Pré-visualização gratuita PROLOGO
O diário de uma prostituta ou garota de programa, como falam, é uma história tensa e verdadeira. Onde milhares de meninas e mulheres se vendem, ou porque sofreram abuso s****l em casa, ou porque foram obrigadas pelos pais a serem o que são hoje. E, porque precisam garantir o alimento para seus filhos, se for necessário. Muitas pessoas se sacrificam para ser o que não queriam ser e até hoje isso acontece. Queridos eleitores, espero de verdade que essa história venha a ser um exemplo para muitas mulheres que ainda da tempo de vencer e ser amada e que há chance de encontrar a felicidade mesmo quando estamos destruídas por dentro.
O que voçes fariam se fosse Laura?
O relógio velho da parede marcava onze e quarenta e cinco. Os ponteiros se arrastavam como se tivessem pena do tempo. A lâmpada piscava em intervalos curtos, lançando sombras sobre as paredes descascadas. Laura encolhia as pernas no colchão fino, abraçada aos joelhos, tentando silenciar o som do estômago que roncava.
Dois corpos pequenos dormiam ao seu lado, enroscados num cobertor remendado. Lucas, com dez anos, e Beatriz, com quatro. O frio daquela noite parecia entrar pelas frestas da janela quebrada e atravessar seus ossos.
Ela olhou para eles e sentiu o peso do mundo apertar seu peito. O mesmo peso que começou no dia em que a mãe saiu de casa e nunca mais voltou.
— Eu volto amanhã, Laurinha. Cuida dos seus irmãos pra mamãe, tá? — havia dito, antes de desaparecer.
Mas o amanhã virou uma promessa que se perdeu no tempo.
Nos primeiros dias, Laura ainda acreditava. Deixava um prato à mesa, como se a mãe fosse chegar a qualquer momento. Até que as dívidas começaram, a comida acabou e os vizinhos começaram a olhar com pena.
O leite azedava rápido, o gás acabou, e o silêncio se tornou um inimigo.
Aos dezessete anos, Laura descobriu que o desespero tinha cheiro — o de roupa suada, lágrima salgada e medo de ouvir o estômago dos irmãos reclamando mais uma vez.
Naquela noite, ela andou pelas ruas estreitas do bairro, com o mesmo casaco surrado e o cabelo preso de qualquer jeito. Tentava ignorar os olhares dos homens, as buzinas e os assobios. Cada passo era um nó no estômago.
Uma mulher parada na esquina, maquiada demais para aquele frio, a observou e perguntou:
— Tá procurando o quê, menina?
Laura não respondeu.
— Se é dinheiro, vem comigo. Eu te explico como é que é.
Ela hesitou. Mas lembrou da panela vazia, da febre de Beatriz, do olhar perdido de Lucas. E o medo de morrer de fome foi maior que o medo do pecado.
O primeiro quarto era pequeno e cheirava a cigarro. A mulher — que se chamava Mônica — explicou tudo rápido, como quem repete uma receita amarga.
— Você não precisa gostar. Só precisa aguentar.
Laura ficou parada na porta, observando o lençol amassado, o ventilador velho girando preguiçoso, e o homem sentado na beira da cama. Ele sorriu.
— Quanto? — perguntou, tirando a carteira do bolso.
A voz dela falhou.
— Eu… não sei.
— É novata, né? — Ele riu baixo. — Cem.
Ela assentiu, sem entender direito o que estava fazendo. A mão tremia quando tirou o casaco.
Fechou os olhos e esperou o pior.
O resto foi silêncio. O tipo de silêncio que fica preso na pele, mesmo depois do banho.
Quando o homem foi embora, Laura correu até o banheiro, se trancou e vomitou. O gosto metálico da vergonha subiu pela garganta. Chorou até não sentir o rosto. Depois lavou o corpo com força, como se pudesse apagar o que aconteceu.
Mas a água não apagou.
Naquela madrugada, ao chegar em casa, encontrou os irmãos dormindo juntos. Deixou o dinheiro sobre a mesa e se sentou no chão, sem forças.
Olhou para o teto e pensou:
“É só até eles crescerem. Só até não precisarem mais de mim.”
E assim começou o ciclo que ela não conseguiria mais quebrar tão cedo.
Os meses decorreram e os anos também. O corpo aprendeu a suportar. O coração aprendeu a fingir. Laura parou de chorar nas noites seguintes, ou pelo menos aprendeu a chorar sem fazer barulho.
O rosto dela mudou. O olhar ficou fundo, cansado. As mãos sempre frias, o sorriso sempre ensaiado.
Trabalhava à noite e dormia de manhã. Quando acordava, fazia o almoço dos irmãos, os ajudava com as lições e fingia que tudo era normal. Lucas começou a desconfiar.
— Onde você vai toda noite, Laura? — perguntou um dia.
— Trabalho.
— Faz o quê?
— Cuido de gente.
— Gente doente?
— É. Gente doente. — respondeu rápido, tentando não deixar a voz tremer.
Mentir virou parte da rotina. Era mais fácil mentir do que explicar o inexplicável.
Um dia, encontrou um homem diferente dos outros.
Ele não a olhou com desejo, mas com curiosidade. Tinha um olhar calmo, verde como folha molhada.
— Não precisa fingir — disse ele, quando percebeu o desconforto dela. — Eu só quero conversar.
Laura estranhou. Ninguém queria conversar.
— Eu te pago pelo tempo, não pelo corpo.
Ela sentou-se à beira da cama, desconfiada.
— Por quê?
— Porque parece que ninguém te escuta.
Foi a primeira vez que alguém disse algo que a fez sentir vontade de chorar.
Eles conversaram por uma hora. Sobre o mar, sobre infância, sobre sonhos que ela já havia esquecido.
Antes de sair, ele apenas tocou sua mão.
— Qual seu nome?
— Laura.
— É bonito. — E foi embora, deixando um envelope na mesa.
Ela nunca mais o viu. Mas ficou com aquela sensação estranha — como se alguém tivesse enxergado o que ela tentava esconder.
Agora, quatro anos depois, naquela noite de vento forte, Laura estava cansada de tudo.
O cliente insistia em coisas que ela não queria fazer. Ela disse “não” e ele gritou. Chamou-a de lixo, de v***a, de ingrata. Ela o empurrou, pegou o casaco e saiu correndo sem olhar pra trás.
Andou sem rumo pelas ruas vazias, as lágrimas misturadas à chuva fina.
Chegou até a praia, descalça, o cabelo grudando no rosto.
As ondas batiam com força, o vento gelava.
Parou diante do mar e gritou.
— Por quê, meu Deus? O que eu fiz de tão errado? —
As palavras se perderam no vento, mas o grito libertou algo dentro dela.
Ela chorou como nunca. O choro de anos presos. O choro de quem já não tem fé, mas ainda tem dor.
De repente, sentiu uma mão tocar seu ombro.
Virou-se assustada. Um homem estava ali, de terno preto, o rosto parcialmente iluminado pela luz dos postes distantes.
Os olhos dele… eram verdes.
— Você está bem? — perguntou com voz calma.
Ela não respondeu.
— O que uma garota tão bonita faz sozinha a essa hora, aqui?
— Tentando esquecer o que é viver.
Ele se aproximou um passo.
— Você não devia estar sozinha.
— Eu estou sempre sozinha. — respondeu, olhando pro mar.
O vento jogou o cabelo dela para o rosto. Ele tirou um lenço do bolso e estendeu para ela.
— Toma.
Laura hesitou, mas aceitou.
— Eu não tenho nada que te interesse. — disse, fria.
— Acho que se engana. — respondeu ele, com um meio sorriso. — Eu sei quem você é, Laura.
Ela franziu a testa.
— Como sabe meu nome?
— Porque eu nunca esqueci de você.
O coração dela disparou.
— A gente… já se conhece?
Ele assentiu.
— Faz tempo.
Ela tentou lembrar, mas não conseguiu.
O olhar dele era familiar, mas a mente recusava-se a acreditar.
— Eu fui seu cliente, há muitos anos.
O ar pareceu sumir. Laura recuou um passo, envergonhada.
— Então veio me procurar pra quê? Pra se divertir com isso?
— Não. — respondeu firme. — Eu vim porque te vi chorando. Porque não suportei ver alguém tão forte se quebrando.
Laura riu, um riso amargo.
— Forte? Eu sou tudo menos isso.
— É forte porque ainda está de pé. — respondeu ele, encarando-a. — E porque ainda tem olhos de quem quer viver, mesmo quando diz que não quer.
Ela desviou o olhar.
— Não sabe o que eu fiz pra chegar até aqui.
— Sei mais do que imagina. E nada do que fez apaga quem você é.
O silêncio se estendeu entre eles. O barulho das ondas era o único som.
Ele então disse:
— Eu me chamo Gabriel Duarte.
Laura repetiu o nome baixinho, como se fosse uma lembrança distante.
— Eu não lembrava de você.
— Eu nunca te esqueci.
As palavras o fizeram parecer sincero. Mas para ela, soavam como uma ilusão perigosa.
— Por que está me dizendo isso?
— Porque quero te ajudar.
Ela deu um passo para trás.
— Ninguém ajuda alguém como eu sem querer algo em troca.
— Eu não quero nada. — respondeu. — Só quero te ver respirar sem dor.
Os olhos dela marejaram.
— Isso não existe.
— Existe, sim. Mas precisa acreditar de novo.
Laura abaixou a cabeça, sem forças.
— Eu não sei mais acreditar em nada.
— Então deixa que eu acredito por nós dois.
Por um instante, o tempo parou. O mar, o vento, a dor — tudo pareceu suspenso.
Ela olhou para ele e viu algo que há muito tempo não via: sinceridade.
— Eu não posso voltar pra casa. — murmurou. — Meus irmãos vão perguntar por que estou chorando.
— Então vamos tomar um café. Só conversar. Nada além disso.
Ela hesitou, mas a voz dele era calma, quase acolhedora.
— Eu pago o café.
— Não quero seu dinheiro.
— Então aceita só o silêncio. Às vezes, é tudo o que precisamos.
Laura respirou fundo. A chuva diminuía. O sal do mar misturava-se às lágrimas.
— Tá bom. Só um café.
Gabriel sorriu de leve.
— Só um café.
Enquanto caminhavam juntos pela calçada úmida, Laura sentia o coração batendo de um jeito estranho — como se algo dentro dela, adormecido há anos, começasse a acordar.
E pela primeira vez em muito tempo, teve uma pequena esperança de que talvez o amanhã não fosse apenas mais um castigo.
Naquela noite, quando o sol começou a nascer, Laura abriu o diário e escreveu:
“Hoje alguém olhou pra mim e não viu uma prostituta.
Viu uma mulher cansada que ainda respira.
E, por um segundo, eu quis continuar respirando.”
Ela fechou o caderno, encostou a testa nele e chorou baixinho.
Não era um choro de dor.
Era o primeiro choro de quem, talvez, ainda tivesse salvação.