Erick também se levantou.
_ Isso não precisa ser resolvido assim... – Erick disse tentando acalmar Flauber. – Depois de seu casamento com Astrid, podemos resolver. Existe uma solução. Astrid pode se confinar em casa após o casamento e quando Sigrid der a luz, ela o toma como seu próprio filho.
Sigrid e dona Cleuza olharam enojadas para Erick, mas não disseram nada. Seu desespero de casar sua filha mais nova com um milionário ultrapassava as normas de bom senso, moral e ética. Elas ficaram sem palavras.
_ Não. Ou você me dá a mão de Sigrid, ou fugirei com ela. Não vou mais permitir que me ameace a não deixar vê-la nunca mais. As coisas agora mudaram. Ela carrega um filho meu, e qualquer juiz iria a meu favor.
_ Mas Flauber... Ela é tão medíocre... Astrid lhe daria uma esposa melhor...
_ Não duvido que Astrid será uma boa esposa para o homem que tiver a sorte de conquistar seu coração. Mas, além de ela não ser uma mercadoria, é a Sigrid que amo. Agora posso ver com clareza que não faria sentido me casar com outra mulher, se é ela que ocupa meus pensamentos e todo meu coração. Você subestima Sigrid. Ela também é uma boa mulher e tem tudo para fazer um homem feliz. Espero que ela aceite a minha proposta, e o senhor também. Pois de um jeito ou de outro, a menos que ela não queira, eu a levarei daqui.
Sigrid sentiu seu coração se aquecer. Então seu pai ameaçou Flauber de não deixar que ele a visse mais se não se casasse com sua irmã. Ela olhou para o pai que estava vermelho de raiva, buscando palavras para refutar os argumentos de Flauber. Odiava ele. Se antes lhe implorava atenção e amor, que ele sempre se negara a dar-lhe, agora ela não queria mais nada daquele homem. Seu amor de filha, morrera ali. Se ela entendeu direito, ele ofereceu ela como amante de Flauber, enquanto Astrid saia em passeios e viagens como esposa dele. Não entendia toda essa preferência desmedida de seu pai por Astrid, ela era até rebelde. Não o obedecia em nada. Era tão estranho aquilo tudo.
_ Esta bem. Se casará com Sigrid. Mas antes de se casarem, tenho duas condições. Primeira que vocês não vão se encontrar mais até o dia do casamento e você pagará por todas as despesas. E exijo também um dote. O valor, falaremos sobre isso depois do jantar. Erick disse e ficou fitando Flauber.
_ Aceito. – Flauber disse e se sentou novamente, mas havia perdido toda fome. Pensava em Sigrid. O que ela estaria pensando agora? Certamente que ele desejava as duas irmãs. Mas isso não era verdade. Nunca havia olhado para Astrid como mulher. Ele amava Sigrid. Mas o medo de nunca mais vê-la, como prometera Erick, se ele não aceitasse se casar com Astrid, foi maior que sua lucidez. Ele não permitiria que ninguém mais o afastasse de Sigrid. Ele não estava mais com apetite e voltou-se para Sigrid. – Sigrid, eu te amo. Você aceita se casar comigo? Não posso permitir que seu pai decida isso por você.
Sigrid o fitou com olhar penetrante e respirou fundo.
_ Sim. Eu aceito. Porque te amo. – Ela disse e todos na mesa ficaram em silencio e ninguém mais tocava na comida.
Esse momento de constrangimento foi longo. Dona Cleusa de repente se levantou e voltou-se para seu marido.
_ Vamos conversar na biblioteca. Depois você e Flauber poderão conversar a sós. Mas agora sou eu quem precisa lhe falar com urgência. – Ela disse e foi em direção a biblioteca sem esperar por resposta.
Erick pediu licença e também se retirou para a biblioteca.
Assim que ele saiu Astrid também se levantou. Ela tinha um sorriso contente nos lábios. Ela se voltou para eles.
_ Vou para meu quarto. Isso deixará o caminho livre para que conversem. Porque depois de hoje, só se verão depois de um mês ou mais. Não deixem nada m*l resolvido entre vocês. Boa noite. – Astrid disse jogando beijo para eles e se retirando.
Sigrid olhou sem graça para Flauber. Agora que estavam a sós, não sabia mais o que dizer. Tinha preparado um discurso para quando ficassem a sós, mas deu lhe um branco na cabeça .
_ Sigrid... Me perdoe. Eu fui levado a aceitar esse arranjo de seu pai por medo de nunca mais poder vê-la. Sinto muito mesmo.
Sigrid se levantou de repente e lhe estendeu a mão.
_ Meu pai sempre cometeu muitas injustiças contra mim. Não me importo mais com ele. Mas tem alguma coisa a mais dentro dessa decisão dele e minha mãe sabe o que é. Vamos. Escutaremos por detrás da porta.
Flauber se levantou e aceitou a mão que ela estendia e juntos pararam e colaram seus ouvidos na porta.
_ Você não vai vender minha filha! – Dona Cleuza dizia enérgica, como Sigrid jamais vira, pois ela era sempre muito submissa... – Não me importo que não goste dela. Acho que nem ela se importa mais com isso. Mas não deixarei que cobre o que quer que seja pela mão dela. Você não cobraria por Astrid!
_ Astrid é minha filha. Já a sua Sigrid, saiu a mãe. Você não pode me dizer o que fazer, pois salvei você da vergonha, quando aceitei me casar com você mesmo estando grávida de outro homem!
_ Não seja cínico. Você só aceitou a se casar comigo porque estava prestes a perder essa fazenda e meu pai te comprou para mim! Se essa fazenda ainda é sua, é graças a minha família. Quantas vezes ao longo desses anos que estamos juntos, você esteve a ponto de perde-la e meu pai lhe deu dinheiro para que a conservasse sua? Você nem sabe como administrar o que tem. Quer dinheiro? Trabalhe. Pois não permitirei que Flauber dê um centavo para ter a mão de minha filha, que já era dele por direito. Se você continuar insistindo nisso, mandarei uma carta ao meu pai, explicando a situação e retirando sua pensão. Quero ver como vai viver sem o dinheiro da minha família. – Dona Cleuza disse altiva.
_ Preciso obter alguma coisa com esse casamento! Eu não a criei e alimentei para não ter nada em troca!
_ Você a alimentou com o dinheiro de meu pai. Ela e nem mesmo eu te devemos nada. Tudo que fez por nós, você foi bem pago para isso. Até uma filha te dei, quando não devia jamais ter me deitado com você.
_ Você é tão desastrosa quanto sua filha! Odeio quando olho naqueles olhos e vejo ele! E você nunca foi uma boa esposa, pois apenas me deu uma filha, quando eu precisava de um filho. Você não cumpriu sua parte no acordo. E agora quer me lançar na face que fui pago para isso? Acha mesmo que a esmola que seu pai manda é o suficiente para manter vocês debaixo desse teto, pagar empregados e as mulheres fáceis que necessito?
Dona Cleuza o fitou com desprezo.
_ Você me enoja. Se o dinheiro que meu pai lhe envia não cobre todas as despesas minha e de minhas filhas, pedirei ele que passe a enviar para mim e sairei dessa fazenda. Eu sei muito bem a quantia que ele lhe envia. E sei também que com essa quantia, posso viver confortavelmente com minhas filhas na cidade. Diga mais uma palavra e retirarei tudo o que tem. Você não será capaz de manter essa fazenda sem ajuda da minha família, porque você não passa de um fracassado.
Erick ficou vermelho e seus olhos mostravam o medo que tinha que sua esposa cumprisse a palavra. Porque tinha consciência que era tudo verdade.
_ Cleuza... – Ele disse com voz carinhosa, para tentar convencê-la. – Ele tem muito dinheiro agora. Um dote não o fará mais pobre. E não seria para mim. Seria para garantir o futuro da criança que vai nascer.
Dona Cleuza olhou para ele como se fosse um verme. Como ele ousava tentar enganá-la com aquela fala estúpida?
_ O que você está pensando em pedir a ele? Dinheiro?
_ Não. Quero as terras que ele tem ao redor da nossa. Toda ela.
_ Isso é muita coisa para um dote... – Dona Cleuza disse pensativa.
_ Para ele não é nada.
_ Concordo com você, mas assim como você deu duas condições para ele, eu também exijo duas condições para que esse acordo seja feito.
_ Sim. – Erick concordou desconfiado. Cleuza não era uma mulher fácil de se convencer quando se posicionava para defender algo.
_ A primeira condição, é que devido o montante do dote, você arcará com as despesas do casamento. Afinal desde os primórdios que o pai da noiva pague pelas despesas do casamento.
_ Não posso aceitar isso. Ela não é minha filha.
_ Está bem. Então você também não tem autoridade para pedir dote por uma moça que não é sua filha.
Erick passou a mão pelos cabelos nervoso.
_ Onde vou arrumar dinheiro para arcar com um casamento? Não podemos dar uma festinha qualquer como se fossemos pobres. Nossos amigos são todos da alta sociedade. Não posso passar por essa vergonha.
_ Sei que você vai morrer vivendo de aparências... Fale com meu pai. Ele não negar um casamento perfeito para sua neta.
_ Ele já me deu dinheiro esse mês.
_ E o que você fez com o dinheiro? Ele sempre envia além do que precisamos...
_ Eu... Sai na noite...
Cleuza o olhou entendida. Gastou o dinheiro com bebida e mulheres.
_ Eu mesma mandarei uma carta para ele então.
_ Sim. Se ele não se recusar, estou de acordo. Qual é a outra condição?
_ Não. São duas condições. Você não pôde cumprir a primeira que lhe dei, então já que sou eu quem vai resolver o casamento, essa ficou inválida para você.
Erick a fitou com ódio, mas sabia que tinha que aceitar. A vida toda teria que aturar essa mulher. A não ser que achasse outra que lhe desse tudo o que conseguia arrancar da família de Cleuza.
_ Então a primeira condição, é que vou participar desse acordo que será feito com Flauber. – Ela disse ignorando de propósito o ódio no olhar do marido.
_ Aceito.
_ A segunda condição é que esse dote será passado para o nome do filho de Sigrid.
_ Não podemos fazer isso. – Erick estava encontrando dificuldade em não bater naquela mulher e coloca-la em seu devido lugar. – Nem sabemos se vai ser um menino ou uma menina. Não se pode colocar um bem no nome de uma pessoa que ainda nem nasceu. Você está fora de si. Se deixarmos que ele se casa com Sigrid antes de nos dar esse dote, ele pode não fazê-lo depois.
_ Ele colocará no nome de Sigrid, que terá que assinar um acordo que ela apenas será a tutora do dote, até a criança completar idade suficiente para cuidar do que é seu.
Erick andou pela sala em movimentos circulares enquanto pensava. Depois teve uma ideia. Sabia que não ia mesmo conseguir lucrar com aquele casamento, mas ainda podia desfrutar da fortuna de Flauber, assim como fazia com o pai de Cleuza.
_ Está bem. Mas nos mudaremos para a mansão das terras que nosso neto vai herdar. Inclusive acho que se o casamento for lá, será mais adequado. E quero ser o senhor dessas terras, enquanto meu neto não tiver idade para comandar o que é seu.
_ Se Flauber concordar com esse absurdo, eu não me oporei. E o que fará com essa fazenda?
_ Um dia nosso neto vai crescer, e temos que ter para onde voltar. Continuarei cuidando dela. É herança de meu pai e está na família dele há séculos.
_ Então eu voltarei e direi a Flauber para me acompanhar até aqui.
Ao ouvir essas palavras, Sigrid, que estava com a mão na boca e os olhos derramando lágrimas, por descobrir daquela forma que aquele homem não era seu pai e toda aquela história, se voltou assustada para Flauber que também parecia chocado. Mas era necessário sair dali, antes que dona Cleuza abrisse a porta e os descobrisse ali.
Flauber pegou na mão de Sigrid e a guiou rapidamente de volta a copa. Não sabia o que dizer. Era h******l tudo que aquele homem era. E ele iria puni-lo. Por dona Cleuza e por Sigrid.
_ Vou para meu quarto. – Sigrid disse com a voz embargada. – Depois conversaremos sobre isso. Pedirei ajuda de mamãe, para que nos encontremos. – Ela disse e deu-lhe um beijo rápido e se apresou escada acima.
Flauber sentou-se a mesa e tomou um copo de água. Precisava fingir que nada sabia. Seria muito constrangedor para dona Cleuza e suas filhas, se ele agisse com a agressividade com Erick de que estava disposto e precisava se acalmar para que isso não acontecesse.
Quando estava prestes a abrir a porta para sair dona Cleuza parou por um instante e se voltou para Erick.
_ Só mais uma coisa. Jamais se atreva a tocar em meu neto. E lembre-se sempre disso. Ele é meu neto. Não seu. Assim como você deixou claro que Sigrid é minha filha. Não sua. – Ela disse e ao ver a expressão de choque no rosto de Erick, ela abriu a porta e saiu satisfeita.
Encontrou Flauber com seus olhos cor de mel sentado a mesa sozinho e a fitando curioso. Ela o encarou por um instante, sentia que lhe devia explicações. Mas ela não podia dá-las naquele momento.
_ Onde estão as meninas? – Dona Cleuza perguntou curiosa.
_ Elas... Pediram licença e foram para seus quartos. – Ele respondeu tranquilo.
_ E elas subiram juntas?
Flauber a fitou demoradamente antes de lhe responder.
_ Uma de cada vez.
Dona Cleuza o fitou concordando com a cabeça, como se ele tivesse contado uma história para ela. Flauber soube naquele instante que ela era uma mulher de grande sabedoria.
_ Me acompanhe, por favor. Precisamos chegar a um acordo.
Flauber se levantou imediatamente e a acompanhou até a biblioteca, onde dona Cleuza trancou a porta por dentro e o convidou a sentar em uma cadeira de frente para a mesa onde Erick ocupava o outro lado e ela sentou-se em seguida do lado de Flauber.
Então, com pedidos de desculpa e com a justificativa que estava muito magoado por sua filha estar se casando grávida e se colocando como vitima, pois segundo ele fora enganado por Flauber, que em segredo violara a inocência de sua amada filha, disse que ele mesmo arcaria com as despesas do casamento e lhe fez a proposta sobre as terras.
Flauber já sabia de antemão de tudo aquilo, mas não quis entregar de bandeira. Custava-lhe ter que deixar que ele morasse confortavelmente na mansão que fora de seu pai.
_ Meu filho é meu herdeiro. Vai herdar tudo que possuo de qualquer forma. Não vejo razão para tal acordo. Se Sigrid, minha esposa vai cuidar não só dessas terras, mas de todos nossos bens. Ela não precisa de outro papel, além da certidão de casamento para provar que tudo é dela e de meu filho. Eu faço uma contra proposta. Me venda essa fazenda. Eu lhe darei três outras fazendas em outro lugar, para ficar com essa e incluir o dote de Sigrid.
_ Não. Isso jamais. Essa fazenda é herança de meus pais. Não me desfarei dela. – Erick disse impaciente.
_ Então peça outra coisa. Pois tudo que possuo também é herança de família.
_ Herança? Que consideração você pode ter com essa família se m*l conheceu seu pai?
_ Mesmo assim é uma herança, não?
_ Vou buscar um café. – Dona Cleusa disse com satisfação no olhar, se levantando e se retirando.
Assim que se viu a sós com o rapaz, Erick tentou convence-lo.
_ Flauber... Minha situação não está tão boa quanto você possa estar pensando. Essa fazenda é boa, próspera, mas meus recursos acabam ai. Morando na mansão de seu pai e tomando conta de suas terras, terei mais recursos para arrumar um bom casamento para Astrid. Aqui meus recursos são mínimos, pois sustento três mulheres e você sabe que mulher só dá despesa. Elas não nos ajudam no serviço braçal da fazenda. E nem mesmo aqui na casa elas fazem alguma coisa. Pago empregadas porque elas são umas inúteis. Por isso, pelo menos deixe que nos mudemos para a mansão que foi de seu pai e desfrutar dos lucros por alguns anos até que Astrid se case. Então você não estará abrindo mão de nada. Tudo continuará sendo seu.
Flauber o escutou e o fitava pensativo. Talvez se não tivesse escutado a conversa que ele tivera mais cedo com dona Cleuza naquela biblioteca, ele acreditaria nele. Mas agora ele dava uma chance para que ele começasse sua vingança.
_ Eu permitirei que vocês se mudem para a mansão.
Erick deu sorriso satisfeito e se recostou na cadeira.
_ Mas tem um porém. Não sei qual o apreço de minha noiva por essa região. Então, ela decidirá isso. De repente, ela está pensando em morar na mansão. Jamais tirarei dela seus desejos. Então terá que pedir a ela. E quero que isso seja feito na minha presença.
Flauber viu seu sonho se concretizar quando percebeu o semblante cheio de orgulho ferido de Erick. Nesse momento dona Cleuza chegou com uma bandeja contendo três xicaras e os serviu antes de sentar-se novamente.
_ Então? Entraram em um acordo? – Dona Cleuza disse observando o ódio de seu marido em seus olhos. Estava casada a muito tempo com ele e sabia que quando ele estava com poucas alternativas, o ódio era sua resposta.
_ Ainda não dona Cleuza. – Flauber disse tranquilo. – O café está maravilhoso.
_ Obrigada. – Dona Cleuza agradeceu ficando vermelha. E isso não passou despercebido por Flauber que não sabia como, teve um vislumbre dela mais jovem. Ela era uma mulher jovem ainda. Devia ter ficado grávida muito nova. Seus traços ainda eram atraentes. O que deu a Flauber mais uma ideia de vingança.
Flauber se levantou e deixou a xicara sobre a bandeja que havia sido colocada na mesa. Percebeu que a de Erick permanecia intocável e que isso não incomodava dona Cleuza.
_ Eu já vou indo. Amanhã voltarei para obter sua resposta senhor Erick. – Ele disse e se voltou para dona Cleusa. – Obrigado dona Cleuza. Tanto o jantar quanto esse café estavam dignos de um rei. – Flauber disse e acenou com a cabeça para Erick e se retirou.