Pré-visualização gratuita O toque do destino
Eu caminhava desatentamente pelas ruas movimentadas de São Paulo. Estava apressada, e o som dos meus tênis vans batendo na calçada acompanhava o ritmo acelerado do meu coração.
Não era por onde eu queria estar, mas havia algo em mim que me empurrava naquela direção, mesmo sem saber exatamente o que procurava.
O caos das ruas de São Paulo parecia uma cortina fechada à minha frente, obscurecendo tudo ao meu redor.
Então, algo aconteceu.
Por alguns segundos, o ritmo da cidade pareceu errado.
Meu corpo desacelerou antes da consciência, como se quisesse prolongar aquele instante além do permitido.
Ela surgiu no meu campo de visão como se o resto da cidade tivesse sido silenciado.
Vestia alfaiataria escura, impecável, contrastando com uma camisa clara que denunciava um cuidado preciso com cada escolha. Os acessórios eram discretos, dourados, e o cabelo preso em um coque baixo deixava escapar algumas mechas soltas.
Havia nela uma segurança que não pedia atenção, ela simplesmente ocupava o espaço.
Ela caminhava imponente, como quem não se importasse nem um pouco com as pessoas à sua volta, como quem desfilasse em sua própria passarela, mesmo que ninguém estivesse olhando.
E quanto mais ela se aproximava, mais acelerado o ritmo de meus batimentos cardíacos ficava em comparação com o ritmo de meus passos.
Cada detalhe dela parecia cuidadosamente orquestrado, e tudo nela me fez sentir uma estranha e inexplicável familiaridade.
Ela passou por mim como uma brisa.
O que ficou não foi a imagem, foi o perfume. E a sensação incômoda de que eu deveria ter parado.
Parei no meio da calçada, o corpo imóvel. Não era apenas um cheiro.
A segui com os olhos, mas era o cheiro que ela deixou no ar que me deixou sem reação alguma. Um rastro doce e picante ao mesmo tempo, como café quente em uma manhã fria misturado com algo quente e sedutor.
Enquanto o tempo retomava o ritmo, meu corpo resistia, tentando manter aquela visão pelo máximo de tempo possível.
Cada detalhe se gravava em minha mente, mas foi seu cheiro que ficou no ar que me paralisou.
Dei um passo em falso, como se o chão tivesse se movido um pouco abaixo de mim.
Ela sumiu na multidão, e eu fiquei ali, parada, minha mente tentando entender o que havia acabado de acontecer.
A sensação de já tê-la conhecido não se explicava – e o pior era perceber que meu corpo reagia como se aquilo fosse verdade.
Fui puxada de volta à realidade pela agitação das pessoas ao meu redor. A calçada se enchia novamente de sons, conversas, carros, mas algo dentro de mim estava perdido. Era como se eu tivesse saído de um sonho, sem conseguir despertar completamente.
Eu balancei a cabeça, tentando afastar a sensação de que algo importante havia acontecido. Não era o momento para isso.
Ainda assim, levei alguns segundos a mais antes de atravessar a porta da agência, como se estivesse deixando algo para trás. Ou alguém.
Respirei fundo antes de entrar.
Luzes, vozes, telas. Tudo no lugar. Exceto eu.
Ao chegar na agência, tudo parecia igual – os corredores, as luzes fluorescentes, o zumbido das conversas nas mesas dos colegas. Mas a sensação de inquietação persistia. Eu me sentia estranha, como se tivesse levado algo daquela mulher comigo, algo que eu não conseguia entender.
E como assistente de criação na VisionUp, eu estava habituada à rotina e a entender tudo ao meu redor, eu precisava disso para ser uma boa profissional.
O trabalho nunca foi fácil, mas sempre foi meu refúgio.
Eu me dedicava completamente às campanhas, aos detalhes, às ideias que surgiam. Mas naquele dia, algo estava diferente. Talvez o aroma, ou a sensação de que o destino tinha algo a me dizer. Mas o que?
Me peguei pensando em quem eu era:
Eu sempre fui boa em me perder no trabalho. Na organização das ideias, nos detalhes, nos projetos que precisavam funcionar. Naquele dia, porém, nem isso me salvava.
Por que esses pensamentos me vieram à cabeça?
Isso não era normal para mim. Mas estava acontecendo.
Foi então que o cheiro do café recém passado, o barulho das impressoras e os cliques das teclas dos computadores que preenchiam o ambiente, me tirou um pouco dos meus próprios pensamentos. Olhei em volta, o lugar estava agitado como sempre, mas, naquele momento, tudo parecia distante, como se estivesse assistindo a cena de fora.
Eu me sentava na minha mesa, tentava focar nas tarefas, mas algo me distraía, como uma sombra que passava pelo canto do meu olho. O perfume dela ainda estava comigo, aquele rastro doce e picante, me abraçando como uma névoa.
Eu sabia que tinha que me concentrar no trabalho, mas parecia que cada plano que eu tentava executar na minha mente era interrompido pela imagem daquela mulher. Seus passos, o brilho dourado de seus acessórios, sua confiança. Eu não conseguia me lembrar de nada específico, mas aquela sensação persistia.
O que era aquilo? A familiaridade, o cheiro, a sensação de que ela já havia sido parte de minha vida, de alguma forma... Eu fechei os olhos por um momento, tentando afastar a distração. Respirei fundo, mas ela seguia lá, como uma ideia fixa que não queria sair.
- Natália! Você está aí? – a voz de Fabiana, uma das minhas colegas de trabalho, me fez abrir os olhos abruptamente.
Ela estava na porta da sala de descanso, me olhando com aquela expressão curiosa de quem tenta entender o que há de errado.
Eu forcei um sorriso, tentando afastar a estranha sensação que me envolvia.
- Sim, desculpe. Só pensando em uma ideia para o projeto. E tentando tomar meu café em paz – falei levantando o copo com café e mostrando para ela.
- Péssimo momento para fazer uma pausa. – falou ela se aproximando de mim com alguns papéis em mãos – Precisamos analisar essas duas propostas de campanhas para apresentar um branding para cada uma na quinta-feira. – disse me entregando algumas cópias – O chefe quem dividiu, e quinta vai ter uma reunião para apresentar todas elas. Se a nossa apresentação for boa, a gente pode até auxiliar nelas. – eu olhei para ela ainda um pouco aérea – São campanhas grandes, Natália. – ela falou me olhando – Não era você que queria uma assim?
- Hm. – foi tudo que eu consegui soltar.
- Então vamos trabalhar! – falou empolgada sentando-se ao meu lado e começando a folhear as folhas e eu a acompanhei.
Os dias seguintes correram com uma estranheza organizada.
Nada mudou na superfície. Reuniões, relatórios, ajustes finais. Mas, por dentro, tudo parecia levemente fora do eixo – não em desordem, apenas reposicionado.
No escritório, a normalidade do trabalho me consumia, mas algo sempre parecia fora do lugar. A quinta-feira chegou, era hora de demonstrar tudo o que conseguimos fazer com o que nos foi dado, para nosso CEO, Eduardo Fragoso.
Por sorte, as apresentações começaram por mim e Fabiana, e correu tudo bem, Eduardo pareceu gostar das nossas ideias e da forma como nos expressamos sobre tudo aquilo.
Outras duplas foram se apresentar. Quando o nome do projeto apareceu na tela “Espaço Criativo 360” algo se contraiu dentro de mim. Não era curiosidade. Era reconhecimento.
Eu não sabia de onde vinha aquela sensação. Só sabia que não era nova.
Ele soava como algo que eu deveria reconhecer, mas não conseguia localizar.
Não era exatamente interesse.
Olhei novamente para o nome do projeto, tentando processar o que aquilo significava para mim. Era estranho...
Minha mente se perdeu por um momento, tentando entender o que aquilo significava.
O nome soava como algo que eu sempre quis fazer, algo que estava guardado em algum lugar no fundo da minha mente, mas nunca tive coragem de buscar. Agora, ele estava ali, na minha frente, como uma segunda chance ou uma provocação do destino.
A familiaridade com aquele nome parecia me puxar para um lugar desconhecido, mas ao mesmo tempo... algo muito íntimo.
Eu balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento.
Não era hora de filosofar sobre coincidências. Eu tinha que focar no trabalho, em realizar algo grandioso com esse projeto.
A verdade é que, à medida que eu lia o nome novamente, a sensação de déjà-vu não desaparecia. Como se aquele projeto fosse, na verdade, uma extensão de algo em mim que eu ainda não tinha explorado.
Um pequeno toque na mesa a minha frente fez com que eu olhasse para o lado. Fabiana estava ali novamente, com uma xícara de café em mãos, me observando com uma expressão preocupada.
- Natália, você não está prestando atenção. – sussurrou me encarando – O que foi que aconteceu? Está tudo bem?
- Só... distraída. – disse balançando a cabeça.
E era verdade. Mas não tinha nada a ver com trabalho. Minha mente vagava, presa em um ponto entre o perfume que ainda pairava no ar e aquele nome que parecia familiar demais.
Era como se algo profundo, quase instintivo, estivesse em alerta. E eu ainda não sabia por quê.
Ao chegar em casa, a luz suave do fim da tarde entrava pelas cortinas, mas eu não conseguia me concentrar em nada. Eu estava perdida nos meus pensamentos.
Lembrei da minha avó, que costumava falar sobre sinais e como a vida nos coloca no caminho certo quando menos esperamos.
Ela sempre dizia que as pessoas cruzam nossos caminhos por um motivo, mas nunca explicou o porquê.
Agora, ao lembrar de suas palavras, uma dúvida se formava dentro de mim: seria possível que eu já tivesse cruzado com essa mulher antes?
Algo dentro de mim dizia que sim, que de alguma forma ela estava conectada ao meu passado. Mas a memória não vinha de forma clara, e a sensação de confusão só aumentava.
Ao chegar em casa, tentei me convencer de que tudo não passava de coincidência.
Mas o perfume ainda estava comigo.
Como se tivesse sido deixado ali. De propósito.