Eu me sentia insegura e indecisa quanto o que precisava fazer. Não fazia a menor ideia do que me esperava. Kaelus percebeu isso, enquanto tomávamos o café da manhã em sua cozinha, reunidos com os quatros amigos elfos de Artie. Ele não desviava o olhar de mim, por nenhum segundo. Artie entrou logo em seguida, se espreguiçando. Puxou uma cadeira para sentar do meu lado e apoiou o seu braço no meu ombro.
- Bom dia, querida Agnes - ele disse, em tom alegre e brincalhão - Parece muito mais bonita pela manhã.
Risadas ecoaram na cozinha. Kaelus não fazia parte do grupo e dirigiu um olhar mortal para Artie. Não que ele se importasse, pois não tirou o braço do meu ombro.
- Artie, o espaço pessoal é muito importante para mim - eu disse, afastando o meu corpo dele - Então, fica no seu lugar, por favor.
Ele fez um beicinho, muito engraçado. Parecia diferente hoje. Seu pele era mais dourado do que o normal. Resplandecia como se fosse o próprio sol, em devido aos cabelos cor de ouro.
- Achei que já tivéssemos passado por nossas diferenças ontem - ele comentou, pegando a garrafa térmica e abrindo a tampa. Cheirou o conteúdo, com uma expressão prazerosa e verteu o líquido n***o na xicara de porcelana preta ao lado da minha - Foi muito importante o que compartilhamos.
Suspirei. Achei que ele iria parar de me paquerar àquela altura, mas ele parecia muito insistente quanto a isso. Kaelus me fitou, parecendo querer uma resposta sobre isso. Eu não iria dizer nada. Não havia feito nada reprovável e não sabia qual era nossa relação até o momento.
- Artie, nós somos amigos. Mas, isso não significa que precisa me tocar - esclareci, tomando meu café e desviando o olhar de Kaelus, que parecia cada vez mais irritado.
- Isso é tão natural de Artie, quanto respirar. Ele precisa deixar uma marca nas pessoas que gosta - comentou Ralf, puxando uma mecha de cabelo n***o para trás das orelhas. Seus olhos eram negros e essa manhã ele parecia ter asas negras em suas costas, mas se arrastavam no chão, como se fosse um manto.
Eu ainda teria que me acostumar com esse mundo e os seres antropomórficos que existiam.
- Inclusive enlouquecer alguns humanos, parece que Artie gosta muito disso. Diria que é muito sádico - Kaelus acusou, de forma irritada, se levantando.
Artie não parecia abalado. Estava calmo, bebericando seu café.
- Eu apenas promovo minhas festas. Se eles gostam de brincar com fogo - Artie disse, com um sorriso ferino, por trás da xícara.
Kaelus apertava os punhos contra o corpo e parecia uma força viva. Algo irradiava dele. Ele não fazia mais questão de usar seu sortilégio para parecer humano. Parecia um ser imortal, com seus olhos amarelos e pele azulada. Seu olhar era intenso e mortal. Desviei meu olhar para minha própria xícara.
- Acalme-se, feiticeiro - pediu Hazel, o cara que tinha chifres na cabeça e parecia um fauno - Eu não daria atenção Artie. Ele gosta de provocar e causar problemas.
Kaelus soltou um silvo e saiu da cozinha. A energia do lugar estava densa e me sentia desconfortável.
- Ele parece gostar de você - Melinda, a jovem de cabelos vermelhos e olhos verdes disse, com um sorriso. Ela parecia mais humana, se não fosse por sua pele dourada, como a de Artie.
Fiquei envergonhada, mas apenas sorri.
- É claro que gosta - Artie disse, me fitando com um olhar estranho - Quem não iria reverenciar a princesa? Mas, é como havia dito, Agnes. O coração dele já não lhe pertence.
Senti um amargor em minha boca ao ouvir isso. Era a decepção de acreditar que poderia ter Kaelus. Que ele poderia me pertencer, mas Artie havia dito ontem sobre isso. Que seu coração já pertencia ao outra pessoa.
Me levantei, tentando me afastar de Artie e de sua presença nociva. Ele parecia realmente com prazer em me ver abalada. Meu rosto devia demonstrar tudo que vinha dentro do meu ser. Insegurança, incerteza para com o futuro e um ciúme corrosivo, que parecia me queimar por dentro. Ele segurou meu braço, antes que eu pudesse me afastar. Seus olhos amendoados me fitaram com advertência.
- Eu não quero que você sofra, Agnes - ele sussurrou - Apenas pense na sua segurança e nos seus objetivos. Não confie tanto no feiticeiro. Você era o alvo dele. A missão que ele deveria cumprir, em nome da rainha Ária. E no final, sempre vai ser. Ele muda de lado quando é benéfico para ele.
Soltei minha mão, com força, sentindo uma fúria percorrer me invadir. Queria fazê-lo engolir suas palavras.
- E você, Artie, de que lado está? Do meu ou daquele que vencer nessa batalha? - inquiri, com ironia.
Ele parecia desconsertado e se ajeitou na cadeira. Seu olhar transmitia magoa e tristeza. De repente, lembrei da nossa conversa, quando ele rezou pelas almas das pessoas que foram queimadas, quando contou sobre seu passado e sobre meus pais. Me senti culpada, mas não queria aquela sensação embotando minha razão. Ele parecia querer provocar confusão aonde fosse. Por que eu deveria me preocupar com ele?
- Você nem deveria perguntar isso. Nunca tentei te ferir e só queria ajuda-la, desde o princípio. Lembre-se que eu nunca irei virar as costas para você, nem ao menos feri-la - ele se virou na cadeira, voltando a tomar seu café, ignorando meu olhar.
Os quatros elfos me fitaram com um olhar perscrutador, parecendo varrer minha alma. Sai da cozinha, desconfortável. Artie parecia querer me fazer sentir culpa, como se eu o tivesse ferido de verdade, em seus sentimentos. Não conseguia esquecer o olhar de decepção vindo dele. Mordi os lábios, com raiva e passei pela entrada da casa. Abri a porta e sai para a varanda. Kaelus estava fumando, sentado no balanço de madeira. Ele me fitou, com uma expressão indecifrável.
Sentei nos degraus da escada, me abraçando e sentindo o vento gélido tocar minha face. O céu estava límpido, de um azul claro. Fazia semanas que não via o sol.
- Me desculpe pelo que aconteceu na cozinha - Kaelus disse, com a voz tensa - Eu não queria causar constrangimento a você.
- Não causou - retruquei, me abraçando mais. Me sentia vazia e pensava em tudo que Artie me disse. Na pessoa que tinha o coração de Kaelus e em como ele me manipulou para tentar me m***r. Mas, também, como fraquejou para cumprir a missão.
- Está brava? - ele perguntou.
- Não estou.
- Não é o que parece - ele soltou uma risada sem humor - Se meu lado perceptivo estiver correto, você parece muito irritada, apenas pelo modo que está se abraçando e não se vira para falar comigo.
Bufei irritada. Ele estava muito correto e sua afirmação. Se pudesse ler meus pensamentos, saberia que dentro de mim borbulhava a incerteza, o medo pungente de ser traída mais uma vez, além do medo de estar realmente me apaixonando por ele. Não poderia ser possível, pois nos conhecíamos há poucos dias. Como eu poderia sentir aquela sensação estranha no estômago e uma atração estranha por seu lado sombrio?
- Talvez você esteja certo. E talvez, eu não possa confiar em você.
O silêncio que nos envolveu foi sepulcral. Parecia me sufocar, me causando um sentimento de culpa. Eu continuava o atacando e desconfiando dele, apesar do que havia acontecido na noite anterior.
Escutei seus passos sobre madeira. A sua bota bateu no chão, de forma que demonstrava sua irritação. Ele parou ao meu lado, mas não se sentou. Ergui minha cabeça para vê-lo. Ele não olhava para mim.
- Qual é sua motivação para desconfiar de mim, nesse instante? - perguntou, escondendo de mim o que estava sentindo.
- Primeiro o fato de você tentar me m***r - eu acusei, apertando os punhos, tentando conter a raiva. Aquilo ainda doía. E ainda sentia o gosto amargo da decepção - Segundo, parece que você não está contando tudo sobre quem é.
Não queria falar sobre o que Artie disse. Sobre ele amar outra pessoa. Não queria demonstrar ciúme.
Ele sentou ao meu lado, no degrau, com as mãos repousadas no joelho.
- Eu entendo seu medo - ele disse, lentamente - O que fiz não foi honrado e trai meu povo, quando me ajudei a rainha Ária. Nada justificaria meu erro. Mas, precisa entender que fiz isso para proteger aqueles que amo - Queria saber quem eram as pessoas que ele amava, mas não perguntei. Ele teria que confiar em mim primeiro - Há muito mais do que isso no entanto. Fui ganancioso, pensando que teria poder em minhas mãos e serviria a uma rainha forte. O rei Norian era muito fraco e deixava o reino perder força. Os reinos vizinhos queriam tomar Tork. Era visível que sim. Seu tio foi o primeiro a dar a ofensiva ao lado de Ária. Eu pensei que era questão de tempo para perdermos a guerra e não queria estar do lado errado. Por isso, me aliei a ela. Mas, a rainha é uma mulher enlouquecida e sua forma de causar terror é envenenando nosso ar. Destruindo tudo que acreditamos. Eu nunca deveria ter me vendido tão baixo, Agnes. E você não deveria ter que sofrer por meu erro. Quero consertar tudo - ele se virou para mim, segurando minha mão - Quero dar o que é seu de volta. Seu lugar com princesa. E você pode ajudar o nosso povo.
Procurei em seus olhos saber se ele mentia. Mas, havia apenas sinceridade.
- E o que você queria, o poder e p******o para aqueles que ama, ainda não quer?
Seu rosto se contraiu. Ele parecia tenso, devido ao maxilar retesado.
- Só meu irmão sobreviveu, Agnes. E Kali ainda está no poder de Ária.
- Quem é Kali? - perguntei, receosa.
Ele soltou minha mão e não me fitou.
- Ela é importante para mim. A pessoa que quis proteger com minha vida e um dos motivos da minha traição. Ela é filha de Ária. Infelizmente eu não tenho como ajudá-la. Ela está no poder de sua mãe e a única maneira é matando Ária.
Mordi os lábios, tentando controlar as emoções que me consumia. Ela era dona do coração de Kaelus. Eu nem ao menos deveria ter ciúmes. m*l nos conhecíamos e ele não me devia nada.
- Vamos ajudá-la - prometi, mesmo me rasgando em pedaços por dentro. Kali não tinha culpa por estar no meio de uma guerra.
Ele se virou para mim, esperançoso. Pela primeira vez vi uma expressão diferente em seu rosto que não fosse raiva, indiferença ou sensualidade.
- Você faria isso, Agnes? - perguntou. Seus olhos amarelos irradiavam súplica - Ela cresceu comigo, éramos amigos, mesmo que fosse algo proibido. Eu estava sendo treinado para ser feiticeiro em seu palácio. Iria compor ao exército de Tork, mas o reino do rei Caronte era muito ligado ao de Norian. Vivíamos em paz naquele tempo e foi assim que conheci Kali. Ela fugia dos seus deveres para treinar comigo. Esse foi meu erro, treina-la, desenvolver sua magia, que agora Ária está drenando para criar atmosfera opressora em Tork. Se você roubar o cetro de poder, eu me encarrego se m***r Ária. Então, você reinará. Teremos que entrar em acordo com os reinos vizinhos, mas isso nós iremos conseguir. Tenho certeza que será uma boa rainha para seu povo e com força.
Eu não queria ser rainha. Não deseja nada disso. O que me fez pensar nos meus pais. Se eu seria rainha, significava que eles estavam mortos. Constatar isso não me causou nada. Afinal, minha mãe era Katherine.
- Eu não sei se quero isso, Kaelus - eu disse, fitando seus olhos. Ele parecia deslumbrar um mundo além, como se eu fosse o santo graal. A escolhida - Você não poderia carregar o cetro, governar?
Ele negou com a cabeça.
- Ninguém pode a não sei quem tem o sangue real. Seus pais não estão mais vivos para isso. Só você pode, Agnes.
- Mas, eu achei que poderia voltar ao meu mundo - minha voz saiu fraca.
Senti sua mão repousar sobre a minha.
- Seu mundo não é aqui, Agnes. Vai viver a vida vendo coisas que seres mortais não veem. Os remédios não vão mais surtir efeito, tão pouco. Vai viver muito mais que os seres desse mundo e vai ser solitária. E se não governar, alguém tomara seu lugar e pode muito bem ser como Ária. Muitos simpatizantes das ideias dela estão na linha de sucessão. Precisamos de alguém como você.
Eu queria dizer que não serviria de nada, pois não sabia governar nem minha própria vida.
- Preciso pensar.
-É claro - abri meus olhos e pude ver ele me fitando com preocupação. Sua mão tocou meu rosto. Eu não deveria deixar que tivéssemos esse contato tão íntimo, pois ele amava Kali, mas era egoísta para detê-lo - Eu estarei aqui. Vou ensina-la a desenvolver sua magia. E nunca vou abandona-la, Agnes. Sei que começamos errado - ele faz uma careta de desgosto - mas, quero uma chance para provar que serei muito melhor. Quero consertar as coisas.
- É claro, podemos começar de novo. Eu só não sei como confiar em você.
Ele suspirou e afastou a mão. Parecia dividindo entre protestar, mas a culpa venceu. Ele fechou os olhos e abriu. Eram dourados e tão diferentes. Era como se ele quisesse me dizer tantas coisas, apenas com seu olhar.
- O tempo irá mostrar de que lado estou, Agnes. Eu só não quero que você morra também. Não sei o motivo, mas você se tornou especial para mim. Mesmo não podendo ajuda-la. A maior prova da minha lealdade é que estou colocando minha cabeça a prêmio por você - ele riu, sem humor da sua piada.
Balancei a cabeça, descrente.
- Você está fazendo isso para ter o que deseja - acusei, mordendo os lábios ao ver sua expressão sombria.
- E partes sim, em partes há algo que nem eu entendo dentro de mim.
Ele tocou meu rosto novamente, como se quisesse mover seu rosto para mais perto. Fitou meu rosto, estudando cada traço. Eu vi o movimento do seus olhos, analisando tudo, com uma expressão de assombro e até mesmo uma emoção mais crua, selvagem. Parecia querer me tocar muito mais do que estava fazendo com seus dedos em minha bochecha.
Suspirei, fracamente, antecipando o momento que se fosse dias atrás eu nem teria cogitado. Eu ansiava pelo toque dos seus lábios. Provar um pouco do seu lado sombrio e saber como era estar em seus braços. Mas, isso não aconteceu, pois ainda me lembrava da forma como ele me segurou, tentando me m***r sufocada. Afastei-me, levantando dos degraus.
Kaelus fez o mesmo, me fitando com uma expressão intensa em seus olhos amarelos. Apertou os punhos ao lado do corpo, como se estivesse indeciso. Não fiquei para saber o que se passava em sua mente e desci as escadas da varanda, querendo imprimir um longa distância entre nós.
Contornei a casa, indo pelo caminho de pedras até a estufa. A porta de vidro estava fechada e testei a maçaneta, que se abriu quando forcei para baixo. As plantas eram vivas, de um tom verde escuro, outras verde claro. Havia várias espécies, algumas que já conhecia, como orquídeas, rosas vermelhas, amarelas, até azuis, samambaias, alguns vasos com tulipas e outras que nunca havia visto em minha vida.
Cheguei perto de um vaso com uma planta de aspecto muito bonito, parecendo um copo branco, com as petalas de veludo. De dentro despontava um caule verde com a ponta amarela. Suas folhas eram verdes, com pontinhas roxas. Iria levantar o dedo para toca-la, quando escutei alguém atrás de mim.
Kaelus entrava, com uma expressão de advertencia no olhar.
- Não a toque, a não ser que queira liberar seu veneno - ele avisou.
Me afastei, pelo menos a cinco passos, quase derrubando um vaso de samambaia no processo.
- Que espécie de planta é essa e por que tem algo tão venenoso em casa? - perguntei. Cada vez mais que conhecia Kaelus, mais eu tinha medo de saber o que ele pensava de fato.
- Apenas para meu estudo. Essa planta que você estava prestes a tocar é como se fosse uma tulipa, mas tem propriedades mágicas. Se algo a tocar, ela espalha um tipo de polén que pode sufocar até a morte aquele que inspira-lo - ele explicou, olhando para a planta, evitando o contato visual comigo. Entrou na estufa e eu adentrei mais para o fundo. Estar muito perto dele me causava confusão mental e meus sentimentos pareciam estar estampados em meu rosto. Temia que ele percebesse o quanto me afetava. E usasse isso contra mim - Essa realmente pode m***r alguém da nossa espécie. É fatal para seres humanos. Para nós, um antidoto basta. Mas, o que me interessa nela é sua propriedade curativa. Certas criaturas em nosso mundo são venenosas e letais. E com essa planta, descobri que posso curar eventuais picadas ou mordidas. E também posso potencializar o veneno para m***r, é claro.
Fiquei assombrada por seu conhecimento. Ele era brilhante por sua inteligência e argúcia. Mas, irradiava aquele ar de perigo, como se estivesse prestes a atacar.
- E que tipo de criaturas existem no nosso mundo que podem ser piores que as daqui? - perguntei, pois estava prestes a conhecer esse reino e não estava apreciando isso.
- Bom, como as daqui, só que algumas são seres que pensem como nós. E alguns que gostam de proliferar na escuridão. Digamos que alguns tem a forma aracnídea, outros de repteis. Assim como existem aqueles que possuem asas, como borboletas ou mariposas. Eles são nossos menores problemas, quando se trata de outros que podem paralisar a vitima e entrar em seus sonhos.
Engoli seco, não gostando da sua descrição sobre o que habitava aquele lugar.
- E que tipo de coisa é essa? - perguntei.
- Tem o formato espectral, mas se traveste de qualquer coisa, como seu pior medo. E que ao atacar, paralisa a vitima e deixa ela um estado inconsciente, tendo uma espécie de sonho, ou pesadelo. Depende de como a vitima reage. Enquanto isso seu corpo será arrastado ao coração da floresta que separa os quatro reinos e esse tipo espectral se alimentara de seus sonhos. Quando estiver saciado, deixara que as criaturas carnívoras devorem o corpo da vitima. É bem melhor ser dessa maneira, pois se elfo da morte encontra-la, sua alma será dele. O que não seria algo bom, pois ele as guarda em vidros para se alimentar de suas essências e sonhos. Aquela alma que estiver na mãos do elfo da morte não terá paz e descanso. Não encontrara a felicidade eterna que é reservada para todos após a morte.
O silêncio se tornou sepulcral entre nós. Eu não poderia imaginar que um lugar desse pudesse habitar criaturas de natureza tão c***l e ardilosas. Minha vontade de ajudar Kaelus estava caindo a zero. Observei uma planta de aspecto esverdeado com tronco marrom claro parecer respirar. Me afastei do vaso e fui até a porta da estufa. O olhar dele nunca me deixava. Parecia estar sentindo meu E parecia se deliciar com isso. Maldito!
Um sorriso se formou em seus lábios, por breves instantes.
- Esse lugar parece ser h******l. Não há nada de belo em seu mundo? - perguntei, com a mão na maçaneta, caso precisasse correr dele ou das plantas.
Ele deu um passo a frente e outro, quase ficando perto de mim. Seu olhar pousou em meus lábios. Me senti queimar por dentro.
- Existe coisas tão belas quanto feias, Agnes. Existe a dança que nós elfos apreciámos, a música, arte, o amor. Talvez, sejamos um pouco volúveis quanto a isso - ele fez uma careta, como se não gostasse dessa atitude. Aquilo me impressionou. Achei que ele era como Artie. Um apreciador do s**o e apenas isso - Existem muitas criaturas belas e aladas. Existem aqueles que só querem curar. Entenda que não bem ou m*l. Eles não estão separados, mas interligados. É a mesma faceta - enquanto ele falava, já chegava mais perto de mim, até sua mão de um tom azul claro, a pele brilhante, tocou o meu queixo, me fitando como se quisesse desvendar meus segredos - Você também tem isso. Algumas escalas de sombras, outras de luz. Todos nós temos. Até mesmo os seres mortais, esses seres humanos frágeis e débeis.
Senti como se seu toque pudesse inebriar meus sentidos. Mas, respirei fundo, abrindo a porta e tropeçando para trás.
- Você parece se achar uma deus, por saber tanto, por achar que o seres humanos são tão fracos. Talvez, ache que possa fazer o que quiser com eles - eu acusei, sem pensar. Sua última frase parecia ter acendido algo dentro de mim. Uma revolta. Como se eu precisasse defender o mundo que conhecia. Pois, só conhecia isso.
Ele negou com a cabeça.
- Não sou um deus, Agnes. Já superei essa visão quanto aos mortais, de que só servem como marionetes em nossas mãos. Não sou assim mais. E não sou tão r**m quanto pensa de mim - ele disse, com a voz tensa. parecia tentar provar algo a mim e eu não sabia o motivo de tanto preocupação dele.
Não quis mais conversar. Apenas me virei e andei o mais rápido possível. Queria me esconder do seu olhar e queria um pouco de estabilidade. Ao menos, enquanto ainda pertencia ao mundo humano.