Pré-visualização gratuita A minha casa
Gostaria de contar a vocês uma história esquisita. Talvez você a ache engraçada. Vou confessar que eu acho. A insignificância humana e a previsibilidade dessa espécie frágil, sempre me causaram certo entretenimento. Não se preocupe, eu não sou um psicopata e este não é um livro sobre o lado sombrio da sobrevivência, e existência de criaturas tão simplórias. Os fatos relevantes para nossa conclusão se iniciam em uma manhã qualquer. Honestamente, não sou apegado a datas.
Naquela manhã, Dante Daniels acordou com o som eletrônico do toque do despertador. A casa dele era praticamente autônoma, com as luzes ligando na intensidade correta, no exato mesmo horário, todos os dias. Sua cafeteira, era acionada 4 minutos após ele abandonar a cama, que ele mesmo arrumava antes de fazer sua higiene pessoal. Por fim, chegava à cozinha apenas a segundos para seu café estar completamente pronto. Depois disso ele sai em direção a um lugar que considero estranho, um lugar onde as pessoas pagam para correr em máquinas, sendo que podiam fazer isso de graça na rua. Porém, não estou aqui para criticar as escolhas dos protagonistas. Então vamos prosseguir. Quando ele se sentia satisfeito por fazer um trabalho braçal que sua carreira profissional não exigia, retornava para casa. Onde um longo banho quente lhe trazia o conforto desejado para iniciar um bom dia.
Após, vestir um terno sem-graça. Ele entrava em uma lata de sardinhas esportiva com lugar apenas para duas pessoas. Sinceramente não compreendo por que o carro com dois lugares custa cinco vezes o preço de um carro com cinco. Entretanto, vou tentar me concentrar nos fatos relevantes para a narrativa.
Começando pelo motivo de toda essa confusão. O terrível alimentador automático quebrado. Aquela h******l máquina de t*****a. Mantinha a comida toda dentro de si, liberando apenas uma quantia miserável que uma escoria humana, conhecida como veterinários, acreditavam ser a quantia necessária para um “animal do meu porte”. Aquelas maravilhosas bolas de carne e peixe que fazem o meu mundo girar. Ficaram ali presas na inútil máquina.
Devastado, atordoado, no precipício da mais pura agonia. Resolvi esquecer o objeto. E faço meu caminho para um novo destino. Passo pela portinha da porta da cozinha. Ainda indignado, passeio pela propriedade. A minha casa possui uma arquitetura até legal, que se assemelha a uma grande caixa, é cinza com paredes de vidro. Eu não gosto de vidros, mas gosto de caixas.
Então sem muitas opções dentro daquela limitação construída pelo homem. Escalo o muro e vou para a liberdade. O plano astutamente arquitetado. Caminho tranquilo pelos muros da bela cidade ensolarada, para não muito distante da minha casa de formado de caixa. Quando finalmente atinjo meu objetivo, corro pela grama alta, enquanto desvio dos vasos de flores. Segurando-me para não tentar comer a flor de camomila novamente. Da última vez me deu uma indigestão. Subo a escada apoiada na parede amarela, e esgueiro-me até estar debaixo das cobertas macias. Onde Helena Hayes ainda dorme tranquilamente. Uma humana espirituosa. Habitualmente dorme com metade do corpo para fora da cama, e demora muito para se levantar. Tenho plena certeza, que se em algum dia, a casa pegar fogo, ou desmoronar, durante o seu sono, ela não moveria um músculo. Entretanto, posso dar um jeito nisso. Subo acima da sua cabeça e começo a berrar em seu ouvido.
—Vamos humana! Eu estou morrendo de fome — digo.
Ela se moveu e resmungou algo. Continuei incentivando-a a se levantar. Até que ela enfim saiu da cama.
—Bom dia, Molly, que horas são? —a mulher espreguiçou-se. Pegou o celular ao lado da cama e emiti um som indignado. —d***a! Estou atrasada. Vamos menina, vou te colocar um pouco de comida—ela disse saindo do quarto deixando a cama bagunçada atrás de si.
A minha casa amarela era consideravelmente menor que a casa caixa. Verdadeiramente, ela era um quarto da outra, mas gostava bastante dela. As paredes eram coloridas e as janelas de vidro geralmente se mantinham abertas. O lugar tinha uma grande variedade de cheiros e muitos passarinhos gostavam de passear entre as flores. A mulher pega uma lata do armário e a abre com certa dificuldade. Então por fim coloca a comida em uma tigela rosa com formato de gato. Não vou fazer objeções, ataco o maravilhoso atum com molho. Lambo até a última gota. Logo sinto suas mãos nas minhas costas e ouso uma batida na porta.
Helena atende a amiga excêntrica com cabelos rosas. Nunca vi um humano com tantos desenhos pelo corpo. A maioria se quer conseguia identificar. Porém, alguns deles eram frases, outros objetos e símbolos. Porque os humanos colocam esse tipo de coisa na pele será sempre um mistério para mim.
—Bom dia, Sage. Ainda estou tomando café— Helena disse e aproveitei-me de sua distração para fugir do seu aperto sobre meu corpo. Ela me fazia perder o ar, literalmente.
Vou para a janela e fico encarando o movimento da rua. É curioso como mesmo a poucas quadras de distância as vidas desses dois humanos são tão diferentes.
— Você já terminou o quadro? — Sage questionou tomando um acento na mesa e jogando sua mochila surrada no chão.
— Bem...Ainda não, mas estou no caminho. Prometo que em uma semana estará pronto. Só estou buscando uma inspiração— respondeu a minha humana.
—Inspiração? Quer dizer que você se quer começou a pintá-lo— Sage pareceu indignada.
—Eu sei, eu sei. Relaxa! Estará pronto — Helena respondeu, buscando pela cozinha sua xicara de chá de menta.
—Acho bom mesmo. Está é sua grande chance—a amiga respondeu pegando um pedaço do pão que estava sobre a mesa da cozinha.
—Exatamente por causa disso que eu quero que seja algo incrível— Helena disse finalmente assumindo o seu lugar na mesa apertada.
Observei as duas conversando por horas. Aparentemente a amiga esquisita estava animada com suas streams de música. De acordo com ela eram uma forma de atingir o estrelato. Enquanto a Helena estava buscando formas de inspirar-se. Perdi meu interesse no dialogo rapidamente. Depois que a rosinha abandonou a casa fui com Helena no jardim onde ela sentou-se na grama e tentou fazer um desenho de uma das suas flores. Uma representação bem fiel, em minha humilde opinião, mas ela pareceu insatisfeita, já que rasgou a folha e a jogou fora. Passamos horas em sua garagem onde o cavalete tomava o espaço destinado a um carro. Por que ela tinha garagem já que só andava com motoristas de aplicativo? Realmente eu não sabia. Admito que tinha algo brilhante nela que me mantinha ali interessado em sua vida insignificante. Diria que ela brilha ainda mais quando se encontrava ali na garagem com várias tintas aos seus pés.
Meu tempo, porém, estava acabando e novamente aproveitei-me de sua distração para abandonar a casa colorida. Fazer o caminho de volta a casa caixa. Chego a esbarrar em velhos conhecidos pelo caminho. Entretanto chego em tempo a casa. Vejo o senhor Ramires e tinha me esquecido que hoje era o dia do jardineiro. Agora ele já está colocando os cortadores na caminhonete. De qualquer forma, estou correndo para dentro, os irrigadores serão ativados em breve. Ao passar pela portinha assumo meu lugar sobre o sofá cinza de tecido macio e quentinho. Demanda esforço não cravar minhas garras em algo assim. Devia ser recompensado pelo meu autocontrole. Não leva mais que alguns minutos para o som alto do carro potente ecoar pela casa. Levanto-me, espreguiçando-me e relaxando os meus músculos. Vejo o Dante entrar pela porta e emito o meu “boas-vindas”.
Ele realiza os mesmos rituais de todos os dias. Entra na casa ainda com o telefone no ouvido. Falando com alguém enquanto deixa a pasta e os sapatos na chapelaria. Vai até a cozinha se servindo de água e depois de desligar o telefone e vai para o banheiro. Ele toma mais um banho e volta para a sala usando apenas uma calça de moletom. Então ele liga a televisão no futebol, mas não presta atenção, já que fica vendo as notícias no celular. Durante longos minutos ele mantem os olhos na tela luminosa e a mão esquerda sobre meu corpo. Acariciando meus pelos negros e brancos. Quando ele se sente relaxado, ele vai para seu escritório e lê livros de pessoas serias, como ele, ou faz seus projetos. Isso, claro, quando ele não traz nenhum trabalho para casa.
Dante, naquele dia ele recebeu uma ligação do irmão mais novo.
— O que foi Jonathan? — ele disse e um silencio se seguiu — Ela o que? — mais silencio — Você conseguiu falar com seu advogado? — silencio novamente — Pode ficar tranquilo, ela não vai ficar com as crianças— ele disse e novamente não sei a reposta.
Humano, poderia colocar a ligação no viva voz. Fica difícil narrar a história quando eu não tenho pleno conhecimento dos fatos. Bem, acho que posso dar um jeito nisso.
Dante estava pronto para se levantar quando o telefone vibrou em seus dedos. Ele viu a notificação no topo da tela. O nome do irmão mais novo em letras maiúsculas.
— O que foi Jonathan? — ele pergunta.
—Dante? Sabrina saiu de casa com as crianças. E-ela, ela deu início ao pedido de divórcio —o irmão parece desesperado.
Dante não estava surpreso. Jonathan já havia contado sobre como andava a r*****o com a esposa. Ele já o havia advertido sobre a possibilidade de Sabrina entrar com o processo de divórcio pela forma que as coisas estavam caminhando. Contudo, levar as crianças antes de uma decisão do júri. Isso já era demais.
—Ela o que? —Daniels disse indignado.
—Ela levou os meus filhos. Eu não sei aonde eles foram. Pensei que fossem para a casa da mãe dela, mas quando liguei e a velha disse que não os viu. É claramente mentira! —ele respondeu ainda sem conseguir respirar corretamente.
— Você conseguiu falar com o seu advogado? — queria evitar que o irmão fizesse alguma besteira. Em um momento como aquele poderia ter grandes consequências. Apesar disso não havia muito que ele pudesse fazer para ajudá-lo.
—Sim! Ele vai me atender amanhã de manhã— o jovem disse.
— Pode ficar tranquilo. Ela não vai ficar com as crianças— Dante assegura.
Sabia que o irmão está preocupado. A Sabrina era dependente de antidepressivos e está em crise. Dante sucessivamente alertou o irmão sobre os perigos de se dividir a vida com outra pessoa. Entretanto, o jovem apaixonado não sabia sobre essas questões da amada. Não é o tipo de coisa que os humanos se orgulham em compartilhar. Na verdade, eles escondem isso debaixo do tapete o máximo que podem. Ainda assim, as paranoias da Sabrina em r*****o a traição apenas pioraram as suas crises de ansiedade. Por mais que Dante duvidava seriamente que ela fosse capaz de fazer m*l aos próprios filhos. Nada é impossível.
Daniels gastou longos minutos tranquilizando o irmão antes de finalmente desligar o celular. Quando o fez emitiu um suspirou pesado, e após segundos de silencio, ele se virou em minha direção.
— Garoto, você é o único que eu preciso, não é — ele diz acariciando minha pelagem novamente. Poderia ter o respondido, mas seria inútil. Já muitas vezes tentei firmar uma comunicação saudável com humanos. Eles eram incapazes de compreender.
Segundos de silencio se seguiram. Onde Dante se questionou se existia a possibilidade do gato o responder. Percebendo a própria maluquice parou de pensar bobagens. Foi nesse momento que ele se levantou e caminhou até próximo do alimentador. Notando a tigela vazia e o som irritante do mecanismo quebrado.
—Essa coisa quebrou. Foi m*l carinha. Eu não tinha visto! — ele disse e pegou o dispenser de comida e colocou-a manualmente na tigela.
Fiz o meu caminho para a tigela me alimentando de seu conteúdo, mesmo não estando necessariamente com fome. O jovem sorriu, pensou por alguns segundos antes de seguir seu caminho para o escritório. Fui atrás dele o vendo mover os dedos rapidamente pelo teclado do computador. Mais trabalho! Dante era um homem inteligente. Gastou todo o tempo que tinha trabalhando duro para atingir seus objetivos profissionais. Seu maior problema é que ele consegue ser mais sozinho que minha outra humana. Apesar de ambos serem solitários. Ele me parecia aproveitar menos sua única e breve vida. Ele já tinha sua caixa e já tinha sua sardinha. Por que continuava trabalhando tanto?
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