Luna
Vou para a casa da minha avó a pé mesmo – estou passando tanto tempo aqui nesse morro que já to conhecendo todas as ruas! Faz tanto tempo que não vou no asfalto...
Chego lá e vejo o José brincando na frente de casa, e a minha avó sentada em uma cadeira de balanço olhando ele brincar com algumas crianças da rua. Quando ele me vê, corre até mim e me abraça.
Luna: Você tá bem? Como foi o seu dia hoje? – fico do seu tamanho olhando nos seus olhos
José: Foi muito bom! A vovó é muito legal! – volta correndo para brincar com os meninos
Vou até a minha avó e ela sorri para mim.
Vó: Por que não me disse que esse garoto é o seu irmão?
Luna: Como sabe...
Vó: Ele é a cara do seu irmão quando era criança...
Luna: Eu descobri ontem. Ele se comportou?
Vó: Sim, ele é uma criança muito boa. Traz ele aqui mais vezes!
Luna: Claro!
Ficamos caladas vendo ele brincar de bola com os meninos e logo lembro de uma coisa.
Luna: Vó, antes dos meus pais morarem naquela casa que eu estou morando, quem morava lá?
Vó: Ninguém. Eles que construíram aquela casa do zero – ainda lembro do seu pai se matando de trabalhar para comprar os materiais. Eles eram pessoas tão boas...
Luna: O tempo faz as pessoas mudarem... Eu já estou indo, tá? Tenho que resolver umas coisas.
Vó: Mas já?
Luna: Sim, outro dia venho aqui. – ela concorda com a cabeça e eu dou um beijo em sua testa – Tchau vó
Vó: Espera só um pouco aí. – fala levantando com dificuldade e entrando em casa
Minutos depois ela sai com uma sacola com um bolo dentro.
Vó: Toma. – me entrega
Luna: Não precisa, vó...
Vó: Precisa sim! Esse menino precisa engordar, tá muito magrinho. E você não ache que academia faz bem não – vejo você descendo essa sua quase todo dia indo e voltando da academia. Aposto que tá fazendo aquelas dietas malucas também! Você tem que comer bolos, doces e salgados. Vai ficar muito magra só vivendo na academia.
Rio com a indignação dela e concordo em levar o bolo. O José se despede dela com um beijo na bochecha e vamos embora para casa.
José: Sabe, eu gostei muito de ficar com você, tia Princesa – você é muito legal!
Luna: Que bom meu amor. – sorri
Chegamos em casa e fomos para a cozinha. Eu estava com muita fome, então parti um pedaço do bolo para mim e um pra ele, que comeu depois de lavar as mãos, claro!
Luna: Vamos, vou dar um banho em você antes que durma. – falo vendo ele cansadinho
Vou para o quarto e dou um banho nele, colocando uma roupa quentinha das que a Ray trouxe. Depois olho a mochila dele e vejo que tinha uma chupeta lá.
Luna: De quem é isso? – olho confusa para ele
José: Minha – pega da minha mão e coloca na boca, sentando na cama
Não acredito que a minha avó tenha comprado uma chupeta para ele! Pego ele no colo rindo e desço para a sala depois de desligar a luz, coloco ele deitado no sofá e ligo a TV, colocando um desenho para ele assistir.
Luna: Eu vou aqui em baixo, tá? Qualquer coisa me grita
Ele concorda com a cabeça e eu vou para o porão novamente. Vejo que estava tudo como eu tinha deixado na última vez que vim aqui. Vou até a caixa que tinha pegado antes e mexo nela novamente, tirando as coisas de dentro para ver com atenção.
Tinha ursinhos, chupetas, pulseirinhas com nomes... Os nomes estavam ilegíveis, então não entendi o que estava escrito. Logo vi uma manta e quando a puxei de dentro da caixa caiu uma foto. Peguei-a: era a minha mãe segurando duas bebês em uma cama de hospital. Estranhei e virei a foto, vendo um escrito:
Jade e Safira, minhas filhinhas amadas.
Fiquei em choque! Eu tenho uma irmã?! Alguns meses atrás eu pensava que era filha única, esses dias descobri três irmãos... E uma irmã gêmea ainda por cima!
Por que meus pais nunca me falaram nada? Me sinto muito enganada e frustrada!
Escuto a voz de Lúcifer e subo deixando tudo lá – estava com muita coisa na cabeça.
Lúcifer: Oi, o que foi amor? – coloca a mão no meu queixo levantando o meu rosto
Luna: Nada.
Lúcifer: Fala, Luna, o que aconteceu?
Apenas respiro fundo e pego em sua mão, levando-o até o porão. Ele fica surpreso quando vê o cômodo. Pego a foto e entrego a ele, que fica assustado.
Lúcifer: Você tem uma irmã gêmea? p**a que pariu!
Luna: Você sabia sobre isso?
Lúcifer: Claro que não! Tô tão surpresa quanto você.
Luna: Não entendo o porquê eles fizeram isso. Por que esconder uma coisa dessas e onde tá essa menina?
Lúcifer: Eu não sei por que fizeram isso, amor. Mas a gente vai descobrir onde ela tá. – me acalma
Subimos e vimos o José dormindo no sofá, com a TV ligada passando desenho sozinho.
Lúcifer: E essa chupeta aí? – ri
Luna: Minha vó – reviro os olhos rindo
Lúcifer: Vai ter janta?
Luna: Vou fazer ainda.
Lúcifer: Queria sair com você pra lanchar em uma lanchonete. Topa?
Luna: Mas e o José?
Lúcifer: A gente leva
Luna: Certo, vou me arrumar.
Subo as escadas e tomo um banho. Depois faço um penteado rapidinho só na parte da frente e me troco: coloco um short alfaiataria e um cropped corselet preto, um papete nos pés, passo hidratante, desodorante e perfume, além de uma maquiagem basiquinha com delineado, depois desço.
O José tava com um conjunto de moletom preto da Nike – só coloquei um tênis branco da Nike nele e penteie o cabelo. Acordei ele e saímos de casa.
Depois de trancar toda a casa, coloco o José no banco de trás do carro de Lúcifer e coloco o cinto nele, já que não tem cadeirinha. Vou para o banco da frente e sento, logo ele dá partida.
Vejo ele todo bobo sorrindo sozinho enquanto dirigia – eu acho muito fofo e decido perguntar:
Luna: O que foi? – sorri
Lúcifer: Já imaginou a gente com a nossa família? Eu, você e dois pivetes correndo pela casa? – sorri bobo
Luna: Te amo – beijo sua bochecha sorrindo
Logo chegamos: era uma lanchonete de frente para a praia. Saímos do carro, ele tira o José do banco e tranca o veículo.
Por alguma razão chamamos atenção do pessoal que estava por perto. Sentamos em uma mesinha e Lúcifer vai fazer o pedido: pedimos dois podrões, um patrão de batata frita e uma coca grande. O José queria um açaí – eu não queria deixar já que estava frio, mas Lúcifer comprou mesmo assim!
Ele volta trazendo as coisas e começamos a comer conversando.
Lúcifer: Mês que vem vai ter um baile – mais um daqueles onde vestimos roupas formais... – fala e dá uma mordida no lanche
Luna: Um baile de gala, no caso?
Lúcifer: Lá ele! – ri
Luna: Vai te f***r – ri
Lúcifer: Olha o menino, Luna! – olha sério
Luna: Desculpa, José
José: Fica de boa – eu olho incrédula
Lúcifer dá uma gargalhada alta chamando atenção dos outros, e eu bato nele de leve para ele parar.
Logo terminamos de lanchar e fomos dar uma volta a pé pela ruazinha que fica na frente da praia. Mais a frente, sem motivo nenhum, a polícia pára Lúcifer e revista ele com muita brutalidade, enquanto eu via tudo com o José no colo.
Luna: Ei, calma! Ele não fez nada. – falo quando fazem Lúcifer deitar no chão por nada
Policial: Tem passagem pela polícia?
Lúcifer: Não.
Policial: Tem certeza? Vamos ver aqui, se for mentira...
Lúcifer: Não é mentira. – fala puto já
Luna: Tem como parar? Isso aí já é abuso de autoridade! – falo quando ele levanta os braços de Lúcifer que estava nas costas, e ele faz cara de dor
Policial: Você fica calada, quer ser acusada de desacato! – fala sério
Luna: Mas acontece que eu não te desacatei em nenhum momento, ao contrário de você. Já leu a Lei n° 13.964, Art. 317? Se você já viu que ele não tem nada, por que não libera ele?
Um policial leva o outro para um lugar um pouco afastado e fala "baixo", mas eu ainda escuto:
Ela tem cara de advogada ou de juíza, melhor liberar antes que dê r**m pra gente. – o outro concorda com a cabeça
Eles voltam e liberam Lúcifer; saímos andando.
Lúcifer: Tá louca? Eu poderia ser preso.
Luna: Eu sabia o que tava fazendo.
Lúcifer: Onde aprendeu falar daquele jeito? – ri
Luna: Assistindo muita série – falo e ele ri negando com a cabeça
Logo voltamos para o carro e fomos pra casa.