Senti um desconforto intenso por estar viajando com seres estranhos. Os quatro elfos faziam nossa defesa. Eles usavam sortilégios, então, não conseguia ver suas características élficas. Fui com meu Chevy para o aeroporto, levando comigo Melinda, Artie, Hazel e Aluísio. Ralf tinha asas e usou essa vantagem para chegar antes de nós. Ter que deixar meu carro ali, no estacionamento, sabendo que nunca mais iria voltar era algo que me abalava por dentro. Toda a minha segurança, tudo que conhecia seria deixado para trás.
Hazel andava a atrás de nós, como se fosse um guarda costas. Ele era muito mais alto que todos nós e as pessoas olhavam para ele com curiosidade, enquanto passava, devido suas tatuagens, que cobriam se pescoço e suas mãos. Os chifres apareciam apenas como dois implantes na testa. Parecia um calombo que o deixava com a aparência exótica. A nossa frente, Aluisio e Melinda andavam de mãos dadas. Juntos, a beleza deles parecia mais acentuada. Pareciam quase etéreos, com suas roupas de cor verde clara. Kaelus andava a certa distância, sempre atento, observando tudo, com seu andar disciplinado.
Artie me explicou que para produzir um portal exigiria muito dos poderes deles. Era muito melhor viajar de avião, onde estaríamos mais seguros e sem esgotar energias desnecessária. Enquanto entramos no aeroporto, ele tentava segurar minha mão, a qualquer custo. Quando deixei, ele soltou um suspiro aliviado.
- Por que está tão pegajoso? - perguntei, entredentes. Senti seu toque macio sobre minha pele. Parecia quente e calmante por um momento.
- Porque se caso tudo der errado, eu posso proteger você - ele respondeu.
- E vocês sabe usar seus poderes? - perguntei, descrente. Se nem ao menos eu sabia controlar os meus, que eram inexistentes, duvidava que ele tivesse algum, pois nunca o vi manifestar nada de diferente.
- Sei muitas coisas. É você que não pergunta - ele sorriu de lado - Ainda está caidinha pelo feiticeiro?
Bufei, irritada. Aquela viagem seria um martírio ao lado dele.
- Não sei do que você está falando - retruquei.
- Sabe sim. E sabe que pode contar comigo. Eu poderia faze-la feliz, sabe? - ele me fitou de soslaio - Daria tudo a você. Qualquer coisa que quisesse seria sua.
- Até minha liberdade de poder voltar para o mundo humano? - perguntei. Eu não deveria dar ouvidos a ele, mas se ele pudesse me dar isso, seria perfeito.
- Isso pode ser arranjado. Você teria que apenas renunciar o reino - ele explicou - Os anciões nunca deixariam que você governasse sem estar no nosso mundo. Mas, se você nomear alguém de confiança, acho que pode ser arranjado. Ou deixe que alguém tome a linha de sucessão.
- E isso seria bom para o seu povo? - perguntei. Ainda não me considerava elfa. Acho que nunca me consideraria.
- Bom, é isso que iremos precisar ver com o tempo. Mas, o mais importante é tirar o poder de Ária. Se ela passar para o mundo humano, todos estaremos perdidos.
Kaelus olhou para trás, enquanto andávamos e fez uma careta.
- Parece que seu cavaleiro está bem irritado - ele disse, sorrindo de forma felina - Vai contar para ele seu plano?
- Eu ainda não decidi nada - desconversei.
Eu não sabia de fato o que fazer. Queria apenas resolver tudo e voltar ao que tinha antes, antes de conhecer Kaelus. Somente isso. E o que Artie disse parecia muito melhor. Talvez, não fosse tão r**m deixar outro elfo tomar o poder em meu lugar. Eu não iria comandar nem um reino. Mesmo que Kaelus acreditasse que eu seria melhor para o cargo.
Quando chegamos a plataforma de embarque, sentia meu estomago embrulhar. Pensava na pobre Ravena que ficou na casa, sem ter ao menos ninguém para cuidar dela. Kaelus havia dito que ela poderia caçar roedores e estava livre para partir, afinal ela é parte mágica. Pode chegar aonde quiser. Isso me fez questionar outra coisa, se ela era o animal que atropelei na estrada. No momento, ele fingiu não ouvir, mas não o deixei em paz enquanto não respondesse. Ele admitiu que havia posicionado Ravena para que eu a atropelasse e capotasse com carro, para ter uma morte instantânea, batendo contra uma árvore. Contudo, sua mente não deixou que isso acontecesse, fazendo com que meu carro girasse na pista e apenas entrasse adentro, no barranco. Fiquei tão furiosa com ele que meu poder se manifestou naquela hora. A sala dele incendiou com ele dentro. Ele rebatou as chamas, com um olhar sério e compenetrado. Contudo, consegui alcançar seus dedos, queimando o no processo. Me arrependi, quando vi sua expressão de dor. Deixei que as chamas se apagassem e sai da sala, sem falar com ele. E não estava falando até o momento que fomos posicionados um ao lado do outro no voo. Fiquei com a janela e evitei conversar com ele. Mas, não dei a mesma sorte com ele.
- Precisamos falar da sua raiva - ele disse, perto do meu ouvido - Acredito que isso seja algo muito bom para canalizar seus poderes, mas também precisa aprender a controla-los com disciplina mental, ou nunca terá chance contra seus inimigos.
- Cala a boca - disse, entredentes.
Ele riu, sem humor e tomou a minha mão que estava sobre o braço da poltrona. Vi seus dedos levemente enegrecidos pelo fogo. Senti náuseas fazerem meu estomago contrair. Mas, mesmo assim envolvi nossos dedos, desejando fervorosamente que se curassem. Um comichão percorreu minha pele e vi a pele dele voltar ao tom normal de bege. Ele estava usando sortilégios para parecer humano.
Fiquei de boca aberta ao ver a mudança em sua pele. Ele não transpareceu nada quando procurei seu olhar, dessa vez, com olhos negros.
- Você fez isso ou fui eu? - inquiri, estupefata.
- Você - ele disse, com um sorriso sincero - Estou orgulhoso de você, Agnes. Tem o dom da cura em suas veias, como sua mãe teve.
Mordi os lábios, soltando a mão dele. Olhei para a palma da minha mão e procurei indícios do que havia feito. Mas, não havia nada lá.
- Normalmente, um feiticeiro precisa canalizar sua energia em um apetrecho, objeto, algo inanimado ou animado, como animais, para produzir o que se deseja. Inclusive com a cura. É algo muito irritante. Se tentarmos usar nossa magia sem isso, nosso corpo de desgasta mais fácil e é difícil manter a magia. É como se estivesse esgotados. Mas você - ele me olhou com se fosse especial - É algo raro. Você tem o sangue da realeza, mas tem algo de diferente dos seus pais. Você não se desgasta. É visível que poderá ser um exímia inimiga para Ária, que também tem o mesmo dom correndo em suas veias. Será uma batalha acirrada.
Bufei quanto a seu discurso. Não queria entrar em uma batalha, muito menos me vangloriar dos meus poderes. Nada estava comprovado ainda. E começava a acreditar que isso era uma maldição. Me arrependi de ter curado ele, em seguida.
- Você sempre está pensando nisso, não é? Nessa maldita guerra. Parou para pensar o quanto isso me afeta? O quanto me deixa enojada? - Eu queria mostrar a ele que sua visão não me agradava nem um pouco e que queria que ele parasse de me analisar tanto - Aliás, não sabemos se não me esgotarei em uma batalha.
- É o que veremos - ele disse, sem se abalar, ainda sustendo meu olhar. Colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha e seu toque era enervante. Acho que isso transpareceu em meu rosto, pois ele sorriu, mas logo ficou sério, parecendo pensar em algo - Você deveria se acostumar com a realidade, Agnes. Faz parte da minha tarefa desenvolve-la como potencial guerreira. Se a profecia de Daphne estiver certa, você é aquela que irá salvar nosso povo.
- Quem é Daphne? - perguntei.
- É a profetiza do nosso mundo. Ela que tem as visões sobre o futuro. Ela viu uma mulher segurando o cetro de poder em um sonho e que ela traria a paz que esperávamos. Tinha certeza que era a princesa do nosso povo, pois tinha a pele como a nossa, além de carregar nosso manto.
- Então, vocês não tem certeza que sou eu? - perguntei. Se não viram que era a princesa, por que estavam dizendo que eu seria a mulher que iria por fim a guerra.
Ele fez uma careta de desagrado.
- É complicado. Ver o futuro requer entender o cenário em si, os símbolos. E ao que tudo indica, a mulher que portava o cetro era parecida com a rainha e o rei de Tork, além de carregar nosso manto. É claro que é a princesa. No caso, você.
Tentei argumentar que não seria possível ver o futuro, que o futuro é algo que se constrói através dos nossos atos, mas me abstive. Era no que ele acreditava. Meu medo era somente que eu decepcionasse a todos. E o que faria se fracasse? Não queria pensar nessa parte. Não estava pronta para renunciar minha vida a um povo que nunca conheci e nem tive contato.