Capítulo 4

1312 Palavras
Júlio trabalhou no automático, somente no fim do expediente, se permitiu pensar no comportamento que vinha tendo desde a morte do pai, não era aquele tipo de pessoa que estava constantemente implicando e ofendendo as pessoas, principalmente mulheres, mesmo que tivesse uma forte opinião sobre elas. Catou a última garrafa de cerveja que tinha na geladeira, foi para a varanda, sentou na cadeira de balanço que era do seu pai, onde ele sempre sentava após um dia cheio de trabalho, já era noite. Trabalhar em Home Office era mais cansativo que ir para o banco. Pode vê o pai sentado naquela mesma posição, ponderando em silêncio enquanto tomava sua cerveja e fumava um charuto escondido de Maria. Não queria pensar nela, não quando seus pensamentos estavam voltados para o homem que lhe deu a vida, amor e um futuro brilhante, seu pai fez tudo por ele e o irmão, eles tinham uma relação perfeita... Até ela entrar na vida deles. Por cinco anos, seu pai passou a visitá-los nos respectivos países que estavam estudando e depois se especializando. Camilo ia visitar primeiro um e depois o outro, ou marcava para que os três se reunissem para passar um final de semana juntos, as vezes em Portugal, outras na Espanha. Quando voltaram, foi um baque descobri que o pai estava casado a mais de um ano, o baque maior, foi ele ter casado com uma mulher que poderia ser sua neta. Mas o pior de tudo, foi que ele e o irmão, quando viram Maria, ficaram extremamente atraídos por ela. A simplicidade de sua roupa, seu sorriso tímido Porém gentil, o olhar doce, os lábios, sonhava com aqueles lábios carnudos desde que a viu pela primeira vez, pensava se eram macios, suaves e... Balançou a cabeça, estava perdendo o foco e não poderia, não quando seu irmão parecia está se perdendo e então, a culpa pelo que planejava fazer o dominou. Fazia um mês da morte do seu pai, um mês e o irmão e ele já planejavam seduzir a madrasta e levá-la para a cama, aquilo era repugnante. Nada justificava o que pretendiam fazer, nem mesmo o fato de que a desejam tanto que aceitaram compartilhá-la entre si. Mas, graças a ele, todo o progresso que Valério estava tendo em ganhar a confiança da ordinária, Júlio os fazia retroceder alguns passos. Estava furioso consigo mesmo por está tão estressado que não consegue se controlar. Talvez, o fato de não ter chorado a morte do pai, tenha sido um fator para que ele se sentisse daquela forma. Júlio só percebeu que a cerveja havia acabado quando entornou a garrafa e nada saiu, xingou alto, era a última e não havia sido o suficiente para afogar suas mágoas. Contudo, ficou ali, na escuridão da varanda, observando o enorme terreno que se estendia até o muro de pedras, o caminho era feito por tijolos portugueses. As plantas naquele horário estavam farfalhando devido ao vento que começava a soprar frio. Precisava de mais bebida, porém estava a uma hora de Belém, outra coisa que ele não conseguia entender, porque Maria não se recusou a morar ali e fez o pai comprar uma casa ou apartamento caro na cidade? Se odiava por fazer aquelas perguntas sendo que era claro que ela está tentando engana-los. Era melhor sair para comprar bebida, se trancar no quarto e beber até cair no sono... Mal Júlio pisou no último degrau das escadas, viu seu irmão vindo na sua direção, calça jeans escuro e camisa de algodão branca lisa. — Onde vai? — Perguntou ao irmão. — Acabou a cerveja, Maria fez compras online e não pediu nenhum tipo de bebida alcoólica. — Valério respondeu. Júlio notou que o irmão parecia preocupado. — Que foi? A conversa com ela não saiu como o esperado? — Júlio perguntou num tom azedo. Valério deu um meio sorriso. — Ela não saiu do quarto desde a hora do almoço e não responde, nem atende as ligações, nem mesmo pra mandar eu me f***r. — Aposto que ela ligou a tv no último volume ou está com fone de ouvido. Está fazendo cena para que tenhamos pena dela. — Júlio diz. — Me espera, vou com você. — Pede ao irmão. Enquanto aguardava o irmão, Valério decidiu mais uma vez bater na porta de Maria. Não era comum e nem saudável uma pessoa ficar tanto tempo trancada sem comer. Bateu uma, duas, três vezes e mais uma vez, sem resposta. Diferente do que o irmão pensa, ele não acreditava que a mulher estava fazendo cena para chamar a atenção deles. — O que está fazendo? — Júlio perguntou, fazendo uma coque samurai que mais parecia um rabinho coto de chihuahua. — Esse troço tá ridículo — Valério zomba e leva um empurrão do irmão, seguido de um “ridículo é você”. Seguiram juntos para fora da casa. *** Estacionaram o carro no portal, a beira do rio. Olharam em volta e pela hora, não havia ninguém, nenhum policial para multá-los e mandá-los de volta para casa. Estavam dispostos a pagar a multa só pra ter um pouco de tempo longe de casa. Bebiam em silêncio enquanto tomavam a cerveja, olhando para o Rio. — Será que... Um dia ele vai nos perdoar pelo que falamos pra ele antes de tudo isso estourar? — Júlio perguntou, lembrando da última vez que falou com o pai, eles discutiram porque Camilo se recusava a ouvir as verdades sobre a esposa. — Desde que nos entendemos por gente, ele nunca deixou que nada interferisse na nossa relação, então acredito que não, quero acreditar que não. — Valério precisava acreditar que o pai os perdoou antes de morrer. — Foi meio pesado fazê-lo escolher entre ela e nós, acabei arrastando você para discussão. Não consigo olhar para ela sem pensar que conseguiu tirar nosso pai de nós, as vezes penso que essa história de levá-la pra cama, submetê-la aos nossos caprichos não é só por desejo, é por... vingança. — Júlio sentia que deveria colocar aquilo pra fora, dizer em voz alta. — Se for isso, estamos sendo ainda mais cretinos. Maria até agora não tem demonstrado ser o que sempre pensamos. Na verdade, estou começando a pensar que existia um motivo muito forte para nosso pai sempre a defender e outra, nunca o vi sentir ciúmes da esposa, nem ela dele. Sempre pareceram cúmplices, amigos e fiéis. Nem com a nossa mãe foi assim. — Valério fala antes de tomar um gole da sua cerveja e continuou, — não sei o que pensar, essa coisa de pandemia, isolamento, pessoas morrendo em toda parte do mundo, a perda do nosso pai. Isso tudo tá mexendo com a minha cabeça e eu , já não sei de mais nada. Só sei que estou me agarrando a história de levar esse plano adiante, eu a quero, seja juntos ou separados, eu não ligo. — É um capricho i****a e mesquinho — Júlio complementa. — Sim, é isso mesmo. — Valério confirma. — Prometo que vou passar a me controlar. Só que... Aquela é a nossa casa, foi onde crescemos, nosso pai tem parte na casa porque a reformou e tornou aquele lugar incrível, porém, ele não tinha o direito de deixar parte dela justamente para a mulher que tornou nossa relação quase impossível. — Júlio promete. — Ela tem direitos irmão, foi casada por oito anos, era uma menina quando casou mas... Eu sei o que sente, sempre tentei ter uma boa convivência mas... Nosso pai parece ter sido adestrado por ela. — Valério fala. Havia muita mágoa em relação a madrasta, assim como outros sentimentos, que se misturavam e os deixavam loucos. Os irmãos ficaram bebendo, sentados no capô do carro até o nascer do dia, quando antes que fossem pegos pela fiscalização, entraram no carro e voltaram para casa...
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR