Capítulo 18

1165 Palavras
Os corpos foram enterrados pelos elfos, no quintal de Kaelus. Eu fiquei pensando em Tomas e o quanto aquilo era loucura. Kaelus havia matado meu ex namorado, sem nem ao menos pensar duas vezes. Parecia se importar pouco com isso. Pelo menos, ele não manifestara nenhum sentimento, quando o elfo com dois chifres na testa entrou e disse que havia terminado o enterro dos humanos. O cara ainda parecia bem humano, se não fosse pelos chifres. Seu nome era Hazel. Apesar do seu tamanho e seu olhar feroz, me olhou com profundo respeito. Mesmo assim, seus chifres me assustavam. Por trás do sortilégio dele, podia ver que suas pernas na verdade eram cascos de bode. Aquilo que estava ficando cada vez mais estranho. Enquanto Kaelus dormia em seu quarto, o grupo ficou de guarda. Lorcan, o cara que parecia irritado com tudo e com todos, reforçou os feitiços da casa, enquanto a ruiva, que se chamava Melinda, foi para cozinha e fez chá calmante para todos. Aluísio, que parecia ter asas atrás da suas costas, ficou ao lado dela, parecendo muito envolvido com a garota. Ralf, o cara que parecia tão humano quanto Artie, com cabelos negros e grandes, pegou seu violino, que havia trazido e começou a tocar na sala. A música parecia influenciar no ambiente e trazer uma paz indescritível. Apesar de todos parecem calmos, me olhavam com avaliação. Deviam estar se perguntando se eu realmente era a princesa perdida deles. Eu também me perguntava se era, e torcia para que não. E por isso, sai para fora da casa e recolhi flores no jardim de Kaelus, para deixar nos túmulos improvisados de cada um daqueles que morreram devido ao fogo. Eu não deveria, mas senti compaixão por eles. Eles estavam sendo controlados por seres malignos, de outro mundo e poderiam ter feito isso apenas por não ter mais vontade e livre arbítrio. Eu iria perguntar para Kaelus como isso funcionava. Fiquei pensando em Tomas e o quanto ele era divertido no começo do nosso namoro. Depois, o quanto se tornou exigente e estranho. Mesmo assim, eu gostava dele. Não sei se estava com ele devido ao fato de estar sozinha no mundo e sentia a necessidade de me agarrar a algo ou alguma coisa. O céu estava escurecendo, mas não havia as cores maravilhosas de um por do sol rico em tons laranja e rosa. Apenas estava cinzento, como minha vida estava. Escutei passos atrás de mim e me levantei do chão de terra e limpei minhas calças. - Lirios são muito bonitos - comentou Artie, ao meu lado - Gostaria que eu falasse algumas palavras em respeito aos humanos que morreram? - Você já participou de enterros? - perguntei, olhando para ele de lado. Ele assentiu, ainda fitando os quatro montes de terra que estavam aos nossos pés. - Já, sim. E ouvi dizer que se você não cuida dos mortos, não encomenda suas almas para o criador, eles se revoltam e voltam para se vingar ou terminar aquilo não terminaram de fazer em vida. Eu dei risada. Aquilo eram crendices populares. Nada disso era real. - Bom, se você quiser fazer as honras - eu disse. - Bom - ele pigarreou - Peço ao deus dos humanos que as almas desses quatro rapazes possam repousar e encontrar a vida eterna do outro lado, sem mágoas ou raiva. Ficamos em silêncio, contemplando o cenário estranho. - Eu fico surpreso que você tenha compaixão por eles - Artie disse, depois de um tempo - Normalmente, qualquer um iria querer distancia de pessoas que tentaram nos m***r. Mas, eu devia desconfiar que você tem a bondade em seu coração, assim como seus pais. - Você conheceu meus pais? - perguntei, surpresa. - Sim. Seus pais não estavam no poder, até eu ir embora de Tork - ele comentou - Antes de mergulhar no rio e vir para o mundo dos humanos, eu convive com eles. Era um elfo da corte e sempre os divertia com a minha música. Mas, os tempos se tornaram difíceis princesa. Eu não queria morrer lá, não com a rainha Ária tentando tomar o poder de Tork. Ela já havia tomado o poder do reino do tio do seu pai. Era questão de tempo para ela tomar o reino de Tork. Fiquei em silêncio, sem sentir absolutamente nada por eles. Não os conhecia e seria difícil sentir algo por alguém que não convivi. Eles não eram como Katherine. Mas, escutar Artie falar sobre seu povo, com tanto carinho me comovia. Peguei a mão dele e entrelacei com a minha. Ainda estava manchada de sangue azul, mas eu não me importava. Artie me fitou com surpresa, depois sorriu de forma franca. - Obrigada por rezar pelas almas deles - eu disse. - Tudo pela princesa, esse é o lema - ele disse, sem zombar - Eu serviria você até os últimos dias da minha vida, Agnes. E morreria por você. Infelizmente, eu fui covarde em relação aos seus pais, mas servirei você, fielmente. Me comovi por seu juramento e apertei sua mão mais forte. Ele não parecia mentir. Apenas estava sendo sincero. - Obrigada Artie - agradeci - Alias, esse é seu nome de verdade? Ele negou com a cabeça. - Nome artístico - ele respondeu, com um sorriso matreiro - Meu nome de verdade é Gaelin. O som do nome dele parecia ser sagrado, saindo do seus lábios. - Acho que vou chama-lo de Gael - eu disse. Ele fez uma careta. - Não, continua sendo Artie. Gaelin se foi há muito tempo - ele disse, com um tom de tristeza em sua voz - Eu deixei de ser, quando deixei meu povo, Agnes. Só posso pagar pelo meu erro, servindo a você. - Artie, você não tem culpa. O que mais poderia fazer no meio de uma guerra? - perguntei. - Não sei, morrer por meus soberanos? - ele sugeriu, fazendo uma careta de desgosto em seguida - Mas, eu nunca quis morrer. Queria apenas tocar e cantar. Dançar todas as noites, conhecer belas elfas - ele suspirou - Esse lado humano me trouxe muitas vantagens, mas me trouxe muito solidão. Tentei me juntar aos elfos da Irlanda, mas com eles não me sentia em casa, sabe? Então, fiquei por aqui. - Bom, agora tem a chance de voltar - apertei a mão dele - E pode me ajudar a fazer seja lá o que eu precise fazer. - Você já sabe, ai dentro o que precisa - ele apontou para meu coração, com o dedo indicador - Eu só não desejaria ser você, princesa. Só posso apenas ajuda-la a encontrar seu caminho, mas o resto da jornada é sua. - Ei, e quem disse que iria me servir fielmente, morrendo por mim? - eu cutuquei seu ombro com o dedo. Ele gargalhou. Sua risada era aveludada e sedutora. - Eu disse que morreria por você, Agnes. Mas, por favor, não me faça cumprir essa promessa. Eu assenti.
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