguei na frente do carro.
Sem saber se queria morrer.
Ou só queria que tudo parasse.