Luna
Minha mãe fechou a porta e então fomos de pé até uma lanchonete que tinha ali perto. Estranho que todos que nos viam olhavam com uma cara estranha ou cumprimentavam a minha mãe — acho que era pelo fato dela já ter morado aqui.
Entramos na lanchonete e os olhares foram todos para a gente; fiquei até com vergonha. Minha mãe caminhou até a bancada e logo o velhinho abriu um sorrisão:
— Você por aqui, patroa? — Patroa?
Vejo ela sorrir e logo faz o pedido, pedindo para eu esperar em uma mesinha que estava vazia. Um grupo de caras entra e vai em direção a onde a minha mãe estava, cumprimentando-a. Um dos rapazes beijou a testa dela, ela falou algo e ele me olhou sem expressão alguma, falando como um moço que atendia. Minha mãe veio até mim com os pastéis e saímos enquanto comíamos.
Luna: — Quem era? — pergunto e dou uma mordida no pastel.
Eu e minha mãe nunca escondemos nada uma da outra.
Diana: — Eu era amiga da mãe dele quando morava aqui. — fala simplesmente.
Luna: — Muita i********e pra quem se reencontrou depois de anos, não?
Diana: — Como assim, Luna? — fala me olhando com uma sobrancelha erguida.
Luna: — Nada não, mãe. — falo me entupindo com o último pedaço.
Logo chegamos em casa e vimos o meu pai falando no telefone:
Pedro: — Mas os pacotes já estão a caminho? — pausa — Ah sim, ele precisa estar aqui antes de sexta-feira. — fala e desliga.
Luna: — Oi, pai. — dou um beijo na sua bochecha.
Pedro: — Oi, filha. Tava passeando?
Luna: — Fomos comprar pastel. — falo e ele sorri.
Pedro: — Amor, precisamos conversar sobre os... — subo as escadas e não escuto mais nada.
Olho o meu celular e não vejo nenhuma mensagem, então resolvi só rolar o i********: mesmo e postar uma foto que tirei há um tempinho. Posto nos stories e vou assistir My Little Pony — não me julguem, eu adoro desenhos.
(...)
Acordo e olho para a janela: ainda estava amanhecendo. Olho o celular e eram 4h50 da manhã. Não vou conseguir dormir, então levanto e tomo banho. Coloco uma leggins, um top, um moletom e calço um tênis. Passo corretivo, rímel e blush só para tirar a cara de quem acordou agora. Pego o celular, o fone de ouvido, passo perfume e hidratante labial, desligo a luz e saio de casa.
Quando eu morava na cidade, todo dia de manhã cedo saía para caminhar um pouco na praia. Hoje, como estou um pouco distante da praia, vou caminhar aqui no morro mesmo. Fecho o portão com cuidado e vou andar — só assim conheço um pouco daqui.
(...)
Olhei no celular e já eram 6h30 da manhã; já tinha andado bastante, m*l sabia onde eu estava, kkkk. Fiquei focada na música que escutava e na rua para não me perder, mas acabei esbarrando em alguém.
— Tá sega, filha da p**a? — fala quase gritando. Olho para ele e vejo o mesmo rapaz de ontem que falou com a minha mãe.
Ele me olha estranho e eu olho brava para ele.
Luna: — Vai se f***r!
Quando ele iria falar, escutamos um som estranho vindo de um lixo que estava ao nosso lado em um beco. Pensei em correr, mas quando ia fazer isso, escutei um chorinho. Olhei para o i****a, que também me olhou sem entender nada. Me aproximei e vi um cachorrinho filhote, todo desnutrido. Meus olhos se encheram de lágrimas, então peguei ele, tirando-o do lixo.
Luna: — Oi, neném. — Ele me olhava assustado.
— Você é maluca né? — Eu olho para ele com cara feia. — Tá bom. — Coloca as mãos para cima.
Luna: — Meu Deus, quem tem coragem de fazer isso com uma fofura dessas? — Peguei ele na mão; ele cabia praticamente em só uma.
— Também um filhote de demônio desse. — Olhei para ele como se fosse dar um tiro.
Escuto algo tocar e ele puxa um aparelho preto do bolso, ligando e falando nele. Eu fico alisando o cachorrinho, não dando a mínima para o i****a ao meu lado — nem sei o que ele ainda está fazendo aqui parado.
— O seu pai tá te procurando. — fala sério, guardando o aparelho no bolso.
Luna: — Certo. — Não dei a mínima e continuei brincando com o cachorrinho.
— Levanta, vou te deixar em casa.
Luna: — Eu nem te conheço, menino.
Ele respira fundo, perdendo a paciência:
— Meu nome é Lúcifer, pronto? Agora conhece, vamos. — fala e eu n**o com a cabeça. — Você nem sabe a onde você está, né?
Luna: — Sei sim. Consigo ir para casa sozinha. — falo ficando de pé com o cachorrinho no colo.
Lúcifer: — Tá bom então. Não vou ficar babando ninguém não. — fala e vai andando.
Olho para um lado e para o outro — droga! Esqueci de onde eu vim! Lembrei que como a gente tinha esbarrado, eu estava vindo de onde ele está indo, então fui caminhando atrás dele.
Lúcifer: — Tá me seguindo?
Luna: — Claro que não!
Lúcifer: — Então para onde você vai agora? — pergunta parando em uma esquina com uma ladeira bem grande.
Luna: — Para lá. — Aponto para baixo e ele ri negando com a cabeça.
Lúcifer: — Vai lá então. — Cruza os braços e eu reviro os olhos.
Luna: — Você pode me falar aonde eu moro?
Lúcifer: — "Eu nem te conheço" — me imita.
QUE HOMEM INSUPORTÁVEL!
Luna: — Vai te f***r então. — falei já brava.
Lúcifer: — Continua surtadinha. — fala baixinho e ri. — Me segue.
Não entendo muito bem o que ele falou primeiro, mas mesmo assim sigo ele até chegar em casa. Chego em casa e dou um obrigado; ele só balança a cabeça e sai andando. Fecho a porta entrando.
Diana: — Onde você estava, filha da p**a? — fala indignada.
Luna: — Fui caminhar, mãe. — falei e ela continuou olhando feio.
Diana: — Sem avisar? Ficamos preocupados!
Luna: — Desculpa gente, não queria acordar vocês cedinho. — falo e eles se acalmam.
Pedro: — E esse rato aí? — pergunta sobre o filhote.
Luna: — É um cachorro! — falo e ele ri.