Lúcifer
Saio de casa e vou para a boca. Já estava de manhã e a princesinha ainda dormia — não quis acordá-la, é melhor deixar ela descansar um pouco. Já preparei o café dela e coloquei um "vapor" (vigia) na porta de casa para que ela se sinta mais segura.
Às vezes fico com dó dela: a mina não tem um minuto de paz. Sempre acontece alguma coisa, e nunca é só uma — são duas ou três coisas ruins em seguida!
Paro a moto, desço dela, entro na minha salinha e vou dividir o pagamento de todos. Esses dias, a venda de drogas está indo muito bem, e a exportação também! Está dando muito lucro: dá para pagar os vigias e ainda sobra bastante. Estou até planejando uma obra na escolinha do morro e comprar várias cestas básicas para distribuir aos moradores!
O dinheiro do assalto de ontem foi à parte; vou repartir um pouco para cada um e entregar junto com o pagamento regular.
Depois de separar todo o dinheiro, fui chamando um por um para receber o valor, e logo fiquei livre.
Ainda sobrou bastante, então mandei chamar um pedreiro e peço para a princesinha levá-lo até a escolinha mostrar o que precisa ser feito. A mina nem sabe exatamente o que fazer, mas só mandei para que ela não fique sozinha em casa sem nada para fazer — para não ficar doida. Mandei o Faísca ir buscá-la e levá-la até lá.
Mandei a Ju deixar como vigia maquiagem e uma roupa dela, mas não falei o porquê nem para quem. A pirralha me xingou, falando que se fosse para minhas "putas", eu ia ver com ela. Tranquilizei-a dizendo que depois daria mais dinheiro, e ela pulou de alegria.
Foguete: TAVA COMENDO A MINHA FILHA, FILHO DA p**a? — já chegou gritando.
Lúcifer: Tá maluco? — levantei da cadeira — Tá gritando aqui por quê?
Foguete: ESSA p***a AQUI TAMBÉM É MINHA! EU GRITO NA HORA QUE EU QUISER!
Lúcifer: SUA p***a UM c*****o! É MEU, POR MÉRITO MEU! EU FUI HOMEM O SUFICIENTE PARA FICAR E CUIDAR DO MORRO, DIFERENTE DE VOCÊ QUE SE DIZ O SUB FODÃO — FOI EMBORA E SÓ APARECIA QUANDO TINHA BAILE!
Foguete: MÉRITO SEU? O MORRO EU HERDEI COM O SEU PAI, ERA DELE E MEU! VOCÊ ERA SÓ UM MULEQUE!
Lúcifer: SÓ ASSIM PARA VOCÊ TER ALGUMA COISA! EU CONQUISTEI ISSO AQUI DEPOIS DA MORTE DO MEU PAI. TUDO AQUI É MEU E DOS MORADORES! VOCÊ SÓ ESTÁ NO CARGO PORQUE EU TE CONSIDERAVA, MAS AGORA QUERO QUE SE f**a-SE! — entram alguns homens assustados, olhando para nós.
MT: Qual foi aí? — entra junto de dois homens.
Lúcifer: Leve esse maluco daqui antes que eu dê dois tiros nele! — os homens pegam Foguete pelo braço e vão tirando-o dali, enquanto ele tenta se soltar.
Foguete: EU VOU PEGAR O MORRO PRA MIM E VOCÊ SE CONSIDERE UM HOMEM MORTO! VOCÊ E AQUELA p*****a! EU VOU LEVAR ELA PARA LONGE DE VOCÊ, FILHO DA p**a! — fala sendo arrastado, e eu ameaço ir para cima dele, mas o MT me segura.
MT: Calma, mano. — fecha a porta e fica de frente para mim.
Lúcifer: Calma um c*****o! Você viu como ele falou dela? — tentei abrir a porta, mas ele não deixou e trancou-a de chave.
MT: Senta aí, Diego. — respiro fundo e me sento — O que foi isso, mano?
Lúcifer: Esse filho da p**a bateu na princesinha e tá ameaçando pegar o morro de mim!
MT: Onde ela está agora?
Lúcifer: Tá na minha casa, o Flavin tá de guarda dela.
MT: O Flavin?! — olhou assustado.
Lúcifer: O que tem?
MT: Ele é parceiro do Foguete e vai contar para ele onde ela está!
Peguei o rádinho e mandei que quem estivesse perto da minha casa ou da escolinha fosse lá buscar a princesinha.
(...)
Luna
— O Lúcifer mandou eu te levar lá. — fala com as chaves de um carro na mão.
Luna: Mas ele tinha falado que o meu irmão viria me buscar.
— Seu irmão teve que fazer outro serviço. — Olhei desconfiada para ele, que revirou os olhos. Logo concordei com a cabeça, murmurando um "tá". — Antes, pode me ajudar a tirar essas sacolas do porta-malas? — Concordei com a cabeça e me aproximei.
Luna: Que saco... O que você tá fazendo? — perguntei depois que ele me empurrou para dentro do porta-malas e bateu a porta na minha cabeça, fazendo-me desmaiar.
(...)
Acordei e comecei a gritar, mas parecia que ninguém me escutava. Quando cansei de gritar, escutei a voz do meu pai e o carro voltou a andar.
Procurei o celular e ele estava no meu bolso. Tentei ligar para alguém, mas não conseguia por causa da falta de sinal. Logo lembrei das séries policiais que assistia quando era menor, tirei o forro da mala perto da porta e vi o farol traseiro. Me encolhi e chutei-o, quebrando-o, e consigo ver pelo buraco: estávamos em uma estrada de terra, com mato dos dois lados — não havia ninguém além do carro onde eu estava.
Liguei a lanterna do celular e olhei ao redor, vendo uma pequena barra de ferro ali dentro. Segurei-a e fiquei esperando o carro parar. Quando isso aconteceu, senti alguém na parte de trás do veículo; quando a pessoa abriu o porta-malas, bati com o ferro na cabeça dela e saí correndo — mas logo fui parada por alguém que me jogou no chão.
— Espertinha você! — riu, prendendo minhas mãos com alguma coisa.
Ele se levantou de cima de mim e me ergueu, segurando meus braços. Olhei ao redor e vi uma casa no meio dos matos; ele me leva até lá e me joga em um sofá, saindo em seguida.
Com medo de que ele visse e pegasse meu celular, peguei-o do bolso (já que minhas mãos estavam para trás) e coloquei-o dentro do meu shorts, na parte da b***a, debaixo da calcinha. Meu cabelo estava solto, então não deveria ser visível o volume, pelo menos eu acho.
— Já chegamos! Certo. — fala no celular, e vejo a televisão ligar, com a cara do meu pai estampada na tela.
Pedro: Eu só estou fazendo isso pelo seu bem!
Luna: Bater em mim, me jogar no porta-malas e me sequestrar? Isso é pelo meu bem? Me poupe!
Pedro: Você ainda não entende, minha jóia. O papai vai fazer com que você tenha um futuro melhor do que esse que você planejava.
Luna: Cheio de traumas? Por favor, né? Quem tem que decidir o que eu quero sou eu — não sou mais uma criança!
Pedro: Eu vou matar o Lúcifer e pegar o morro. Enquanto isso, você vai ficar na casa da tia Ivonete; manda um beijo pra ela por mim. Quando terminar, te ligo.
Luna: VOCÊ VAI O QUE?! — ele desliga.