Pré-visualização gratuita Cap 01 um recomeçar
Luana
A gente não escolhe certas coisas na vida.
Não escolhe ser mãe solo aos vinte e cinco.
Não escolhe ser abandonada com um teste de gravidez na mão.
Não escolhe ser a única responsável por um serzinho que precisa de você pra tudo.
Mas escolhe seguir em frente.
Escolhe levantar todo dia, mesmo cansada.
Escolhe amar, mesmo quando ninguém parece lembrar de amar você de volta.
E foi isso que eu fiz.
Meu nome é Luana, tenho vinte e cinco anos, moro na zona leste com meu filho, o Lucas, que tem três anos — e é a única coisa boa que o pai dele me deixou.
O resto foi dor, vergonha e abandono.
Mas não me arrependo de ter o meu filho, porque ele é tudo na minha vida.
Eu lembro direitinho do dia em que ele me largou.
Eu tava com dois meses de gravidez, vomitando até a alma e com medo de contar pra minha mãe.
Liguei pra ele chorando, pedindo pra gente se encontrar pra conversar.
Ele só me olhou com aquela cara fria e disse:
— Se vira. Isso aí não é problema meu.
E nunca mais me atendeu depois disso.
Foi difícil, muito difícil, mas eu nunca abaixei a cabeça. Trabalhei, vendi trufa, faxinei casa alheia, fiz de tudo pra dar um teto, um leite e uma roupa limpa pro meu filho.
Eu sofri demais nessa vida.
Hoje, a gente vive num apartamento aconchegante, com uma vista linda pro mar. Tenho minhas próprias coisas, meu dinheiro, e nunca deixei faltar nada pro Lucas.
Tenho orgulho da mulher forte que me tornei.
Luana: — Filho da mãe… — murmurei, percebendo que já tava há uns minutos encarando a parede e lembrando do Marcos novamente.
Balanço a cabeça e volto pra realidade.
Camila: — Alôôô? Terra chamando Luana!
A voz divertida da Camila me puxa dos pensamentos.
Ela já tava sentada no meu sofá, com a bolsa jogada no colo e um sorrisinho debochado.
Camila é minha melhor amiga desde a adolescência. Mora no Rio de Janeiro há uns anos, no morro, mas sempre vem pra São Paulo visitar a mãe dela — e, claro, dar um oi pra mim.
Dessa vez, apareceu de surpresa.
Camila: — Tá pensando no infeliz de novo, né? — ela provoca, cruzando as pernas. — Para com isso, mulher. Esse homem não merece nem espaço na sua mente.
Respiro fundo, tentando disfarçar.
Luana: — Nem tava, para. Só lembrando da vida mesmo.
Ela revira os olhos e bate palminha.
Camila: — Pois então bora lembrar de coisa boa, porque eu tenho uma proposta.
Luana: — Proposta? — arqueio a sobrancelha.
Camila sorri de lado. Aquele sorriso que eu já sabia que significava confusão… ou aventura. Ou os dois.
Camila: — Vem passar uns dias comigo lá no Rio. Você e o Luquinhas.
— Ela fala como se fosse simples, como se não fosse outro mundo. — Você tá precisando sair daqui um pouco, respirar. Dar um tempo dessa vida corrida. Lá a gente se distrai, curte um sol, come uma feijoada boa… e você esquece esse traste de vez.
Eu a encaro, surpresa.
Luana: — Ah, Cami, eu não sei… Tenho que trabalhar, tenho que…
Camila: — Ah, nada! — ela me corta. — Lá em casa é bem espaçoso, amiga. E se tu quiser, te arrumo um trabalho por lá e coloca o Luquinhas na creche também, só pra não ficar encanada.
Só pensa, mulher. Você merece.
Olho pra ela, depois pro meu menino dormindo na rede da sala.
Talvez ela tenha razão.
Talvez eu mereça mesmo.
Luana: — Tá… — murmuro, esboçando um sorriso tímido. — Eu vou pensar.
Camila sorri vitoriosa, já me abraçando.
Camila: — Eu sabia que você não ia me dizer não!
E pela primeira vez em muito tempo, eu senti que alguma coisa boa podia estar esperando por mim lá fora.
Camila me abraça forte, cheirando ao mesmo perfume doce que ela usa desde a escola.
Era quase impossível dizer não pra ela, ainda mais com aquele jeito leve de ver a vida.
Ela sempre soube me arrancar de dentro dos meus próprios buracos.
Camila: — Então já vou avisar minha mãe que vou roubar vocês pra mim por uns dias — ela diz, rindo, enquanto pega o celular da bolsa.
Eu rio fraco também, mas já sinto aquela pontadinha de medo no peito.
Medo de largar tudo por uns dias.
Medo de sair da rotina.
Medo de me permitir ser feliz de novo.
Eu nem lembro direito como é isso.
Camila: — Relaxa essa testa franzida aí, mulher. — Ela me cutuca com o dedo. — Só uns dias, e você não vai se arrepender.
Olho pro Lucas dormindo, as mãozinhas agarradas na beiradinha da rede, o cabelinho todo bagunçado.
Ele parecia tão em paz.
Ele merecia isso também — ver o mar, brincar na areia, rir, em vez de me ver sempre exausta.
Respiro fundo, como quem já tomou a decisão, só não teve coragem de falar em voz alta.
Camila, percebendo meu silêncio, se levanta e vai até a cozinha.
Ouço o som da geladeira abrindo, depois garrafinhas batendo.
Camila: — Trouxe cerveja também, viu? — ela grita da cozinha. — Porque hoje é dia de brindar ao recomeço!
Rio baixinho, balançando a cabeça.
Camila sempre acreditou que qualquer desculpa era boa pra brindar.
Ela volta com duas latinhas geladas na mão, me entrega uma e ergue a outra.
Camila: — Ao que vem pela frente, Luana. — Ela sorri. — Dessa vez vai ser bom. Prometo.
Ergo minha latinha também, sentindo aquele friozinho estranho no estômago, como quem está prestes a pular num precipício sem saber se vai voar ou cair.
Nunca fui pra morros, pra favela… chegar lá toda estranha, sem saber quem manda, me dá um pouco de medo.
Mas não consigo dizer não pra Camila.
Luana: — Ao que vem pela frente — repito, tentando acreditar.
A gente brinda. A espuma escorre um pouco pelas mãos, mas a risada da Camila enche a sala.
Lucas se mexe na rede, abre os olhinhos sonolentos e sorri pra mim — aquele sorrisinho banguela que sempre me desmonta.
E, nesse instante, eu tive certeza: talvez fosse hora mesmo de tentar dar a chance de ser feliz de novo.
É… pela primeira vez em anos, eu não senti medo de sonhar.