Pré-visualização gratuita A decepção
Estou sentada, vestida de noiva, olhando a cerimonialista desmontar as mesas e toda parafernalia dessa grande mentira que é o casamento.
Isso mesmo. Meu nome é Ester e eu fui abandonada pelo meu noivo no dia do nosso casamento, exatamente quando trocariamos as alianças. Aff, ele olhou para Vanessa, minha "melhor amiga" e nossa madrinha e disse que a amava e que nao poderia se casar comigo. Vanessa ainda quis fugir, mas ele a segurou. Eu? Fiquei paralisada. O juiz de paz fechou o livro e disse que nao podia perder tempo, tinha outros casamentos. Minha mãe passava m*l, Cristina minha irmã a abanava. Os convidados foram saindo, reclamando que nao teria festa. E eu? Continuava sem reação. Arranquei o véu e o arranjo dos meus cabelos, soltando-os. E sentei aqui, nessa cadeira, de frente pra piscina.
Pra dizer a verdade, eu nem sei se queria mesmo me casar com Jefferson.
Estudamos juntos no ensino médio. Éramos inseparáveis. Sempre nos três. Vanessa, Jefferson e eu. Depois eu fui fazer faculdade na Federal e Jefferson foi para uma escola técnica. Já Vanessa parou de estudar. Ela era muito bonita, modelava.
Eu me formei em administração. Fui trabalhar numa grande empresa de locaçao de veículos como assessora da diretoria e estou ate hoje. Jefferson é professor na mesma escola onde estudou.
Foi num encontro, na casa de Vanessa que nos aproximamos de novo. Ela havia voltado do Japão e deu um coquetel. Jefferson me deu carona. Ele estava um pouco bêbado, tentou me beijar. Fiquei preocupada e nao deixei que fosse embora. Arrumei o sofá pra ele dormir. Nessa época eu ja morava no meu apartamento.
Jefferson apagou. No dia seguinte, quando acordou, me pediu desculpas e foi embora sem graça. Eu achei ele lindo. Depois me ligou, me chamando pra um café. Nessa época Vanessa viajou para Paris. Saímos várias vezes, ate começarmos a namorar. Lembro-me que fui eu que tomei a iniciativa do beijo, da transa. Cheguei a pensar que ele fosse gay. Hoje eu sei que ele nao queria era trair Vanessa.
O tempo foi passando e nosso relacionamento foi ficando cada vez mais sério. Até decidirmos nos casar. Planejei tudo. Contratei o cerimonial.O juiz de paz, aluguei o sítio, enviei os convites, escolhi o buffet. Tudo sozinha. Para chegar no fatídico dia e ele me abandonar. E eu nao sou de "se jogar fora", nao mesmo. Vanessa é modelo, é, mas nao quer dizer que seja liiiiiiinnnnda. Ela tem porte de modelo. É alta e bem magra. Uma mulher que chama atenção pelo porte. Eu sou o tipo mulherão, cintura fina, bundao, pele morena bronzeada de sol, cabelos longos e lisos, castanhos com mechas loiras, gosto de usa-los repicados. Olhos esverdeados. Sou bastante cortejada. Também sou muito independente, tenho meus apartamento, de 2 quartos e varanda. Fiz questão, pois adoro plantas. Tenho um bom dinheiro aplicado, ou seja, sou "um bom partido".
Enfim, ainda nao consigo entender, as razoes que fizeram com que Jefferson, se mantivesse em um relacionamento sem sentimento algum e que fez com que eu acreditasse, em um amor que nunca existiu.
As vezes penso, que pode ter sido ate a Vanessa que o incentivou a se aproximar de mim. Talvez eles ja tivessem alguma coisa e acabou e daí voltaram, sei la. Só sei que de agora em diante nao quero amar mais ninguém. E nao acredito em mais ninguém.
Se for pra ficar com alguem que seja puramente para sexo e só. Não vou mais me relacionar com ninguém com a intenção de me apaixonar. Vou me fechar pro amor. E claro, como fazer isso? É só nao ficar com a mesma pessoa mais de uma vez. Isso mesmo. Ficarei uma unica vez, nao criarei laços. E mesmo se for ótimo! Não vou sofrer mais uma decepção na minha vida.
Agora vou me levantar e chamar um Uber. Minha irmã e minha mãe ja foram embora. Nunca vi tanta vergonha no olhar delas. Besteira. Quem nunca?
Vou tirar esse salto e andar descalça.
- Ester!
Essa voz... eu reconheço...
- Claudete! Voce veio!
- Me da aqui um abraço. Eu sinto muito.
Claudete é a mãe de Jefferson. Era a última pessoa que eu esperava que viesse me consolar
- Ta tudo bem. Não era para ser.
- Jeferson estava tão feliz, nao entendi o que aconteceu.
" Vou te explicar o que aconteceu, o desgraçado do seu filho tem um caso com a minha melhor amiga, e é com ela que ele quer ficar."
Era essa a frase que estava na minha cabeça, mas eu apenas sorria sem graça. Era melhor fingir demência.
- Eu tenho que ir, vou tirar esse vestido.
- Ele vai colocar a cabeça no lugar. voce vai ver.
" O que? Ela acha que depois de tudo isso, eu vou aceita-lo de volta? Claudete nao bate bem."
Me virei e sai revirando o olhos.
Subi as escadas e fui para o quarto me trocar. Antes olhei no espelho. O vestido era um tubinho que terminava como cauda de sereia. Na cor pérola.
" Nunca mais visto um desse"
Despi-me, peguei minha calça jeans na mala e uma camiseta. Calcei um tênis. Deixei o vestido pendurado no cabideiro, peguei minha mala. Achei o celular. Centenas de ligações, ate de Vanessa e de Jefferson." Como podem? Vou chamar um motorista de aplicativo. "
Logo o motorista chegou. Era um rapaz com traços indiano.
- É moça, peguei um pessoal aqui mais cedo. Comentaram que a noiva foi deixada no altar.
- É verdade.
- Que loucura! Como um cara faz isso?
- Por acaso a noiva sou eu.
O motorista olha para trás surpreso. Quando para no sinal, ele novamente me olha para dar uma conferida.
- Chegamos, obrigada. Percebo ele olhando pro meu traseiro.
- Moça, nao liga nao, quem perdeu foi ele. Voce é linda!
Eu dei um tchauzinho e um sorriso pra ele.
"Agora é a hora de enfrentar os meus vizinhos"
- Oi Gumercindo! - o porteiro ouvia um jogo no rádio.
- Oi Dona Ester!
Apertei o botão para chamar o elevador. Quando a porta se abriu Jeferson saiu de dentro do elevador com duas malas.
- Vim buscar minhas coisas. Ester, eu sinto muito, mas...
Não esperei ele terminar a frase. Estiquei o braço e espalmei a mão para ele colocar a chave do meu apartamento. Assim ele fez.
Entrei no elevador. Segurei o choro ate chegar ao meu andar e abrir a porta do apartamento. Quando abri, corri pro meu quarto, me joguei na cama e chorei desesperadamente. Um vazio tomou conta de mim. Ao mesmo tempo um ódio. Disse pra mim mesma: AMAR VALE A PENA?
Amei, investi na relação e hoje estou aqui, abandonada. NUNCA MAIS VOU AMAR! EU PROMETO! Disse pra mim mesma com o punho em riste. Fui a cozinha, peguei uma garrafa de vinho e uma taça. Fiquei sentada no sofá ate adormecer.