Pré-visualização gratuita Prólogo
Maria ainda sentia a dor da noite anterior, mas não chorou ao lembrar tudo o que passou. Era algo que estava certo e que só foi adiado, mas o medo de não ter onde morar falou mais alto que a insegurança dentro de sua própria casa. Era ela ou sua irmã. Olhou para Mariana e sentiu o corpo se preencher de amor, não suportava que fosse a irmã a passar por aquilo, tão pequena e frágil, sabia que ela ouviu os gemidos do pai e o choro silencioso dela. A garotinha não a questionou o porquê estavam saindo de casa com uma bolsa e sem nenhum dinheiro. Nem questionou o motivo de terem dormido na rua na primeira e segunda noite, nem porque não foram para a escola depois que saíram de casa ou melhor, do inferno, no mesmo dia havia entrado em uma delegacia e feito a denúncia contra o pai, mas o policial a olhou com malícia e disse entender porque o homem cedeu a tentação. Mais uma vez, deixou a culpa tomar conta de si, ela foi a culpada por tudo aquilo. Sem dizer mais nada, saiu segurando a mão da irmãzinha e foi atrás do abrigo. Ofereceu seus serviços em várias casas e foi rejeitada por todas, a última foi um senhorzinho muito gentil que abriu a porta e ofereceu abrigo, mas antes mesmo que pudesse entrar, notou o olhar de malícia sobre seu corpo. Se ela entrasse, tudo o que aconteceria com ela e a irmã, seria sua culpa. Os sinais estavam evidentes, aprendeu a identifica-los e não voltaria a cometer o mesmo erro.
Agora estava ali, no quartinho escuro e simples de um puteiro. O único lugar que a acolheu, em troca teria que vender seu corpo para garantir comida e um teto. Clara foi muito gentil quando Maria passou pela porta e soube que algo de muito r**m aconteceu para que saísse de casa carregando a irmãzinha. Porém, ao notar a expressão triste e abatida de Maria, soube o que aconteceu. Já recebeu muitas mulheres assim na sua casa, era a primeira tão nova.
Enquanto Maria estava trancada no quarto, Clara pensava o que fazer com sua nova hóspede.
Era uma garota bonita que faria muito sucesso com os clientes, seria um grande ganho para a sua casa, mas ela sabia que essa vida só destruiria ainda mais a pobre criança. 14 anos, com uma responsabilidade e um trauma tão grande. Não perguntou pela mãe da garota, conhecia casos assim, família pobre, pai tóxico e abusivo. Sentiu náuseas ao imaginar o que aquele homem nojento fez com a própria filha. Não se surpreendeu quando a garota confessou o abuso, parece que isso já vinha acontecendo, não de forma tão invasiva, mas era abuso. Quando Camilo entrou no salão, indo direto para o bar, sua mente aflita clareou. O conhecia tempo suficiente para saber que era um protetor muito bom quando se agradava de uma de suas meninas. Também sabia que ele era bem sucedido, viúvo, pai de gêmeos e com um senso de justiça que só não é maior que sua líbido. Um homem de 56 anos, viril e charmoso. Maria era uma criança, ele com certeza não a aceitaria ainda mais carregando a irmãzinha e a garota? Será que aceitaria ser protegida por um homem poderoso, fazer o que estava disposta a fazer, mas apenas com um homem e não com dois e três todas as noites? Respirou fundo e seguiu ao encontro do homem…
Camilo escutou toda a história, sentiu o almoço revirar no seu estômago. Odiava homens que se aproveitavam da fraqueza de uma criança e sentiu que seu almoço seria devolvido quando Clara sugeriu que ele se tornasse o protetor daquela criança.
— É uma criança. — Se ouviu falar.
— Aquela garota pode ser tudo, menos criança. As circunstâncias a fizeram amadurecer muito rápido. — Clara retrucou. — Ela seria exclusiva sua, é uma garota muito linda, parece um anjo.
— Mas ainda sim é menor de idade! — Aquilo era um grande problema. — Posso ser preso se me envolver com uma adolescente. — Aquilo era uma recusa e Clara começou a entrar em pânico.
— Antes de decidir, porque não a conhece primeiro e outra, a coitada tentou pedir ajuda da polícia, mas eles foram bem rudes e ainda disseram entender o porquê o pai fez o que fez. — Clara jogou sua última carta.
Camilo não queria conhecer ninguém, seria movido por seu instinto de proteção e havia jurado não fazer mais isso depois da esposa, uma verdadeira p*****a que morreu num acidente de carro, ao lado do amante.
Só que Clara já havia mandado chamar Maria, ele então se concentrou no seu uísque, sempre pedia o mais caro, contudo, sabia que era o pior que tinha no mercado. Sentiu o corpo tremer, louco para fugir daquela situação.
— Maria — Clara o cutucou, o homem se virou e olhou na direção que sua amiga estava apontando e seu mundo caiu, a beleza da garota era tão extraordinária que soube naquele momento que correria todos os riscos e faria o impossível para tê-la. Não só os instintos protetores gritaram alto mas o seu instinto s****l mais selvagem foi despertado.
Ele estava perdido…
O homem assentiu, nesse instante Clara se voltou para Maria e pediu que se aproximasse. A garota tremia, sabia o que aquilo significava, era o seu primeiro cliente. Ainda não estava pronta mas teria que se manter firme, pois era o único lugar que tinha no momento e não poderia correr o risco de ser expulsa, apesar de sentir que Clara não era esse tipo de pessoa.
Quando Maria chegou até eles, a dona do puteiro os apresentou.
— Maria, esse é Camilo, um velho amigo.
— Põe velho — o homem brincou, olhando bem nos olhos castanhos de Maria. Ela baixou o olhar, nervosa.
— Querida — Clara olhou para Camilo buscando como proceder no momento e o homem, assentiu. Se tornou um homem perdido no momento que viu a garota. — Camilo está disposto a ser seu protetor, se você quiser, é claro.
Maria levantou a cabeça, olhando para a mulher sem entender.
— Você será minha protegida. Ficará comigo e mais ninguém. — Camilo explica com sua voz de barítono.
Maria, passando por cima de qualquer nervosismo, olhou para Camilo com mais atenção, aparentava ter no máximo 50 anos, bem vestido e bonito, cabelos castanhos escuros com alguns fios grisalhos. Alto, forte e...
— Você tem duas opções: ficar aqui e dormir com um homem nojento todos os dias ou ir com ele, garantindo que sua irmã ficará segura enquanto o serve bem. — Clara interrompeu sua avaliação e lhe deu uma escolha.
— Eu vou cuidar bem de vocês, mas você tem que ser uma moça agradecida. — o homem com voz de barítono falou.
— Pode ter problemas em abrigar duas menores de idade. — Maria observou, nervosa.
— Você vai ser minha filha adotiva, sua irmã também. Mas é o seu corpo que eu estou negociando. Posso garantir que viverá bem e em segurança com sua irmãzinha. — O homem falou, mas havia algo estranho em sua voz, como se pedisse desculpas.
— Vá querida, aqui não tem nada para você além de desgaste físico e emocional. — Clara a incentivou e vendo que não tinha muita escolha, a garota aceitou.
Se surpreendeu quando o homem a mandou arrumar suas coisas e da irmã, dizendo que ela iria naquele momento com eles.
Naquele dia, Maria e a irmã foram morar numa casa longe da cidade. Poderia ser um sítio mas não havia animais e nem hortas. Era uma casa grande, de alvenaria e bem desenhada.
Camilo deu um quarto para Mari e outro para Maria, estava nervoso, era a primeira vez que fazia algo tão imprudente, precisava tomar um banho e clarear a mente, pensar no que fazer agora, qual passo tomar…
A irmã de Maria ainda estava muito assustada com tudo, mas também estava muito cansada. Dormiu após tomar um banho e comer a comida que o homem comprou no caminho, a garotinha nunca tinha comida tão bem como naquele dia. Maria viu os olhos da irmã ao vê a casa, a comida e um quarto com uma cama quentinha, macia e nova, era assustador e ao mesmo tempo fazia crescer a esperança de dias melhores, em troca, ela só teria que ceder o seu corpo para o homem que tinha um quarto na frente do seu. Olhou para as chaves na sua mão. Todas as cópias e a chave mestra, ela dormiria tranquila sabendo que a irmã estaria segura em seu quarto e cuidaria para Camilo ficar sempre entretido consigo. Ela seria a amante perfeita para garantir aquele teto para Mari.
Ela também tomou banho depois que foi para o seu quarto, estava pensando sobre a sua situação quando a porta do quarto abriu.
— Está aberta — o homem estava surpreso, acreditou que ela a trancaria, assustada com toda a situação.
— O senhor disse que ela nunca deveria estar trancada, pois poderia precisar de mim. — Ela o lembrou do que falou quando lhe entregou as chaves.
— Eu disse — parecia se lembrar somente naquele momento. Sim, ele disse, falou aquilo para lembrar assim mesmo e a ela que tinham um acordo. Mas agora, a vendo tão frágil e cansada, na cama de casal, notou que a garota sequer pensou em rejeitá-lo, gemeu ao vê-la com um pijama surrado, sentada na cama. Extremamente sexy e linda, a pele dela era tão alva, sua boca carnuda e rosada parecia tão apetitosa.
Maria não se deixou abalar pelo olhar lascivo que o homem estava lhe dando, eles tinham um acordo, apesar de sentir o nervosismo por está com um homem depois do que seu pai lhe fez, ela se manteve firme, afinal, ele não poderia ser pior que o seu pai…
Algumas semanas depois, Camilo deu a boa notícia às irmãs, ele havia conseguido a guarda provisória delas. Mari pulou no colo do homem que as acolheu, dando gritinhos de alegria. Maria, deu apenas um esboço de sorriso, deixou seu dever de casa na bancada da cozinha e foi agradecer Camilo com um abraço. Sentiu o cheiro bom dele quando foi envolvida por seus braços. Tinha tanto medo dele desistir do acordo, temia muito por não estar cumprindo sua parte no acordo.
— Obrigada — agradeceu ao homem, que com um sorriso, beijou o topo da sua cabeça. Mari sempre estava atenta ao casal, Maria teve uma conversa séria com a irmã três dias depois explicando que Camilo era seu marido e que agora viveriam ali, até quando ele desejasse.
Mas a garotinha duvidava, passou a ficar mais atenta ao casal, mas eles nunca se beijavam.
— Agora sou sua filha?— Mari perguntou esperançosa.
— Sim — o homem respondeu a garotinha que, em tão pouco tempo, tomou seu coração. — Agora vá se arrumar para ir a escola, Carla está quase chegando. — Camilo avisou a menina, que desceu correndo escada acima.
Ele olhou para Maria e para a bancada, a puxou novamente para si e abraçou com força.
— Maria, sua diretora ligou avisando que não vai para escola há dias.
Ele não sabia mais o que fazer com o seu anjo, Maria estava ficando cada vez mais reclusa.
— Eu não me sinto bem lá. — A garota fala, com o rosto afundado no peito dele.
— Temos um acordo — ele a lembra.
— O acordo era que eu seria sua amante e não que deveria ir a uma escola, eu odeio a escola, os alunos tentam a todo custo ficar comigo. — Ela retruca e ele se preocupa.
Maria estava incomodada com o fato de ainda não estar cumprindo sua parte no acordo. Na primeira noite, eles apenas conversaram e dormiram, Camilo teve que ter muito autocontrole para não tomar a garota para si, mas o instinto de proteção falou mais alto que o desejo. Faz quase dois meses que as irmãs estavam morando com ele, dormia todas as noites com Maria, depois que descobriu os pesadelos que a garota tinha, foi somente na quinta semana que ele conseguiu que ela falasse deles, ela contou que sonhava com o pai, a pegando por trás e a penetrando, ela não conseguiu concluir o relato, tremia com as lembranças da primeira e única vez que foi submetida ao s3x0 an4l. O coração dele se apertou, ficou com uma fúria que sabia, nunca se aplacaria, então decidiu que Maria deveria aproveitar sua adolescência, já havia a colocado na escola mas ela sempre faltava, não tinha como fazer o controle de sua frequência porque saía bem cedo para o trabalho. Não aceitou que ele contratasse uma secretária do lar, preferia ela mesma fazer as tarefas. Somente há alguns dias notou que Maria evitava contato com outras pessoas além dele e da irmã, principalmente com outros homens.
— Maria, depois que Mariana for para a escola, precisamos conversar. — Camilo avisou e ela assentiu.
***
O escritório sempre foi o local ideal para ter conversas sérias com seus filhos, que estavam fazendo especialização fora do país, um em Portugal e outro na Espanha. Mas naquele momento, precisava pensar onde ter a conversa com seu anjo. Estava preocupado com Maria, ele queria que ela tivesse uma vida normal. Não tocou nela desde que chegou, apenas conversam e dormem juntos. Camilo já tentou deixá-la na madrugada, mas a garota sempre ia atrás dele, assustada.
Ligou para uma amiga, psicóloga e psiquiatra, especialista em cuidar de pessoas como Maria. Respirou profundamente ao lembrar de que deveria conversar com Graça, sua advogada, que está tratando do caso das irmãs. "Não toque nessa garota se você não quiser ser preso", "seja apenas o guardião dela, apenas isso".
No fim, acabou ficando no escritório para ter a conversa com Maria, que entrou no escritório meio acanhada, sabia que ouviria outro discurso sobre a importância de ir à escola.
— Por favor, não me obrigue a ir para aquele lugar. — Ela implorou.
— Você pode estudar em uma escola só para garotas. — Camilo sugeriu, mas sequer sabia se existia uma em Belém. Os olhos dela brilharam. Sua intuição estava certa, Maria tinha medo de ter contato com outros homens. — Com uma condição. — Ele finaliza.
— Qual? — Maria perguntou, pensando saber o que era.
— Fazer terapia uma vez por semana.
- Não — Maria se recusou. Ela não iria falar sobre o que aconteceu com ninguém, ela só tinha que ficar em casa, segura, a disposição do homem que a resgatou e lhe deu a segurança que precisava.
— Então você vai ter que ir para a escola mista. — Camilo se odiou por fazer aquela ameaça...
No fim, depois de muita discussão, Camilo convenceu Maria a começar a terapia, porém, não encontrou uma escola apenas para garotas. Maria acabou estudando em EAD, na segurança da casa que se recusava a deixar. Ele tentou devolver a vida aquela Garota e sua juventude. Mas Maria já havia esquecido como viver há muito tempo...
A garota queria ser motivo de orgulho ao Homem que um dia o faria sua, aceitaria tudo o que ele estava oferecendo, nos seus termos, mas conviver em sociedade era algo que ela não sabia se seria capaz de voltar a fazer.
4 anos depois …
Maria olhou seu reflexo no espelho, os olhos estavam enevoados pela tristeza que a acompanha desde que seu pai a destruiu. Levou quatro anos para que ela entendesse que o que aconteceu, não foi culpa sua. Que não era a p**a que seu dizia que era, sorriu, um sorriso quase sem brilho mas o melhor que conseguiu esboçar, queria está sorrindo nas fotos do seu casamento. O cabelo estava preso numa trança raiz, um arco de diamantes adornava sua cabeça, um vestido longo, branco e simples. Era o dia do seu casamento, Camilo pediu sua mão no dia do seu aniversário de 18 anos, quando eles se relacionaram como um casal pela primeira vez. Antes disso, seu futuro marido se recusou a ter qualquer tipo de i********e que não fosse de afeto, cuidado e proteção. Antes de fazê-lo, cuidou dela e de Mari, que agora estava com 12 anos e era uma garota extremamente feliz. Ver o sorriso da sua irmã, fez tudo valer a pena. Maria também se formou na escola e fazia faculdade em EAD, ainda não conseguia ficar perto de homens que não fossem o seu futuro marido, ela entrava em pânico. Sempre se sentiu protegida por Camilo, aprendeu a ter grande apreço por ele, a gratidão se tornou amor e sua primeira vez com ele, foi algo inesquecível, ele sempre respeitou os seus limites. No primeiro ano que completou morando com ele, se sentiu extremamente culpada e incomodada,eles tinham um acordo e ela não estava cumprindo sua parte, mas apesar do que ele falou no dia que se conheceram, Camilo nunca cobrou nada dela, até no dia que ele tirou sua virgindade, sua primeira vez de verdade, ele pediu permissão e prestou atenção em cada reação ao toque dele. Era só quando ele a abraçava pelas costas que ela entrava em pânico, morria de medo de mais uma vez ser submetida só sexo anal, nunca esqueceu a sensação que sentiu quando o pai a sodomizou, provavelmente, nunca esqueceria. Camilo nunca ultrapassou o seu limite e Maria o amou ainda mais por isso.
— Está na hora — Clara avisou. A mulher passou a ser presença constante na sua vida. Se tornou a única amiga além de Marina, que faz parte de sua vida.
Ela seguiu a mulher em direção ao jardim que ela mesma cultivou nos últimos anos, jardinagem se tornou um hobbie no decorrer dos anos, aprendeu vendo tutoriais no YouTube, o jardim era seu lugar especial, seu fugiu das lembranças que ainda teimava a atormentá-la, era grata a Clara por colocar aquele homem que estava a sua espera em seu caminho. Camilo estava ao lado do juiz. Sorriu, ao vê-la e ela retribuiu o sorriso, estava feliz…