Flauber e Sigrid

3014 Palavras
Eles se sentaram juntos no sofá e se deram as mãos. Trocaram carinhos e beijos, com saudade daquele frio na barriga que ambos sentiam quando estavam juntos. Mas Sigrid sabia que não podia abusar e devia ter uma conversa rápida com Flauber, para não desagradar sua mãe. _ Que loucura isso de você ser herdeiro daquele senhor. Como foi que descobriu? Na última vez que nos vemos, você não parecia um rapaz prestes a receber uma herança... _ Fui pego de surpresa. Seu pai foi até lá na casa desse senhor. Que eu nem sabia o nome. Mas ele se chamava Harald. _ O que Erick queria com esse homem? _ Ele queria alugar um pedaço de terra para Harald. Mas chegando lá encontramos o advogado e alguns irmãos dele. O empregado nos fez entrar em um grande recinto, acredito que seja uma sala para conversas. Tinha bastante livros também. Assim que as pessoas me viram, ficaram trocando olhares uns com os outros. Olhares assustados. Eu achei estranha aquela atitude, e também os achei muito familiares. Então informaram para Erick que Harald tinha falecido há três dias. E que estavam ali para ler o testamento. O advogado não parava de olhar para mim. Tanto que começou a me incomodar e dizendo que aguardaria no corredor, sai da sala. Mas minha surpresa foi muito grande, quando o advogado foi atrás de mim no corredor. Ele me pediu para acompanha-lo e eu o segui por imenso corredor. A mansão é muito grande. Acho que me perderia lá dentro, se não houvesse quem me guiasse. Ele parou em uma porta e disse que aquele era o escritório particular de seu cliente e em vida só permitia que o advogado entrasse lá dentro. Ele me convidou e eu entrei. Quando olhei para a parede atrás da escrivaninha, entendi porque todos me olhavam assustados. Havia um quadro lá. E nele estava retratado a minha mãe, junto com Harold e eu pequeno ainda junto aos dois. Só que Harold e eu somos idênticos. Não herdei nada de minha mãe. Sou completamente parecido com ele, quando ele era mais jovem. O advogado perguntou se eu conhecia a mulher do quadro e assim que respondi que sim ele começou a falar. _ Foi Deus quem trouxe você até aqui hoje. Precisava de sua presença na leitura desse testamento, segundo a vontade de meu cliente. Procurei você por todo canto, mas parecia que você havia sumido na face da terra. E sua mãe? Ela também precisava estar aqui... _ Minha mãe faleceu há alguns anos, vítima de uma pneumonia. _ Mas você deve ter algum documento que prove que eles são seus pais... – O advogado perguntou esperançoso. _ Não lembro do nome dele na minha certidão. Nunca olhei para isso. Minha mãe disse que ele havia partido por causa de um trabalho e nunca mais retornou. Mas tenho uma cópia da minha certidão aqui na minha carteira. – Disse e retirei o papel dobrado e amarelado pelo tempo e sem ler, entreguei-o para o advogado. Ele abriu o documento e balançou a cabeça satisfeito. _ Esse documento e sua própria semelhança física com Harold, prova que você é quem eu andei procurando. Uma pena que Harold não esteja aqui hoje para lhe ver. Na verdade quando ele fez essa viajem a trabalho, ele estava em outro país. Ele sofreu um acidente grave, Caiu das escadas de um prédio. Bateu a cabeça e perdeu a memória. Ninguém da família contou para ele que ele tinha esposa e filho e trataram de apagar os vestígios da existência de vocês. Destruíram a certidão de casamento, e deixaram ele viver sem saber que existiam pessoas esperando por ele. Mas, com o passar dos anos e sua falta de interesse em arrumar uma esposa, o levou a entrar em desespero pois desejava um herdeiro e não encontrava mulher que se encaixava no que ele buscava. Achava todas fúteis demais. Então ele começou a se lembrar das coisas aos poucos. E teve um dia que se lembrou que tinha essa fazenda aqui. Então ele passou a viajar para cá depois que descobriu o quadro. Ele me disse que amava aquela mulher e aquela criança mesmo sem saber quem eram. Até que se lembrou aos prantos que eram sua família. Pagou detetives para encontra-los, mas jamais teve noticias positivas de vocês. Um dos detetives chegou a sugerir que vocês deviam ter morrido. Mas ele não acreditou. Fez com que eu fosse atrás de um cartório e descobrisse onde foi que ele casou, pois ele não se lembrava desse detalhe. Então eu mesmo me encarreguei de ir de igreja em igreja pelo país, até encontrar a certidão de casamento de seus pais. Eu trouxe até ele, e ele começou a desconfiar que seus detetives, além de receber seu dinheiro, estavam também recebendo de seus irmãos para que nada fizessem, visto que eu que não tinha experiência alguma, encontrei a certidão de casamento. Então ele dispensou todos eles e contratou outro de minha confiança, sem que ninguém soubesse. Para a família dele, ele havia desistido de procurar. Foi então, a partir da pequena cidade que encontrei sua certidão de casamento que o detetive descobriu que sua mãe havia vindo para essas terras por aqui. Mas isso era vago, pois esse estado é muito vasto. Então, conheceu alguém que teve contato com sua mãe. Essa pessoa garantiu que sua mãe tinha o colocado em um orfanato, pois estava doente demais e sem recursos para sustenta-lo e cuidar de você. Quando podia ia te visitar nesse orfanato. Mas, ninguém sabia que orfanato era esse, e em que cidade ficava. Quando pensaram em ajuda-la nessa fase difícil, ela desapareceu. E ninguém ficou sabendo onde era esse orfanato. Porém, o detetive desconfiava que era por aqui, pois ela estava sempre por aqui e eles diziam que não devia ter lhe levado para longe. Procuramos por você em todos os orfanatos da cidade, região e estados e não lhe encontramos. Nunca mais. Mas seu pai o procurou enquanto teve vida. Nunca desistiu de você. _ Ele acabou de contar com lágrimas escorrendo por seu rosto, Sigrid. _ Será porque ele não te encontrou? Você não estava longe daqui. E seu nome não foi mudado, certo? _ Sigrid, ele não me encontrou, porque uma família, abrigou minha mãe doente e me buscou no orfanato. Depois que minha mãe morreu eu fiquei com eles. Eles tinham mais duas crianças, filhos deles, e mesmo vivendo em miséria, achou que eu viveria melhor com eles do que no orfanato. Então quando fomos crescendo, cada um dos filhos deles tomaram rumo diferente. O homem da família havia morrido e a mulher estava doente. Não podia deixa-la sozinha. Ela cuidou de mim e de minha mãe. Então cuidei dela com carinho. Encontrei um emprego em uma fazenda próxima, pois precisava de alimentos e remédios para ela. Meu esforço para não permitir que ela morresse foi em vão. Ela sucumbiu. Assim que os filhos souberam da sua morte, voltaram e me expulsaram. Venderam a casa dela e dividiram entre si e foram embora. Desde esse dia que vivo de fazenda em fazenda. _ Lamento... Mas, em que momento descobriu que era herdeiro de uma fortuna? _ Depois que tudo ficou esclarecido, o advogado me convidou para participar da leitura do testamento, o que aceitei, afinal era meu pai e ele me amava, não tinha sido abandonado como eu acreditei minha vida toda. Quando voltamos do escritório para a biblioteca. Todos estavam com olhares de desgosto. Provavelmente Erick havia dito meu nome para eles e minha inegável semelhança acabou por derrubar por terra a esperança deles de ficar com toda a herança só para eles. O advogado começou lendo as últimas palavras de meu pai, o que não comoveu os irmãos momento algum. Nem mesmo na parte que ele dizia saber que eles fizeram de tudo para frustrar as tentativas dele de encontrar o filho. Depois a advogado leu a relação dos bens dizendo que ele só tinha um herdeiro, e que deixaria tudo para seu filho caso encontrado a tempo. Caso contrário, seus bilhões deviam ficar depositados esperando por mais dez anos pelo meu aparecimento. Os outros bens, seriam divididos entre seus irmãos, se eu não tivesse aparecido. Eles deixaram a sala sem me cumprimentar, nem sequer olharam para mim. Então me tornei herdeiro de uma grande fortuna, e até hoje não sei direito o que fazer, então contratei esse advogado que me reconheceu, para administrar todos os meus bens. Agora vou te dar uma vida de rainha. Que é a vida que você merece. _ Mas... O que aconteceu para que pensasse em se casar com Astrid? _ Erick tentou me convencer de forma amigável a me casar com Astrid. É claro que soube que era por causa da minha herança, só não entendia qual era a diferença com qual filha eu me casaria... Com minhas constantes negativas, ele disse que me proibiria de entrar em suas terras novamente e que jamais voltaria a ver você se continuasse me recusando a casar com Astrid. Eu aceitei. Mas só para tranquiliza-lo até que eu contornasse aquele problema. Eu pensei em várias coisas. Até contei com o gênio difícil de sua irmã se recusar, mas isso não aconteceu. Então, pensei que a única forma seria fugir com você. E para isso eu precisaria de ter entrada livre aqui dentro. Até conseguir falar com você que se preparasse. Quando você revelou que estava grávida, minha mente se iluminou. Além da minha grande alegria com essa noticia, você ainda me deu o caminho para obrigar seu pai a aceitar nosso casamento. E você? O que sentiu ouvindo todas aquelas coisas horríveis atrás da porta naquele dia? _ Senti alivio misturado com muito rancor. Mamãe foi até meu quarto naquele dia e me explicou tudo. Senti alegria por saber que ele não era verdadeiramente meu pai. Tudo passou a se encaixar. – Então Sigrid contou toda a história que sua mãe lhe revelara. _ Que bom que tudo terminou bem então. Porque eu te prometo que o farei pagar por cada sofrimento que ele lhe causou. _ Não quero que o machuque. Ele ainda é marido de mamãe e pai de Astrid. _ Não o machucarei fisicamente. Apenas mostrarei para ele que o amor de vocês não tem preço. Tem a minha palavra. _ Flauber... Espero que não pense m*l de mim por isso que vou lhe pedir agora. São dois pedidos. _ Tudo que você quiser. _ Preciso que coloque um detetive atrás do meu pai. Ele deve estar por ai em algum lugar e mamãe ainda ama ele. E é infeliz ao lado de Erick. _ Meu amor! – Flauber deu sorriso com seus dentes perfeitos e depois a abraçou apertado. Quando a soltou a encarou nos olhos. – Eu pensei a mesma coisa que você. Vou precisar do último lugar em que ele morou, para ter uma referencia por onde o detetive começar sua busca. Qual é o outro pedido? _ Conseguirei com mamãe em breve. Quero que seja uma surpresa para ela. O outro pedido, é que eu ficaria muito feliz, se você levasse mamãe e Astrid para morar conosco. _ Levarei sim. Com muito gosto. Após nossa lua de mel. Quero que ela planeje seu casamento agora, e nós vamos viajar pela Europa durante um mês. Nesse tempo elas já vão ter providenciado tudo para irem morar conosco. E por falar nisso, onde você deseja morar? Sigrid não conseguiu disfarçar a alegria que sentia. Respirou fundo. _ Eu quero morar em uma cidade que tenha ruas pavimentadas, cheia de lojas e escolas. _ Nós podemos morar em Peoria é uma das localidades mais antigas do estado de Illinois e tenho uma mansão lá também. Acredito que sua mãe e sua irmã vão amar. Além delas terem total liberdade e privacidade, pois ela ainda é maior que a mansão que seu pai tanto deseja morar. _ Isso é perfeito! – Sigrid disse se deliciando com aquela ideia e passando a mão no rosto de Flauber com carinho. Flauber pegou sua mão e depositou-lhe um beijo. _ Agora devo ir. Não quero abusar da boa vontade de sua mãe. – Flauber disse e se levantou puxando Sigrid com ele. Enlaçou-a pela cintura e lhe deu um beijo demorado e apaixonado. Depois a soltou e foi em direção a porta. Mas antes de sair, voltou-se para trás e lhe sorriu um pouco triste por saber que passaria quase um mês sem vê-la novamente. Então sem mais demoras foi embora. Assim que ele saiu, Sigrid sentiu uma tonteira, mas acreditando se tratar de apenas mais um sintoma de sua gravidez, foi para seu quarto. Achou estranho que nem a mãe e nem Astrid a estivessem esperando no corredor para saberem as novidades. Quando lembrou que provavelmente ela não concordaria que desse remédio para o pai dela dormir um sono pesado, afinal ela sim, tinha motivos de sobra para ama-lo. Assim que abriu a porta de seu quarto, sua mãe estava lá dentro concentrada na leitura de um livro, mas o abaixou assim que a viu entrar. Estava acomodada na cama de sua filha. Sigrid se aproximou e contou toda sua conversa com Flauber, deixando em oculto apenas a procura que iriam iniciar pelo seu pai. Aproveitou-se para saber onde ele morava e qual era seu nome e o nome dos tios que o adotaram. Em posse desses informações, assim que sua mãe se recolheu ao seu quarto, ela anotou o endereço antigo e os nomes, achando o nome de seu pai muito lindo; Visbur. No outro dia cedo, Astrid, Sigrid e dona Cleuza foram até a cidade para providenciarem os arranjos do casamento de Sigrid. Mandou uma carta para seu pai pedindo ajuda para o casamento de Sigrid e aproveitando para convidá-lo para a ocasião. Ela tinha certeza que seu pai não negaria dinheiro para ela então já passou em todos os lugares e encomendou tudo do agrado de sua filha. Queria que ela se casasse com seu vestido, mas Sigrid se recusou, dizendo baixo para que Astrid não as ouvisse, que aquele vestido não trouxera boa sorte para sua mãe. Dona Cleusa entendeu e não ficou ofendida. A levou então até a costureira que para sorte de Sigrid, já tinha um em fase de acabamento, pois o noivo foi embora da cidade se recusando a se casar com ela. Dona Cleuza achava que tinha mais que isso naquela história, e tentou alertar a filha, mas Sigrid não a ouviu, estava encantada com a beleza do vestido. E quis ficar com ele mesmo. Depois dali foram na doceira da pequena cidade encomendar o bolo. Sigrid deixou que sua mãe cuidasse disso e foi com Astrid no jornal da cidade, onde encomendou os convites. Depois voltaram para se encontrar com a mãe. Paradas em frente a doceira viram quando Flauber passou de carro com Erick em direção ao cartório. Elas não foram vistas. Sigrid se ressentia um pouco de seu pai ter um algum ganho com seu casamento, pois por ele, não aconteceria. Mas ficou em silencio para não magoar Astrid. Depois de tudo encomendado, pararam para tomar um sorvete. Astrid ficou encantada com um vestido que viu que em uma loja ali perto e não parava de falar sobre isso. Sigrid teve vontade de estapeá-la e de lhe contar que em breve poderia ter todos os vestidos que sonhasse. Então voltaram para a fazenda eufóricas, planejando que o dia seguinte seria de começar a preparar a casa para os convidados. Mas Erick chegou e acabou com seus planos, dizendo que a festa seria na mansão da fazenda que eles iriam morar. E disse também que deviam fazer preparativos para que tudo estivesse pronto, pois no dia do casamento, eles já estariam morando lá. Elas se entreolharam mas não disseram nada. Pois ele não devia saber de seus planos até que Sigrid voltasse da lua de mel e viesse busca-las. Astrid não sabia dos planos de sua mãe e de Sigrid, mas desconfiava que era o que elas estavam planejando. Flauber saiu aquele dia da fazenda de Erick muito aborrecido. Não considerava que ele tivesse que pagar por Sigrid. No entanto, tinha medo de entristece-la se insistisse em não ceder em nenhuma de suas vontades. Sigrid podia até não ser filha dele, mas Erick fora o único pai que ela conhecera. Então para o bem ou para o m*l, ele era uma referência. Ele entrou no carro que deixara um pouco afastado da casa e foi para a fazenda que seu pai lhe deixara. Examinou cada cômodo e sua luxuosa decoração. Chegou ao quarto que fora de seu pai e abriu o armário. As roupas dele ainda estavam ali. Ele sentiu o perfume e achou agradável. Sentou-se na cama com uma enorme tristeza por não ter podido conhecer seu pai. Lágrimas afloravam de seus olhos e ele permitiu. Não havia ninguém mesmo para ver. Essa dor de não ter conhecido e convivido com seu pai, ele guardaria para ele, para sempre. Não tinha sentido incomodar ninguém com seus sentimentos. Sua amargura não o traria de volta. Flauber enxugou as lágrimas com as mãos e se levantou e continuou sua exploração. Eram muitos cômodos. Assim que terminou a parte de cima, foi ver o ambiente no andar de baixo. Ele entrou por uma porta e descobriu o escritório do pai. Sentou-se em sua escrivaninha e começou a olhar os documentos. Ali haviam várias tentativas frustradas de encontra-lo. Ele ouviu a porta abrir e ergueu o olhar. Era uma empregada que trazia em uma bandeja uma xícara de chá. Antes de aceitar, Flauber a fitou demoradamente. Depois pegou a xicara. _ Preciso que me faça um favor. _ O que quiser senhor. _ Pegue as roupas de meu pai no quarto dele e doe para alguma família. _ Sim, senhor. – A empregada disse e se retirou. Flauber se recostou na cadeira e passou a pensar em seu casamento, para fugir ao sofrimento. E assim se passou aquele mês.
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