Dona Cleusa ficou sozinha na biblioteca. Erick não quis mais conversar depois que Flauber saiu e ela continuou terminando seu café tranquila, enquanto Erick foi para seu quarto sem se despedir. Não devia ser nem nove horas da noite ainda. Ela estava sem sono. Assim que terminou seu café, levantou-se, verificou se a janela de madeira estava fechada e apagou a lamparina. E assim ela foi fazendo cômodo por cômodo. Quando subiu as escadas para os quartos, viu luz por baixo do quarto de Sigrid. Olhou para a porta em frente a dela que era o quarto de Astrid e viu que estava apagado. Deu uma batida. Como não houve reposta ela entrou, imaginando que ela poderia ter dormido com vela acesa. Mas levou um susto e deu passo para trás quando a viu sentada com as pernas cruzadas no centro da cama a fitando com seus intensos olhos azuis. Dona Cleuza pôde constatar que ela havia chorado muito. Seus olhos estavam inchados. Então se aproximou após o impacto da surpresa e sentou-se na beirada da cama e a fitou com imensa ternura.
_ Era para estar feliz minha filha. Vai se casar com o homem que ama e poderão ter seu filho sem se preocupar com a rejeição da sociedade.
_ Quem é meu pai? – Sigrid perguntou seca. Sua mãe não tinha o direito de ter lhe escondido aquele segredo por tanto tempo. Não, assistindo como era tratada por aquele homem que ela acreditou sua vida inteira que era seu pai. Vendo ela sofrendo com a rejeição dele. Ela estava furiosa com sua mãe. Apesar de entender que sua mãe não devia ter tido saída. Seu avô lhe comprara um marido para que ela não tivesse o destino de muitas jovens que ouvia falar. Sua mãe foi uma guerreira por ter aceitado se casar para não ter que abrir mão de sua filha. Mas fez m*l por não contar.
_ Não seja dura comigo Sigrid. Eu... Nem sei por onde começar.
_ Comece do princípio. Eu quero saber tudo.
Dona Cleuza suspirou fundo.
_ Seu pai era filho da irmã de meu pai.
_ Então... Vocês eram primos?
_ Na verdade não. Ele era adotado. Era lindo e sonhador. Brincávamos juntos na infância e ele e seus pais sempre vinham nos visitar. Meus tios não podiam ter filhos, e um dia alguém deixou uma cesta com ele dentro pedindo que meus tios o criassem. Minha tia foi tomada de amor por ele assim que o segurou pela primeira vez. Já meu tio não gostou muito da ideia, mas depois concordou em criar ele como filho. E era uma família feliz. Nós tínhamos praticamente a mesma idade e nos entendemos desde a primeira visita que me lembro dele, mas minha mãe contava que desde bebês, parecíamos ter uma ligação. Nós começamos a namorar com treze anos. Enquanto nossos pais pensavam que estávamos saindo para tomar um sorvete, estávamos apenas dando uma desculpa para nos encontrarmos a sós. E assim tivemos nosso primeiro beijo. Todas as nossas experiências eram únicas e primeira vez para ambos. Os olhos dele eram da cor dos seus. Também tinha os cabelos dourados. Ele era um homem bom. Erick começou a visitar meus pais nessa época. Eu não dei muita atenção, pois ele era oito anos mais velho que eu, e isso, na adolescência é uma grande diferença de idade. Então ele pediu minha mão. Mas eu fiz um escândalo e não aceitei. Nessa época, eu já tinha quatorze anos e já tinha ultrapassado os limites do decente com seu pai. Fiquei grávida. Nós dois éramos duas crianças. Não sabíamos o que fazer. Meus tios se mudaram do país, levando seu pai e eu fiquei sozinha. Então Erick se aproveitou da situação de desespero de papai e acabou aceitando todas as condições que Erick deu para se casar comigo grávida. Mamãe foi contra, mas naquele momento meu pai não quis a ouvir. Mais tarde, meu pai se arrependeu e percebeu que agiu com imprudência, que devia ter ouvido mamãe, mas já era tarde. Faltavam poucos dias para o casamento e já haviam convidado todos os amigos e parentes. E Erick ameaçou contar sobre a minha gravidez para todos e diria que também já havia se deitado comigo, caso meu pai parasse o casamento...
_ Então é como se você e vovô estivessem reféns desse homem... – Sigrid concluiu triste.
_ De uma certa forma sim. Um eterno cárcere.
_ Meu pai, não tentou lhe procurar depois?
_ Nunca mais vi seu pai desde o dia que juntos contamos que eu esperava um bebê. Nem me despedi dele. Meus pais e os pais dele garantiram que não nos víssemos mais. Nosso país é enorme. E vim parar numa fazenda. Não teria como me encontrar novamente com ele. Sinto muito filha. Talvez Flauber possa lhe levar para conhecer o mundo e sabendo dessa história, contratar um detetive e saber onde esta seu pai. Nunca tive a oportunidade de saber.
_ Mãe... Você ainda o ama?
Dona Cleuza abaixou os olhos. Sua filha merecia a verdade.
_ Nunca, em tempo algum, deixei de ama-lo. É um tipo de amor que nunca se esquece.
_ E Erick? Ainda ama ele?
_ Nunca amei. Não me deitei com ele enquanto não tive certeza que seu pai não vinha me buscar. Por isso você e Astrid tem diferença de quatro anos. Erick a muito me pressionava e eu não via outro futuro para mim, que não fosse esse aqui. Então cedi.
_ Porque não vem morar comigo e Flauber assim que nos casarmos?
Sigrid viu o brilho de interesse passar pelos olhos da mãe.
_ Tiraria sua privacidade, e também tem Astrid. Não posso deixa-la a mercê de seu pai. Quero que seja feliz minha filha. Não serei um peso para você e seu marido.
_ Vou conversar sobre isso com ele. Ah! Isso me lembra que prometi a ele que conversaríamos antes do casamento. Pode me ajudar com isso?
Dona Cleuza sorriu como se aquele pedido a levasse para lugares remotos, lembranças ocultas pelos anos e pelo silencio. Depois ela se levantou.
_ Eu ajudarei sim. Amanhã ele vai vir terminar o acordo com seu pai, então falarei com ele.
_ Eles ainda não se entenderam?
_ Pelo jeito não. Agora apague essa luz e vá dormir. Eu também já vou para meu quarto. – Dona Cleuza disse e se retirou.
Sigrid se deitou e estava com o coração mais leve. Ela sabia que seria feliz. E adormeceu logo em seguida a esses pensamentos.
No dia seguinte, ela abriu a porta do quarto para descer e tomar seu café e deu de cara com sua irmã a esperando com uma perna para trás encostando o pé na parede e os braços cruzados. Ela usava um vestido rodado, que fazia ela parecer mais jovem que seus dezessete anos. Ela esperou a inspeção de Sigrid paciente. Quando ela olhou em seus olhos, Astrid saiu de sua posição com ar impaciente.
_ Você não pensou mesmo que eu ia te ajudar a falar a sós com Flauber e deixar que você não me contasse como foi, não? – Astrid disse espalhando o cabelo de Sigrid.
_ Pare! Se comporte! – Sigrid a repreendeu achando graça. – Já tomou café?
_ Não. Estava esperando você.
_ Então vamos. Conto lhe tudo durante o café.
As duas desceram em meio a risinhos de alegria com brincadeiras que elas tinham desde a infância. Elas sempre se amaram, apesar de Astrid ser sempre mais indiferente com relação a demonstração de carinho. Mas Sigrid sempre considerou que aquilo era da personalidade dela mesmo e nunca se incomodou. Pois no fundo sempre se protegiam. Elas chegaram na cozinha e tomaram o café lá, com as empregadas já na correria de fazer o almoço. Mesmo estando rodeadas pelas ajudantes de cozinha e cozinheira, Sigrid conseguiu contar tudo que descobrira, para uma surpresa e chocada Astrid. As empregadas não prestavam a atenção a conversa delas. Depois disso, saíram para fora da casa e resolveram se vestir para uma cavalgada. Até aquele momento, não viram nem a mãe e nem Erick. Mas eles não tinham mesmo o costume de tomar o café juntos, já que a mãe passava o maior tempo da noite, lendo, pois dormia em quarto separado de seu marido. Já Erick, levantava cedo. Elas pediram para preparem o cavalo e foram vestir suas roupas de cavalgada. Estavam animadas. Apesar de Astrid encontrar dificuldade em assimilar que não eram filhas do mesmo pai. Aquilo a incomodava. Não sabia bem o porque, mas a entristecia. Porém não deixaria que sua irmã percebesse que sua tristeza. Ela estava tão feliz...
Elas cavalgaram a manhã inteira pela fazenda. Pararam em uma cachoeira que havia na propriedade e entraram. Fora um dia maravilhoso. Voltaram felizes para a casa. Dona Cleusa estava na porta de entrada da casa observando suas filhas chegando de cabelo molhado. Sorriu consigo mesma. Era tão bom ver suas meninas se divertindo. Sempre se deram bem, e depois do dia anterior, ela teve receio que aquela ligação das duas se quebrasse, pois ela não viu Astrid se manifestar contra o seu casamento com Flauber. O que indicou que a ideia a agradou ou ela teria se revoltado na hora, pois é impulsiva e naturalmente rebelde. Isso preocupou dona Cleuza. Mas vendo as duas juntas agora, com os semblantes leves e alegres, percebeu que sua preocupação, apesar de ter fundamentos, é desnecessária.
Assim que elas se aproximaram, dona Cleuza entrou para dentro antes que pudessem alcança-la na porta. Mesmo que tenha tido uma conversa que a libertou de um fardo que carregou por todos aqueles anos, sabia que uma hora teria que explicar também para Astrid. Mas ainda não se sentia preparada para tirar de dentro de si, todas emoções que aquele segredo lhe trazia de volta novamente. Astrid, assim como Sigrid, podia chegar a conclusão que ela ainda amava seu amor da adolescência e ela não teria a mesma reação de Sigrid. Sabia que era muito provável que Sigrid já tivesse contado para sua irmã sobre o que conversaram naquela noite. E Astrid viria preparada e com muitas questões na mente. Ela não estava disposta a ser inquerida naquele assunto ainda.
As irmãs entraram em casa e foram tomar banho e trocar as roupas molhadas. E durante aquele dia todo, dona Cleuza não viu seu marido e ficou observando suas filhas trocando risadinhas cumplices por toda a casa.
A noite, enquanto as meninas ajudavam as empregadas na cozinha com o jantar, dona Cleuza foi atender a porta. Era Flauber, ela constatou sem surpresa.
_ Vim saber o que decidiu meu sogro. – Ele disse depois que dona Cleuza o ficou fitando indagadora e não o convidou para entrar.
_ Claro. Entre. – Ela disse, saindo de seus devaneios.
Assim que Flauber entrou, ela pediu que se sentasse e lhe ofereceu um licor, explicando que seu marido ainda não havia chegado. Ela se sentou também, lembrando-se do que sua filha havia pedido.
_ Peço que jante conosco essa noite.
_ Se não for dar trabalho, eu aceito sim.
_ Flauber... Sigrid quer vê-lo uma última vez antes do casamento. Ela pediu minha ajuda. Esta noite, pingarei umas gotas de remédio para dormir no vinho de Erick e ele vai sentir sono meia hora depois disso e quando dormir, terá um sono pesado. Então você deve se despedir após a janta e mandarei que Sigrid vá para a biblioteca e o espere lá. Deixarei a porta da sala aberta, para que posa entrar assim que ver que as luzes da casa se apagaram e restou apenas a da biblioteca. Espero que não abuse de minha confiança.
_ Pode deixar dona Cleuza. Serei um cavalheiro. Desculpe por... Não ter esperado o casamento para... Mas não foi possível resistir aos meus impulsos. Eu a amo muito. Não faria nada para magoa-la. Quando aconteceu, eu já tinha intenção de me casar com ela. Mas sei que agi m*l. Ela é apenas uma moça inocente e a culpa é toda minha...
_ Eu não creio que a culpa seja toda sua. O amor nos fazer coisas...
Erick entrou naquele momento e viu de imediato a presença de Flauber. Ele cumprimentou e disse que lavaria o rosto e as mãos e já estaria de volta e pediu que o aguardassem.
Flauber odiou a forma como ele nem ao menos se deu ao trabalho de reparar em como dona Cleuza estava bonita naquele dia. Ela havia soltado seus cabelos negros, o que a deixou mais jovem e usava um vestido que mostrava todas as suas curvas perfeitas. Ela estava linda, seus castanhos pareciam brilhar, como se um sonho voltasse a fazer parte de sua vida e aquele i****a não parou nem para dizer um oi, para ela. Flauber prometeu para si mesmo, que Erick se arrependeria de trata-la assim.
Quando Erick voltou, sentou num sofá de três lugares e Cleuza sentou-se também, mantendo distancia dele.
_ Então, senhor Erick? Eu vim aqui em busca de sua reposta. – Flauber disse quando o silencio reinou.
Erick o fitou com ar cansado.
_ Não posso confiar somente na sua palavra que vai permitir que eu fique em sua mansão.
_ Até que Astrid se case, sim. – Flauber disse tranquilo.
_ Concordo, mas só quando Astrid sair de casa para morar com seu marido. – Erick disse, já tendo em mente uma forma de fazê-lo estender o tempo. Sabia que ele não colocaria ele e sua família para fora, caso Astrid se casasse com alguém que decidisse morar com eles. – Mas terá que deixar esse acordo registrado em cartório.
_ Sem problemas, apesar que está me ofendendo não acreditando em minha palavra, pois sou um homem de origem humilde, mas sempre honrei meus compromissos.
_ Não estou duvidando de você. Apenas quero ter a tranquilidade de saber que estou guardado pela lei. Afinal, o que está me dando é muito pouco, visto que vou arcar com as despesas do casamento de vocês. E também que Astrid pode vir a se casar ainda esse ano. Então você terá dado muito pouco como dote. Aceite Flauber, pois não abrirei mão dessas exigências. Tenho recursos para enviar Sigrid, para um lugar que jamais voltaria a vê-la. – Erick disse e Flauber entendeu sua ameaça com tranquilidade.
_ Aceito sim. Amanhã mesmo iremos ao cartório. Esteja pronto as sete da manhã, que eu virei te buscar em um dos carros que herdei.
Erick o olhou satisfeito e se levantou e estendeu a mão para Flauber, como fazia quando fechava um bom negócio. Flauber o encarou por alguns segundos antes de se levantar e aceitar a mão de Erick.
_ Você não vai se arrepender. Sigrid é a moça mais bela da região e todos vão invejá-lo por essa união. E seus filhos provavelmente serão belos também e cobiçados por toda a alta sociedade. Sigrid, lhe dará filhos homens. Tenho certeza disso.
_ Não me importo, de ter apenas filhas... – Flauber disse apertando a mão com força desnecessária e Erick logo tratou de retirá-la.
Dona Cleusa se levantou também.
_ Já que está tudo resolvido, acho que devemos jantar. Erick, convidei Flauber para jantar conosco. Você acha que fiz m*l? – Ela disse se voltando para o marido.
_ Por mim está bem, mas não deve trocar palavras com Sigrid. Isso vocês terão muito tempo para fazer depois que casarem. – Erick disse e se retirou para a copa.
Flauber e dona Cleuza, seguiram logo atrás dele. Quando chegaram lá, as irmãs já estavam os esperando em seus lugares a mesa.
O jantar correu tranquilo, sem perturbações. Todos ouviam os planos de Erick para quando se mudassem para a mansão que Flauber herdou. O que lembrou Flauber imediatamente a condição dada para que ele fosse morar lá.
_ Senhor Erick... Acho que está se esquecendo de um detalhe sobre a sua ida para a mansão. Gostaria que realizasse a parte de seu acordo agora, se não for problema para o senhor. Afinal só estaremos todos juntos novamente no dia do casamento.
Erick ficou vermelho de ódio. Mas sabia que teria que passar por aquela humilhação. Então voltou-se para Sigrid.
_ Sigrid, você vai querer viver naquela mansão? Lembre-se que seu futuro marido pode levar você para morar onde desejar. E eu espero que faça isso, pois preciso de sua permissão para ir habitar naquela mansão.
Sigrid o fitou surpresa. Ela não sabia que Flauber iria obrigar aquele homem a falar com ela, como se ela fosse sua superiora. Aquilo a agradou enormemente.
_ Sim. Você pode morar lá. Eu tenho realmente outros planos. E eles não envolvem uma vida na fazenda. – Sigrid disse e deu uma piscada para Flauber.
Dona Cleuza ajudou as empregadas a servirem uma bebida para todos. Ela colocou um copo de vinho para seu marido, licor para Flauber e leite quente para as suas filhas. E eles tomaram em uma conversa animada entre as irmãs. Dona Cleuza olhou preocupada para Flauber e ele se sentindo observado, voltou-se para ela e depois olhou para Erick. Ele estava a ponto de dormir ali mesmo na cadeira. Então se levantou e se despediu de todos e saiu pela porta da frente, onde aguardou na varanda, que as luzes da casa fossem todas apagadas. Depois de alguns minutos de espera, ele viu que apenas havia luz na biblioteca, o que ele conseguiu vislumbrar pelas frestas das janelas. Então entrou novamente na casa e seguiu direto para a biblioteca. Assim que entrou e trancou a porta por dentro, Sigrid se jogou em seus braços. Ele pôde sentir o cheiro de seu cabelo e se embriagou com o amor e reconhecimento da mulher que amava em seus braços. Eles se separaram, sabendo que não tinham muito tempo, mas havia muito a se dizer. Sentaram em um sofá que ficava em um canto da biblioteca e começaram a conversar. As palavras jorravam rapidamente. O amor entre eles fazia com que compreendessem até as frases que não eram terminadas. E foi assim a conversa deles enquanto conversavam.