Chase tomou o último gole do vinho e soltou um suspiro lento.
— Já disse que você está engraçado?
Travis riu, olhando a peruca do amigo.
— Já, palhaço.
— Por que não tirou isso antes de vim?
— Fiquei com medo de esquecer de colocar, ou alguém me reconhecer. Não posso estragar tudo.
— Esqueci que sua mente é de um senhor de 90 anos que acha que é um adolescente irresponsável e imaturo.
Chase cruzou os braços e balançou a cabeça, em concordância, com um semblante de quem já conhecia aquela conversa de tentar fazê-lo perceber o quão ruim era sua ideia.
— Já entendi que não concorda com meus métodos, mas preciso analisar algumas questões. Acho que a única forma de tirar as coisas do ambiente profissional, é fazer com que ela saía de férias ou coisa similar.
— E o que pretende com isso? Ou melhor, como acha que vai realizar esse feito?
— Vou induzi-la aos poucos a ideia de que precisa de férias. Pra isso, vou precisar da ajuda de papai. Talvez se ele sobrecarregá-la...
— Alberto não faria isso. E pior, se ele desconfiar do que está fazendo, seu pescoço já era.
Chase ponderou, com a testa enrugada. O amigo estava certo e ele não podia negar. Seu pai o comeria vivo se soubesse da aposta. Seria o fim de tudo.
— Além do mais, seu pai está doente Chase. Não ignore isso. Deveria passar mais tempo com ele e não envolvê-lo em suas merdas.
Travis levantou, deu dois tapas no ombro do amigo e voltou pra cozinha. Por mais que quisesse continuar ali, não tinha nascido rico o suficiente para dar as costas ao trabalho quando bem entendesse.
Chase ouviu as palavras ecoarem dentro de si. Estava sendo tão egoísta que nem mesmo conseguia processar e fazer alguma coisa a respeito do pai, que de fato, estava morrendo e não teria mais do que alguns meses.
Ele respirou fundo e balançou a cabeça, se perguntando porque tinha que agir daquele jeito, porque não podia ser um filho normal que chorava e permanecia ao lado do pai em cada momento da sua vida, que poderia ser o último, ao invés de correr atrás de rabo de saia.
Alberto ainda não estava definhando, claro, mas muito em breve estaria tão mal que não poderia esconder. E então Celine descobriria, pois provavelmente Grace não aguentaria passar por aquela barra sozinha sem sua amiga de longa data e confiança. Mesmo que os irmãos estivessem lá para apoiá-la, ambos estariam afundados em sua própria dor e teriam dificuldade em conseguir apoiar a mais nova.
Tudo aquilo começou a martelar na mente do Chase de forma que ele não conseguiu pensar em mais nada durante as horas seguintes.
Ele voltou ao trabalho, porém com a mente vagando por outro lugar. Por sorte, Celine tinha lhe passado algumas coisas para estudar e isso o manteria ocupado, e longe dela, até chegar em casa.
Exausta, ela foi pra casa, ainda sem notícias do marido. Os dedos tamboliravam enquanto segurava o volante. Mia não queria nem mesmo permitir que ela dirigisse no estado de nervosismo que começou a apresentar, no entanto, sua chefe era bem persuasiva e não deixou que ela fizesse mais do que devia. Ao estacionar na enorme garagem, o carro dele estava lá. Totalmente intacto, sem qualquer amasso. Ela não sabia se ficava aliviada ou com raiva.
Ao entrar em casa pela porta da garagem, lá estava seu elegante marido, deitado no sofá da sala. A empregada saiu da cozinha e foi em direção a sua patroa.
— Ele chegou tem duas horas. Mandou que eu não ligasse pra senhora.
— Eu aqui morrendo de preocupação, e esse idiota dormindo no sofá?
— Sinto muito, patroa.
Celine fechou os olhos e respirou fundo, colocando as mãos na cintura.
— Pode ir meu bem. Não se desculpe, estava cumprindo ordens.
A empregada saiu com a cabeça baixa. Tinha muito apreço por sua chefe, pois sabia que ela trabalhava muito e não merecia o que o marido asqueroso fazia. E a pior parte daquilo, era que ninguém fazia questão de contar.
Celine se virou, não estava disposta a dar uma de esposa ciumenta ou controladora. Não combinava com ela e com suas olheiras. Mas ele gemeu, abrindo os olhos.
— Amor... Você chegou.
Ela cruzou os braços, olhando pra ele, que tinha um sorriso despretensioso no rosto, sua barba e bigode levemente grisalhos e os olhos azuis tão encantadores quanto ela se lembrava.
— Onde dormiu, Victor?
Ele sentou, bem devagar, com a roupa e a face toda amassada, e sussurrou:
— Amor, me desculpe. O pessoal ficou bebendo até tarde e ahn...
— Não tem um telefone? Esqueceu pra que serve isso?
Ela segurou o próprio telefone e depois o colocou com força dentro do próprio bolso.
— Meu telefone caiu na água do banheiro, quando fui urinar. E você sabe que não sei nenhum número de cabeça. E bêbado eu não lembraria mesmo.
— Ainda não respondeu minha pergunta, onde dormiu?
Ele coçou a cabeça, dando um sorriso.
— Sabe, a parte engraçada é que não lembro. Só lembro da parte de voltar chateado porque meu celular molhou completamente, depois bebemos mais e eu acordei no meu carro, há poucas horas. Então segui até em casa, devagar. Quase não estava conseguindo dirigir, o trânsito dessa cidade é um caos, tão barulhento.
— Muito conveniente, Victor. Muito conveniente.
Celine se virou e dessa vez foi para o quarto, sem olhar pra trás.
— Merda.
Victor se lamentou, vendo a esposa sumir da sua frente.
Alguns maridos se sentiriam aliviados em ver a esposa simplesmente indo, sem fazer mais perguntas, mas Victor sabia que aquele silêncio era ainda pior do que passar por uma câmera de tortura e interrogatório.
Celine se trancou no banheiro, sem saber exatamente o que pensar e o que fazer. Era comum qualquer pessoa esquecer do que tinha feito enquanto bêbado, mas ela não conseguia se sentir segura daquele jeito. Alguma coisa não batia, por mais que parecesse que ele falava a verdade.
Ela tomou um banho longo de banheira e, quando saiu, pediu que sua empregada preparasse o quarto de hóspedes. Não estava nem um pouco a fim de dormir na mesma cama que ele.
Ela abriu a porta do banheiro, usando um roupão de veludo, com um homem amarrotado e com cabelo bagunçado aos seus pés.
— Por favor, me desculpe.
— Para com isso, Victor. Levanta.
— Eu não devia ter bebido tanto, eu sei, mas o pessoal estava tão empolgado com novos acordos que fizemos. Eu deixei me levar sabe?
— Dá licença, Victor.
Ela passou ao lado dele, que permaneceu de joelhos.
— Não faz isso, Celine. Eu trabalho tanto, achei que podia me divertir um pouco.
— Não tente me transformar na vilã, Meyer. Você tem todo direito de se divertir com seus amigos e colegas, mas não pode dormir fora, não dá nenhuma notícia por horas e pensar que vou aceitá-lo de braços abertos. Além do mais, você enfatizou que eram políticos e empresários que têm agendas lotadas e não podem remarcar. Mas certamente tem tempo pra passar a noite em claro fazendo Deus sabe o quê.
Ele se levantou, tirando a postura de bom moço e assumindo um olhar mais frio.
— Um de nós precisa ter uma vida social, Celine. Esse casamento está em ruínas e ficar em casa sem fazer nada, só irá condená-lo.
Celine sentiu um impacto forte acertá-la, bem em seu peito.
Ele estava tentando a todo custo desviar a atenção do que tinha feito para que não precisasse dar mais explicações, e sabia que usar o casamento que estava em ruínas era um ótimo jeito de desistabiliza-la.
— O quê quer dizer com isso?
— Que precisamos viver, meu amor. Sair um pouco da rotina. Fazer alguma loucura antes que um de nós perca a cabeça de tanto trabalhar. E se não posso fazer isso com minha esposa, sou obrigado a tomar o tempo dos meus amigos.
Ela cruzou os braços, como se precisasse abraçar a si mesma.
— Eu vou tomar um banho. Espero que possamos conversar depois.
Ele entrou no banheiro, respirando aliviado, com a culpa se sobressaindo. Parte de seu discurso era verdade, era importante ter uma vida fora do trabalho, fazer algo diferente do habitual, mas certamente isso não incluía uma belíssima loira de olhos azuis com quem ele passara a noite inteira e um pouco além. Tinha exagerado na bebida e acordou mais tarde do que tinha pensado, por sorte, sabia que podia contar com alguns colegas que, pelo preço certo, poderia lhe cobrir. Caso alguém perguntasse, ele estava com eles.
Victor se sentia um criminoso comprando seu álibi. Usando seus amigos como pretextos e culpando a bebida por sua amnésia recente. Mas pra ele, não tinha outra opção. Precisava se divertir. E não queria abrir mão do que tinha construído ao longo de tantos anos por uma noite. E ao mesmo tempo, não poderia deixar de viver aquela noite.
Assim como muitos outros bons maridos, ele só estava zelando pelo seu casamento, sacrificando sua lealdade para manter as coisas boas e vivas entre eles. Afinal, aquela circunstância permitia que ele se divertisse e continuasse casado, agradando sua adorável esposa de vez em quando. Era desta forma que a mente de Victor pensava. Esse era o jeito dele de fazer as coisas.
Já Celine, ficou sentada na sacada, olhando a escuridão tomar conta do céu e pensando sobre algumas opiniões que tinha escutado nos últimos tempos e, a mais comum de todas, era de que ela precisava de férias. E percebera com aquela conversa, que também tinha de reviver seu casamento.
Por mais que tenha odiado o fato dele ter se comportado daquele jeito, estava certo em algum ponto. Fazia quanto tempo em que não se tocavam verdadeiramente? Que não curtiam algo juntos? Que esquentavam a cama pra valer?
A maioria tinha percebido, até mesmo seu marido, que o casamento não estava muito bom. Ambos ficavam tão focados em seus trabalhos que não tinham tempo e nem energia para curtir um ao outro. Ela não tirava férias ou folgas e isso impedia que pudessem sair para comer algo, assistir a um filme ou simplesmente ir ao parque admirar a natureza. Coisas simples que não se permitiam mais fazer.
Pensando em tudo aquilo, ouvindo o conselho de sua irmã e de seu chefe, talvez fosse mesmo a hora de férias.
Ela não faria isso de imediato, ou tudo ficaria bagunçado demais e quando retornasse, a coisa seria um caos. Ela começaria a fazer alguns planos para manter tudo organizado e deixar o mínimo de trabalho possível para Mia.
Aquela jovem era muito inteligente e dedicada e ela não tinha dúvidas de que a empresa estaria em boas mãos. Além disso, não pretendia passar mais do que duas semanas fora.
— Mia?
Celine estava com o celular na mão, olhando para o horizonte, com a decisão tomada.
— Diretora executiva?
Mia esbanjou surpresa em sua voz, mesmo que fosse comum a chefe ligar fora do horário de trabalho para pedir alguma coisa que devia ser feita de imediato na primeira hora de trabalho.
— Quero que reserve um hotel e duas passagens. Vou entrar de férias.
— Até que enfim!
— Mas não é agora. Vou manter tudo organizado primeiro. Esses próximos eventos serão o início.
— Pra quando seria a reserva?
— Dois meses.
— Tudo isso?
— Acredito que seja tempo suficiente para cuidar de tudo e convencer algumas pessoas de deixá-la sob minha responsabilidade, enquanto comanda a empresa.
— Deus, é muita responsabilidade. Não sei como agradecer a confiança.
— Seu sorriso largo e sua bondade e honestidade é tudo o que preciso e sempre precisei, Mia.
As palavras fizeram o coração da jovem disparar e depois se aquecer. Ela odiava o fato de que Celine era capaz de lhe causar borboletas no estômago mesmo há quilômetros de distância.
— A Diretora vai me fazer chorar.
Celine deu um sorriso largo.
— Não chore, boba. Você fará um trabalho incrível. Mas temos muita coisa para fazer primeiro.
— Tipo?
— Tipo convencer o Alberto e comunicar minhas férias. É possível e natural que ele queira ficar no comando, se for o caso, irei recomendar que fique ativa com ele, pois é a única que sabe tudo disso, além de mim.
— Caramba, isso é tão emocionante e empolgante.
— Tomara que dê certo.
— Desculpe perguntar, mas o que a fez mudar de ideia?
— Sabe Mia, eu trabalhei em tantos casamentos. Fiz tantos eventos e nunca prestei atenção que, uma relação, ela é construída a dois, todos os dias. Precisamos construir e reconstruir, fortalecer e jamais deixar que derrubem as paredes. Mas é um esforço diário e contínuo e poucos tem essa disposição. E sendo bem sincera, eu não tenho isso há muito tempo.
Mia engoliu em seco, do outro lado da linha. Era difícil ouvi-la falar daquele jeito como se o único problema deles fosse realmente a falta de tempo e trabalho de ambas as partes, quando praticamente todos no escritório, inclusive ela, sabia que na verdade, ele estava deixando algumas brechas naquele muro e não tinha a menor intenção de consertar aquilo.
— Pretende ir com o senhor Meyer nessa viagem?
— Sim. Farei disso uma forma de me conectar novamente com meu marido. Precisamos repensar algumas coisas.
— Ele apareceu, então? Está tudo bem? Precisa de mim?
— Eu estou bem querida. Ele apareceu sim. Algumas coisas que ele me disse me fizeram pensar. Não só ele, claro.
— Ah, entendi. Faz sentido. Acho.
— Escute, vá descansar. Conversamos melhor amanhã.
— Tudo bem, boa noite diretora.
— Boa noite, Mia.
Celine desligou, soltando o ar lentamente.
Mia era mais do que uma assistente, era uma amiga. Celine gostava de manter contato com seus funcionários fora do trabalho, respeitando-os e sempre sendo cuidadosa, claro. Mas com Mia era bem mais fácil e tranquilo, ambas se entendiam muito bem e tinham uma excelente relação de amizade, sem interferir no trabalho. E caso um dia Alberto perguntasse se ela conhecia alguém tão bom e capaz de assumir a empresa quanto ela, certamente Mia seria sua indicação valiosa.
Só esperava que isso realmente fosse acontecer, um dia.